SOL
Casa Pia: uma sentença exemplar
10 Setembro 10 10:01

Fátima Campos Ferreira lidera há vários anos o grande programa de debate da televisão portuguesa.

É certo que uma vez ou outra faz concessões ao poder, e que nem sempre o critério de escolha dos convidados é muito compreensível – mas, em termos globais, o saldo é muitíssimo positivo.

O último Prós e Contras foi sobre a sentença do caso Casa Pia – e alguns dos defeitos do programa vieram ao de cima.

As escolhas de Marinho Pinto, bastonário dos advogados, e de Rui Rangel, juiz, foram razoáveis; mas o mesmo não pode dizer-se dos convites a José Manuel Fernandes e Daniel Oliveira. O que fizeram ou escreveram eles de muito relevante sobre o caso para estarem ali? Aliás, os seus depoimentos mostraram isso: não tinham nada de original ou interessante para dizer.

Também a presença de Adelino Granja era dispensável, sabendo-se ser uma pessoa confusa, pouco afirmativa – estando a léguas de outro casapiano ofendido: Pedro Namora.

Intencionalmente ou não, a escolha dos convidados acabou, pois, por dar alguma vantagem aos arguidos.

 

O momento mais interessante do debate foi quando Fátima Campos Ferreira, depois de Marinho Pinto acabar a sua intervenção – onde tinha falado, entre outras coisas, do exagero das penas –, lhe perguntou de chofre:

– E as vítimas?

– As vítimas, o quê? – surpreendeu-se Marinho.

– Não quer dizer nada sobre as vítimas?

Marinho Pinto gaguejou, balbuciou umas palavras anódinas – e acabou por voltar à defesa dos arguidos, dizendo que as sentenças não devem ter que ver com as vítimas.

Para ele, as vítimas ali não tinham qualquer importância.

Percebeu-se que, naquele debate, o que importava para Marinho era defender Carlos Cruz, Jorge Ritto e os mais condenados, sendo para ele totalmente irrelevante o facto de haver ou não haver vítimas e o que foi feito delas.

 

Ninguém pode dizer com total segurança se as sentenças são justas ou não – e, mesmo, se os arguidos são culpados ou não.

Mas, não sabendo nós isto, uma coisa podemos afirmar: esta sentença foi decisiva para credibilizar a Justiça portuguesa.

Estava a criar-se no país um perigosíssimo ambiente de impunidade.

Iam ocorrendo crimes, iam-se sucedendo os casos – mas nunca havia culpados.

O caso Apito Dourado foi o que se sabe – mas Pinto da Costa saiu do tribunal a rir-se da Justiça.

O caso Freeport foi o que se sabe – mas o processo não chegou ao fim e José Sócrates (que na altura era o responsável máximo pelo Ministério que esteve no centro de toda a polémica – o do Ambiente) nem sequer foi ouvido.

O caso Face Oculta arrisca-se a ficar em águas de bacalhau, com destruição de provas, apesar de todas as evidências reveladas pelas escutas telefónicas.

Estava, pois, a instalar-se no país – repito – um clima de absoluta impunidade.

Começava a achar-se que as pessoas podiam fazer crimes à vontade e que nada lhes acontecia.

Ninguém era condenado, os responsáveis passavam entre os pingos da chuva.

Ora esta sentença da Casa Pia teve o mérito de dizer que ainda não somos uma república das bananas, que os crimes se pagam – e podem pagar-se caro.

A Justiça, que já muitos não respeitavam, fez-se respeitar – ou, pelo menos, fez-se temer.

 

Não sei – repito – se os arguidos são todos culpados.

Mas posso dizer, com conhecimento de causa, que com o actual Código Penal é mais fácil um criminoso ser absolvido do que um inocente ser culpado.

Por isso, não percebo o calor posto na defesa dos arguidos por Marinho Pinto e Daniel Oliveira, neste Prós e Contras de que venho a falar.

Não podemos esquecer-nos de que Marinho representa todos os advogados portugueses – e duvido que todos tenham a sua opinião.

Até por isso, a sua posição institucional aconselhava alguma contenção verbal.

Acresce que Marinho Pinto dá ideia de ter dois pesos e duas medidas: quando um processo envolve alguém do PS (Casa Pia, Freeport, Face Oculta) ele sai acaloradamente a terreiro em defesa dos arguidos ou dos suspeitos; mas quando o processo envolve pessoas de outras áreas (Dias Loureiro ou Oliveira Costa, Jardim Gonçalves ou Filipe Pinhal, Duarte Lima) ele remete-se a um rigoroso _silêncio.

E com Daniel Oliveira passa-se aproximadamente o mesmo.

Na segunda-feira insurgia-se contra a condenação prévia dos arguidos pela comunicação social – mas não me lembro que tenha tomado idêntica posição nos casos BCP, BPN ou BPP. Bem pelo contrário.

E além disso cometeu erros históricos.

A direcção do PS não foi decapitada, como afirmou: Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do partido na sequência, não das notícias sobre a Casa Pia, mas da decisão de Jorge Sampaio de dar posse a Santana Lopes como primeiro-ministro.

Foi no dia em que Sampaio divulgou essa decisão – e como protesto contra ela -- que Ferro renunciou ao cargo.

Porque queria que houvesse eleições legislativas imediatas, sob o risco de Sócrates o destronar internamente.

O único que foi ‘decapitado’ foi Paulo Pedroso – mas este ainda não era propriamente um dirigente de grande envergadura…

 

Tudo somado, a sentença da Casa Pia pode iniciar na Justiça portuguesa um tempo novo.

Um tempo em que a sensação de impunidade acabe – e que as pessoas interiorizem a ideia de que os crimes se pagam.

Nesta matéria, como noutras, o mais importante são os sinais que o Estado dá.

Nesta sentença, o sinal que o Estado deu foi no sentido certo.

Agora, só é preciso que tudo passe a acontecer de forma mais célere.

Porque a morosidade dos processos também contribui para a ideia de que se podem praticar crimes sem grandes consequências.

Como diz o ditado, ‘enquanto o pau vai e vem folgam as costas’.

Publicadopor JAS | 13 Comentário(s)    
No trabalho infantil também há ricos e pobres
10 Setembro 10 10:00

Há uns meses, no Correio da Manhã, li esta notícia inesperada: «COLHIDA. O jovem matador de toiros mexicano Michelito, de 12 anos, ficou gravemente ferido durante uma tourada em Cali, na Colômbia. O jovem encontra-se em observação médica num hospital do México».

A notícia impressionou-me tanto que a recortei e guardei, para um dia eventualmente escrever sobre ela.

Na semana passada, o Diário de Notícias, sob o título Acidente mata jovem de 13 anos, publicava num cantinho a seguinte local: «O mítico circuito de Indianápolis foi o palco de mais uma tragédia. O piloto de 13 anos, Peter Lenz, caiu da moto e foi atropelado por um adversário de 12 anos. Acabou por falecer no hospital. O jovem canadiano era visto por muitas das actuais estrelas do motociclismo como o próximo fenómeno da modalidade».

 

Lê-se e relê-se – e custa a acreditar!

Um toureiro com 12 anos? Um corredor de motos com 13 anos? Mas em que planeta isto se passa?

No primeiro caso, ainda poderíamos relativizar a estranheza da ocorrência com o facto de ter acontecido num país da América Latina – numa verdadeira ‘república das bananas’ –, onde os direitos humanos nem sempre são tidos em conta. Mas, no segundo caso, estamos a falar de Indianápolis, nos Estados Unidos, e o jovem que morreu era canadiano.

Há meses escrevi nesta coluna sobre o trabalho infantil autorizado – e até incentivado – pelos poderes instituídos, referindo-me particularmente aos rapazes e raparigas que começam a trabalhar muito cedo com a ilusão de virem a ser estrelas do futebol ou modelos.

São dois tristes estereótipos da nossa época.

Eles sonham ser vedetas dos estádios, como Cristiano Ronaldo, elas sonham desfilar nas passerelles, como Diana Pereira ou Isabel Figueira.

 

E estas ilusões são frequentemente alimentadas pelos pais, que acreditam na possibilidade de virem também a ser ricos e famosos a reboque dos descendentes. Embora jurando que apenas querem o melhor para os seus filhos, é difícil acreditar que não aspirem à fama e ao dinheiro – imaginando-se no papel de mães e pais de grandes estrelas, dando entrevistas às televisões, vivendo em luxuosas mansões e fazendo compras às carradas em lojas de grandes marcas.

Nessa crónica, falei concretamente do caso de Cristiano Ronaldo – que saiu de casa dos pais e veio da Madeira sozinho para Lisboa, com 12 anos, para jogar futebol no Sporting.

Mas que dizer dos pais que incentivam as filhas a deixarem-se fotografar em poses provocantes, enviando as fotos para jornais e revistas na esperança de que venham a ser modelos?

E nem só no futebol e na moda isto acontece. Quem não se lembra do pequeno Saúl, um jovem cantor ‘picante’, que depois do sucesso caiu na lama – ou de Tiago Fernandes, jovem actor do Médico de Família, ainda hoje a cumprir pena por tráfico de droga? E, a outro nível, temos os casos de jovens atletas, jovens ginastas, jovens pianistas, jovens bailarinos, jovens actores de TV a quem não deixam viver a infância, imolados no sonho – quase nunca concretizado – de um dia serem estrelas.

 

Eu tive a sorte de não ter pais com estas ideias – e por isso tive uma infância e uma adolescência absolutamente normais, brincando com os miúdos da minha rua e experimentando tudo aquilo que é normal fazer nessas idades.

Aliás, o meu pai foi para o estrangeiro quando eu tinha apenas dez anos – e a minha mãe era professora, trabalhava muitas horas e não dispunha de tempo para traçar ‘destinos’ para os filhos. E também (é bom que se diga) ainda não se vivia esta época de fantasia em que se sonha com a fama como quem aposta no Euromilhões.

Mas, enquanto o trabalho infantil dos candidatos a vedetas tem lugar à luz do dia – ou mesmo sob os holofotes das televisões – e ninguém o contesta, os miúdos que ajudam os pais a servir à mesa em cafezinhos ou restaurantes de província, nas férias ou aos fins-_-de-semana, são duramente perseguidos pela Inspecção do Trabalho.

 

Aqui, como em muitas outras coisas, a nossa sociedade evoluiu no sentido contrário ao que o bom senso aconselhava. O excessivo ‘legalismo’ conduz muitas vezes a isto. Quantas histórias não conhecemos de miúdos que começaram a trabalhar com os pais, se tornaram sócios deles e depois herdaram os seus negócios? Haverá algum mal nisso? Não será preferível os miúdos terem ocupação em vez de andarem a arrastar-se sem objectivo, ganhando às vezes hábitos duvidosos, engrossando as fileiras da delinquência, da prostituição e da droga?

Será um crime ajudar os pais ou os tios nas férias, em trabalhos que raramente são violentos, aprendendo uma profissão e ganhando experiência para assumir a liderança do negócio da família?

