SOL

Tratado Constitucional Europeu

 

O futuro dos Estados.jpg

Tenho em mente as últimas eleições para o parlamento europeu. Recordo-me do lavar de roupa suja que rodeou a campanha dos candidatos cabeça-de-lista pelos partidos socialista e social-democrata. Do fatídico incidente que envolveu a morte de Sousa Franco, vitima  de um verdadeiro arrastão entre facções político-partidárias,  para o qual não estava física e emocionalmente preparado.

Foi uma campanha vergonhosa a toda a prova. Os debates que podiam ter sido realizados para esclarecer a opinião pública sobre a instituição união europeia e as implicações da integração do nosso país sob o domínio desse hemisfério político, à semelhança do que aconteceu com a nossa vizinha Espanha, em que os partidos se juntavam em tertúlia nos debates televisivos, o que se passou entre nós foi a disputa partidária, até à exaustão, pelos poucos lugares que nos estavam destinados. A consequência dessa menoridade política foi o elevado índice de abstenção com o qual os eleitores se dignaram brindar as nossas instituições politico-partidárias.

É neste clima de verdadeira inépcia política, em que a maior parte dos cidadãos, não está minimamente preparada, por falta de conhecimento da matéria, para poder opinar sobre o que quer que seja que envolva o nosso país num regime de observância de normas comunitariamente pré-estabelecidas, do plano jurídico, económico e social, que os nossos políticos, nomeadamente os da oposição, pretendem referendar aquele que irá ser o futuro Tratado (mini-Tratado ou Tratado simplificado)  Constitucional Europeu.

A cimeira do G8  acabou por dar lugar a um entendimento particular entre os três principais actores da cena política europeia  - Angela Merkel, Blair e Sarkosy –  no sentido da ratificação de um tratado por via parlamentar como opção ao recurso ao referendo, destinado a potenciar a reforma das instituições da União Europeia no seguimento do seu rápido alargamento. No contexto europeu, veio a verificar-se eficaz a eleição de Sarkosy, agora com força acrescida pela vitória expressiva do seu partido nas eleições legislativas, como a chave para a resolução do impasse provocado pela França ao vetar o tratado em referendo.

Em Portugal, neste momento para a oposição, a realização do referendo transformou-se numa questão essencial, consagrando-se como questão acessória as necessárias e urgentes medidas a tomar com vista ao crescimento económico que se deseja rápido e substantivo, antes que todos nós pereçamos desta doença endémica que nos corrói as entranhas e nos atirará para o mais profundo dos fossos de que há memória na nossa história do passado recente.  

 

Contra o preconceito, pelos direitos das minorias

 

  Andy Warhol, Self-portrait in drag  (transformismo – 1981)

Em homenagem a um dos clássicos da literatura norte-americana, Walt Whitman, admirado e louvado pelos escritores europeus da sua época, cujo desejo,  segundo afirma João Luís Barreto Guimarães, foi sempre o “de cantar em verso livre o homem moderno, o “homem novo”, com uma voz alegre, livre de inibições, enérgica e optimista, humana e humanitária, em contacto íntimo com a natureza e com a grandiloquência da América”, transcrevo seguidamente um belo poema de amor de sua autoria onde ele celebra o sentimento homossexual e a amizade masculina.

... 

QUANDO OUVI PELO FIM DO DIA

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava

a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se

a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.

... 

Walt Whitman 1819-1892

...

(tradução de João Luís Barreto Guimarães)

 

 

"Um homem de muita categoria"

 

... 

“Um homem de muita categoria”, foram as palavras proferidas pela senhora de Jardim Gonçalves, à saída do Palácio da Bolsa no Porto, onde decorreu a Assembleia-Geral do BCP, desta vez o alvo da atenção da esmagadora maioria dos meios de comunicação social.

Não sei se Jardim Gonçalves é ou não um homem de muita categoria, até porque essa consideração é sempre muito subjectiva, dependendo do ponto de vista do analista.

Jardim Gonçalves, foi sobretudo um grande estratega, um gestor com visão, que ganhou a confiança de um determinado número de investidores e que soube aproveitar a fase conjuntural económica favorável no nosso país, em que se entrava num período de estabilidade política e começavam a assomar aos nossos cofres avultadas somas de dinheiro provenientes do fundo social europeu. A economia revitalizou-se. Tornou-se viável a realização de muitos projectos. Abriam-se muitas contas bancárias e solicitavam-se financiamentos, escolhendo sempre a entidade bancária que melhores condições oferecia, em termos de encargos financeiros, da celeridade na resolução, da eficiência dos serviços. O BCP estava na primeira linha - uma vez que a banca encontrava-se praticamente toda nacionalizada - pelo modelo instituído de prestação de serviços, que traduzia um conceito inovador, inédito no sector bancário, de eficiência e modernidade.

