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Sabedoria Sioux
Lee Bogle
Conta uma velha lenda dos índios Sioux, que…
“… uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo...
- Nós nos amamos... e vamos nos casar – disse o jovem.
- E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã... alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos... que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:
- Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada...
Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte e traze-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia.
E tu, Touro Bravo – continuou o feiticeiro - deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva!
Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada... no dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.
O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos... e viu eram verdadeiramente formosos exemplares...
- E agora o que faremos? - perguntou o jovem - as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue?
- Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.
- Não! - disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro... quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres...
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros... a águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do voo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.
E o velho disse: Jamais esqueçam o que estão vendo... este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão... se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro... Se quiserem que o amor entre vocês perdure...
…Voem juntos mas jamais amarrados".
Tribo Sioux
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Os Contadores de Histórias

“Os xamãs foram os primeiros contadores de histórias. Através das histórias se conserva o conhecimento através das gerações. A narração oral da história e tradição foi o aspecto essencial das religiões nativas.

O Contador de Histórias criava vínculo, fazia curas, clarificava a identidade, celebrava os paradoxos da vida, os divertimentos. Ele também estava presente mantendo ou criticando a história, servia de reforço cultural e religioso.
Todas as tribos tinham seus contadores de histórias. Algumas culturas tinham homens e mulheres contadores de histórias. Para ser um contador de histórias o aspirante deve dedicar-se a conhecer as histórias da comunidade, dos ancestrais, da cosmologia, e é claro ter dons de oratória e ser aceite pelos Anciões. Muitas das histórias são visões, sonhos, introspecções.
Abaixo um resumo do texto de Jamie Sams :
"Os contadores de histórias de todas as tribos e nações constroem uma ponte entre os ensinamentos tradicionais e o momento presente. As crianças aprendem com eles e aplicam as histórias em sua própria vida.
Cada história possui diversos significados e relaciona-se de forma diferente para cada pessoa. Cada vez que a história é repetida, cresce o nível de entendimento. Alguns acontecimentos da história eram repetidos de maneira diferente para que cada ouvinte pudesse perceber melhor, de acordo com sua capacidade de entendimento.
O Contador de histórias tem um posto no Conselho dos Anciões. Ele possui o dom de falar a alguém em particular sem se dirigir a ele. Todos os sábios nativos preferiam ensinar por meio de histórias a apontar directamente os defeitos de alguém. "

Todos os mestres iluminados desta Terra, sempre se utilizavam de histórias para passar suas verdades, pois eram sabedores que as vezes a verdade é muito dura para ser aceite. Veja o exemplo de Jesus que falava por meio de parábolas, de Buda , Lao-Tsé e outros.

É importante frisar que as histórias criam imagens na mente do ouvinte, que por sua vez despertam emoções, que por sua vez desperta uma bioquímica. Elas relaxam, amedrontam, ensinam, curam, entusiasmam, entristecem, alegram (...)
No xamanismo, o contador de histórias é um caminheiro entre os mundos. Não é apenas ler, para contar uma história com sucesso ela deverá vir do interior. Isto significa viver a história interiormente, o experimentar do ponto da vista de cada um dos caracteres, da caminhada e do riso, da tensão, da reflexão da advertência. Forma e conteúdo.
É visualizar cada volta da história até que você possa fazer funcionar sua imaginação como um filme; pensar profundamente sobre a mensagem subjacente a que a própria história está tentando fazer, compreender os fluxos da energia, movimentos, gestos, semblantes, respiração, pausas, dicção, etc.

O contador de histórias, então, é um mediador entre o nosso mundo conhecido e o desconhecido. Viaja pela comunidade de dragões e fadas, anjos, com as bestas mágicas e míticas. Com deuses e deusas, os heróis e os demónios.
Expressam-se acima deste mundo, passam livremente de um mundo para o outro, e ajudam-nos a experimentar outros reinos.
Também são invocadores de poderes elementares, dos poderes da transformação. Podem mostrar-nos que como confrontar nossos medos, como experimentar êxtase ou nos trazer a cara à cara com morte ou terror do espírito - com o infinito e incompreensível.
O contador de histórias vive e comunica o poder, o significado e a realidade do mito a uma profundidade que não possa ser apreciada até que experimentada. E a experiência é a palavra crucial aqui. A experiência da palavra nos conduz quando a história vem do interior.”
Léo Artése
Imagens daqui
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"Se queremos peixe amanhã, necessitamos de reservas marinhas hoje.
Se queremos baleias amanhã, necessitamos de reservas marinhas já.
Se queremos parar com a pesca de arrastão, necessitamos de reservas marinhas já.
Para termos oceanos saudáveis - Necessitamos de reservas marinhas já."
[Greenpeace Portugal]
Assina a petição: Queremos reservas marinhas já !
in, Greenpeace Portugal
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Carnaval dos Caretos
Despedem-se do Inverno e saúdam a Primavera. Para os Caretos o Carnaval é um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações. Em Podence, concelho de Macedo de Cavaleiros, todos os anos é assim. Chegado o Mês de Fevereiro, os homens envergam os trajes coloridos (elaborados com colchas franjadas de lã ou de linho, em teares caseiros) escondem a cabeça entre duas máscaras de lata, prendem uma enfiada de chocalhos à cintura e bandoleiras de campainhas e dependem toda a energia do mundo para assinalar o calor e os dias maiores que se prestem a chegar. Normalmente, contam com os favores do Sol, magnânimo para quem louva o seu reino com tanto fervor. Religioso também pois assim se marca, com a folia o início da Quaresma. Período de calma, reflexão e contenção do calendário religioso. A cansar no Carnaval para acalmar até à Páscoa.
Dizem que a festa de Podence se imerge no domínio dos tempos até às antigas Saturnais romanas – celebração em honra de Saturno, Deus das sementeiras. Procura-se acalmar a ira dos Céus e garantir favores de uma boa colheita. Nesses tempos idos da agricultura de subsistência, a diferença entre a vida e a morte quase se cingia à dimensão da lavra. E a dupla máscara acentua a relação, ao lembrar uma das duas importantes divindades romanas: Jano, Deus do passado e do futuro e também do presente, senhor dos portões e entrada, da guerra e da paz e dono de todos os princípios.
O filho de Apolo, que um dia partilhou o trono com Saturno e conjuntamente civilizaram os habitantes de Itália, levando-os a tal prosperidade que ao reinado chamaram era de ouro, é geralmente representado com duas caras por ser do passado e do futuro, e principalmente, por ser símbolo do SOL, que aparece de manhã e se esconde à noite.
A aldeia de Podence parece ter força suficiente para continuar a tradição e garantir a vida a estas figuras, recheados de homens endemoninhados, armados de chocalhos e rédea solta para as tropelias. Melhor que nada, pois nos anos setenta, esteve a tradição por perder-se, devido aos últimos anos de ditadura e ao fenómeno da emigração. Recuperada uma década mais tarde, quando alguma prosperidade respirar um pouco o interior, que abraçou também o regresso de alguns dos que tinham ido à aventura. Hoje serão quarenta dezenas os homens com fatos de Careto e energia para invadir a praça na aldeia domingo e terça-feira de Entrudo.
E o futuro está garantido, porque há muitos Facanitos (crianças com fatos idênticos aos mais velhos) prontos a tomar o testemunho. Os outros, aqueles que não podem envergar fatiota, abrem as adegas para tirar a sede aos foliões. A imunidade conferida pela máscara, permite aos Caretos mergulhar nos excessos. Sendo as raparigas solteiras as vítimas preferenciais. Encostam-se a elas e ensaiam estranhas danças com conteúdo erótico, agitando a cintura e batendo com os chocalhos nas ancas das vítimas que, para bem do corpo acompanham a dança. Dança com o nome: chocalhar. Entre o barulho festivo, a risota e o alarido lembram-se outros tempos em que as mulheres se escondiam em casa pois os foliões iam muito para além dos chocalhos, lançando cinza e dejectos e fustigando as incautas com pele de coelho seca ou bexiga de porco fumada. Também as casas eram invadidas e panela ao lume era panela condenada a verter o conteúdo para mal da barriga dos infelizes. Ao Careto mau diabo à solta pelas ruas de Podence, querem-no vivo em cada Fevereiro, mesmo que à conta disso não possam dormir descansadas as raparigas da aldeia de Podence.