 

Curiosamente, também no trabalho infantil se estabeleceu uma clara distinção entre ‘profissões ricas’ e ‘profissões pobres’. Os futebolistas e as modelos (que quando acabam as carreiras na passerelle aspiram a apresentar programas na TV) são profissões ricas, onde se pode ganhar muito dinheiro e fama – e por isso aí o trabalho infantil é tolerado. Os empregaditos de café ou de uma oficinazeca de carpintaria ou de automóveis nunca serão famosos – e por isso nessa área o trabalho infantil é duramente perseguido.

Claro que estas crianças que lidam toiros na arena ou correm em motos em pistas a sério ultrapassam todos os limites do tolerável. Porque aí não são só os pais a autorizá-los a fazer o que fazem, não são só as autoridades a promover esses eventos – é também o público a divertir-se com o espectáculo de crianças a arriscar a vida e às vezes a morrer na pista ou na arena.

Como é possível haver espectadores que exultam a ver meninos tourear touros em pontas ou a correr em motos a duzentos e tal à hora?

 

Para os jovens que servem à mesa ou ajudam na carpintaria, porventura ganhando uma profissão, a tolerância é zero – não só em Portugal mas em todo o mundo chamado ‘civilizado’. Mas para o trabalho infantil dos aspirantes a futebolistas, a modelos, a actores de TV, a pianistas, a bailarinos, a toureiros ou a corredores de motos a tolerância é máxima.

É difícil perceber o mundo em que nos movemos.

Publicadopor JAS | 4 Comentário(s)    
A luta de classes acabou
03 Setembro 10 10:01

 

A crise veio relançar o debate à esquerda.

Mário Soares põe reticências a Sócrates (embora ainda o apoie) e defende, no fundo, um regresso ao passado – um regresso da esquerda não comunista aos ‘bons velhos tempos’ de Willy Brandt, Olof Palme, Mitterrand e… ele próprio.

Alegre, na mesma linha, já acusou  Sócrates  de  trair  o património do PS.

Os líderes do Bloco de Esquerda acusam os socialistas de defenderem os ricos, protegerem os banqueiros e os grandes empresários, e desprezarem os que mais precisam.

Os  socialistas  acusam  o BE  de  irresponsabilidade  e aventureirismo.

O  PCP  diz  que  o  PS  se vendeu à direita e acusa o BE de um certo diletantismo.

E as acusações podiam prosseguir interminavelmente.

 

É preciso ter em conta que a esquerda é, por natureza, mais utópica e a direita mais pragmática – por isso, assistimos à esquerda a discussões ideológicas que são impensáveis à direita.

Caricaturando, pode dizer-se que, enquanto a direita ‘faz’, a esquerda ‘discute’.

Sendo utópica e voluntarista, a esquerda está sempre a construir modelos, castelos no ar, a produzir teorias.

A direita parte da realidade para a procurar gerir.

A esquerda quer mudar a realidade, quer transformá-la – o que só é possível fazer de cima para baixo, a partir do Governo; por isso, os partidos comunistas estabeleceram como primeiro objectivo ocupar o Estado para depois transformarem a sociedade (se fosse preciso, à força).

Sabemos  como  esse  modelo  acabou.

 

Mas também a esquerda não comunista – a esquerda socialista ou social-democrata – vive de ideais e por isso não dispensa a ideologia.

O grande problema da nossa época é que o conceito subjacente a todas as ideologias de esquerda – a luta dos trabalhadores contra os patrões, com vista a uma maior igualdade social –  está  irremediavelmente ultrapassado.

Com a globalização, com as deslocalizações, com as concentrações, a ideia de que a sociedade vai mudar através da luta dos trabalhadores contra os patrões perdeu o sentido.

Hoje, na maioria dos casos, os trabalhadores não têm ‘um patrão’ – ou seja, um indivíduo que detém a propriedade da empresa e explora os empregados. As empresas, os grupos, têm milhares de accionistas anónimos – e os inimigos dos trabalhadores já não são os accionistas das suas empresas, não são os seus patrões, mas sim as outras empresas e os outros grupos que actuam no mesmo ramo e lhes podem roubar o emprego.

 

O inimigo, para os operários de uma fábrica da Renault, não são os accionistas nem tão-pouco os administradores dessa fábrica – são os trabalhadores de outras zonas do mundo que praticam salários mais baixos e para onde a fábrica pode ser deslocalizada, roubando-lhes o emprego.

Os administradores de uma fábrica da Renault e os respectivos operários não são adversários mas sim aliados – porque navegam no mesmo barco; os adversários são as outras fábricas que com ela concorrem.

 

Sucede, ainda, que os ajustes que há que fazer no capitalismo, por via da entrada em cena de países como a Rússia, a China, a Índia, o Brasil, etc., vão obrigar os trabalhadores do Ocidente a perder poder de compra e regalias.

Assim,  todo  o  arsenal ideológico baseado na ideia da luta de classes e nas reivindicações operárias está hoje obsoleto.

A queda do Muro de Berlim, primeiro, a globalização, depois, não arrastou só o comunismo – arrastou também toda uma maneira de pensar que, com menos ou mais nuances, era património da esquerda.

 

A esquerda tem, pois, de  começar  a  pensar de  outra  maneira.

E não é olhando para trás, como propõe Soares – mas olhando para a frente, para o que aí vem.

Sem hipóteses de resolver este problema, José Sócrates tem feito equilibrismo no arame: não se coloca à esquerda nem à direita, ‘dorme’ com os empresários e pisca o olho aos esquerdistas.

Mas  talvez  a  esquerda não  tenha  outro  caminho  se  não  este.

Veja-se  o que  aconteceu no  caso  do  negócio  PT-_-Vivo-Telefónica.

O Governo começou por bater  o    à  venda,  falando do «interesse estratégico» do  país  e  indo  mesmo  ao ponto  de  vetar  a  operação.

Mas não teve margem para resistir muito tempo.

E, menos de um mês depois, teve de meter o nacionalismo na gaveta e render-se à lógica capitalista.

A ideologia já não tem força para se opor ao mercado.

É esta a verdade.

A luta de classes definitivamente acabou.

Publicadopor JAS | 14 Comentário(s)    
Quantos litros de água gastou hoje?
03 Setembro 10 10:00

Todos os especialistas dizem que o grande problema deste século vai ser a água. Que as próximas grandes guerras vão ser pelo controlo da água. Que, ao pé dos conflitos originados pelo petróleo, as lutas pela água serão dez vezes mais violentas. Porque a falta do petróleo põe em causa, em última análise, um modelo de civilização – mas a falta de água potável porá em causa a vida humana.

A nível do Globo, este problema tem duas faces: em largas zonas do Oriente, de África e mesmo da América Latina ainda há muitas populações sem água canalizada e com difícil acesso à água potável. Mas, simultaneamente, há outras zonas do Planeta onde se esbanja água a rodos.

 

Portugal está num tempo de ‘transição’. Quem não se lembra da Aldeia da Roupa Branca, em que as mulheres ainda lavavam a roupa no rio? E noutras vilas e aldeias iam lavá-la no tanque público. E deslocavam-se à fonte com bilhas de barro para buscar água para beber.

Estamos, pois, muito perto do tempo em que o acesso à água implicava muito esforço. Mas, simultaneamente, já vivemos numa época em que deixar uma torneira aberta ou mal fechada é uma atitude banal.

 

Ainda há portugueses que nunca souberam o que era ter em casa água canalizada – mas, em compensação, há outros que já nasceram com a água a correr nas torneiras, bastando rodar o manípulo para ela jorrar. E àquilo que se obtém facilmente não se dá valor.

A propósito: o leitor fará uma pequena ideia dos litros de água que consome durante um dia? Imagine que bebe dois litros, que corre o autoclismo cinco vezes, que toma um duche, que lava as mãos seis vezes e os dentes duas.

Pense ainda na água gasta a fazer a sua comida e a lavar a sua louça. Sabe quanto isso representará? Cerca de 120 litros. E – repare – toda essa água que consome é potável, é água tratada, bacteriologicamente pura, cujo tratamento implicou um grande investimento.

 

A abundância de água nas sociedades desenvolvidas conduziu a desperdícios que metem dó. Há regas excessivas e despropositadas, canos rebentados que não são reparados, piscinas que são cheias e vazadas todos os anos, etc.

Curiosamente, nalguns locais públicos foram instaladas umas torneiras supostamente inventadas para poupar água – mas que ainda gastam mais. São umas engenhocas que, no lugar do manípulo, têm uma mola – na qual se carrega e a torneira fica a deitar água durante um certo tempo. Só que às vezes é tempo a menos (e torna-se preciso carregar e voltar a carregar, desperdiçando muito líquido) e outras vezes é tempo a mais (e a água continua a correr depois de lavarmos as mãos).

Esta questão das torneiras parece comezinha mas é decisiva. Porquê? Porque é simbólica. Desperdiçar ou não água numa torneira dá a medida da sensibilização de todos para este problema.

As pessoas devem meter na cabeça que a água é um bem escasso – e têm de aprender a poupá-la.

 

É claro que isso passa também pelos poderes públicos.

É uma estupidez, por exemplo, regar as culturas, os jardins ou os campos de golfe com água tratada como se fosse para beber. Que sentido tem regar com água bacteriologicamente pura terrenos que foram (ou vão ser) fertilizados? A água não desinfectada até teria a vantagem de já conter algum adubo...

E o mesmo pode dizer-se para os autoclismos. O meu prédio tem 15 andares e três fogos por andar. Imaginemos que em cada andar vivem em média três pessoas – e que accionam o autoclismo 10 vezes por dia (o que é pouco). Como o autoclismo tem 15 litros, neste prédio gastam-se desnecessariamente por dia sete mil litros de água potável!

Rigorosamente, a água tratada só deveria ser usada para beber. Lembro-me de que, ainda não há muitos anos, muitas localidades em Espanha tinham junto às torneiras o aviso «Agua no potable». E nos comboios e nos aviões também existe esta indicação.

Mas aceitemos não levar o zelo tão longe – e admitir que, em todas as torneiras das habitações e lugares públicos (lavatórios, banheiras, lava--louças, máquinas de lavar), correrá sempre água potável.

Mas nos autoclismos isso deverá deixar de acontecer.

E as águas para as regas também deverão deixar de ser tratadas.

É certo que isto acarretará um investimento importante em canalizações – que começarão a ter de ser diferenciadas. Mas tal teria sempre de ser feito – e, portanto, o melhor é começar já. E no futuro poupar-se-á brutalmente em tratamentos.

 

O que se diz para as regas e para os autoclismos é também válido para as lavagens das ruas e para os incêndios. Que sentido faz apagar fogos com água potável? Ou lavar as ruas com água igualzinha à que usamos para beber?

Existe a ideia de que, se um dia faltar a água doce, haverá sempre a possibilidade de recurso à água do mar. Aos ‘grandes reservatórios’ que são os oceanos (os quais representam 97% da água total do Globo), dessalinizando as águas e tornando-as bebíveis.