Depois de conquistado o mercado e consolidado o seu nome junto da banca nacional, seguiu-se a fase da expansão no mercado interno. Triagem de clientes, aquisição compulsiva de entidades bancárias mais vulneráveis, com o consequente despedimento em massa dos seus funcionários mediante chorudas indemnizações, abertura de inúmeros balcões, renovação da imagem dos existentes, enfim, jorrava dinheiro a rodos. Apesar dos avultados vencimentos pagos aos quadros superiores do grupo, juntamente com um conjunto de regalias mais próximo da ficção do que da realidade, tendo em conta a tabela salarial praticada na função pública e no sector privado em geral, para as mesmas categorias profissionais, o banco apresentava sempre lucros elevadíssimos.

Seguidamente vem a fase da internacionalização que ainda decorre. Esta, foi a vez de o poder político, nomeadamente dos governantes, lhe tirar o tapete. O modo proteccionista que vinha sendo exercido e que favorecia aquela entidade bancária, revelou-se quando o grupo Santarder pretendeu adquirir a totalidade do capital/acções do grupo Champalimaud, em que houve que dividir o bolo em fatias iguais, entre estes dois grandes grupos. Mas, o fenómeno da globalização, acrescido da perda do poder de decisão dos governos dos estados que integram a União Europeia, foi permitindo que a banca estrangeira se instalasse em Portugal, e o mercado já desde si pequeno acabou por ter que ser dividido entre estas várias instâncias económicas, gerando um grau de concorrência que culminou, no caso do BCP, com o encerramento de muitas agências, a rentabilização dos postos de trabalho e a abertura a uma franja de clientes, cuja entrada tinha sido até ali vedada, através dos requisitos exigidos para abertura de conta. 

O BCP é actualmente uma entidade bancária fragilizada, e uma blindagem de estatutos, que anteriormente permitiria reduzir a voracidade com que os grandes grupos económicos absorvem os mais pequenos, em vez de ser uma solução para afastar os “invasores”, é hoje, antes de mais, um caminho para a estagnação que culmina com a consequente perda de projecção no teatro de operações das grandes áreas económicas.

Joe Berardo tem razão. Jardim Gonçalves devia reformar-se definitivamente, deixando, assim, o caminho livre a uma nova geração de gestores que possam trazer a mais-valia necessária a este “projecto bancário”, não através da concentração, mas de uma difusão estruturalmente planificada em que deva assentar a futura trajectória da sua acção.

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O deserto do Poceirão

 

 

Não há dúvida de que a política desgasta. Desgasta os governantes, desgasta a oposição, desgasta os cidadãos, os próprios meios de comunicação já se encontram em avançado estado de desgaste, posto que já passaram a considerar assunto de “prime time” as observações infelizes, feitas pelo Sr. Ministro das Obras Públicas, e que vieram substituir o até agora tido como “tema de capa”, o desaparecimento da pequena Madeleine.

O dossier da construção do novo aeroporto na Ota está a tornar-se num tema altamente polémico e socialmente fracturante, em que as posições dos que defendem a construção naquele sítio e as dos que se lhe opõem, estão de tal forma extremadas que, caminhamos a passos largos para que o diferendo venha a ser “mediado” pela intervenção das forças policiais, obrigadas que se verão a pôr na ordem os partidos da oposição e o partido do governo. É claro que este é um quadro hipotético, inverosímil num país que faz parte da União Europeia, que se pretende actue civilizadamente perante os seus cidadãos. Mas, não estaremos nós mais próximos de um Brasil ou de uma Venezuela, do que de uma Alemanha, de uma Grã-Bretanha ou até mesmo de uma Espanha?

Num país civilizado, este dossier seria debatido dentro dos gabinetes, as informações sobre a sua evolução, veiculadas pelos respectivos gabinetes de imprensa. O Sr. Presidente da República não teria que ser sujeito a fortes pressões no sentido de intervir publicamente com a sua opinião - aqui fazendo-se substituir à tal força policial - posto que esta é uma matéria da competência do governo, não sendo um assunto de Estado,  e compete ao governo tomar a decisão final. É preciso que a oposição respeite a maioria dos votos dos cidadãos que sufragaram o programa do governo que se encontra no exercício das suas funções. Os interesses dos partidos, de per si,  não se podem sobrepor ao interesse nacional que se prende com a premência da construção de um novo aeroporto, e o governo, por sua vez, beneficiando de uma poderosa base de sustentação (que se prende com o prejuízo financeiro traduzido na quebra de receitas, pela impossibilidade prática de companhias aéreas como as de low cost, hoje protagonistas de grande parte do afluxo do tráfego aéreo internacional, não poderem aterrar em Lisboa por razões logísticas) não a utiliza, preferindo alimentar trocadilhos, traduzindo em jogos de palavras o seu patente cansaço motivado por um país em estado de evidente colapso humanitário e cultural.   