O Carnaval de Podence mantém o clima fantástico de antes. Sedutores e misteriosos, os Caretos guardam a magia dos tempos em que as histórias junto à lareira franqueavam a entrada em mundos de sonho. A eles tudo se permite; o anonimato dá-lhes poder. Por dois dias no ano os homens são crianças...
Artigo adaptado daqui
Mais sobre o Carnaval de Podence aqui
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Maria Teresa Horta
Fotografia
de Graça Sarsfield
Maria Teresa
Horta nasceu em Lisboa e fez a sua estreia no campo da poesia em 1960, com um
livro de poemas cujo título é premonitório: Espelho Inicial. Jornalista
de profissão, o seu nome começa por ser associado ao grupo da «Poesia 61».
Mas, a partir de 1971, devido ao escândalo que envolveu a publicação das Novas
Cartas Portuguesas, de que foi co-autora, e ao processo judicial que se lhe
seguiu, passa a ser vista como um expoente do feminismo em Portugal.
A sua luta
pelos direitos das mulheres é inseparável de uma carreira literária muitas
vezes afectada, positiva ou negativamente, pelo seu posicionamento ético. No
entanto, e apesar da intransigência das suas convicções, a escritora não se
reconhece na imagem estereotipada da «feminista militante»: «Eu sou
precisamente o contrário do que as pessoas imaginam das mulheres feministas» (Pública,
208, 21.5.00).
Se a
imagem da escritora é naturalmente associada à coerência e firmeza das suas
posições em prol dos direitos da mulher, é tempo de (re)lermos os seus livros um
a um, e seguirmos o trajecto luminoso de uma escrita poética nascida de
uma exigência radical de liberdade. O erotismo que a percorre começa por ser a
denúncia da repressão sexual que pesa violentamente sobre a mulher nos anos sessenta,
num momento em que é posta a nu (Reich, Marcuse) a articulação entre esta e o
poder político. Mas, logo se torna perceptível que esse erotismo extremado é
muito mais do que a expressão de um inconformismo lúcido ou de um exercício
subversivo da liberdade. A escrita erótica de Maria Teresa Horta é sentida como
uma forma intolerãvelde apropriação de um discurso do prazer, ou da
fruição, que era pertença exclusiva do território masculino, não só dentro de
uma ordem social e política discriminatória, mas também, e sobretudo, no
interior de uma ordem simbólica, onde a própria linguagem é um
instrumento de opressão. Como foi insistentemente sublinhado por Roland
Barthes, a língua encarrega-se de marcar a diferença sexual e social,
mantendo, por um lado, separados os géneros feminino e masculino, e
confundindo, pelo outro, «a servidão e o poder» (Lição, 1979). A
subordinação da mulher ao homem é função de um discurso que intenta
salvaguardar os princípios da hegemonia cultural masculina, sendo o corpo
feminino uma construção que se vai adaptando aos imperativos de uma ordem
falocêntrica dominante.
Neste
sentido, Minha Senhora de Mim (1971) é, sem dúvida, um dos livros que
assinala um importante momento de viragem na escrita feminina contemporânea e,
mais subtilmente, na obra da própria autora.
A poesia
de Maria Teresa Horta afasta-se contudo dos imperativos definidores e
delimitadores das formas mais radicalizadas do feminismo actual. A sua visão do
erotismo funda-se no desejo de uma autêntica complementaridade entre a mulher e
o homem e esclarece-se, quanto a nós, à luz da tese platónica da cisão
originária dos seres em duas metades e da trajectória de cada uma delas em
busca da outra, através do amor. Daí que a sua poesia se reconheça dentro de
uma belíssima definição do erotismo dada por Bataille: «uma imensa aleluia
perdida num silêncio sem fim» (O Erotismo, 1957).
Nesta obra
poética, marcada por uma invulgar coerência, espelha-se uma concepção de poesia
profundamente intimista e feminina, alimentada pela crença no amor único e
recíproco, como forma absoluta de negar a violência da morte e a inconstância
dos afectos humanos. [...]
Maria João Reynaud, in Vozes e
Olhares no Feminino, Edições Afrontamento,
Porto 2001, pp. 32 - 34
Artigo retirado daqui
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Sementes de Violência
Por tudo quanto os Investigadores nos têm dado a conhecer, a violência vem do tempo até onde eles conseguiram chegar com as suas preciosas investigações, que têm sido objecto de um estudo contínuo, suas consequentes interpretações, análises históricas, antropológicas, sociológicas e mais recentemente da componente psíquica que, na minha modesta opinião, nunca poderá estar dissociada das áreas referenciadas.
Basta começarmos por atentar na história recente, de há uns mil e tantos anos atrás. Quantas nações existiam? Em que áreas geográficas? Quais as etnias que as compunham?
Mas se quiserem fazer o favor de seguir o meu raciocínio, vamos reduzir ainda mais esta análise, escolhendo como ponto de partida a formação de Portugal.
Relembrando um pouco: Tudo começou quando em 1096, um conde francês, Henrique de Borgonha, veio auxiliar o rei de Leão e Castela, Afonso VI, na reconquista de terras aos Mouros. Como prémio, Afonso VI, concedeu-lhe a mão de sua filha Teresa de Leão e uma parcela de terras que iam desde o Rio Minho até ao Sul do Rio Mondego.
Deste enlace, nasceu em 1109, aquele que se tornou o primeiro Rei de Portugal: D. Afonso Henriques. Henrique de Borgonha morre em 1112 e a sua viúva Teresa de Leão sucede-lhe na gestão do Condado até 1127, data em que Afonso Henriques se rebela contra a mãe, tomando-lhe o poder e depois de muito sangue derramado, declara a independência do Reino de Portugal em 1139, que foi aceite pelo rei Afonso VII de Castela e Leão em 1143, mas só tendo sido reconhecida pelo Papa Alexandre III em 1170. Afonso Henriques ou D. Afonso I, morre em 1185. A sua vida foi marcada por lutas constantes, começando por rebelar-se contra a sua mãe. Expulsa os mouros que então ocupavam uma extensão grande da Península, empurrando-os progressivamente para sul, até parte do Alentejo. Os seus sucessores haveriam de fazer o resto até à conquista do Algarve.
A partir de então, guerras com os mouros e com os nossos vizinhos do lado foram “mais que muitas”. Conspirações e traições intestinas etc., etc. Veio a época dos Descobrimentos e com ela o tempo das “vacas gordas”. Foi-se formando uma nova classe social, a dos mercadores, a burguesia endinheirada, que admitiu ao seu serviço servos portugueses e, os escravos, arrancados à força das suas terras de Africa. Estes também foram forçados a povoar o Brasil descoberto por Cabral. Agrilhoados, espancados, mortos e mal alimentados, estes Seres, foram até quase aos nossos dias, pessoas sem quaisquer direitos até se livrarem, nas condições que conhecemos, das nações colonizadoras.
Entrando um pouco no panorama internacional, também sabemos que a maior parte do povo Africano, após a independência dos respectivos Países e em grande parte mercê da herança legada pelos antigos colonizadores, Reino Unido, França, Espanha, Holanda, Portugal, etc., se envolveu em lutas internas fratricidas, a maior parte das quais fomentadas pelas grandes potencias, que procuraram e procuram, à custa do sacrifício de milhões de vidas, sacar as riquezas naturais desses países, deixando os seus povos na miséria mais degradante.
Para além do povo Africano, outros povos colonizados tais como os da Índia, Paquistão, China, etc., etc., obtiveram, a maior parte deles, a sua independência, nos anos seguintes ao fim da II Guerra Mundial. As antigas colónias portuguesas foram das últimas a alcançar a sua independência e pelos motivos que também conhecemos, Timor ou Timor-leste, foi o último território de administração portuguesa, a ver reconhecida a sua autodeterminação. A Republica Sul-africana, após longos anos de domínio, principalmente, britânico e holandês, passou finalmente, após muita luta e sangue derramado, para administração dos seus autóctones.
Voltando a Portugal, que se manteve como monarquia até 1910, data em que como todos também sabemos se implantou um regime republicano, com todas as contradições que se conhecem, sabiamente aproveitadas pelas forças mais conservadoras da sociedade lusitana, que estabeleceram em 1926 um regime ditatorial que durante quase meio século sufocou o Povo Português.