Ora isso, sendo teoricamente possível, é uma ilusão. Porque a dessalinização da água dos mares é um processo dispendiosíssimo – e com custos muito elevados em consumo de energia. Estão a ser desenvolvidos outros processos, como a osmose reversa, mas requerem enormes investimentos e implicam riscos.

 

Portanto, caros leitores, o melhor é começarmos desde já a poupar água. Não é preciso grandes receitas para isso. Basta que interiorizemos esta ideia muito simples: a água é um bem escasso e que pode esgotar-se. Isto levar-nos-á a mudar muitos hábitos e a poupar muita água. E o aumento significativo do preço do metro cúbico também terá aí um efeito dissuasor.

Fechar as torneiras, não estar muito tempo no duche e esperar que a médio prazo a água potável deixe de ser usada para as regas, para a lavagem das ruas, para os autoclismos domésticos, para certos fins industriais, para as explorações de animais, para os incêndios – é esta a receita.

 

Pense-se, a finalizar, que algumas populações do chamado Terceiro Mundo que ainda não têm em casa água canalizada irão progressivamente aceder a ela. E a tendência será para gastarem muito mais. Ora isso representará milhões e milhões de novos consumidores – e muitos biliões de litros de água potável consumidos a mais todos os dias.

Se não se começar desde já a pôr em prática a nível mundial medidas de poupança, se continuar a gastar-_-se água potável para tudo, até quando teremos água para beber?

Publicadopor JAS | 1 Comentário(s)    
Anti-socrático, eu?
27 Agosto 10 10:00

Os portugueses gostam de rótulos. Perguntam-me muitas vezes: «De que partido é o senhor?».

O facto de as pessoas não saberem se um fulano é do partido A ou do partido B enerva-as, intranquiliza-as.

Não se admite que um indivíduo seja capaz de avaliar um político independentemente da sua cor partidária.

Que seja capaz de olhar a realidade com olhos limpos e não com os óculos necessariamente embaciados dos adeptos do Benfica, do FC Porto ou do Sporting.

Quando alguém se diz ‘independente’, respondem logo: «Isso são tretas. No momento da verdade, todos se encostam a um lado».

Não se acredita que um comentador possa ser isento.

 

Ao SOL e a mim têm-nos atribuído as mais terríveis intenções.

Dizem que queremos mal ao primeiro-ministro e desejamos a sua queda, que desde o primeiro dia nos empenhámos no descrédito do Governo socialista, que as nossas manchetes sobre o Freeport e o Face Oculta tinham um objectivo político preciso, etc.

Assim, antes de ir de férias, dediquei-me ao exercício de ler o que tenho escrito sobre José Sócrates.

E aqui deixo à reflexão do leitor as seguintes frases:

 

«Sócrates assumiu o poder e sabe usá-lo. Traça metas e é obstinado a cumpri-las, não teme manifestações de rua nem entra no diz-se-diz-se, tem o sentido da concretização. Numa palavra, governa. No estilo, distancia-se de Guterres, o seu padrinho, e aproxima-se de Cavaco, mesmo nos tiques autoritários. Preocupa-se com a eficiência da economia e, quanto à ideologia, deixa--a para os temas marginais, como o aborto».

 

«Enquanto Guterres era redondo e gostava mais de falar do que de fazer, Sócrates é anguloso e faz mais do que fala. Ou, por outras palavras, fala pouco mas decide».

 

«Sócrates tem qualidades para ser primeiro-ministro. Decide com rapidez, é obstinado, corta a direito, mostra uma invejável resistência física e anímica, não teme a mudança, tem um certo carisma. Além disso, é combativo, estuda as questões, fala com clareza e é incisivo, sabe resistir a pressões, tem capacidade de liderança e noção do que é ‘construir poder’».

«A POLÉMICA em torno da licenciatura do primeiro-ministro é mesquinha e um tanto parola. Tem que ver com a obsessão nacional em relação aos canudos, aos títulos de ‘senhor dr.’ ou ‘senhor eng.’».

 

«Sócrates não gosta de mexer no Governo. E como eu o entendo! Mudar de ministro tem os seus custos – e as equipas precisam de estabilidade e tranquilidade».

 

«O primeiro-ministro tem um olho no burro e outro no cigano: satisfaz os homens de negócios garantindo-_-lhes o apoio do Estado – e satisfaz a esquerda ideológica com promessas ‘fracturantes’».

 

«Trocando a ideologia pela tecnocracia, Sócrates agrada aos empresários. Substituindo o esclarecimento pelo marketing, Sócrates conquista as classes mais iletradas. Adoptando um estilo nouveau et intéressant, Sócrates insinua-se junto do eleitorado jovem».

«Com estas armas, o Governo do PS é neste momento uma praça-forte perante a qual todos os esforços dos adversários serão inglórios. Não vale a pena a oposição gritar».

 

«O PS TEM condições para fazer as reformas sociais que o PSD nunca poderia fazer. Certas reformas têm de ter o apoio de um grande partido de esquerda, como o Partido Socialista. Os empresários sabem-no e o povo intui-o».

 

«O Governo reagiu bem à crise financeira e económica e o ministro da Finanças tem revelado bom senso e capacidade para transmitir confiança».

 

«Neste período de crise, em que toda a gente teme o futuro, é sensato estar de bem com o Governo. Sócrates surge assim, hoje, como um pequeno monarca».

 

«Sócrates foi convincente a descrever o modo como o Governo enfrentou a crise e a explicar as razões por que não deixou cair a banca. Foi hábil a focalizar a questão do crescimento da dívida externa na importação de energia. Foi diplomático a comentar os diferendos com o Presidente da República. Foi cauteloso a falar de Manuel Alegre».

 

«A maioria do eleitorado jogará pelo seguro e isso beneficiará Sócrates. Um Governo novo é um melão por abrir – e poucos têm disponibilidade para experimentar melões em tempo de crise».

 

«Sócrates foi melhor candidato que Ferreira Leite. Ora, dispondo do melhor candidato e da melhor máquina eleitoral, o PS tem tudo para garantir uma vitória tranquila».

 

«Sócrates formou um Governo com um núcleo duro forte e ministros sectoriais com pouco perfil político. Fez bem. Se eu fosse primeiro-ministro, era o que faria».

 

Penso que estas frases dizem tudo.

Poucos socialistas seriam capazes de o dizer melhor.

Publicadopor JAS | 17 Comentário(s)    
Sinais de decadência
27 Agosto 10 09:59

Regularmente escrevo nesta rubrica sobre usos e costumes da nossa época. Gosto de observar as pessoas, o modo como se vestem, como se comportam, e isso dá-me muitas vezes pretexto para comentários críticos.

Sei que, ao criticar – ou mesmo ridicularizar – certas modas e formas de vestir, corro o risco de me considerarem old fashion. Mas isso é pouco importante. O prazer que a escrita destes textos me proporciona compensa largamente todos os ataques de que seja alvo.

Além disso, não quero fazer a figura dos súbditos que aplaudiam o rei nu acreditando que ele estava coberto com os mais belos tecidos...

 

Começo esta crónica dedicada a ‘sete aberrações’ falando do cabelo.

Hoje é vulgar ver pessoas que parecem ter saído do chuveiro naquele instante, com o cabelo encharcado e todo aos bicos. O Cristiano Ronaldo é um exemplo. De início cheguei a pensar que se tratava de desleixo, mas depois comecei a perceber que não era defeito – era feitio. Que aquele cabelo desordenado não resultava de um descuido mas sim do trabalho árduo de um cabeleireiro certamente bem pago.

Não se percebe bem a lógica destes ‘penteados’, porque eles não parecem obedecer a nenhuma regra. O objectivo deverá, portanto, ser mesmo esse: contestar as regras. Há hoje miúdos que vão ao cabeleireiro e pedem penteados ‘à Cristiano Ronaldo’ – vindo de lá com os cabelos em pé e tufos em vários sentidos.

Estes penteados ‘despenteados’ são a primeira aberração.

 

Passemos ao rosto. Hoje põem-se piercings em toda a parte: nas sobrancelhas, nas orelhas, no nariz, nos lábios, na língua, nas bochechas.

Ora, basta pensar no incómodo que provoca um pedacinho de comida entre os dentes (e por isso se inventaram os palitos…), para se ter a medida do enorme mal-estar que representará trazer sempre dentro da boca um objecto estranho. Sentir-se na língua, no lábio, na bochecha um pedaço de metal que está ali a mais.

Os piercings são, evidentemente, uma aberração – a segunda.

 

Olhemos agora para o corpo – e concentremo-nos nas tatuagens.

Quando sujamos a pele com qualquer coisa – tinta, óleo, gordura, etc. – apressamo-nos a lavar a parte suja, porque gostamos de ver (e sentir) a pele do nosso corpo limpa, sem máculas. A beleza da nudez também tem a ver com isso: com a exposição do corpo na sua verdade, sem nada a manchá-lo.

Pois é isto que as tatuagens não permitem: os tatuados andam sempre com manchas no corpo, maiores ou mais pequenas, como se fosse sujidade para toda a vida. É possível que, num determinado período da sua existência, eles achem graça a isso. Mas, passado esse tempo, devem sentir em muitas ocasiões vontade de chorar. Ao verem-se ao espelho, devem desesperar – sabendo que só se livrarão daquelas manchas na altura da morte. E desesperarão tanto mais quanto maior for a área do corpo tatuada.

As tatuagens são a terceira aberração que registo hoje.

 

A próxima tem a ver com as mãos. As pessoas, em geral, gostam de ter as mãos livres. Sendo as mãos a nossa principal ferramenta, devem estar desimpedidas.

Mas há agora a mania de fazer os punhos das camisas compridos – para cobrirem metade das mãos. E as pessoas ainda os puxam mais para baixo, só ficando com os dedos de fora.

Creio que esta moda apenas existe para contrariar o hábito (antigo) de dobrar as mangas das camisas para cima, libertando as mãos e os próprios pulsos.

Os punhos das camisas compridos são a nossa quarta aberração.

 

Passo às calças. Àquelas calças que já se compram manchadas, esgaçadas e rotas. Já falei disto noutra altura, mas insisto: como é possível vender-se em lojas de roupa nova peças de vestuário que não deviam sequer figurar em lojas de roupa usada?

É um nonsense. Uma coisa sem sentido. Um absurdo. Uma parvoíce tão grande que só se perceberia como provocação ultra-minoritária. O incompreensível é que se tenha generalizado e tornado moda.

Chegámos ao ponto de as lojas de roupa ‘normal’ (ou seja, como é suposto estar quando sai da fábrica) serem tidas como ‘desactualizadas’ – enquanto os estabelecimentos de roupa gasta, descolorida, cheia de rasgões, são cool.

As calças são ainda objecto de outra malfeitoria: certas pessoas cortam-lhes em baixo as costuras laterais, para cobrirem os sapatos e andarem a arrastar pelo chão (atrapalhando o andar e ficando com um aspecto nojento).

As calças rasgadas e cortadas de lado são a quinta aberração.

 

Analisemos agora as calças descaídas, de que também já falei em crónica anterior.