 

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Avisos à navegação

 

 

Neste final de semana o CDS/PP mandou vários avisos à navegação. Senão vejamos: os contornos que rodeiam o insólito episódio do anúncio do candidato popular à Câmara Municipal de Lisboa. Começa por ser inédito e termina sem grandes surpresas com a formalização da candidatura de Telmo Correia que, como já era de esperar, e perante a impossibilidade prática de poder ser Maria José Nogueira Pinto, é o militante que se encontra em melhor posição para representar aquele partido nesta eleição municipal.

Sob clima de grande secretismo, fontes deste partido sussuraram aos ouvidos da imprensa o nome de Luís Nobre Guedes que, de entre os quatro possíveis candidatos mencionados por Paulo Portas, todos eles perdedores, este seria o mais perdedor, logo seguido de Teresa Caeiro, Telmo Correia e Paulo Portas. Tenho as minhas dúvidas se PP não ocuparia o honroso 3º lugar na lista da classificação dos candidatos perdedores, passando TC a ocupar o 4º lugar.

Da parte do partido socialista que apresenta um candidato forte e aparentemente não precisa de se entender com ninguém, não foi dado o sinal de que PP tanto esperava, capaz de antecipar a intenção deste partido no sentido de prometer vir a coligar-se com uma segunda força política – neste caso o CDS/PP – caso não venham a estar reunidas as condições que lhe garantam a maioria das intenções de voto à presidência da edilidade. Como isso não aconteceu, PP avançou com Telmo Correia, o candidato mais ganhador entre os quatro perdedores. Por sua vez, TC já fez saber que, no caso em que o PSD obtenha a maioria das intenções de voto, o CDS/PP não irá inviabilizar a gestão camarária, podendo aquele partido contar com a sua colaboração.

Paulo Portas, para minha grande surpresa, continua a cometer os mesmos erros, ou seja, o seu objectivo é estar no exercício do poder custe o que custar, numa condição de subalternização, independentemente do partido que lhe venha a dar essa oportunidade. É a falta de visão estratégica de um partido, ou de um líder, que reunindo todas as condições para se poder afirmar no actual mosaico político-partidário do centro-direita, prefere o “pensar pequeno” do pássaro na mão ao lutar abertamente pela conquista de uma franja da sociedade que intelectualmente nada tem a ver com o conceito tradicional de partidarismo político, pela concepção pró-europeísta que tem dos moldes em que deve vigorar a sua participação na política activa do país, nomeadamente quanto ao “feedback” que os políticos devem esperar dos cidadãos quanto às decisões a tomar sobre as grandes questões nacionais, normalmente resultantes de temas socialmente fracturantes.

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...com um só fósforo ilumino o infinito

 

                       Porto, Rio Douro – fotografia de Carlos Romão

…com um só fósforo ilumino o infinito

Com um só fósforo ilumino o infinito.

E muitas vezes o infinito é algo

muito próximo, um livro, uma chávena

de chá, o teu rosto escondido

na penumbra, o retrato de alguém desconhecido

que de uma praça, acena,

um fio de tabaco, um monograma

num lenço muito branco.

O infinito o mais das vezes é

não mais do que o que toca o coração,

uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo

que a mão ousa tocar, esta chama

que de repente amplia a escuridão

e me torna visível a quem passa

e no clarão acende o seu cigarro.

... 

Amadeu Baptista

"A urgência em corrigir uma lei disparatada"

 .....

O deputado social-democrata Miguel Frasquilho tem vindo a destacar-se ultimamente no mosaico da política partidária deste país, pelas análises aprofundadas e de grande coerência que traz para a praça pública, sobre temas que envolvem grande polémica, temas que estão na ordem do dia, e que, directa ou indirectamente, têm a ver com a reforma da máquina administrativa do Estado.

Concordo com umas análises, discordo de outras, como aquela em que defendia a redução dos impostos, baseando-se no aumento das receitas e no crescimento económico ainda bastante ténue.

Na coluna em que escreve no Jornal de Negócios, “Pensar Economia”, brindou-nos, no passado dia 15, com um artigo muito interessante sobre o caso Paulo Macedo, o Director-Geral das Contribuições e Impostos demissionário,  no trabalho por este desenvolvido no combate à fraude e evasão fiscais e no crescimento das cobranças coercivas que renderam ao Estado um encaixe de capital na ordem dos vários milhares.