Muito sangue suor e lágrimas correram durante esses quarenta e oito longos anos. Apesar do regime ter tremido com o final da II Guerra Mundial, o ditador Salazar ainda sobreviveu, mais de vinte anos. E nem a invasão e anexação dos antigos territórios de Goa, Damão e Diu, em 1961, o derrubaram da cadeira do poder. As estruturas do regime corporativista de inspiração nazi-fascista há muito que denotavam um caruncho em acelerado estado de putrefacção. Mas mantiveram-se miraculosamente de pé.
Nesse mesmo ano de 1961, eclode a primeira acção armada em Angola, contra os ocupantes portugueses. Seguiram-se os levantamentos na Guiné e em Moçambique. O autor destas linhas, esteve em comissão de serviço militar, em Angola, de Outubro de 1965 a Dezembro de 1967.
Pelo que pude constatar a posição dos colonos brancos era simultaneamente de reconhecimento da manutenção das forças militares portuguesas para sua salvaguarda e o desejo, que por vezes alguns não conseguiam calar, de uma independência branca, tendo como modelo os vizinhos do sul ou seja, o país de Nelson Mandela, a Republica Sul-africana, que vivia e ainda viveu por muitos anos o drama do apartheid, com toda a violência que se sabe.
Durante os dois anos e dois meses da minha comissão, apercebi-me do estado saturação denotado por alguns oficiais do Quadro, especialmente entre os alferes, tenentes e alguns capitães. A Pide também andava lá pelo mato, os seus agentes devidamente protegidos pelas forças militares, iam aparentemente em missão de captura dos então designados terroristas, aprisionados pelos militares, mas pelo que constatei, a razão principal da sua presença seria outra. De um modo geral afáveis, insinuavam-se principalmente entre os oficiais e, nós, os da classe de sargentos, também éramos objecto dos seus “sorrisos”. Mais palavras para quê?
No ano seguinte ao meu regresso de Angola, o decrépito Salazar dá uma misteriosa queda da sua cadeira de braços no terraço do Forte de Santo António. Depois de algumas hesitações, com leituras de boletins médicos para a RTP e para as Emissoras de Rádio e demais órgãos de comunicação social, a figura cimeira do Estado, o decorativo e inarrável Américo Tomás, após convocação do Conselho de Estado, nomeou seu substituto, aquele que foi um dos ideólogos do regime, mas que nos últimos anos que antecederam o fim de Salazar, era visto como “persona non grata”, pelos ultra-direitistas (vulgo fascistas) do regime: o Professor Marcello Caetano.
Marcello e a sua evolução na continuidade, ainda fizeram umas tímidas lavagens de cara ao Regime. Rebaptizando por exemplo, a União Nacional (UN), como Acção Nacional Popular (ANP) e a PIDE, como Direcção Geral de Segurança (DGS). Mas nem por isso os opositores ao Regime deixaram de ser perseguidos. A censura prévia aos órgãos de informação afrouxou tenuemente e nos escaparates das Livrarias faziam um pouco de “vista grossa” aos títulos apresentados, muito embora as apreensões continuassem a suceder com regularidade.
Em 15 de Maio de 1969 realiza-se em Aveiro o II Congresso Republicano, que reuniu resistentes de várias tendências. Nesse ano de eleições para a designada Assembleia Nacional, efectuadas em Outubro, Marcelo Caetano convidou para integrarem as listas da Acção Nacional Popular, herdeira da decrépita União Nacional e como tal assente nos pilares podres do Corporativismo de inspiração nazi – fascista, como referido atrás, figuras de jovens licenciados, tais como: Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Sá Carneiro, Miller Guerra, etc., não comprometidas com o Regime, mas também e até então, sem uma intervenção contestatária, bem como para cargos de chefia em grandes empresas de, igualmente jovens licenciados, tecnocratas, como João Salgueiro, um dos impulsionadores da SEDES, instituição, que apesar de apolítica nos seu princípios programáticos, era motivo de grande desconfiança e ferozes criticas dos ultras, como Cazal Ribeiro o "manda chuva" da defunta Sacor e Henrique Tenreiro, o "grande pescador" e comandante da Brigada Naval, "delegação marítima" da Legião Portuguesa fundada por Botelho Moniz, em 1936. Um arremedo "saloio" das SS de Hitler.
Marcelo Caetano esforçava-se por mostrar aos seus comparsas, democratas ocidentais, que Portugal se ia adaptando aos novos tempos e até já poderiam constatar o seu simulacro democrático, com a permissão de um Congresso Oposicionista e a realização de eleições livres para a Assembleia Nacional. Para consumo interno eram as suas paternalistas Conversas em Família, que levaram muito boa gente a acreditar que a Democracia vinha a caminho...
O Congresso de 1969 terminou e como previsível, muitos dos congressistas passaram uma temporada nos calabouços da Pide. O mesmo acontecendo com a farsa eleitoral de Outubro desse ano, com a posterior prisão de muitos dos membros integrantes das listas, finalmente unitárias, CEUD / CDE.
A CEUD – Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, impulsionada pelos posteriores fundadores do Partido Socialista (PS), em 1973, na Alemanha, também continha figuras independentes e católicos progressistas. A CDE – Comissão Democrática Eleitoral, era apoiada pelo Partido Comunista Português (PCP), único partido organizado, com largos anos de luta clandestina e, também, por católicos progressistas e outras pessoas de tendências de esquerda, não comprometidas ou mesmo criticas do PCP.
Passaram-se mais quatro anos nas condições habituais, Marcello permite um novo Congresso oposicionista, mas com a condição, como a já tinha imposto no anterior, de não se falar na Guerra Colonial. Cargas policiais, prisões, foi o rescaldo desse evento, em ano de novo simulacro de eleições livres para a Assembleia Nacional.
Finalmente em 1974, a Liberdade, mercê da luta de um punhado de homens e mulheres, que durante os anos da ditadura, semi-clandestinos ou em plena clandestinidade, deram a força anímica necessária, para na madrugada de 25 de Abril, um grupo de jovens oficiais, desse a machada final nos pilares do Regime.
O Regime realmente caiu de podre, mas muito germens carunchosos conseguiram sobreviver.
Suspenderam-se as acções militares contra os nacionalistas africanos. Nos meses conturbados que se seguiram, com a oposição de muitas figuras que aderiram ao derrube do Regime, encetou-se, com a metodologia possível, o caminho conducente à total independência dos territórios africanos, as chamadas colónias, também elas rebaptizadas ainda no consulado salazarista por Ultramar. Na Ásia, o longínquo Timor, foi ocupado pela Indonésia durante vinte e quatro longos e sangrentos anos, culminando, finalmente, com a intervenção da ONU, o que permitiu ao Povo timorense votar a sua independência em 1999, assumida integralmente em 2002, após um período de transição de três anos, supervisionado por aquele Organismo Internacional.
Com os preparativos para a independência das antigas colónias africanas, iniciou-se o regresso da grande maioria dos colonos residentes, muitos deles nascidos naqueles territórios. Foram tempos difíceis, em que muita dessa gente teve de reintegrar-se na sua terra mãe e outros tiveram que adaptar-se às condições proporcionadas pelo continente de origem dos seus progenitores.
Não foram só brancos que regressaram. Mestiços, que lá em Angola eu ouvia designarem por euro-africanos e negros, muitos deles colaboracionistas da extinta PIDE/DGS. Algumas destas pessoas, após o impacto inicial provocado pelas mudanças, concordo que muitas vezes dramáticas, foram-se integrando na sociedade portuguesa e aceitando a vivência democrática que então se passou respirar. Mas, muitos outros, nunca perdoaram ou nunca conseguiram acertar o relógio histórico dos novos tempos.
Após Abril de 1974, também foi significativo o grande número de cidadãos de origem indiana e paquistanesa, na sua maioria vivendo em Moçambique, a maior parte deles comerciantes, que refizeram as suas vidas no nosso País.
Portugal, que durante anos e anos, se habituou a ver os seus Filhos emigrar, principalmente para França, Alemanha, Brasil, Venezuela e Estados Unidos, em busca de condições dignas negadas pela Pátria mãe. Contudo, mesmo após o restabelecimento do regime democrático, alguns ainda o continuaram a fazer e ainda fazem.
Por ironia do destino, passámos também a ser um País receptor de imigrantes, com a vinda de naturais das ex-colónias, também eles na procura de melhores condições de Vida. Destes, o grupo de cidadãos mais expressivo, são os naturais do arquipélago de Cabo Verde e os seus descendentes, que passadas três décadas, poderemos presumir, que pelo menos, duas gerações já nasceram no nosso território. Os filhos e os netos.