Um dia destes vi um jovem de 15 ou 16 anos a entrar numa casa de pronto-_-a-vestir que existe ao lado da loja da Nespresso, no Chiado. Chamou-me a atenção porque ia a subir os degraus com as pernas completamente abertas, quase a fazer a espargata. Pensei que era aleijado. Mas depois reparei que levava o cinto por baixo do rabo, já na zona das coxas, pelo que tinha de andar assim para as calças não caírem. Há muita gente que anda com as calças a meio do rabo, mostrando parte das cuecas – mas calças com o cinto apertado já nas pernas nunca tinha visto.

O cinto inventou-se, obviamente, para ser apertado na zona das ancas – que é onde tem sustentação. Se for mais abaixo, naturalmente escorrega. E andar com as calças a escorregar pelo corpo abaixo é uma sensação muito incómoda.

Além de que os portugueses têm geralmente as pernas curtas (aquilo a que se chama ‘rodas baixas’) e as calças descaídas ainda os tornam mais atarracados.

Esta é, portanto, a sexta aberração.

 

Muita coisa havia a dizer sobre o calçado, mas a crónica já vai longa. Assinalo apenas umas botas tipo Peter Pan que surgiram este Verão, em geral de camurça, com meio cano cobrindo a canela. Não são bonitas, não tornam as mulheres elegantes e devem fazer um calor tremendo.

É um tanto ou quanto ridículo ver mulheres com mini-saias curtíssimas, quase a mostrar as nádegas, para arejar as pernas e resistir à canícula estival – e depois calçando botas de camurça com cano, que só de olharmos para elas ficamos com calor.

Esta é a sétima aberração.

 

Como se vê, da cabeça aos pés, dos penteados às botas, as aberrações abundam. E chamei-lhes aberrações porque, não sendo práticas, nem lógicas, nem bonitas, têm como única explicação essa mesmo – serem aberrações. Ou seja, desafiarem a lógica corrente, chamando a atenção pelo absurdo.

Estes fenómenos surgem em épocas de decadência. Parte da sociedade deixa de procurar o que tem lógica, o que é coerente – para perseguir o que não faz sentido, o que tem como único objectivo chocar, contrariar o que existe.

Este tempo que estamos a viver caracteriza-se por se querer fazer tudo ao contrário: despentear os cabelos, pôr objectos incómodos nos sítios mais estranhos do corpo, sujar a pele com tatuagens, cobrir metade das mãos, andar com as calças a cair, usar botas altas em tempo de calor.

Mas tudo isto pode ser encarado com sentido de humor. Já que não podemos determinar a moda, podemos divertir-_-nos com ela. Um pouco como se estivéssemos a ver palhaços no circo.

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A angústia do tempo perdido
20 Agosto 10 10:00

 

Não conheço pessoalmente Graça Morais. Somos da mesma geração, nascemos no mesmo ano (embora em lugares muito distantes: ela em Trás-os-_-Montes, eu em Lisboa), frequentámos a mesma universidade, a Escola Superior de Belas-Artes (embora em cidades distintas: ela no Porto, eu em Lisboa), depois seguimos caminhos muito diferentes: após 15 anos a fazer arquitectura eu saltei para o jornalismo, ela ficou sempre fiel às artes, pintando.

Vejo-a como uma mulher que a cidade não estragou, conservando um fundo genuíno, talvez mesmo provinciano. Neste aspecto, faz-me lembrar um pouco Agustina Bessa-Luís.

No Palácio Anjos, em Algés, está actualmente uma exposição sua. Trata-se de um edifício do início do século que esteve muito tempo ao abandono, tendo sido objecto de uma reabilitação que lhe restituiu a dignidade e a frescura original. Situado no centro de um jardim, dá uma nota alegre, ligeira, colorida e até requintada à parte baixa de Algés. Pertence à Câmara de Oeiras e alberga exposições temporárias e permanentes (colecção Manuel Brito). Vale a pena visitá-lo.

 

Graça Morais é uma pintora intrigante. Na sua obra são nítidas as referências à aldeia onde cresceu: pinta muitas vezes mulheres do campo, de traços rudes e expressões determinadas, mostrando certezas quanto ao futuro.

Mas, paralelamente a esta ligação à terra, nos seus quadros existe uma ‘dimensão fantástica’, quase surreal, que de início me custou a entender. Lembrava-me certos quadros de Picasso – ou noutro plano, o imaginário sul-_-americano. Disso eram exemplo as figuras meio humanas, meio animalescas, mostrando corpos de homens ou mulheres com cabeças de animais e vice-versa.

Um dia, porém, a ‘verdade’ revelou-_-se-me, cristalina: aquilo nada tinha que ver com Picasso, nem com a América do Sul, nem com influências estranhas – mas muito simplesmente com a aldeia da pintora, Vieiro.

 

Aquelas figuras estranhas são uma mistura de alguns dos seres que povoam o seu mundo: aldeãos, aldeãs, bodes, cabras monteses. Graça Morais pega nos focinhos e nos chifres retorcidos dos animais e coloca-os no lugar dos rostos e das cabeças de homens e mulheres da aldeia. Ou pega nas caras destes e põe-lhes corpos de animais.

É curioso que este ambiente fantástico também se observa nos bonecos de Barcelos, da autoria de Rosa Ramalho, Baraça e seus seguidores, todos transmontanos como a pintora.

Não sei se nesses homens e mulheres coroados com chifres não haverá uma referência subliminar ao adultério – que pairava muitas vezes como um fantasma, como uma sombra pecaminosa, sobre muitas das nossas vilas e aldeias, levando frequentemente a cenas de ciúmes, disputas e crimes. A nossa literatura do século XIX está cheia dessas histórias.

 

Na exposição de Graça Morais no Palácio Anjos, como é habitual nestas mostras, está permanentemente a passar num ecrã um documentário sobre a artista, baseado numa entrevista de vida. A pintora fala da sua aldeia, das suas raízes, da infância, dos pais, da vocação, da relação que tem com o mundo e com a pintura.

E a certa altura diz que só se sente verdadeiramente feliz a pintar. Admite que o acto de criar implica renúncia, exige sofrimento, envolve angústia – mas ao mesmo transmite uma sensação única de plenitude. Porque o criador está sozinho consigo próprio e apenas confrontado com os seus próprios limites.

Graça Morais confessa-se triste e nervosa quando tem de cumprir certas obrigações sociais, quando é forçada a fazer coisas de que não gosta, quando não pode fugir a actos protocolares que não aprecia. Diz que sofre com isso. E adianta que a pintar também sofre – só que a pintar sente-se feliz. É essa a diferença. A diferença decisiva.

 

A actividade criativa – quer se trate de pintar, de escrever ou de projectar um edifício – envolve sempre sofrimento. Escrever um livro, por exemplo, constitui um tormento. Sofre-se a encontrar em cada frase a palavra adequada, a procurar o ritmo certo, a ligar as frases e os parágrafos por forma a que o texto flua e o leitor não tropece. Sofre-se com o enredo e as personagens, com as situações, com os diálogos, com a estrutura e com o equilíbrio disto tudo no conjunto. Sofre-se a escrever, a corrigir, a voltar atrás.

O escritor sofre – mas sente-se feliz. Porque enquanto escreve não precisa de mais nada senão de fazer o que faz. Como se isso lhe bastasse para viver.

No espaço exterior, o criador confronta-se com outras pessoas, depende de outras pessoas, precisa da ajuda de outras pessoas, suporta invejas, insultos, críticas, ouve elogios e incentivos – mas a criar, no silêncio do escritório ou do ateliê, depende apenas de si próprio, dos seus limites, das suas capacidades e incapacidades. Não se confronta com ninguém, não tem outros limites que não sejam os seus.

A escrever, a pintar ou a desenhar o criador está perante o confronto máximo, o duelo final: o confronto consigo próprio.

 

A pintar, escrever ou desenhar o artista tem à sua disposição tudo o que precisa: uma tela vazia ou uma folha em branco, tintas, pincéis e canetas. Entre ele e a obra não há intermediários, tudo depende do seu talento e da sua imaginação. Aquilo que não consegue fazer só tem que ver com as suas limitações.

Por isso criar é tão angustiante: o artista fica perante as suas impotências. Mas por isso criar é também tão reconfortante: o artista vibra quando consegue ultrapassar os seus limites, sentindo-se quase sobrenatural.

O pintor e o escritor angustiam-se quando acham que podiam fazer melhor e não conseguem – mas sentem-se felizes quando conseguem encontrar a cor ou a palavra certa.

 

Simultaneamente, para quem tem a ânsia de criar, o tempo em que não está a pintar, a escrever ou a desenhar é tempo perdido. Ou tempo roubado àquilo que devia estar fazer.

Por isso os criadores têm pouca paciência para as conversas inúteis, para os actos oficiais ou de conveniência, para jogar às cartas, para assistir a debates televisivos, para ler jornais que repetem o que já se sabe. Por outras palavras, têm pouca paciência para perder tempo.

Não conheço Graça Morais, nunca a vi, nem sequer conheço muito bem a sua pintura. Mas ao assistir ao filme da sua vida tive uma sensação estranha.

Nascemos no mesmo ano, frequentámos a mesma universidade – mas seguimos caminhos muito diferentes. Há no entanto uma coisa que nos une: a necessidade absoluta de criar. E essa manifesta-se independentemente do campo que escolhemos – seja a pintura, a literatura ou a arquitectura.

Ao ouvi-la, estando eu a milhas do universo fantástico das suas telas, onde mistura cabras e homens, senti-me muito próximo da sua pessoa.

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Príncipe Encantado ou Vilão?
16 Agosto 10 03:02

Há uma semana, Pedro Passos Coelho mandou cortar 5% nos vencimentos do Grupo Parlamentar do PSD.

E o povo, naturalmente, assustou-se: se ele um dia for primeiro-ministro, corta 5% nos nossos ordenados!

No projecto de revisão constitucional do PSD, Passos Coelho aboliu o princípio da gratuitidade universal do sistema de Saúde, introduzindo cautelosamente o princípio do utilizador-pagador.

E o povo assustou-se: se ele um dia chegar a primeiro-ministro, acaba com a Saúde gratuita!

No mesmo projecto, Passos Coelho propôs que na Constituição se substitua a expressão «justa causa» por «razão atendível», no que se refere aos despedimentos.

E o povo indignou-se: Passos Coelho quer tornar o despedimento livre!

Com todas estas propostas, nem sempre bem esclarecidas, Passos Coelho caiu brutalmente nas sondagens.

De um dia para o outro, o líder do PSD deixou de ser o Príncipe Encantado da política portuguesa e passou a ser o Vilão.

Num instante, o homem que vinha resolver todos os nossos problemas transformou-se numa personagem que só quer o nosso mal.

Ora um político não é ‘mau’ nem ‘bom’ por propor a flexibilização dos despedimentos, ou correcções no Serviço Nacional de Saúde, ou cortes nos salários.

É evidente que as ‘medidas sociais’, em princípio, são todas boas.

