SOL

Leituras

Neste espaço sugerem-se livros que foram lidos. Assim, nega-se o vazio da imprensa nacional que não os lê, que pouco ou nada apresenta de edições que vão surgindo - nada, no caso do SOL -, limitando-se, na grande maioria das vezes, às fotografias das capas dos livros e sinopses cedidas pelas editoras. A todos, com esta selecção, VOTOS de boas leituras.
«Poemas de Deus e do Diabo» nos 107 anos do nascimento de José Régio
José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu a 17 de Setembro de 1901, em Vila do Conde. Sobre o seu nascimento, diria: «Quando eu nasci, / ficou tudo como estava, / Nem homens cortaram veias, / nem o Sol escureceu, / nem houve Estrelas a mais... /Somente, / esquecida das dores, / a minha Mãe sorriu e agradeceu.».
Em 1925, ano em que Kafka publica «O Processo», e um ano antes de ser instaurada a censura em Portugal, Régio tinha concluído o seu primeiro livro: «Poemas de Deus e do Diabo». Começava o seu processo de luta singular com Deus, fazendo da palavra a arma estrídula, com que negou o silêncio da resignação. Enganou-se, porém, quando falou do seu nascimento. Não se enganou a sua mãe: com ele nasceu uma estrela imperecível que continua a iluminar a Literatura – Cultura e alma portuguesas.
.
Dialogar com Deus através de Lúcifer
.
David Mourão-Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais inquietante e a mais fecunda.».
Eduardo Lourenço defende que o verdadeiro interlocutor de Régio é o seu duplo, um sósia real: o diálogo com Deus e o Diabo é «um monólogo transparente entre Régio e Régio».
Por outro lado, o próprio José Régio, em «O Jogo da Cabra Cega», dá-nos razões do seu processo e da sua clarividência: «Vi que, ao longo dos meandros da minha corrupção e fraqueza de homem, transportava intacta a minha até então mal conhecida, mas nunca ausente, necessidade de qualquer coisa que me ultrapassasse… Assim, através do conhecimento de mim, se me revelava a humanidade. E assim se me revelou Deus!».
Com efeito, a poesia de Régio, um dos fundadores da revista Presença (1927) e o seu principal animador, desenrola-se criticamente na relação do Eu com a existência e com a existência de Deus no Eu. A relação com os outros, os que lhe volvem a cara, «Uma só cara uníssona de todas – / Com sua simples expressão ignara» é de desencanto e lastimosa constatação. A tristeza que daí advém não é, no entanto, um sentimento mole, antes vibrante porque enraivecido.
Sobre a Amizade, o sujeito assume-se desenganado. Isso deixa-o triste e despeitado, com os outros e consigo. Defende que os amigos não se perdem, todavia perdem-se. Logo, se assim é, há que aceitar que não havia amizade. Os que acreditam nela, são «patetas felizes» que «Ainda podem ter enganos, / E tristes desenganos». Conclui-se que o ser humano é débil gente que, por medo da solidão se enreda no embuste: «Nós julgamos perder / Mal se nos abre a mão; Mal a fechamos que julgamos ter. / Somos bem débil gente! / Dificilmente / Podemos encarar a nossa solidão; ou ver que só perdemos / O que jamais tivemos.».
No poema explana-se o cansaço e a frustração existencial, porém com a energia do inconformismo. Ser com nenhuns abrigos, apenas com a imensidão que Deus lhe abriu no seio, o poeta exangue, lança a tudo e a todos um longo e veemente Adeus: «Pois bem, adeus! – respondo, enfim cansado – / Tu, que até para negar-me, / Me pedes emprestado / O teu sinal de alarme, /Tu, cuja boca bruta / Nem acusar-me saberia, / Mas que eu fui descobrir, e abrir, como uma gruta / Que, tapada por terra, oculta havia, / Tu nem mereces que eu procure a mão / Que apertarei, mas só a sós comigo, / Sob o mantéu real daquela solidão / a que me condenou teu vesgo olho antigo…// Adeus, adeus, velhos amigos! / Adeus, jovens amigos! Velhos, jovens, todos…Creio / Que o poeta não tem nenhuns abrigos / Senão a imensidão que Deus lhe abriu no seio.».
.
Numa Poesia pungentemente humana, é frequente o apelo de Régio ao afago da fraternidade: «Às vezes, quando o ar parece que me foge, / Me falta Deus, ou espanta a nossa condição, / Como os fiéis de outrora, a seus pés, hoje / Dobro o joelho trémulo no chão. / Nem restos de orações lhe rezo. /Espero no silêncio e na opressão, curvado, / Que Jesus Cristo ao seu madeiro preso / Tenha dó de mais um crucificado
.
As palavras feitas asas da denúncia
.
A expressão escrita veicula o combate pela vida feito pelo Eu poético, é reserva de ar certa que se busca quando a vida o rarefaz. O mal da sua vida surge ditado, derramado no papel, «a pena tinta em fel», atirado de novo para o mundo, «Em que entro imundo, e me levanto puro!».
As palavras são o grito que atesta a angústia, a revolva, a procura do conhecimento de si, o voo da razão da sua existência: «E as minhas asas, – deu-mas / a minha falta de ar / naquela insustentável posição / De inutilmente mendigar / o meu direito ao meu quinhão: / Vinho para me embriagar! / Para me sustentar, frutos e pão. / As minhas asas, – deu-mas / o sinistro clarão que em mim se fez / (Mal eu passava de menino…) / E a cuja luz li todo o meu feroz destino / Pela primeira vez. / (…) / As minhas asas, – deu-mas / A incompreensão inconsciente / De que me vi murado; O amor incompetente / Frustradamente dado (…) E o meu desejo insatisfeito, / De insatisfeito, inchou até aos céus. / Já Tu, meu Deus, / Cravaste o Teu pendão na terra do meu peito.».
.
Na complexidade trágica do ser humano há ainda que contar com uma existência que tem que ser talhada única e exclusivamente pelo próprio. Seguir e não seguir ninguém é uma assunção de liberdade, mas também uma solidão na caminhada.
A um jovem poeta ou a outra qualquer forma de vida, diz Régio:
«Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim? / Que darei eu do que ninguém me deu? / Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim, / Cada qual ganhe o seu. // Porque tu é que és tudo! A terra a cultivar, / A mão cultivadora, o arado da cultura, / O grão a semear, / O próprio fruto, – grão da mão futura. / Pois lavra-te, és o chão! Emprega-te, és o braço! / Semeia-te, és o grão! / Floresce, frutifica, extingue-te! E, no espaço, / Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…».
.
Bibliografia consultada: José Régio, Obra Completa – Poesia I e Poesia II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa
.
nota: texto originalmente editado no site Triplov