Maioritariamente, os cidadãos imigrantes provenientes dos antigos territórios coloniais e muitos dos seus descendentes, empregaram-se na construção civil e as suas mulheres na prestação de serviços domésticos. Poderemos também constatar que a maioria destes cidadãos, os não nascidos em território português, teriam uma formação escolar deficiente ou nula, principalmente os elementos femininos.
Ao contrário do que muito boa gente poderá pensar, estas pessoas, prezam muito o conceito de Família e a entreajuda entre os familiares e amigos mais próximos era uma pratica comum e suponho que ainda o será. Mas estando os dois elementos do casal a trabalhar e não tendo condições de custearem as mensalidades de uma creche ou de serem motivados a faze-lo naquelas estatais ou das misericórdias, de custos simbólicos ou até mesmo gratuitas, não lhes restou outra alternativa senão resolverem este problema entregando os seus filhos ao cuidado de vizinhos ou a eles próprios, cuidando os mais velhos dos irmãos mais novos. É evidente que este não é um problema exclusivo dos pais de origem africana. Temos muita gente da chamada etnia caucasiana que vive em condições similares ou piores. Tudo isto é um problema de fundo que terá ser resolvido pelas autoridades competentes.
Com o desmembramento da URSS e dos países limítrofes, que deram origem a um número significativo de novos estados e com as convulsões político sociais que passaram a verificar-se nessas regiões, obrigaram milhões de cidadãos destes novos estados a emigrarem para outros países e, particularmente, os da Comunidade Europeia, foram o seu destino preferido.
Portugal foi um dos destinos escolhidos por estes cidadãos do Leste Europeu. Também eles, os homens, procuraram maioritariamente a construção civil para sobreviverem. A maioria veio só. As mulheres que os acompanharam e as que seguiram posteriormente para junto deles, tal como as cidadãs de origem africana, escolheram o serviço doméstico para trabalhar. Contudo, há aqui algumas diferenças que poderemos constatar. A maioria dos casais do Leste que cá vivem e trabalham, não têm os filhos consigo. E os que os têm, são jovens já adolescentes, com uma apreciável formação escolar e isto porque os pais destes jovens têm uma formação académica, na maioria dos casos bastante elevada, sendo, como sabemos, muitas destas pessoas, formadas em Medicina, Economia, Engenharia, etc.
Para não ser mais exaustivo, refiro aqui, somente mais outro exemplo, que é a apreciável comunidade de cidadãos brasileiros que vivem e trabalham aqui. Estas pessoas empregaram-se maioritariamente no sector da restauração e são, de um modo geral, de uma faixa etária bastante jovem. A sua integração na sociedade portuguesa foi muito facilitada pelo pormenor da identificação da linguística e pela sua maneira de ser descontraída e simpática. É evidente que, como em tudo, não há regra sem excepção.
E a propósito de regras e excepções, diz-se que o povo português não é racista nem xenófobo. Efectivamente, se compararmos os cidadãos portugueses de etnia caucasiana, com, por exemplo, outros da mesma etnia, mas de origem germanófila ou anglo-saxónica, temos provas dadas em relação a estes últimos, de tolerância e até de fraternidade. O que não quer dizer que em Portugal não haja um crescendo de manifestações racistas e xenófobas, que deviam merecer a atenção e preocupação de todos nós.
Os crimes, violentos ou não e a agressividade gratuita, são praticados por todas as classes sociais e de diferentes etnias. Os crimes do chamado “colarinho banco” e a violência a que se assiste nos campos de futebol são exemplo do que acabo de referir.
Mas os furtos por esticão, os assaltos a viaturas e a residências, de um modo geral praticados por indivíduos de etnia africana ou cigana, são os que nos são apresentados com maior visibilidade pelos meios de comunicação social. É certo que também referem os crimes praticados por brancos toxicodependentes e os assaltos cometidos contra dependências bancárias ou em lojas de produtos de fácil transacção ou receptação, executados por alguns indivíduos originários dos chamados países de Leste, que são a tal excepção, dado o comportamento exemplar da maioria dos seus conterrâneos.
Todos os crimes devem ser punidos de acordo com a sua gravidade. Porém, este é um problema de fundo que deve merecer da parte das autoridades competentes um estudo profundo e sério. A repressão ao crime representa parte da resolução dos problemas, não os erradica, porque a génese destas situações raramente são tomadas em linha de conta. E isto passa pela tomada de consciência do próprio Estado, tanto da parte da classe dirigente que escolhemos, como de todos nós enquanto pessoas “ditas de bem”.
As desigualdades sociais incentivam ao crime e à violência. É certo que existe muita gente a viver em condições degradantes que nunca tomou esse caminho, assumindo uma atitude conformista perante a sociedade recolhendo-lhe as migalhas. Mas seria bom, se os detentores do poder político em Portugal, abandonassem atitudes jactantes, como as de projectos de linhas para comboios de alta velocidade, novos Aeroportos, aquisição de material bélico, etc. e investissem na educação, saúde, reinserção social e procurassem uma forma de deter o encerramento uniformemente acelerado de Empresas. Que se investisse a sério na formação profissional, mas não para criar um país composto de pequenos empresários, onde só uma minoria consegue sucesso, ficando a maioria ainda em piores condições do que aquelas em vivia anteriormente.
Todas estas situações dramáticas podem conduzir ao desespero tais como atitudes suicidas ou ao caminho do crime e da violência.
Iniciei este texto com alguns detalhes históricos acerca da formação de Portugal. Mencionei algumas fases marcantes da sua história, deixando propositadamente para o final deste artigo uma fase hedionda, que marcou a nossa nação, embora não fosse um exclusivo português. Refiro-me à violência e aos crimes praticados pela Inquisição. Hitler foi o Inquisidor do século XX. Esta sinistra figura limitou-se a aprimorar ensinamentos da Idade Média legados pelos carrascos do Povo Judeu.
Os movimentos racistas e xenófobos, não são tão inocentes no que toca à perigosidade da sua disseminação como alguns cronistas da nossa praça querem fazer-nos crer. Dada a situação político-social que atravessamos, as forças de extrema-direita de inspiração nazi-fascista, têm um campo fértil para semearem o ódio entre os desencantados da Vida. Nós temos exemplos na nossa Historia recente que confirmam isto mesmo.
O crime ou a violência não têm cor. Antes de qualquer julgamento sumário, é obrigação de todos nós, analisarmos o porquê das coisas e darmos a nossa quota-parte de intervenção cívica para as solucionarmos.
Somente com o empenhamento de todas as pessoas amantes da Liberdade e do respeito por toda a Humanidade, poderemos edificar uma sociedade mais justa e mais fraterna, aprendendo com os erros do passado, aquela que deverá ser a nossa postura no presente.
Se o fizermos, certamente que erradicaremos as Sementes de Violência
Por: Fernando Bizarro (Falecido em 23 de Maio de 2006)
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Testamento
Aos amigos (poucos), inimigos (nenhum, desconheço dada a insignificância que provocam), credores (tantos), familiares (numerosos como moscas), parceiros (incontáveis, de copo, de trabalhos, de sonhos, etc) e a quem mais possa interessar.
Venho, por meio desta (óbvio), comunicar-lhes meu falecimento.
Deixo esta em forma de testamento (“registrado em cartório do céu e assinado, Deus”) para se faça cumprir minha vontade diante das condolências tão típicas dadas aos, finalmente, vencidos. Também comemoro o desaparecimento de alguns semelhantes.
Morrerei, provavelmente de falta de ar, aos quarenta e cinco anos e, de preferência, numa segunda-feira, para dar-lhes alguma folga ao mais terrível dos dias semanais. Sim, o diagnóstico é infalível. Não cabe avaliar prognósticos.
Quero deixar claro que tudo que possa se aproveitar do meu corpo deve ser doado. De certo que não há muito. Mas, quem sabe, a ciência possa conseguir descontaminar alguma parte, ou mesmo encontrar algo ainda latente e útil. Vivo. Porque, de fato, não se morre de súbito. Venho morrendo há muito.
Que partes de mim seriam de alguma utilidade?
Se possível fosse o reuso dos meus braços, estes poderiam servir bem ao receptor. São fortes, bravos e não se fatigam facilmente das enxadas e dos abraços. De inteiro se aproveita. Dedos prescutadores que escafandrinham superfícies com a habilidade dos insetos notívagos. Tremem, por certo, mas até que, por tal, provocam risos e sensações vibrantes. Os punhos também têm seus valores. Flexíveis, sempre. Por entenderem na flexibilidade a verdadeira força. Inquebráveis, portanto. De resto, é força. A força oriunda dos afagos e proteções indiscriminadas.