É bom haver saúde gratuita para todos, escolas gratuitas para todos, subsídio de doença e desemprego, rendimento mínimo garantido, férias pagas a dobrar, reformas por inteiro, etc.

Só que isso tem um custo.

E o problema está sempre em saber até que ponto um país produz o suficiente para pagar essa factura.

Ora já se percebeu que Portugal não tem condições para continuar a viver como tem vivido até aqui.

Em Portugal – e julgo que em toda a Europa – os salários vão baixar nos próximos anos.

Quanto aos despedimentos, torna-se evidente que vamos ter de os flexibilizar mais tarde ou mais cedo.

A rigidez que existe no mercado de trabalho não favorece ninguém: não é boa para os desempregados – que têm muito mais dificuldade em conseguir um novo emprego –, não é boa para os jovens à procura do primeiro emprego – pelas mesmíssimas razões –, não é boa para o país, porque constitui um entrave ao dinamismo económico.

Todos sabemos que o mais difícil é uma pessoa entrar numa empresa – pois, uma vez lá dentro, tudo se torna mais fácil.

Ora, com as leis que temos – em que o despedimento de um trabalhador significa uma carga de trabalhos –, os patrões resistem ao máximo à admissão de novos funcionários.

Conseguir trabalho torna-se, assim, muitíssimo mais difícil.

O melhor que se consegue, muitas vezes, são contratos a prazo – em que o dia do ‘despedimento compulsivo’ já tem data marcada. 

Isto tem de mudar.  

Quanto ao Serviço Nacional de Saúde, sendo muito bom haver um sistema de saúde gratuito e universal, o custo que isso tem começa a ser incomportável.

E não falo em custo para o Estado – mas em custo para as pessoas.

Quando um lençol é curto, se o puxamos para tapar o peito destapamos os pés.

O que não pagamos nos hospitais e nas farmácias pagamos depois em descontos nos salários para a Segurança Social e em impostos directos e indirectos.

E não pagamos só nós: pagam também as empresas para as quais trabalhamos.

E isto depois traduz-se em piores ordenados, em mais desemprego (porque as empresas reduzem os trabalhadores ao mínimo), em cortes nos investimentos e por aí fora.

Se perguntarmos na rua a um transeunte se quer a saúde gratuita e o emprego certo, ele responde naturalmente que sim.

Só que não lhe é explicado o que isso custa: os descontos que vai ter no ordenado, a dificuldade que os filhos vão ter em encontrar o primeiro emprego, o problema que ele próprio terá em voltar a empregar-se se ficar sem trabalho depois dos 40 anos, etc., etc., etc.

Quando os políticos fazem promessas ao povo, não dizem o que o povo vai ter de pagar por elas.

É impressionante constatar que, apesar dos debates que enxameiam os canais de TV, as pessoas ainda não perceberam que não há políticos ‘bonzinhos’ e políticos ‘mauzinhos’, políticos que querem o bem das pessoas e políticos que querem o mal das pessoas, príncipes perfeitos e vilões.

O que há são opções políticas.

O que os políticos ‘dão’ ao povo não vem do seu bolso – vem dos bolsos de todos.

Se não pagamos um serviço de uma maneira, temos de pagá-lo de outra.

O tão celebrado Obama não é ‘bom’ por querer criar um sistema de saúde universal, nem os seus antecessores eram ‘maus’ por não o quererem.

Ele fez uma opção política – que tem custos e benefícios, e cujo balanço ainda é cedo para fazer.

Em Portugal, vamos ser obrigados rapidamente a perceber que não se pode ter tudo.

Que as novas condições competitivas resultantes do mercado aberto e da globalização nos obrigam a mudar de vida: os salários vão ter de baixar, o emprego terá de se tornar mais flexível e será preciso gastar muito menos com a Saúde.

E isto não significa que passemos a viver pior.

Até podemos viver melhor: numa sociedade com maior mobilidade, menos fantasmas, mais liberta de encargos e impostos, com outro dinamismo.

A verdade é que, apesar de lutarmos tanto pelas leis que temos, os portugueses não parecem hoje muito felizes.

Tenhamos, então, coragem para mudar.

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Um Metropolitano
16 Agosto 10 03:00

Uma imagem superficial de Luanda mostra-nos uma cidade em obras. Por toda a parte enormes gruas concorrem com os prédios altos ou erguem-se no meio de bairros de lata. Quase todas as ruas estão crivadas de buracos e os passeios quase não existem: as zonas calcetadas constituem pequenas ilhas no meio de um mar de terra onde o calçado se cobre de pó.
Nas últimas décadas a capital de Angola cresceu enormemente – primeiro em consequência da guerra, que levou as pessoas que viviam nas aldeias a abrigarem-se à sombra protectora da capital, depois mercê do desenvolvimento que o país tem conhecido nos últimos tempos.
O êxodo do campo para a cidade levou ao aparecimento de extensos bairros de lata na periferia urbana; o desenvolvimento acelerado tem tido como consequência o nascimento de novos hotéis para fazer face à constante procura por parte de gente atraída por um novo Eldorado. Europeus, sul-americanos, chineses acorrem hoje à capital angolana, em viagens de uma semana ou para ficarem mais tempo, pelo período que o visto permitir.
E toda esta massa de gente se vai somando à que já lá vive.

Embora o centro da cidade seja relativamente pequeno, mantendo praticamente os limites que tinha na época colonial, Luanda é uma capital gigantesca que abriga hoje cinco milhões de pessoas. Tendo em conta que antes da independência a população atingiria a custo os 500 mil, temos bem a medida do crescimento brutal que tem conhecido: da década de 70 para cá o número de habitantes aumentou dez vezes!
A afluência de muita gente do interior e o desenvolvimento rápido criaram problemas tremendos – um dos quais hoje é o trânsito. Há horas do dia em que não se consegue praticamente circular nas ruas de Luanda. E como andar a pé é quase impossível (pelo mau estado dos passeios, pelo estacionamento caótico, pela poeira e pelo calor), toda a gente anda de carro – seja de jipe ou de maximbombo (umas carrinhas pintadas de azul que funcionam como pequenas camionetas).
Só agora começou a haver transportes públicos, com carreiras de autocarros semelhantes aos nossos, mas funcionam muito mal – porque o caos do tráfego não lhes permite circular. Se os maximbombos ainda se desenrascam, metendo-se pelos passeios e pelos buracos do trânsito como piolhos por costura, se os jipes ainda conseguem avançar alguma coisa quando o condutor é expedito e atrevido, os autocarros não conseguem mesmo circular.

Em Luanda é muito difícil, por exemplo, fazer mais de duas reuniões no mesmo dia fora do nosso escritório. O tempo de ida, o tempo de volta e o próprio tempo da reunião absorvem uma manhã ou uma tarde.
Isto começa a ser um problema sério para quem quer trabalhar – e um poderoso entrave ao desenvolvimento. Nunca se sabe quanto tempo se vai levar num trajecto. No regresso a Lisboa, da última vez que lá fui (há três semanas), demorei quase hora e meia a fazer um percurso que se faz em menos de 15 minutos, e ia perdendo o avião. E isto, note-se, às oito horas da noite, quando era suposto as ruas estarem desafogadas.
Por todas estas razões, é o momento ideal para avançar com a construção de um Metropolitano.
Estando as ruas esburacadas e os passeios num estado lastimável, havendo obras por toda a parte (que também contribuem para destruir os pavimentos, com a passagem constante de camionetas e de máquinas), necessitando algumas zonas – sobretudo periféricas – de fazer obras de saneamento básico, que melhor altura poderá haver para construir um Metropolitano?

Dizem os conservadores: mas se o trânsito já está péssimo assim, como estaria caso se fechassem ruas para abrir túneis para o Metro?
O argumento não colhe: se o trânsito é mau hoje, amanhã será ainda pior. E a única forma de o resolver é mesmo um transporte subterrâneo, que subtraia pessoas e carros à superfície. Portanto, mais vale avançar já. Quanto mais se protelar a decisão, pior será.
Outro argumento é de natureza social. Há quem sustente que, enquanto não se resolverem certas carências da população na capital e nas províncias, não fará sentido avançar com uma obra tão grande e dispendiosa.
Ora dizer isto é partir do princípio de que um Metro é um luxo. Mas não é. Hoje, em Luanda, um Metro é uma necessidade. E beneficiará todos: os pobres, os ricos e os remediados. O Metro é um dos transportes mais democráticos que existem, como podemos ver em todas as grandes cidades do mundo. Tanto é usado pelo operário como pelo engenheiro, o empresário ou o professor catedrático. E é fundamental para o desenvolvimento, o equilíbrio e a economia de uma grande cidade.

A este respeito, há um raciocínio muito simples a fazer. Imaginemos que o Governo de Luanda se empenhava agora em concluir o saneamento básico nas áreas degradadas, em asfaltar as ruas, em refazer o empedrado dos passeios, em construir jardins – enfim, se empenhava em pôr Luanda ‘num brinquinho’. Ora, depois de tudo isso é que ia começar a abrir buracos para construir os túneis do Metro? Depois de ter as obras prontas é que ia voltar atrás e fazer outra vez de Luanda um estaleiro? Ou será mais lógico aproveitar o mau estado da cidade para fazer as coisas de uma vez?
Até porque a capital de Angola tem uma morfologia ideal para a construção de um Metro, dado não apresentar grandes variações de altura. Há uma parte baixa, junto à baía, que se prolonga pela ilha, e depois uma parte mais alta, onde fica o palácio presidencial – mas entre as duas não existe um grande desnível.
Ao pé de Lisboa, com as suas corcovas, como os camelos, Luanda é uma cidade praticamente plana.

Julgo que a decisão de avançar imediatamente com o Metropolitano seria ao mesmo sensata e ousada. Sensata, porque é racional, faz sentido na actual realidade da cidade e no seu estado de desenvolvimento. Ousada, porque no futuro seria olhada como uma obra de visão, decidida por alguém à frente do seu tempo.

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À terceira foi de vez
06 Agosto 10 10:01

 

A conclusão do caso Freeport, conhecida na semana passada, foi a terceira tentativa para dar cabo do processo. E parece que resultou.

A primeira investida data de 2004. Procurou-se então matar o caso ‘no ovo’ – fazendo passar a ideia de que se tratava apenas de uma manobra política (orquestrada por Santana Lopes) para atingir José Sócrates. Confesso que aceitei esta versão.Sócrates, como ministro do Ambiente, projectava a imagem de governante determinado, que cortava a direito, não cedia a pressões nem fazia favores – sendo natural que o tentassem denegrir.

Assim, quando em 2008 a jornalista Felícia Cabrita me voltou a falar do tema, torci o nariz.

Mas agora havia mais matéria: havia uma carta da Polícia inglesa, havia uma reunião do Eurojust em Haia onde o processo tinha sido tratado.

Mesmo assim exigi documentos, provas.

E elas começaram a pingar.

Publicámos a primeira notícia, que o PGR se apressou a desmentir – mas o processo lá começou a fazer o seu caminho, provocando inúmeros incómodos.