Mas, apesar dos resultados obtidos e da “paz social” que conseguiu dentro da “máquina fiscal”, chegando até a receber elogios por parte do sindicato dos trabalhadores dos impostos, o Governo decidiu não renovar a sua comissão de serviço que terminou no passado dia 3 de Maio, baseando-se numa lei que ele próprio aprovou no início da sua legislatura,  que “impede qualquer funcionário público de ganhar mais do que o Primeiro-Ministro (cujo salário bruto, incluindo já despesas de representação, é de pouco mais de EUR 7500).” Como é do conhecimento público, Paulo Macedo foi contratado pela Dra. Manuela Ferreira Leite, então Ministra das Finanças, em regime de requisição, auferindo um salário substancialmente mais elevado dos praticados na Administração Pública, para cargos idênticos.

Porque carga de água é que um técnico que dispõe de uma  determinada condição salarial no sector privado, aceita ir trabalhar para o sector público em que lhe é reduzido, de uma forma substancial, o referido salário? Isso não faz sentido e a acontecer estaríamos seguramente perante mais um caso de corrupção activa, em que, das duas, uma: ou a diferença ser-lhe-ia paga por debaixo da mesa, ou estaria passivamente a aceitar a “transmutação” do seu estatuto de técnico profissional em político profissional, ingressando assim no clube dos oportunistas de carreira, que quando saem do governo, e pelos favores que concederam enquanto detentores de cargos públicos, têm à sua espera no mundo empresarial privado, verdadeiros lugares ao sol, cargos a serem detidos unicamente na base presencial, mas que lhes garantem principescas condições de sobrevivência, de uma forma quase que vitalícia.  
Ao concluir este excelente artigo, Miguel Frasquilho, acrescenta: “E se o Ministro das Finanças ainda recentemente se mostrou contra o enquadramento legal vigente nesta área (a Lei nº 31/2005 foi aprovada no tempo de Luís Campos e Cunha, seu antecessor), pois tem bom remédio: em vez de se ficar pelas críticas, que envide esforços para alterar esta absurda realidade. Que, afinal, foi criada pelo Governo a que pertence!... Isso é que seria coerente… e produtivo. No caso contrário, nunca mais a Administração Pública poderá atrair os melhores e mais competentes quadros. Nunca mais “um Paulo Macedo” exercerá funções na esfera pública.
E o país continuará a marcar passo.”

.....

 

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NUM BAIRRO MODERNO

 

Lisbon by night (ver álbum)

         

          NUM BAIRRO MODERNO

... 

Dez horas da manhã; os transparentes

Matizam uma casa apalaçada;

Pelos jardins estancam-se os nascentes,

E fere a vista, com brancuras quentes,

A larga rua macadamizada.

...

Rez-de-chausée repousam sossegados,

Abriram-se, nalguns, as persianas,

E dum ou doutro, em quartos estucados,

Ou  entre a rama dos papéis pintados,

Reluzem, num almoço, as porcelanas.

...

Como é saudável ter o seu conchego,

E a sua vida fácil! Eu descia,

Sem muita pressa, para o meu emprego,

Aonde agora quasi sempre chego

Com as tonturas duma apoplexia.

...

E rota, pequenina, azafamada,

Notei de costas uma rapariga,

Que no xadrez marmóreo duma escada,

Como um retalho de horta aglomerada,

Pousara, ajoelhando, a sua giga.

...

E eu, apesar do sol, examinei-a:

Pôs-se de pé: ressoam-lhe os tamancos,

E abre-se-lhe o algodão azul da meia,

Se ela se curva, esguedelhada, feia,

E pendurando os seus bracinhos brancos.

...

Do patamar responde-lhe um criado:

‹‹Se te convém, despacha; não converses.

Eu não dou mais.›› E muito descansado,

Atira um cobre lívido, oxidado,

Que vem bater nas faces duns alperces.

...

Subitamente, ? que visão de artista! ?

Se eu transformasse os simples vegetais,

À luz do sol, o intenso colorista,

Num ser humano que se mova e exista

Cheio de belas proporções carnais?!

...

Bóiam aromas, fumos de cozinha;

Com o cabaz às costas, e vergando,

Sobem padeiros, claros de farinha;

E às portas, uma ou outra campainha

Toca, frenética, de vez em quando.

...

E eu recompunha, por anatomia,

Um novo corpo orgânico, aos bocados.

Achava os tons e as formas. Descobria

Uma cabeça numa melancia,

E nuns repolhos seios injectados.

...

As azeitonas, que nos dão o azeite,

Negras e unidas, entre verdes folhos,

São tranças dum cabelo que se ajeite;

E os nabos ? ossos nus, da cor do leite,

E os cachos d’uvas ? os rosários d’olhos.