Não relacionarei os órgãos putrefatos. Fígados encharcados de tóxicos. Pulmões arfantes pelos tragos e paixões incompreendidas. Coração abatido pelos sustos e sístoles de Sísifo. Pernas em embolias por não terem andado os caminhos que convidavam. Costas fracas de tanto se curvarem aos impérios e seus imperativos. Sequer suportaram a própria cruz. Bagagem indispensável a qualquer que exista.
Ah! Meus olhos. Estes bem que poderiam trazer alento a quem os recebessem. Pois vêem belezas tantas, mesmo em meio às desgraças, sempre graças perambulando os calçadões e praias do meu desejo. Não existiria infelicidade. Nunca. Cansados se o alcance é muito perto ou mal definido. Mas quanto aos horizontes e distantes sonhos, são lunetas postas na imensidão azul. Do mar. Do céu. Dou-os de muito bom grado.
Pertences? Cds, livros e a velha escrivaninha de meu pai. Obviamente serão das filhas. Primeiramente, a mais velha. Sequentemente, a menor, caso a primeira abra mão.
Quanto ao ato de despedida, peço que o façam da seguinte maneira: todos deverão estar descalços. Também deverão usar uniformes de mordomos ou empregadas, para que não haja destaque pela indumentária. Desvencilhem-se de títulos plausíveis aos mortos. Deixem que os sentimentos vistam a importância das coisas.
Não quero padres. De nenhuma espécie. Não respeito igrejas, menos ainda, seus representantes. Sejam elas quais forem. Budistas, metodistas, católicas, protestantes, todas. Contudo, acredito na santidade dos vinhos e similares. Bebam a vontade. Por mim.
À minha companheira, peço que se entregue ao primeiro que aparecer. Sei que estará, a princípio, bem infeliz porque muito me ama. Mas que continue se dando, indiscriminadamente, para poder gozar em qualquer corpo e, no campo das probabilidades, aumentar as chances do novo amor. Sei bem que as mulheres precisam disso. De um casamento, um elo mais forte, um porto.
No mais, plantem-me para adubar flores e plantas. Do esterco ao esterco. Eis a beleza incoercível da natureza.
Aluísio Martins
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O Baralho Erótico

Arte de Eugeny Kozhevnikov
Em sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem. Era o caso de Fula Fulano mais sua respectiva Dona Nadinha. O homem era um vidamundo, formado nas malandragens. A mulher era muda durante o dia. Mesmo que pretendesse não lhe saía palavra."..."No resto, se arredava, imóvel de fazer inveja às plantas. Se sentava a desfolhar fotos e postais.
Nadinha vivia por fotografia, sonhava por interposição de imagens recortadas em revistas. Coleccionava retratos, cromos, postais. Ficava horas contemplando as figurinhas. Assim, ela se desconhecia, desaparecendo de si mesma, invisibilizando a vida."..."Se enamorava das mulheres das capas, que lindas, nem transpiram, nem enrugam com os tempos."
Mia Couto, Contos do Nascer da Terra, Lisboa, Editorial Caminho, 2002
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Mata-Hari

Fotografia daqui
O tortuoso caminho de Mata Hari até ao tribunal começara 41 anos antes, na vila de Leeuwarden, no norte da Holanda, com o nascimento de uma filha ao comerciante Adam Zelle e a sua mulher em 7 de Agosto de 1876. A pequena recebeu o nome de Margaretha Geertruida. Aos 14 anos, foi enviada para uma escola num convento para aprender as artes domésticas, como preparação para o casamento - a educação apropriada para as raparigas da sua classe. Mas esta vida convencional não servia a Margaretha Geertruida Zelle. Um dia antes de fazer 19 anos, ela casava com Campbell MacLeod, oficial do Exército Holandês, de ascendência escocesa, 21 anos mais velho que ela. Foi um erro desastroso.
Em pouco tempo, a jovem Sra MacLeod dava à luz um filho e uma filha, e, em 1897, acompanhava o marido às Índias Orientais Holandesas, para onde ele fora nomeado como comandante de um batalhão na ilha de lava. MacLeod bebia desenfreadamente, dava-se com outras mulheres e batia frequentemente na esposa ameaçando-a certa vez com um revólver carregado. O filho do casal morreu em circunstâncias misteriosas; de acordo com uma versão, teria sido envenenado por um criado que fora maltratado por MacLeod. Pouco depois do regresso dos MacLeods à Holanda, em 1902, Margaretha Geertruida separava-se do marido, divorciando-se passados quatro anos. Deixando a filha com familiares, a jovem mulher dirigiu-se para Paris - e para uma nova e espantosa carreira.
Como mulher de um oficial holandês e mãe de dois filhos, Margaretha Geertruida dificilmente poderia ter feito furor em Paris. Mas como dançarina exótica poderia atrair as atenções que ambicionava. E assim, em 1905, assumiu uma nova identidade, fazendo-se passar com êxito por filha de uma dançarina de um templo nas Índias Orientais que morrera de parto. A fim de substituir a mãe, afirmava então Margaretha Geertruida, ela fora dedicada ao deus hindu Xiva e instruída nos rituais eróticos da adoração da divindade. Alta e bem feita, com cabelos muito negros, olhos escuros e pele morena, foi facilmente tomada por indiana. O nome exótico que adoptou, Mata Hari, significava Olho da Madrugada.
Depois de uma estreia no meio das colecções orientais do Museu Guimet, Mata Hari começou a somar triunfos nos salões elegantes de Paris, passando depois aos teatros de Monte Carlo, Berlim, Viena, Sófia, Milão e Madrid. Parecia que a Europa toda estava a seus pés. Embora alguns dos membros do seu público, essencialmente masculino, afirmassem que assistiam às suas exibições para aprenderem mais sobre as religiões orientais, eles vinham principalmente para ver uma jovem sensual que aparecia em público praticamente nua.
Não é de surpreender que esta dançarina voluptuosa tivesse dúzias de admiradores que pagavam de boa vontade os seus favores, concedidos com generosidade. Quando eclodiu a I Guerra Mundial, em Agosto de 1914, dizia-se que Mata Hari era a cortesã mais bem paga da Europa. Entre as suas conquistas em Berlim, contavam-se o príncipe herdeiro da Alemanha, o ministro dos Estrangeiros e o duque de Brunswick. No dia em que a guerra foi declarada, ela foi vista a cavalo pelas ruas da capital germânica acompanhada do chefe da Polícia.
Nos finais de 1915, Mata Hari encontra-se novamente em Paris - segundo uma versão, para salvar os seus bens pessoais da sua casa de Neuilly; segundo outra, para tratar de um amante russo ferido. Um terceiro motivo para a visita, a espionagem, surge numa mensagem enviada pelos Serviços Secretos Italianos aos seus homólogos franceses. A "celebridade teatral Mata Hari ... que finge dar a conhecer danças hindus que exigem a nudez", avisavam os Italianos, renunciara a afirmar-se indiana e falava agora alemão com um leve sotaque oriental.
Detida pelas autoridades francesas, Mata Hari negou com veemência ser uma espia alemã e ofereceu impetuosamente à França os seus serviços como agente secreto. Curiosamente, os Franceses aceitaram a oferta e enviaram-na para a Bélgica, ocupada pelos Alemães, com uma lista de seis agentes clandestinos neste país. Pouco depois, um deles era apanhado e fuzilado pelos Alemães - segundo se disse na altura, traído por uma mulher. Apesar disso, os Franceses encarregaram Mata Hari de uma nova missão; a Espanha, que era um país neutral. Ela deveria seguir para ali de navio, partindo da Holanda.
Os Ingleses obrigaram o navio a atracar em Falmouth, na costa sul de Inglaterra, e prenderam Mata Hari, na convicção de se tratar da espia alemã Clara Bendix. Ela convenceu os Ingleses de que estava ao serviço da França e obteve a liberdade. Embora aconselhada pelos seus captores a abandonar aquela perigosa actividade, continuou a viagem até Madrid. Pouco tempo depois, na capital espanhola, Mata Hari estabelecia ligações com os adidos naval e militar alemães, sendo generosamente paga pelos seus serviços. Qual a natureza desses serviços constitui ainda hoje o âmago do mistério que rodeia Mata Hari.