Quando o Freeport já assumira grande importância e era um caso nacional, soube-se que Lopes da Mota, o representante de Portugal no Eurojust, tinha feito pressões junto dos magistrados portugueses, invocando os nomes do ministro da Justiça e do primeiro-ministro, para o processo ser arquivado.

Era a segunda tentativa para abafar o caso.

E aqui eu percebi que havia qualquer coisa escondida.

Se o tema era inócuo, como se justificavam tantos cuidados?

Se tudo tinha sido legal, porque havia tanto medo?

Mas o freeport lá continuou a avançar – e na semana passada a Procuradoria anunciou a conclusão do processo, acusando dois indivíduos e ilibando José Sócrates.

O primeiro-ministro veio a público cantar vitória – e os seus apoiantes embandeiraram em arco: provava-se que Sócrates estava totalmente inocente!

Só que, no dia seguinte, o Público revelava que o caso tinha sido encerrado às três pancadas – e que todas as dúvidas que envolviam Sócrates se mantinham intactas.

Mais: os magistrados faziam questão de incluir no processo as 27 perguntas que não tinham tido ocasião de colocar ao primeiro-ministro – e que, no fundo, ficavam a pairar como outras tantas suspeitas.

Durante o tempo que durou este processo fiz várias vezes a mim próprio a seguinte pergunta: como se explica que, tendo o nome de Sócrates sido tantas vezes referido, os investigadores não o tenham ouvido?

Como se percebe que, sendo ele o principal responsável do Ministério que esteve no centro de toda a polémica, não tenha sido chamado a dar explicações?

Como se entende que, sendo o superior hierárquico de vários arguidos no processo, não tenham precisado de lhe perguntar coisa nenhuma?

Não era compreensível.

Agora entendi: os investigadores queriam acumular o máximo de dados antes de ouvirem Sócrates.

Sendo ele agora primeiro-ministro, preferiram juntar todas as dúvidas para o ouvirem de uma assentada.

Só que, quando o iam fazer, o PGR mandou encerrar o processo.

Como um árbitro que apita para o fim do jogo quando vai ser marcado um penálti.

A decisão do PGR custa muito a entender.

Ninguém percebe por que razão o caso Freeport  teve de ser fechado à pressa – quando, na mesma semana, a sentença do caso Casa Pia, anunciada com grande aparato, foi adiada por um mês. 

No Freeport o PGR funcionou uma vez mais como um pára-choques do primeiro-ministro.

O que não espanta: em caso de dúvida, ele tem decidido invariavelmente a favor de José Sócrates.

Pinto Monteiro iniciou o seu mandato cheio de boas intenções.

As suas primeiras declarações eram frontais e revelavam independência.

Só que, com o acumular de casos envolvendo o chefe do Governo, o PGR foi--se sentindo encurralado pela comunicação social – e foi-se deixando encostar ao primeiro-ministro (num processo semelhante, aliás, ao que ocorreu com Marinho Pinto).

Ao ponto de podermos dizer que José Sócrates e Pinto Monteiro combatem hoje ombro a ombro na mesma trincheira: as críticas a um são vistas como críticas ao outro.

Para isso também contribuirá a amizade antiga de Pinto Monteiro com Proença de Carvalho – que por sua vez é advogado de Sócrates.

Uma última nota para o próprio Sócrates.

O primeiro-ministro decerto soube as condições em que o processo Freeport foi encerrado – e as perguntas que os magistrados queriam fazer-lhe e não puderam.

Ora como é que, sabendo isso, se prestou a fazer a declaração que fez, congratulando-se por ter sido completamente ilibado?

Como foi possível? Ao menos tinha ficado calado – e não vinha a público fazer aquele número de teatro. Para o primeiro-ministro já tudo é farsa, representação?

O certo é que, neste estranho caso, Sócrates acaba mais suspeito do que começou – porque as dúvidas sobre alguns dos seus actos ficaram registadas no processo para a posteridade.

P.S. – Morreu Mário Bettencourt Resendes. Fomos contemporâneos durante longos anos na direcção de dois dos maiores jornais portugueses – ele do DN, eu do Expresso. E o seu relacionamento comigo durante esse período não registou uma única falha: foi educado, leal, frontal e verdadeiro. Espero ter-lhe retribuído na mesma moeda.

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O lesma serena
06 Agosto 10 10:00
Há dois meses escrevi uma crónica sobre um expediente que usei para ‘fintar’ um fiscal dos comboios da Linha do Estoril. Andava no liceu, estava de férias, tinha ido à praia de Cascais – e, sem dinheiro para o bilhete de regresso, vi-me forçado a puxar pela imaginação para não ter de fazer a pé o caminho para casa. Hoje vou contar uma história que também envolve um fiscal e um transporte público – embora desta vez se trate de carros eléctricos e não de comboios, e o fiscal tenha tido uma sorte diferente. Ou azar. Devo esclarecer que, na época em que esta história se passa, os ‘fiscais’ não se chamavam fiscais. Nos eléctricos, havia o ‘guarda-freio’ (que ia à frente a conduzir) e o ‘condutor’ (que cobrava os bilhetes). Uma vez por outra aparecia o ‘revisor’ – cujo trabalho consistia em fiscalizar o trabalho dos condutores, verificando se todos os passageiros tinham bilhete e estavam em situação regular. O condutor colocava-se na parte de trás do eléctrico, perto da porta, e ia cobrando o bilhete a quem entrava. Usava uma pasta de cabedal a tiracolo onde transportava as moedas e as notas, e tinha uma espécie de alicate com que picava os bilhetes – indicando a zona onde os passageiros entravam. Por isto mesmo, também era conhecido por ‘pica-bilhetes’. Além da pasta e do alicate, os condutores traziam na mão esquerda um pequeno maço de bilhetes, que iam cortando e entregando aos passageiros em troca da quantia respectiva. Os bilhetes de cinco tostões eram verdes, os de oito tostões amarelos e os de dez tostões cor-de-rosa. Quando um novo passageiro entrava, pedia ao condutor o bilhete pretendido, ele cortava-o do macinho pela parte picotada, furava-o com o alicate, estendia-o ao passageiro e este pagava. Se havia lugar a troco, o condutor levantava a mala de couro até ficar na horizontal, olhava lá para dentro e retirava a moeda ou moedas correspondentes à quantia a devolver. O condutor de que vou falar hoje era um ‘paz de alma’. Fazia tudo com muita lentidão. Para o leitor ter uma ideia, digo-lhe que o homem, depois de picar um bilhete, deixava cair o alicate (que estava preso à pasta por uma pequena correia também de couro), como se o simples facto de manter o alicate na mão, como faziam todos os seus colegas, já significasse para ele um grande esforço. O homem prestava normalmente serviço na carreira Praça do Comércio-_-Cruz Quebrada, que tinha duas variantes: umas vezes os eléctricos não chegavam ao fim da linha, ficando-se por Algés, outras vezes iam até ao Estádio Nacional. No início da carreira, o nosso condutor começava a cobrar os bilhetes aos passageiros que se sentavam nos bancos da frente – vindo depois caminhando pachorrentamente até à parte de trás do eléctrico. Mas a progressão era tão lenta que, nas carreiras que partiam de Algés, quando o eléctrico chegava a Belém ele ainda vinha muitas vezes a meio da carruagem. Assim, os espertalhões que o conheciam sentavam-se nos últimos bancos ou ficavam de pé na plataforma traseira, conseguindo viajar quase sempre sem pagar bilhete. Se iam para Pedrouços ou Belém, era certo e sabido que não pagavam – até porque saíam do eléctrico pela porta de trás para não se cruzarem com o nosso homem. É assim possível dizer, sem receio de cometer uma grande injustiça, que este condutor dava prejuízo à Carris. Mas, se a lentidão do homem devia ser exasperante para quem zelava pelos interesses da companhia, era obviamente simpática para quem estava do outro lado e conseguia com frequência viajar sem gastar dinheiro. Nessa época eu ia quase sempre estudar para um café em Algés chamado Ribamar, situado num daqueles pavilhões que existem ao lado da Marginal, onde se juntavam muitos estudantes. Tinha um grupo de amigos que moravam na zona de Belém – e, no eléctrico de regresso a casa, encontrávamos muitas vezes o condutor de que venho a falar. Ao qual, dadas as suas características e com o espírito impiedoso próprio da adolescência, demos a alcunha de ‘Lesma Serena’. Víamo-lo cortar o papelinho do bilhete com todo o vagar, furar depois lentamente o bilhete com o alicate, largar o alicate para ir à pasta buscar o troco, procurar as moedas sem pressas, contá-las uma a uma, finalmente entregar o troco ao passageiro, abrindo lentamente a mão. Nós ríamo-nos dos seus modos vagarosos, como se já tivesse nascido cansado. E em muitas viagens não pagávamos bilhete, sem necessidade de recorrermos a qualquer truque. O homem simplesmente não se despachava a tempo de nos cobrar o bilhete até à paragem em que saíamos (em frente do Mosteiro dos Jerónimos). Esta nossa ‘relação’ com o Lesma Serena durou anos. Já o reconhecíamos ao longe – e era uma festa quando víamos que era ele o condutor, pelas razões descritas. Sucede que um dia, nos princípios dos anos 70, ao abrir o jornal numa página interior, vi que um condutor da Carris tinha sido assassinado. Morto à facada por um grupo de cabo-verdianos, para lhe roubarem a mala do dinheiro. Na Cruz Quebrada. A notícia era acompanhada por uma fotografia – e embora a qualidade da imagem fosse péssima, cheia de grão, reconheci nela o Lesma Serena. Fiquei horrorizado. Não só pelo crime – mas porque era inimaginável que aquele homem pudesse acabar assim. Parecia absurdo que um ‘paz de alma’ que não fazia mal a uma mosca tivesse sido brutalmente esfaqueado até à morte. E porquê? Seria preciso isso para o roubarem? Teria o homem, num assomo de coragem, resistido aos assaltantes no momento fatal? Uma pessoa incapaz de um gesto brusco teria tido alguma atitude de defesa que levasse os assaltantes a matarem-no? Nunca cheguei a sabê-lo. Apenas sei que um homem simples, que deixava muita gente viajar de graça no ‘seu’ eléctrico, foi assassinado para lhe roubarem meia dúzia de tostões. E não digo ‘meia dúzia’ por acaso: com bilhetes a cinco, oito e dez tostões, e com a lentidão que revelava a cobrá-los, que grande fortuna poderia ele ter dentro da mala? Nada daquilo fazia sentido: o roubo, a violência, a vítima. O Lesma Serena parecia guardado para uma vida longa e uma morte pacífica. Não se apressava, não se cansava, não discutia com ninguém. E aconteceu-lhe tudo inesperadamente ao contrário: teve uma vida curta (pouco mais de 40 anos) e uma morte violenta. Como diria um velho amigo, «todos estamos começados mas não estamos acabados».
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Uma bóia para Sócrates
30 Julho 10 12:17

     

Sócrates parecia um náufrago, estava à deriva – e a proposta de revisão constitucional do PSD  funcionou como uma tábua de salvação.