...

Há colos, ombros, bocas, um semblante

Nas posições de certos frutos. E entre

As hortaliças, túmido, fragrante,

Como d’alguém que tudo aquilo jante,

Surge um melão, que me lembrou um ventre.

...

E, como um feto, enfim, que se dilate,

Vi nos legumes carnes tentadoras,

Sangue na ginja vívida, escarlate,

Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

...

O sol dourava o céu. E a regateira,

Como vendera a sua fresca alface

E dera o ramo de hortelã que cheira,

Voltando-se, gritou-me prazenteira:

‹‹Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...››

...

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;

E, pelas duas asas a quebrar,

Nós levantámos todo aquele peso

Que ao chão de pedra resistia preso,

Com um enorme esforço muscular.

...

‹‹Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!››

E recebi, naquela despedida,

As forças, a alegria, a plenitude,

Que brotam dum excesso de virtude,

Ou duma digestão desconhecida.

...

E enquanto sigo para o lado oposto,

E ao longe rodam umas carruagens,

A pobre afasta-se, ao calor de agosto,

Descolorida nas maçãs do rosto,

E sem quadris na saia de ramagens. 

...

Um pequerrucho rega a trepadeira

Duma janela azul; e, com o ralo

Do regador, parece que joeira

Ou que borrifa estrelas; e a poeira

Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

...

Chegam do gigo emanações sadias,

Oiço um canário ? que infantil chilrada! ?

Lidam ménages entre as gelosias,

E o sol estende, pelas frontarias,

Seus raios de laranja destilada.

...

E pitoresca e audaz, na sua chita,

O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,

Duma desgraça alegre que me incita,

Ela apregoa, magra, enfezadita,

As suas couves repolhudas, largas.

...

E como as grossas pernas dum gigante,

Sem tronco, mas atléticas, inteiras,

Carregam sobre a pobre caminhante,

Sobre a verdura rústica, abundante,

Duas frugais abóboras carneiras.

...

Cesário Verde  (1855-1886)

 

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O PSD e as eleições intercalares na C.M.L.

 

Pça. do Município - Lisboa

 

O PSD soma e segue com as suas tomadas de decisão do mais incongruente que pode haver. Retirou a confiança política a Carmona Rodrigues, instruiu os seus vereadores a pedir a demissão dos seus respectivos cargos, mas, para poder manter a sua posição maioritária na Assembleia Municipal, opta pelas eleições intercalares, o que na prática significa que a  “governance” daquele município limitar-se-à ao exercício de funções de gestão até 2009.

Com este posicionamento perante o conflito gerado, o PSD, indirectamente, está a promover a entrada no desemprego de mais umas quantas centenas de trabalhadores - dois anos é um tempo de espera demasiadamente longo, para as sociedades que aguardam por deferimentos, atribuição de licenças, pareceres, análises técnicas, acompanhamento no terreno, etc., etc., já para não falar nos problemas que surgem diariamente na área de intervenção associada ao apoio ao “pequeno munícipe”, que irão continuar onde sempre estiveram, na esfera do esquecimento -.

Enquanto no nosso país a política e/ou a gestão das instituições públicas se traduzir numa mera bolsa de emprego para os militantes dos partidos políticos que concorrem às eleições, enquanto não se proceder à redução do número de mandatos dos deputados na Assembleia da República e, por analogia, ao número de cargos directivos e de chefia em todos os restantes organismos públicos, privilegiando-se o conhecimento associado à capacidade profissional (ex: caso Paulo Macedo), remunerando-se condignamente e de uma forma transparente esses respectivos quadros executivos, o nosso país não irá passar de um estado satélite cujo destino será sempre o de gravitar em volta da grande confederação dos estados em que, em breve, será transformada a União Europeia.

Independentemente dos candidatos que se apresentarem a eleições e dos partidos que os apoiarem, os lisboetas elegerão sobretudo o candidato que oferecer melhores garantias de execução do mandato, numa perspectiva da resolução das pendências, do saneamento das finanças camarárias, de uma política eficaz de redução de custos. Poderá ser que nenhum dos candidatos venha a preencher esses requisitos, por imposição das cúpulas partidárias que teimam em recrutar os chamados “profissionais da política” que, por sua vez, “acarretam” consigo mais “profissionais da política”, desmerecendo aqueles que são os verdadeiros gestores no quadro de competências estabelecido por lei. Neste caso, os eleitores, cansados que já estão desta longa e inédita “novela”, unicamente consubstanciada na disputa do poder,  saberão corresponder na mesma moeda, exercendo o seu direito de voto sim, mas desta vez elegendo o partido da abstenção.   