Para os finais de 1916, Berlim avisou os dois adidos alemães em Madrid de que estavam a pagar demasiado pelas informações de rotina fornecidas pelo "agente H-21", ordenando-lhes que o mandassem regressar a Paris com um cheque de 5000 francos sobre um banco francês. Esta mensagem incriminadora foi interceptada pelos Serviços Secretos Franceses.
A 12 de Fevereiro de 1917, Mata Hari estava de novo em Paris, registando-se no elegante Hotel Plaza-Athénée, na Avenue Montaigne. No dia seguinte, foi presa e acusada de ser agente duplo alemão. As provas utilizadas para fundamentar a acusação foram um cheque não levantado de 5000 francos, passado sobre o banco especificado na mensagem alemã, e um tubo contendo um líquido, identificado como tinta invisível, recolhido do seu quarto de hotel. A "tinta invisível", explicou Mala Hari durante os interrogatórios, era um desinfectante vulgar que ela usava como contraceptivo. Quando ao cheque, admitiu prontamente tratar-se de um pagamento dos adidos alemães em Madrid - mas pelos seus favores sexuais -, e não, certamente, por actividades de espionagem. Desconhecendo a sua situação precária, fez uma série de declarações ambíguas e não convincentes sobre as suas viagens desde o início da guerra, dois anos e meio antes. A antiga favorita da Europa, amante de homens altamente colocados, foi levada para a cela 12 da prisão de Saim-Lazare. Entre as anteriores ocupantes da cela, figuravam as assassinas de um antigo presidente francês e de uma conhecida jornalista e Margueritre Francillard, que fora executada por espionagem.
Após meses de interrogatórios infrutíferos, durante os quais Mata Hari afirmou sem vacilar a sua inocência, o julgamento em tribunal de guerra teve lugar em 24 de Julho de 1917. O presidente e dois outros juízes estavam já convencidos de que ela era culpada, embora a multidão que esperava a sentença nas ruas continuasse a acreditar na sua inocência e esperasse a ilibação.
Conforme declarou, linha de facto assistido a manobras militares na Alemanha, Itália e França mas como convidada de um ou outro dos seus muitos admiradores. Os 30 000 marcos que recebera do ministro alemão dos Estrangeiros? "Isso foi o preço dos meus favores. Os meus amantes nunca me ofereceram menos." Apesar da fragilidade da acusação, a condenação era inteiramente previsível - dado o estado de espírito da época. O Alto Comando Francês precisava desesperadamente de um bode expiatório para o insucesso dos Aliados em saírem da situação de beco sem saída que há três anos se mantinha com a Alemanha.
A sentença de morte não foi imediatamente executada; e durante os meses de espera que se seguiram, o nervosismo e desânimo de Mata Hari aumentavam. Antes do amanhecer de segunda-feira 15 de Outubro, ela foi acordada de um sono pesadíssimo induzido pelos medicamentos que pedira ao médico da prisão. Numa voz sem entoação, o advogado disse à espia condenada que iria morrer nessa manhã. Preocupada com a sua reputação, aquela mulher de 41 anos vestiu-se com lodo o esmero. Levava um vestido cinzento-pérola, um grande chapéu de palha, o seu melhor par de sapatos. Sobre os ombros, um casaco; e só quando calçou as luvas se considerou pronta para deixar a cela para o percurso de automóvel até ao Château Vincennes, nos subúrbios da cidade.
O pelotão de fuzilamento aguardava na carreira de tiro de Vincennes - 12 homens formando três lados de um quadrado em frente de uma árvore sem ramos nem folhas. Em passo firme, Mata Hari dirigiu-se para a árvore. Aceitou o gole de rum permitido aos condenados, mas recusou ser atada à árvore ou deixar-se vendar - preferindo olhar nos olhos os seus executores. Enquanto o sol-nascente penetrava o nevoeiro da madrugada, o padre e as freiras que a assistiam retiraram-se, os homens do pelotão tomaram posição às ordens do comandante e foi dado o sinal. Doze tiros quebraram o silêncio, e o corpo sem vida de Mata Hari caiu no chão.
A razão para a dignidade excepcional da condenada no momento da execução foi mais tarde explicada por uma estranha história. Um jovem e ardente admirador, Pierre de Morrisac, conseguira subornar o pelotão de execução para que carregasse as espingardas com pólvora seca. A execução seria fingida, como na Tosca, ópera de Puccini, muito popular nessa época. Mas, como no palco, o plano de Morrisac falhou: as espingardas foram carregadas com balas verdadeiras - e a vítima, que de nada suspeitou, teve uma morte rápida.
Artigo daqui
Mais sobre Mata Hari em:
História Viva e História Viva
Mulher Portuguesa
Wikipédia
BBC
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Zé do Telhado
Foi o famoso Zé do Telhado soldado no Regimento de Cavalaria nº2, Lanceiros, chegando mesmo a alcançar o posto de Sargento, como há quem o afirme?
A primeira biografia do romântico bandoleiro saiu da pena do maior romântico da nossa literatura, Camilo Castelo Branco.
Camilo conheceu-o na prisão da Relação do Porto, onde ambos comungavam as instalações, a níveis distintos e por diferentes razões. O escritor ouviu-lhe as confissões eivadas de fantasiosos adornos ou então cruas e prosaicas na rudeza simples do salteador. Camilo apercebeu-se do filão literário e o seu extraordinário génio ficcionista talhou de forma credível o retrato deste Robin dos Bosques português, e integrou-o nas suas “ Memórias de Cárcere “, publicadas em 1861. Antes de passar à narração, Camilo lamenta que o país, por demasiado humilde, não gere “salteadores de fama“, matéria prima para o folhetinesco e onde os confrades estrangeiros ganham renome nas obras de Shilher, de Hugo, e outros demais gigantes das letras. E sem se furtar a alguma crítica social, passa a narrar a história do Zé do Telhado, no seu estilo incomparável, mas, arredado de uma verdadeira pesquisa, perde-se da realidade para criar o mito.
Diz-nos Camilo que Zé do Telhado nasceu em 1816, na Aldeia de Castelães, Comarca de Penafiel, filho de um capitão de ladrões e no seio de uma família onde extorquir o alheio era actividade de raízes fundadas.
Ora Zé do Telhado, a dar fé do registo baptismal, terá nascido em 22 de Junho de 1818 (dois anos depois do que nos dá conta Camilo; dois anos que serão cobertos pelo hipotético serviço militar em Lanceiros). A dado passo, eventualmente por razões familiares, teria vindo para a capital, ou como escreve Camilo “foi o moço para Lisboa, e jurou bandeiras no segundo Regimento de Lanceiros, denominado da Rainha”. O escritor não assinala datas e a designação de Lanceiros da Rainha fora extinta em 1834, passando a RC n.º2, Lanceiros, donde a ser verdade o militar Zé do Telhado, de seu verdadeiro nome José Teixeira, ou José Teixeira da Silva ou ainda José Teixeira de Matos, só poderia eventualmente ter assentado praça no Regimento de 1835 a 1837, ano este em que (voltamos a Camilo) terá feito parte da escolta de Saldanha durante a aventuresca revolta do Marechais.
Acontece, porém, que uma consulta por nós feita nos arquivos regimentais de 1835 a 1938, (relações nominais de efectivos, existentes no Arquivo Histórico Militar), não é referido nenhum soldado com o nome igual ou parecido com o do famoso salteador, e a referência única de um tal José da Silva não oferece verosimilhança por quanto não teve este qualquer diligência prolongada e mantinha-se ainda no regimento de 1888, altura em que Zé do Telhado teria dado baixa do serviço e casado, fixando a sua residência em Caíde do Rei, Lousada.
Afigura-se também fantástica a participação do Zé do Telhado nas correrias de Saldanha, onde teria tido o privilégio de ter sido sucessivamente ordenança do Barão de S. Cosme (esta não vem de Camilo, mas de outro autor posterior) e do General Schwalback, Conde de Setúbal, e nessa qualidade, teria combatido em Ruivães e Chão da Feira. Outros autores, na senda do autor de “Amor de perdição“, vão falar de Zé do Telhado, e um mesmo, Eduardo de Noronha, produz duas obras de história ficcionada sobre este herói popular: José do Telhado e José do Telhado em África. Desenha um homem pleno de virtudes a quem o destino arrasta fatalmente para a desgraça. Dá-lhe destaque como soldado de Lanceiros, escolhendo-lhe mesmo um número, o 9, e uma 1ª Companhia, só se esquecendo do Esquadrão – O Regimento tinha então 3 Esquadrões divididos em 2 Companhias. O 4º Esquadrão estava destacado em Espanha, incorporando a Divisão auxiliar.