Passos Coelho, qual capitão de um navio de socorro, atirou uma bóia a Sócrates para ele não se afogar.

Isto é: lançou para a discussão pública um tema  que não interessa nada e tem como única função entreter os analistas e alimentar os telejornais, criando uma cortina de fumo que protege o Governo.

Penso que fez bem.

Se o PSD fosse agora para o poder não faria melhor do que o PS – e provavelmente faria pior.

O que o PSD tem a fazer, pois, é estar quietinho, deixar as coisas andar, agir de modo a só assumir o poder quando o Governo de Sócrates tiver caído mesmo de maduro.

 

A proposta de revisão constitucional, de que todos falam, é um papel com pouco préstimo.

Com a mesma Constituição – como Maria José Nogueira Pinto bem lembrou – já se fizeram nacionalizações e privatizações, já se entrou na União Europeia, já se aderiu ao euro.

A revisão constitucional só poderia ter algum interesse se mexesse em dois pontos decisivos: os poderes do Presidente da República e o sistema eleitoral.

A vida política funcionaria muito melhor se tivéssemos um Presidente ‘à francesa’, com muito mais margem de manobra e capacidade para definir as grandes linhas da política interna e externa.

Por outro lado, um sistema eleitoral misto, que combinasse círculos uninominais com um círculo nacional, daria um acréscimo de dignidade aos deputados e torná-los-ia menos dependentes das direcções partidárias, o que seria saudável.

Mas não se fará uma coisa nem outra, porque os partidos nunca o permitirão.

Assim, esta revisão constitucional, mesmo que fosse para a frente – o que já é uma ficção –, de pouco serviria.

 

Devemos, portanto, entender o período que vivemos como uns ‘jogos florais’.

Entretêm, não adiantam nem atrasam, não fazem mal a ninguém.

O Governo ir-se-á aguentando, embora a deterioração da sua imagem siga o seu inexorável caminho, porque já não há volta a dar.

António Costa, com alguma hipocrisia, criticava um destes dias os ministros que não acompanham o esforço hercúleo do primeiro-ministro em prol do país.

Talvez tenha razão.

Mas isso acontece porquê?

Porque já nem os ministros acreditam no sucesso do Governo nem têm o mesmo respeito que tinham por José Sócrates.

Sócrates desdobra-se em viagens, em inaugurações, em declarações, mas o efeito de tudo isso já é muito relativo – porque, em boa verdade, já ninguém dá muita importância ao que o primeiro-ministro diz.

Sócrates já disse tanta coisa que não se confirmou, já anunciou tantos projectos que não se concretizaram, já aprovou tantas medidas que não foram para a frente – que já ninguém liga muito ao que ele anuncia.

É uma espécie de vendedor de banha da cobra – que tem jeito para anunciar o produto independentemente daquilo que vende.

 

Resumindo e concluindo, não se esperem novidades até ao princípio do ano que vem.

Todos podem ir para férias tranquilos.

Passos Coelho está a construir metodicamente uma imagem de menino bem comportado – claramente contrastante com a de Sócrates, investido no papel de mau da fita.

Sócrates é o lobo, arrogante e pérfido, responsável pelas desgraças do país, insensível aos lamentos do povo; Passos é o cordeiro, falando de mansinho, nunca levantando a voz,  explicando ao povo que quando for ele a governar tudo mudará para melhor.

É bom que a ilusão dure.

Porque, quando chegar a altura de o PSD exercer o poder, Pedro Passos Coelho corre o risco de perder em poucos meses boa parte do capital político que amealhou ao longo de anos.

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Um voo banal
30 Julho 10 12:00

 

– Vai para Luanda?

– Sim…

– Então, chefe, leve este saco da minha cunhada – e o homem aponta para uma mulher dos seus trinta anos vestida com capulana e lenço enrolado na cabeça.

A mulher assiste, atrapalhada. Diz ao homem que não é preciso, mas ele insiste. Pega na minha mala e coloca-a em cima de uma balança, juntamente com o saco da cunhada. Tudo se passa no aeroporto de Lisboa.

Eu já tinha sido alertado para o perigo de levar bagagem de outras pessoas, que podia transportar matéria comprometedora – droga, por exemplo –, mas quis ver até onde aquilo levava. Das duas, uma: ou estava mesmo a ajudar uma família africana com excesso de peso na bagagem ou estava a colaborar numa operação ilícita. Mas um jornalista tem a tentação de perceber o que se passa.

 

O homem põe a minha mala e o saco da cunhada em cima de um carrinho e passa-mo para as mãos. A seguir, eu dirijo-me para o check-in.

Coloco os dois volumes em cima da passadeira, entrego o bilhete e o passaporte à assistente, e esta pergunta-me em tom profissional:

– A bagagem é toda sua?

Penso uns segundos e respondo a verdade:

– Não, este saco não é…

– Então não pode seguir. O senhor nem sabe o que está lá dentro – diz-me a rapariga, enquanto se levanta e retira o saco da passadeira.

Volto com o saco para trás. Mas perdi de vista o homem que mo entregou. Olho à esquerda e à direita e não o vejo. Não vou, porém, abandonar o saco no meio do aeroporto... Finalmente dou com o homem, explico-lhe que o saco não pôde seguir, ele mostra desconsolo mas acaba por responder correctamente:

– Obrigado, chefe, de qualquer maneira…

 

O dia estava no entanto destinado a que eu fizesse uma boa acção. Como cheguei cedo ao aeroporto, pude escolher o lugar. Decidi-_-me por um lugar à janela. Já não me lembrava da última vez que tinha viajado à janela. Ou porque chego tarde ao check-in e não há escolha, ou porque viajo com a minha mulher e lhe dou o melhor lugar, vou sempre junto à coxia ou nos lugares do meio.

Tendo sido dos primeiros a entrar no avião, arrumei a bagagem à vontade no compartimento por cima da minha cabeça e sentei-me repimpado a olhar para fora.

Uns minutos depois passou na coxia a fadista Mariza – que foi sentar-se na fila atrás da minha. E o homem que a acompanhava (possivelmente o seu agente) sentou-se ao meu lado. Mas não ficaram muito tempo sentados. Levantaram-se, dialogaram – e o suposto agente de Mariza perguntou ao passageiro que estava sentado no lugar precisamente atrás do meu se não se importava de trocar de lugar com ele. Mas o homem, não sei com que argumento, recusou-_-se. Percebi logo que a ‘coisa’ ia sobrar para mim. Após uns segundos de hesitação, o homem voltou a cabeça na minha direcção, aproximou-se e perguntou delicadamente:

Desculpe, importa-se de trocar de lugar com esta senhora? – e apontou para Mariza. – É que viajamos juntos e gostávamos de poder ir ao lado um do outro…

Claro que disse logo que não me importava. Que ideia! Levantei-me, encarei Mariza, e recordei-lhe a festa de lançamento do SOL, em que ela cantou.

– Pois é… De facto eu estava a reconhecê-_-lo! – respondeu-me, agradeceu a minha gentileza e lá se foi sentar no meu lugar.

E assim perdi o lugar à janela e fiquei sentado junto à coxia, ao lado do tipo que se recusara a mudar de posição. Era um africano ainda jovem, de t-shirt justa e blue jeans às manchas brancas, com vago ar de jogador de futebol, que já estava de headphones enfiados nos ouvidos e cara de quem ia rapidamente adormecer.

 

De facto, ainda o avião não tinha levantado voo e já ele dormia como uma pedra. Assim ficámos lado a lado: ele a dormir junto à janela, eu acordado junto à coxia.

Um tempo depois de o avião descolar, um assistente percorreu a cabina distribuindo toalhinhas turcas enroladas e aquecidas, como é normal antes das refeições. Só que o meu companheiro do lado continuava mergulhado no sono mais profundo – e o assistente não conseguiu entregar-lhe a toalhinha, por mais que lhe abanasse o braço.

Uns minutos depois, porém, o fulano abriu um olho – e, vendo a mesinha aberta na minha frente, fez o mesmo, puxando também a dele. Com este gesto, o assistente de bordo percebeu que ele queria mesmo almoçar. E perguntou-lhe o que pretendia: carne, peixe ou frango. O fulano preferiu frango – aliás como eu – que no entanto, pela cor, parecia ser peru.

Quando puseram o tabuleiro à frente dele, o meu vizinho endireitou-se, pegou nos talheres de plástico, meteu uma garfada de arroz na boca, espetou o garfo no frango – e caiu para trás a dormir profundamente.

Os talheres e a comida ali ficaram à sua frente, abandonados: a faca para um lado e o garfo de plástico enfiado na perna do frango. E julgo que até ao fim da viagem (de sete horas) não mais acordou.

Pensei que o homem em Lisboa não devia ter ido à cama.

 

Apesar de a viagem ser toda feita de dia, os assistentes de bordo correram a certa altura todas as cortinas das janelas, promovendo uma penumbra que ainda facilitou mais a tarefa do meu ocasional companheiro de viagem.

Também tentei adormecer, pus a manta por cima dos joelhos e fechei os olhos (não gosto de enfiar coisas nos ouvidos, nem descalçar os sapatos e pôr aquelas meias de lã que distribuem), mas o sono do meu vizinho do lado, em vez de me contagiar, causava-me irritação e impedia-me de dormir.

Ainda por cima, nos lugares do meio da minha fila, duas mulheres de meia-idade pegaram à conversa e começaram a falar, a falar interminavelmente, deitando definitivamente por terra a minha já ténue esperança de fazer uma sesta.

E assim, entre as balzaquianas tagarelas e o dorminhoco com aspecto de futebolista, se passou o meu voo para Luanda.

Onde aterrámos já de noite, apesar de serem ainda sete horas da tarde – e depois de o avião dar várias voltas sobre a cidade, porque os céus da capital angolana estavam sobrelotados.

 

Depois da aterragem, houve quem batesse palmas. Antigamente isso acontecia quase sempre, agora só acontece às vezes. Mas acontece. O que mostra que há ainda muita gente com medo de andar de avião – e que sente um enorme alívio quando aquele monstro em forma de pássaro pousa em terra firme.

Resta dizer que Mariza me ‘recompensaria’ no dia seguinte pela cedência do lugar. No Estádio dos Coqueiros, um dos mais carismáticos de Luanda, situado no centro da cidade, brindou-me a mim e ao público que quase esgotava o recinto com uma brilhante actuação.

Com uma voz poderosa, encheu o estádio. E depois, com as suas pausas estudadas, os seus silêncios, os arranques inesperados mas rigorosamente ensaiados, os desafios ao público, agarrou a assistência pelos colarinhos e levou-a a cantar com ela o fado.

O que não era tarefa fácil – tendo em conta que a maioria dos presentes estava certamente mais familiarizada com os ritmos africanos do que com a cadência lamentosa da canção nascida nas ruelas dos bairros lisboetas de Alfama ou Madragoa.

Entretanto, no preciso momento em que Mariza cantava A Nossa Terra, o avião transportando Cavaco Silva aterrava no aeroporto de Luanda.