 

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Não sei se respondo ou se pergunto

         Escultura de Pedro Figueiredo – Sentido Único (2007)

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UMA VOZ NA PEDRA

... 

Não sei se respondo ou se pergunto.

Sou uma voz que nasceu da penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.

Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.

A minha ebriedade é a da sede e a da chama.

Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.

O que eu amo não sei. Amo em total abandono.

Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta

nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.

Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.

Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.

Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

...

António Ramos Rosa

Sarkolândia: Um assunto que nos diz respeito

..... 

Merece, hoje, destaque neste meu blogue, o post do Pedro Betâmio sobre as eleições presidenciais em França. Comungo da mesma opinião, e lamento que a Europa  dos Estados, ainda não tenha chegado a um consenso sobre a ratificação do Tratado Constitucional Europeu, documento basilar para a união e consequente desenvolvimento de uma Europa cujo papel, em termos de influência geopolítica, está muito aquém das suas reais potencialidades.

 

“Longe das polémicas nacionais, eis que a França se encontra em pelo acto eleitoral para a presidência da república Francesa. O que é que isto tem de importante para Portugal?

É uma pergunta pertinente. Numa primeira abordagem, poderíamos ser tentados a dizer que pouco ou nada pode mudar em relação a Portugal, seja Sarkozy, seja Ségoléne Royal, isto porque os compromissos Europeus são vinculativos e Portugal está apenas dependente de si próprio para cumprir as metas que lhe são impostas pelo pacto de estabilidade, controlar a despesa pública (o deficit) e atingir as metas saudáveis de contenção do desemprego e de qualificação profissional, e seria tudo a dizer sobre o assunto.

Mas, numa abordagem mais atenta, já não parece ser exactamente assim, e em abono da verdade, esperei, esperei, esperei, e até agora, nada de reflexões sobre o que algum dos dois candidatos pode fazer sobre a relação da França com as centenas de milhares de Portugueses e seus descendentes que se encontram radicados na França, sobre a sua posição dos dois finalistas sobre os fundos de coesão europeia ou sobre o FEDER, ou sobre as quotas que cada país deve ter na produção agrícola ou na pesca. Na verdade, o deserto de ideias sobre o rumo a seguir em relação aos parceiros europeus parece total em ambos os candidatos, mal com que nós poderíamos viver bem, não fosse a França um dos maiores contribuintes para os fundos europeus.

Compreende-se que após o chumbo do tratado europeu no referendo e ainda após as escaramuças de rua em Paris e arredores, ambos os candidatos tratem alguns assuntos “com pinças”, mas entre a exultação da “segurança” e do “nacionalismo” francês, feita pela direita dura de Sarkozy (que arrebanhou parte das ideias de Le Pen e do seu “Front National”, inclusive no campo do controle da imigração!), e o mais prudente discurso de Ségoléne Royal, mas que, no fundo remete para os mesmos temas e manifestando as mesmas preocupações nacionalistas, em que é que ficamos afinal?

Julgo que uma conclusão se pode tirar de ambos os finalistas é que a França se mobilizou em massa para votar numa só solução, embora com duas variantes, uma “dura” representada por Sarkozy e outra mais “soft”, representada por Ségoléne Royal.

Na verdade, contas feitas, qualquer um deles uma vez no Eliseu irá promover uma França mais fechada ao exterior, menos participativa nas questões europeias e mais interessada em si própria. E isso pode afectar os nossos compatriotas em França (lembro que Sarkozy não visitou os Portugueses como Jacques Chirac costumava fazer), pode afectar a politica europeia de apoios aos estados pobres do sul da Europa, pode significar uma França menos igualitária e menos fraterna, sinal que na Gália como na Europa, é a “toda poderosa” economia e a sua saúde que conduz as posições sociais e europeias dos respectivos governos.

É que por lá, como por cá, “casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão!”

  

Peço-vos que façam os vossos comentários directamente no post do Pedro Betâmio, por ser ele o autor deste interessante artigo.

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25 de Abril - Como o interpretamos hoje

 

                        Azenhas do Mar – Fotografia de Jorge Coimbra

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Quando começo a escrever este comentário que pretendo seja alusivo ao 25 de Abril, sintonizo o canal de televisão da RPT 1, e dou de caras com um apresentador espanhol que está a fazer o relato histórico dos acontecimentos referentes a esta efeméride, ao abrigo de um programa comemorativo realizado em conjunto com a RTP 1 e um canal de televisão proveniente da Galiza.