Não se nos afigura que Zé do Telhado pudesse servir sob falso nome, para mais quando no Regimento de Lanceiros se exigia recomendação para os recrutas portugueses (o Regimento ainda tinha cerca de um quarto do efectivo estrangeiro, especialmente o 1º Esquadrão onde serviam os veteranos da Guerra Civil, sob o comando do Capitão Mello e Castro), recomendações que incluíam atestado dos párocos locais.
Quanto ao facto de ter sido Sargento, contou Zé do Telhado a Camilo que o fora durante a Patoleia, pois a insistência dos populares da sua terra, se juntara à Junta do Porto que o fizera Sargento dum Corpo de Cavalaria (a) e lhe atribuíra as funções de segurança do General Visconde de Sá da Bandeira. A dar crédito a Zé do Telhado, no combate de Valpassos, ele próprio havia salvo a vida ao glorioso maneta e este, perante tal rasgo, havia retirado do próprio peito a Comenda de Torre e Espada e colocara-a no peito do famoso bandoleiro. Acontece que a ser verdade, esta Torre e Espada não tinha qualquer valor, pois Sá da Bandeira combatia como insurrecto contra a Rainha, única entidade que podia conceder tal mercê ou delegá-la nos seus generais. De facto, na lista conhecida dos contemplados com a condecoração também não figura o nome do José Teixeira da Silva. Para mais Sá da Bandeira várias vezes Ministro da Guerra e Presidente do Governo, nunca ratificou oficialmente este pretenso acto, nem concedeu a Zé do Telhado ou seus filhos os benefícios que ele próprio criou para os detentores da condecoração. No relato dos factos mais marcantes da sua vida, Sá da Bandeira também não refere o acontecimento, muito embora dê notícia dum acontecimento passado num encontro em Coruche em 1825, quando ainda capitão era perseguido por dragões miguelistas.
É curioso notar que a sua comenda da Torre e Espada já lhe havia salvo a vida em 1832, quando durante a Procissão do Corpo de Deus em Lisboa, fez resvalar uma baionetada desferida por um guarda nacional.
Derrotada a Patoleia, Zé do Telhado conta que arrancou as divisas e regressou a casa, findando aqui a sua experiência militar, salvo quando, anos mais tarde, e á frente da sua quadrilha haver posto em fuga uma força de Caçadores 2. A ser verdade, difícil é prová-lo pois não será possível encontrar registos dos irregulares arregimentados pela Junta Setembrista do Porto.
Não é pois digna de crédito, e até prova em contrário, a real participação do mais famoso bandido português, quer como militar de Lanceiros 2, quer como Sargento de Cavalaria ou mesmo como condecorado com qualquer grau da Ordem de Torre e Espada.
Henrique Quinta-Nova
Artigo retirado do site: Lanceiro
Mais sobre o Zé do Telhado em:
Tribunal da Relação do Porto
[Setúbal na Rede]
Wikipédia
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Páscoa - Origem e Simbologia
A palavra "Páscoa" tem origem no hebreu pesakh, que significa passagem, aludindo à libertação da escravidão para a liberdade. Os Judeus festejam a Páscoa anualmente, em memória da sua saída do Egipto e os cristãos celebram na Páscoa a Passagem de Cristo - "deste mundo para o Pai", da "morte para a vida", das "trevas para a luz". A Páscoa é considerada, assim, a Festa da Libertação.
Como se calcula o dia em que se celebra a Páscoa?
A Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário, que é antecedida pela Quaresma, um ritual que dura 40 dias, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, e que termina no Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa. Durante este período, os cristãos procuram a purificação que deve ser alcançada por meio de penitência, como o jejum. O dia da Páscoa é no primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre no dia ou após o equinócio da primavera boreal, assumindo-se como sendo dia 21 Março e é sempre uma das 35 datas entre 22 de Março e 25 de Abril. A data da Lua Cheia não é, no entanto, a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. A igreja, para obter consistência na data da Páscoa decidiu, no Concílio de Nicéia (325 d.C.), no papado de S. Silvestre I., definir a data da Páscoa em função da data de uma lua imaginária, conhecida como a "lua eclesiástica".
Dias da Páscoa nos próximos anos:
2007 - 8 de Abril
2008 - 23 de Março
2009 -12 de Abril
2010 - 4 de Abril
Os Símbolos
Símbolos Religiosos
Os principais símbolos da Páscoa são a Cruz, que traduz, ao mesmo tempo, sofrimento e ressurreição; o Cordeiro, que simboliza Cristo, que é o cordeiro de Deus, e se sacrificou em favor de todo o rebanho; Pão e o Vinho, que Jesus escolheu para na última ceia representarem o seu corpo e sangue e, dados, aos seus discípulos, celebrarem a vida eterna; e o Círio, que é a grande vela que se acende na Aleluia e significa Cristo, a luz dos povos. As letras Alfa e Omega nela gravadas significam que Deus é o princípio e o fim de tudo.
Os Ovos de Páscoa
O ovo simboliza o nascimento, a vida que recomeça.
Os ovos da Páscoa estão intimamente ligados com rituais pagãos do início da primavera. O costume de oferecer na época da Páscoa ovos ornamentados e coloridos começou na antiguidade. Os egípcios e persas costumavam decorar ovos com as cores primaveris para os oferecer aos seus amigos.
Os cristãos primitivos da Mesopotâmia foram os primeiros a usar ovos coloridos na Páscoa. Em alguns países europeus, os ovos são coloridos para representar a alegria da ressurreição.
Em alguns países, como nos Estados Unidos as crianças saem na manhã de Páscoa em busca de ovos escondidos, na casa ou no jardim. Nalguns lugares os ovos são escondidos em lugares públicos e as crianças da comunidade são convidadas a encontrá-los, celebrando uma festa comunitária. Actualmente os mais apreciados pelas crianças são os de chocolate.
O Coelho
Por serem animais com grande capacidade reprodutiva, sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos constantemente. Além de ser símbolo da fertilidade, o coelho tem a ver com o renascimento da vida. Na Europa, a Páscoa coincide com o início da primavera, quando toda a neve derrete e a vida ressurge, após o período de frio. Esse é o momento em que os coelhos deixam suas tocas, após a hibernação de Inverno. Conta a lenda que um coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa. Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu num ninho para dá-los aos seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um coelho passou em grande correria, espalhando-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos.
Existem outras explicações para a associação da imagem do coelho à Páscoa. Alguns povos da Antiguidade o consideravam o coelho como símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao facto de a Lua determinar a data da Páscoa.
Fonte: O Portal da cidade de Braga
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A Beautiful Mind (2001)
Russell Crowe interpreta John Forbes Nash Jr., um matemático brilhante mas que sofre de esquizofrenia.
Esquizofrenia paranóica
A paranóia é dos subtipos de esquizofrenia o mais nitidamente diferenciado e o de carácter menos variável. O seu início é normalmente insidioso e ocorre frequentemente depois dos 30 anos. É caracterizada pelo desenvolvimento de ilusões claramente formuladas, persistentes, a maior parte das vezes de conteúdo persecutório. As ilusões são muitas vezes dispersas, mas inter-relacionadas. Por vezes, contudo, ocorrem só ilusões "encapsuladas", que parece não afectarem o resto da ideação do indivíduo. As ilusões de grandeza ocorrem com frequência, interligando-se com os sentimentos de perseguição, através de um sentimento de que o status do indivíduo é ignorado ou invejado, com resultante desconsideração e animosidade. Podem ocorrer alucinações que partilham e difundem o conteúdo das ilusões. Tanto a emoção como o comportamento podem ser afectados pelas ilusões, mostrando depressão, cólera, ressentimento, resignação ou apatia. Actos anti-sociais sérios são raramente resultado do influir sobre as convicções ilusórias; estes actos são, frequentemente, apenas um aborrecimento (queixa à polícia, escrever aos ministros ou a outras pessoas importantes), ou então o indivíduo parece excêntrico. Pode acontecer que o estado diminua de intensidade, mas pelo menos em metade dos casos permanece a convicção ilusória, comportamento extravagante ou inaptidão social. O prognóstico e o tratamento são semelhantes aos de outras formas de esquizofrenia.