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A corrupção é a outra face do poder?
23 Julho 10 10:01

 

O Tribunal da Relação de Lisboa, apreciando o recurso de Isaltino Morais, produziu um acórdão onde se lê a seguinte frase fatal: «A ideia que fica é que o arguido só não continuará a fazer o mesmo se não puder».

Esta apreciação dizia respeito à conduta delituosa de Isaltino à frente da Câmara de Oeiras.

Donde se conclui que a Relação entende, sem margem para dúvidas, que Isaltino Morais é uma pessoa sem emenda, sem regeneração possível, quase um ‘delinquente compulsivo’.

Como aqueles jogadores que o Estado proíbe de entrar nos casinos porque são comprovadamente incapazes de controlar os seus impulsos.

De certa maneira, Isaltino é considerado pelo tribunal um ‘inimputável’ – porque já não tem possibilidade de ser senhor dos seus actos.

 

Mas, ao mesmo tempo, ninguém tem dúvidas de que Isaltino Morais é um bom presidente de Câmara.

Mercê do seu talento e do seu esforço pôs de pé o Tagus Parque – que é hoje um modelo em qualquer parte do mundo.

E digo «pôs de pé», porque de facto foi ele quem conseguiu convencer as empresas a ir para o seu concelho, deu-lhes boas condições, criou infra-estruturas eficazes e convidativas do ponto de vista urbanístico e tecnológico.

Vivo em Oeiras, já trabalhei em Oeiras, e portanto sei do que falo.

Dificilmente o sucessor de Isaltino Morais à frente da Câmara fará melhor do que ele fez – e muito provavelmente fará pior.

Isaltino ficará para a história como o homem que fez de Oeiras um dos concelhos mais ricos e atractivos do país.

 

Mas esta constatação conduz à seguinte perturbante pergunta: será a corrupção a outra face da política?

Para se ser um político eficiente será necessário entrar por caminhos duvidosamente legais, atropelar leis, receber favores ou cobrar percentagens pelas decisões?

Seria possível fazer o que Isaltino tem feito de um modo completamente legal, respeitando as normas, as regras, o labirinto em que se tornou a legislação portuguesa?

E faço esta pergunta sem qualquer cinismo – com total sinceridade.

Porque – repito – tenho as mais sérias dúvidas de que um político legalista e cumpridor conseguisse fazer em Oeiras o que Isaltino já fez.

Esta é a verdade.

 

E esta ideia de que a corrupção pode ser ‘a outra face da política’ não se aplica só a Oeiras.

Veja-se o que se passa hoje na área do Governo.

Já não falo de Sócrates – acerca do qual se tem escrito tanto.

Mas basta olhar para os seus amigos, para os seus familiares, para as pessoas que têm trabalhado com ele, para nos vir à cabeça a mesma ideia.

Olhamos – e vemos uma multidão de arguidos e indivíduos com processos em tribunal.

Vários técnicos que trabalharam com Sócrates no Ministério do Ambiente ou em organismos dele dependentes são hoje arguidos no caso Freeport: José Manuel Marques, Carlos Guerra, etc.

Várias pessoas que trabalharam com Sócrates no Governo, ou que fazem parte do seu círculo de amigos ou conhecidos, são hoje arguidos ou suspeitos no caso Face Oculta: Vara, Penedos, Rui Pedro Soares, etc.

Para já não falar de familiares seus – tios e primos.

 

Pergunto directamente: será possível governar – um concelho ou um país – nos tempos que correm sem recurso ao suborno, à corrupção, ao tráfico de influências?

Sinceramente, não sei responder.

É que o fenómeno nem sequer é só português.

Por toda a parte, desde a Europa à Ásia, passando por África, ouve-se falar de corrupção associada à política.

E isso leva-me desgraçadamente a suspeitar que são hoje duas faces da mesma moeda.

Que uma não pode viver sem a outra.

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Quando chegam os 40 é que são elas
23 Julho 10 10:00

Todos nós, em maior ou menor grau, temos o sentimento de que vivemos hoje num país sem rumo. Falta a Portugal um projecto, uma ideia integradora.

Defendo há anos que o mar – a ‘marca Atlântica’ – tem condições para ser o eixo dessa ideia.

O mar remete para quase tudo o que nos diz respeito: para a nossa história, para a nossa economia (através das pescas, dos transportes marítimos, dos portos, das indústrias ligadas à pesca, como as conservas), para o turismo (através das praias), para a diplomacia (através das relações que devemos privilegiar com os países de língua portuguesa), etc.

Ao cortarmos os laços com o mar a seguir ao 25 de Abril, voltando-lhe as costas e apostando tudo na Europa, interrompemos uma linha de continuidade. Uma linha que devemos retomar, para nos reencontrarmos connosco.

 

Essa falta de um rumo também se nota nas pessoas. Observamos as pessoas nas ruas, nos supermercados, nos transportes públicos, e – vendo as suas expressões, o modo como se vestem e se comportam – temos essa mesma sensação de que há muita gente perdida, que anda à toa, sem objectivos.

Isso tem que ver com a situação do país, mas não só.

Sobretudo nos meios urbanos, a sociedade perdeu as referências que durante séculos apontavam aos cidadãos uma orientação e um destino.

Essas referências eram a religião católica, por um lado, e um conceito de família, por outro.

 

O catolicismo fornecia todo um programa de vida. Que não se limitava à orientação moral, embora esta fosse decisiva. A religião ia muito para além disso, enunciando regras básicas de convivência em sociedade – «não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo» – e oferecendo às pessoas um destino, uma missão. A missão de cada ser humano era utilizar a sua passagem pela Terra para construir a ‘outra vida’ – a vida eterna. Por isso, era necessário praticar o bem, ajudar os outros, não pecar.

Quem acreditasse nisto – quem tivesse fé – tinha um sentido para a sua existência. Não andava cá ‘por andar’.

 

Noutro plano existia a família. A família também era um projecto de vida. Quando alguém estava para casar, dizia-se que ia «constituir família». As pessoas casavam-se, iam viver para a sua própria casa – «Quem casa, quer casa», era o que se postulava –, tinham filhos, a mulher cuidava dos filhos, o homem tinha a seu cargo zelar pelo bem-estar do «agregado familiar».

A ideia de família era, portanto, todo um programa que apontava às mulheres e aos homens um percurso comum.

À volta da família criava-se uma moral, uma ideia de bom comportamento: «Fulano é bom pai» ou «É bom marido» ou ainda «É bom chefe de família», o mesmo valendo para a mulher, que era «boa mãe», «boa esposa» ou «boa dona-de-casa».

 

Ora tudo isto se perdeu.

A religião e a família entraram em crise. Nas grandes cidades, estes dois pilares começaram a desmoronar-se.

Mesmo algumas pessoas que aí habitam e que continuam a dizer-se religiosas fazem-no mais por hábito ou até por presunção, por ‘parecer bem’, do que por convicção ou por fé. Basta ver a vida que algumas levam e observar o seu comportamento para perceber até que ponto é falsa a sua fé e postiço o seu cristianismo.

 

E com a família passou-se o mesmo. A entrada das mulheres no mercado de trabalho, as reivindicações feministas, as lutas pela igualdade entre os membros do casal, o egoísmo, as dificuldades da vida moderna, tudo isso levou inexoravelmente à destruição da família.

Se antigamente o casamento era um projecto de vida, hoje passou a ser uma experiência. Muita gente casa-se para ‘ver o que dá’. Se não der certo, parte para outra. E justifica este relativismo com argumentos lógicos: as pessoas não podem passar a vida inteira amarradas a parceiros de que deixaram de gostar ou com quem são incompatíveis.

Os argumentos são razoáveis. O problema é que frequentemente conduzem ao experimentalismo: hoje experimenta-se uma relação, amanhã outra, navega-se ao sabor das circunstâncias, às vezes nascem filhos que vêm ‘complicar’ ainda mais as coisas, tudo se torna precário, efémero, relativo.

 

Em certa fase da vida, esta forma ligeira de encarar as relações até pode levar as pessoas a sentirem-se mais livres e felizes. Hoje dormem aqui, amanhã ali, saltitam como os pássaros de ramo em ramo, ao sabor dos apetites do momento, indo atrás do desejo, da emoção, do entusiasmo.

Tudo parece fácil. Quando se verifica um percalço no jogo do amor, há sempre o recurso ao consumo: umas idas às compras, roupa nova, luzes, movimento. E a frequência do ginásio para queimar energias e cultivar o físico, acompanhada de umas dietas quando a praia se aproxima. Ou ainda, no limite, uma operação de estética – para aumentar o peito ou a grossura dos lábios, e assim «melhorar a auto-estima», como dizem os especialistas.

 

O pior é quando chega a hora do balanço. Aí é que são elas. Quando as pessoas chegam aos 40 ou 50 e constatam que não construíram nada em comum, não conseguiram uma relação sólida, uma base estável.

Do que fizeram até aí, o que resta?

Três ou quatro – ou dez, ou vinte, ou cinquenta – relações que na maior parte dos casos se limitaram ao prazer do momento, e às vezes nem isso. Um ou dois casamentos falhados e os filhos que foram ficando para trás. Muita roupa nos armários, montanhas de fatos, vestidos e sapatos fora de moda. Um corpo que, com a idade, perdeu o viço – e que já não há intervenção cirúrgica que componha.

 

No fim da linha sempre existe – é verdade – o recurso aos tranquilizantes, aos psicólogos e aos psiquiatras. Mas é muito difícil outros resolverem os problemas que estão dentro de nós.

Um dos espectáculos mais tristes a que assistimos é o das estrelinhas de televisão, aquelas jovens que apresentam os programas da tarde que poucos vêem mas que acreditam que são vedetas e querem fazer vida de vedetas.

E que, quando caem em desgraça, vêm contar a sua vida nas revistas do coração, falam dos desgostos de amor, desabafam na praça pública.

É ainda mais penoso ver actrizes talentosas, como Alexandra Lencastre, exporem tristemente a sua intimidade. Já não falando de outros casos, como o de Elsa Raposo, cujo infortúnio as revistas exploraram até aos limites do patético.

 

É verdade que a família não pode ser uma escravatura. E que a luta pela libertação das mulheres teve fases heróicas e um fundo de justiça. A questão é que tudo tem duas faces. E ao questionar-se o casamento, aligeirou-se o modo como passámos a encará-lo – e deixou de haver um verdadeiro empenhamento na vida a dois, um sacrifício para que as coisas resultem bem, uma renúncia a certos impulsos primários.

Ora essa falta de empenhamento deu cabo de muitos casamentos que, com alguma humildade de parte a parte, até poderiam ter dado certo.

Muitas pessoas – homens e mulheres – poderiam estar hoje bem melhor se não tivessem encarado o casamento com tanta ligeireza, com tanta displicência, se o tivessem visto como uma instituição de cuja estabilidade depende a realização do ser humano e o bom funcionamento da sociedade.

Publicadopor JAS | 6 Comentário(s)    
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