Chego à conclusão que, afinal, existe mesmo, da parte do poder institucional, um projecto de controlo dos meios de comunicação, visando não só a filtragem da informação que é distribuída à população pelos canais competentes, como a imposição dos valores culturais espanhóis, incluindo a provável gestão de conteúdos, aos nossos órgãos de comunicação, tendo-se iniciado este processo com a aquisição do quarto canal privado de televisão e respectiva condução no cargo de gestor daquela referida estação de um reputado militante do partido socialista. Adicionalmente, e como quem não perde tempo, a RPT 1 está prestes a transformar-se no canal público de televisão a ser colonizado pelos “nuestros hermanos” aqui mesmo do lado.

Passados que estão 33 anos sobre a revolução de Abril, qual é o legado que nos foi deixado suficientemente digno de comemoração? A liberdade no sentido amplo da palavra. Mas essa faculdade indelével que nos garante o pleno exercício dos nossos direitos começa a perder amplitude, justificando os nossos governantes esse facto através da acção que resulta dos mais variados factores externos: a globalização, o terrorismo, as assimetrias sociais. Para além dos seus medos que eles próprios experimentam, o objectivo é estabelecer uma nova ordem social  em tudo idêntica à anterior, mas, sob o apanágio da democracia. Democracia, essa palavra recorrentemente utilizada, desprovida de sentido, etimologicamente desacreditada, o joio do nosso vocabulário.

Ao fim de todos estes anos, e após terem passado pela Assembleia da República, sucessivos governos oriundos das mais “prestigiadas acreditações político-partidárias”, e, perante os graves problemas sociais com que nos deparamos: desemprego, subnutrição associada ao ressurgimento de novos surtos de doenças, exclusão social, marginalidade, despovoamento, baixos índices de escolaridade, êxodo migratório, chegamos à conclusão que esses sucessivos governos, na sua grande maioria, se têm manifestado incompetentes, autores da pior gestão que se possa imaginar, incapazes de arranjar soluções para os nossos problemas, limitando-se a gerir a crise, perpetuando-a.

Portugal merecia melhor! Os portugueses mereciam melhor! 

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Nothing Really (1997)

 

   Eduardo Batarda vence Grande Prémio EDP 2007

 

 

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na

                                                                                          cara,

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto

                                                                                               tinha           

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais

                                                                                     dinheiro:

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar…).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia..

Sim, eu sou também vadio e pedinte,

E sou-o também por minha culpa.

Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,

É não ser adaptável às normas da vida,

Às normas reais ou sentimentais da vida —

Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,

Não ser pobre a valer, operário explorado,

Não ser doente de uma doença incurável,

Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,

Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas

Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,

E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso

                                                                                     supor.

Não: tudo menos ter razão!

Tudo menos importar-me com a humanidade!

Tudo menos ceder ao humanitarismo!

De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,

Não é ser  vadio e pedinte, o que é corrente:

É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,

É ter pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser

                                                                                    pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievwski ou um Gorki.

Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.

E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente

Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,

E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!

Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!

Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!

Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,

Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,

Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele

Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!

Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!

Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,

Que são pedintes e pedem,

Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!

Mas até nem parvo sou!

Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.

Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

             Já disse: sou lúcido.

             Nada de estéticas com coração: sou lúcido.

             m****! Sou lúcido.

.....

(Álvaro de Campos)

 

Algo vai mal com a Comunicação em Portugal

“Manda quem pode, obedece quem deve”, esta é a expressão recorrente de José Manuel Fernandes, inserida num artigo de opinião do jornal que dirige, a propósito da opinião “perturbante” dada por Maria José Nogueira Pinto numa entrevista ao Diário Económico, em que dizia: "Os únicos políticos que causaram mais impacto nestes últimos 30 anos foram os que perguntaram pouco e fizeram muito: Cavaco Silva e José Sócrates".  O paralelismo estabelecido por aquele jornalista, entre o “modus faciendi” da governação durante a vigência da segunda República e as eventuais práticas políticas adoptadas hoje por José Sócrates, e, anteriormente por Cavaco Silva, mostra como em Portugal, a autodeterminação, a vontade reformista e o ímpeto progressista  de uma liderança política podem ser interpretados pelos media como contribuições redutoras ao desenvolvimento de uma nação, “de uma nação sempre mais habituada a que mandassem nela (e tomassem conta dela)…” segundo afirma aquele editorialista. Aliás, afirma, “desafirmando”, uma vez que o artigo é todo ele um “chove e não molha”, como convém a um jornalista cuja postura pretende fazer justiça à figura do politicamente correcto.