Estados Paranóicos

Kraepelin (1856-1926, pai da nosologia psiquiátrica moderna) descreveu a paranóia como o desenvolvimento de ilusões sistematizadas permanentes, principalmente de perseguição, no quadro de um pensamento e consciência não perturbados. O termo "estados paranóicos" abarca os estados em que ocorre o complexo de sintomas da paranóia; caracteristicamente, paranóia, parafrenia e esquizofrenia paranóica. Em todos eles, a suspeita e o ressentimento resultam da convicção de que o meio está modificado: questões inocentes são tomadas como ataque directo ao doente que julga não ser apreciado no seu devido valor. Aliadas a este último sentimento vêm as ilusões de grandeza. (...)
Leigh, Denis et allia, Enciclopédia Concisa de Psiquiatria
Artigo retirado daqui
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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Durante séculos, o papel da mulher incidiu sobretudo na sua função de mãe, esposa e dona de casa. Ao homem estava destinado um trabalho remunerado no exterior do núcleo familiar. Com o incremento da Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX, muitas mulheres passaram a exercer uma actividade laboral, embora auferindo uma remuneração inferior à do homem. Lutando contra essa discriminação, as mulheres encetaram diversas formas de luta na Europa e nos EUA.
LENDA E REALIDADE
A lenda do Dia Internacional da Mulher como tendo surgido na sequência de uma greve, realizada em 8 de Março de 1857, por trabalhadoras de uma fábrica de fiação ou por costureiras de calçado - e que tem sido veiculada por muitos órgãos de informação - não tem qualquer rigor histórico, embora seja uma história de sacrifício e morte que cai bem como mito.
Em 1982, duas investigadoras, Liliane Kandel e Françoise Picq, demonstraram que a famosa greve feminina de 1857, que estaria na origem do 8 de Março, pura e simplesmente não aconteceu (1), não vem noticiada nem mencionada em qualquer jornal norte-americano, mas todos os anos milhares de orgãos de comunicação social contam a história como sendo verdadeira («Uma mentira constantemente repetida acaba por se tornar verdade»).
Verdade é que em 1909, um grupo de mulheres socialistas norte-americanas se reuniu num "party’, numa jornada pela igualdade dos direitos cívicos, que estabeleceu criar um dia especial para a mulher, que nesse ano aconteceu a 28 de Fevereiro. Ficou então acordado comemorar-se este dia no último domingo de Fevereiro de cada ano, o que nem sempre foi cumprido.
A fixação do dia 8 de Março apenas ocorreu depois da 3ª Internacional Comunista, com mulheres como Alexandra Kollontai e Clara Zetkin. A data escolhida foi a do dia da manifestação das mulheres de São Petersburgo, que reclamaram pão e o regresso dos soldados. Esta manifestação ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1917, que, no Calendário Gregoriano (o nosso), é o dia 8 de Março. Só a partir daqui, se pode falar em 8 de Março, embora apenas depois da II Guerra Mundial esse dia tenha tomado a dimensão que foi crescendo até à importância que hoje lhe damos.
A partir de 1960, essa tradição recomeçou como grande acontecimento internacional, desprovido, pouco e pouco, da sua origem socialista.
(1) Se consultarmos o calendário perpétuo e digitarmos o ano de 1857, poderemos verificar que o 8 de Março calhou a um domingo, pelo que nunca poderia ter ocorrido uma greve nesse dia de descanso semanal.
Pesquisa efectuada por Maria Luísa V. Paiva Boléo
Desde 1975, em sinal de apreço pela luta então encetada, as Nações Unidas decidiram consagrar o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher.
Se, nos nossos dias, perante a lei da maioria dos países, não existe qualquer diferença entre um homem e uma mulher, a prática demonstra que ainda persistem muitos preconceitos em relação ao papel da mulher na sociedade. Produto de uma mentalidade ancestral, ao homem ficava mal assumir os trabalhos domésticos, o que implicava para a mulher que exercia uma profissão fora do lar a duplicação do seu trabalho. Foi necessário esperar pelas últimas décadas do século XX para que o homem passasse, aos poucos, a colaborar nas tarefas caseiras.
Mas, se no âmbito familiar se assiste a uma rápida mudança, na sociedade em geral a situação da mulher está ainda sujeita a velhas mentalidades que, embora de forma não declarada, cerceiam a sua plena igualdade.
O número de mulheres em lugares directivos é ainda diminuto, apesar de muitas delas demonstrarem excelentes qualidades para o seu desempenho. Hoje as mulheres estão integradas em todos os ramos profissionais, mesmo naqueles que, ainda há bem pouco tempo, apenas eram atribuídos aos homens, nomeadamente a intervenção em operações militares de alto risco.
Nos últimos anos, a festa comemorativa do Dia Da Mulher é aproveitada por muitas delas, de todas as idades, para sair de casa e festejar com as amigas, em bares e discotecas, o dia que lhes é dedicado, enquanto os homens ficam em casa a desempenhar as tarefas que, tradicionalmente, lhe são imputadas: arrumar a casa, fazer a comida, tratar dos filhos...
Se a sua esposa, irmã, mãe ou avó ainda é daquelas que, não obstante as suas tarefas laborais no exterior, ainda encontra tempo e paciência para que nada lhe falte, o mínimo que poderá fazer será aproveitar este dia para lhes transmitir o seu apreço. Um ramo de flores, mesmo que virtual, será, certamente, bastante apreciado. Mas não se fique por aqui. Eternize este dia, esquecendo mentalidades preconcebidas, colaborando mais com elas nas tarefas diárias e olhando-as de igual para igual em todas as circunstâncias, quer no interior do seu lar, quer no seu local de trabalho. Quando todos assim procedermos, não haverá mais necessidade de um dia dedicado à mulher.
Artigo retirado daqui
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"Tudo está ligado, como o sangue que une uma família.
Todas as coisas estão ligadas.
O que acontece à Terra recai sobre os filhos da Terra.
Não foi o homem que teceu a trama da vida.
Ele é só um fio dentro dela.
Tudo o que ele fizer à teia estará fazendo a si mesmo."
Chefe Seattle (1856)
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O que Leva o Homem a Suspeitar Muito é o Saber Pouco
As suspeitas
são entre os pensamentos o que os morcegos são entre os pássaros; voam sempre
ao crepúsculo. Certamente, devem ser reprimidos, ou pelo menos bem vigiados,
porque ofuscam o espírito. As suspeitas afastam-nos dos amigos e vão de
encontro aos nossos negócios, que afastam do caminho normal e direito. As
suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à
irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro,
porque se alojam nos caracteres mais intrépidos, como no exemplo de Henrique
VII de Inglaterra, que, entre os homens, foi também o mais suspeitoso e também
o mais intrépido. As suspeitas fazem muito mal a estes homens. Nas outras
pessoas, as suspeitas só são admitidas depois de exame à sua verosimilhança, mas
nas pessoas timoratas elas rapidamente adquirem fundamento. O que leva o homem
a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às
suspeitas procurando saber mais, em vez de se deixarem sufocar por elas.
Que querem
eles? Pensarão talvez que são santas as pessoas que empregam e com quem tratam?
Que elas não pensam em atingir os seus fins, e que serão mais leais para com os
outros do que para consigo próprias? Não há, por isso, melhor caminho para
modelar as suspeitas do que acolhê-las como verdadeiras, e refreá-las como
falsas. Deve usar-se das suspeitas para providenciar a que não nos prejudiquem,
no caso de serem verdadeiras.
As suspeitas, que o espírito de si próprio gera, não são
mais do que zumbidos; mas as que são artificialmente alimentadas com histórias
e ditos maliciosos, essas possuem venenosos ferrões. Certamente, o melhor meio
de abrir caminho na floresta das suspeitas é falar francamente com a pessoa de
quem se desconfia; porque assim ter-se-á a certeza de conhecer melhor a verdade
do que se conhecia antes, e conseguir-se-á que a pessoa de quem se desconfiou
seja de futuro mais circunspecta e dê outros motivos de suspeição. Mas isto não
pode ser feito com pessoas de natureza vil, porque essas, quando se sabem
suspeitadas, nunca mais são leais. Os italianos dizem: Sospetto licentia fede, como se a suspeita desse um passaporte à fidelidade; quando,
pelo contrário, deveria ser motivo para se justificar.
Francis Bacon, in 'Ensaios'