Já no que diz respeito ao conteúdo informativo deste jornal, o “politicamente correcto” parece passar-lhe ao lado,  pela sequência de inverdades que tem vindo a publicar no caso do processo de obtenção da licenciatura de José Sócrates, e que foram oportunamente contraditadas pelo próprio. A não-noticia também tem vindo a ser apanágio daquele diário como forma de bajulação ao presidente do grupo Sonae; em suma, sob pena de se pensar que estamos perante um caso de interferência na linha editorial deste jornal, pela posição desfavorável ao grupo que o governo acabou por tomar na questão da OPA à PT, é de lamentar que um jornal de referência como sempre o foi o Público, tenha que vir, no futuro a recorrer à técnica de marketing do brinde, como forma de assegurar a sua sobrevivência.

Por último, deixo aqui um link de um trabalho de investigação feito por um jornalista do diário espanhol, El Pais, sobre “o bairro esquecido da Cova da Moura”, conteúdos com os quais a nossa imprensa escrita se deveria preocupar mais, por fazerem parte de uma realidade sócio-cultural que se pretende seja erradicada o mais depressa possível, em nome de uma sociedade mais equitativa, porquanto menos sujeita  à atracção de pólos de discórdia motivados pelas injustiças sociais.

 

A alegoria do naufrágio

 

Luís Azevedo, também membro desta comunidade e comentador-residente deste espaço privado de debate político, escreveu um post bastante interessante intitulando-o de “História Trágico-Marítima”, em que começa por estabelecer um paralelo entre a situação política e económica do nosso país, e os contornos que revestem a antecipação de um eminente naufrágio, abrindo, assim, o caminho à alegoria, em que a realidade por momentos abstracta (?) é comparada com uma realidade concreta que é do domínio do nosso conhecimento.

(…)

“O navio é já do seculo XX, com casco de aço. Embora antigo, é sólido e tem uma boa máquina, já muito usada mas vai funcionando. Consome demais e fumega um bom bocado, mas desde que não seja em frente às câmaras de televisão ou de alguma praia cheia de ecologistas fundamentalistas, vai andando. No entanto, está realmente a meter agua.

O problema foi detectado há já algum tempo, mas a bordo ainda não conseguiram dar com ele em toda a sua extensão. Também não se preocuparam muito, as bombas de esgoto vão funcionando, e os oficiais combinaram entre eles mandar os relatórios diários para o Armador (sediado em Bruxelas), sem fazer referencia ao problema. Conscientes da sua responsabilidade, preferiram no entanto ir esticando a corda. Poupam dissabores e responsabilidades perante o Armador, vão confiando nas bombas de esgoto, e quando passarem o comando a outros escusam de entrar em grandes detalhes. O novo comandante irá a seu tempo dar pelo problema e, muito provavelmente, irá continuando a esticar a corda. Se a corda partir entretanto, paciência, entre mortos e feridos alguém há-de escapar...

Os tripulantes, esses, também já deram por isso. Alguns, em conjunto com alguns oficiais júniores, até já se aperceberam que a situação é muito mais grave do que pensam os oficiais seniores, e convenceram-se que não há reparação possível antes do próximo porto. Percebem agora o fundamento de uns rumores que correm pela messe há já algum tempo, relatando a história dalguns marinheiros que desembarcaram meio à pressa antes do fim do contrato, e estão agora a trabalhar noutros navios.
Mas há outros, que gostam tanto daquele navio, que se recusam a desembarcar, mesmo perante a iminência dum naufrágio. Esses, à socapa, começaram a juntar víveres e agua nos salva vidas e a ver se estavam todos em condições, para tentar a sua sorte no mar alto quando o navio afundar.

O armador, esse, finge que não sabe de nada, mas está careca de saber o que se passa a bordo. Entrou no jogo de faz de conta dos oficiais, e não se rala muito. O resto da frota vai funcionando, e acaba de fechar negócio para incorporar dez novos navios na sua frota (nesta altura tinha acabado de ser anunciado o alargamento da CEE dos 15 para 25). Embora usados, não metem tanta agua e têm uma exploração mais rentável.
Se o velho navio afundar, o seguro há-de servir para remediar a situação. Quanto à capacidade de carga perdida, não é grave. Com umas pequenas beneficiações nas dez novas unidades e uma reestruturação dos serviços, a capacidade da frota há-de ser reposta.

Quanto ao pessoal, não se preocupam muito. Alguns oficiais terão os seus lugares garantidos na sede do Armador com funções em terra. Dos restantes oficiais e tripulantes, alguns poderão vir a embarcar noutros navios.Quantos aos outros, problema deles. Que não deixassem o navio afundar, e já não estariam nestes apuros.

Boa noite a todos.

p.s. Os oficiais, obviamente, foram todos formados nas principais escolas do pais, PP,PSD,PS,PC,BE,etc....”

Peço-vos que deixem os vossos comentários no post do Luís Azevedo, onde encontrarão também uma introdução ao texto que aqui não transcrevi.

Publicado por FernandaValente | (Comments Off)
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