© Teresa Sá Couto
Idea ver este e outros textos em http://comlivros-teresa.blogspot.com/
As mudanças do Acordo Ortográfico
Editado Guia sobre a nova ortografia

A Editorial Caminho acaba de lançar um utilíssimo Guia que colige as mais significativas mudanças ortográficas do português europeu, consequência da recente rectificação do Acordo Ortográfico de 1990, que continua a gerar celeuma em Portugal, mas também no Brasil, cá e lá contestado por uma grande facção de editores, escritores e outros praticantes atentos da língua. Questiona-se, sobretudo, onde está a unificação da língua, bandeira dos promotores para legitimarem as novas mudanças ortográficas, unificação que também eu, após análise atenta deste guia, não consigo vislumbrar. Todavia, abstenho-me, tanto quanto possível, de comentários – sobre a forma e a decisão política que engendrou a rectificação do Acordo – para que não estorvem as conclusões que cada um pode tirar dos exemplos que aqui selecciono.

Com participação da linguista Maria Helena Mira Mateus – que tem, entre outros títulos da especialidade, editada na Editorial Caminho a magnífica Gramática da Língua Portuguesa, de 2004 –, o livro compreende três grandes partes, de fácil consulta e inequivocamente esclarecedoras: as «Regras que mudam», «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda» e «Formas verbais cuja grafia muda». O alfabeto passa a ter as letras k, w e y.

A abrir, nas «Regras que mudam», apresenta-se e explica-se a nova restrição do hífen em palavras com os prefixos anti- e co-, pelo que passar-se-á a escrever copiloto, antirreflexo e cooperação. Mantêm-se hifenizados os prefixos ex-, pré-, pró-, bem- e não-: ex-diretor, pré-seleção, pró-ativo, bem-vindo, não-católico.
As formas monossilábicas do verbo haver perdem o hífen, como há muito se pratica no português do Brasil: há de e não há-de. Também neste princípio de identidade brasileira que ditam a regra e justificam as excepções, surgem as polémicas subtracções dos acentos tónicos, consoantes mudas, maiúsculas e a letra h em início de palavra:

–como no Brasil se escreve tônico e no resto dos países de língua oficial portuguesa se escreve tónico, as duas formas passam a ser oficiais;

– o acento que distingue palavras homógrafas é suprimido, passando a escrever-se pelo (pêlo, substantivo), indistintamente da proposição pelo (por+o); por (verbo pôr), indistintamente da proposição por; para (em vez de pára, verbo parar). Excepções para o verbo pôr, que mantém o acento para se diferenciar da preposição por e a forma dêmos, do verbo dar que se escreverá opcionalmente como dêmos ou demos. Acrescento que a polémica desta medida prende-se, sobretudo, com a confusão dos tempos no presente e no pretérito perfeito dos verbos terminados em –ar que, no português de Portugal, ao contrário do Brasil, é bem distinto: "nós andámos na cidade", distinto de "nós andamos na cidade"; "gostámos das férias", distinto de "gostamos das férias", etc., o que obriga a um estudo do contexto para se decifrar a correcta mensagem e, consequentemente, a compreensão de enunciados. Acresce que a eliminação do acento nalgumas palavras de português de Portugal faz com que a palavra passe a ter um sentido oposto para o qual ela existe: não se entenderá para-fogo (em vez de pára-fogo) um auxiliar do fogo e não o oposto? Ver entre os exemplos, no final.

– na queda das consoantes mudas, passa a escrever-se ação, atual, ótimo, adoção, assunção, etc. quando a pronúncia no Brasil executa as consoantes, as palavras passam a ter duas grafias, como por exemplo, recepção no Brasil, mas receção em Portugal, e, onde a pronúncia é variável, mantém-se essa variação, sendo aceite, por exemplo, amígdala e amídala;

– passam a escrever-se com minúsculas os nomes dos meses, estações do ano, pontos cardeais, com opcionalidade maiúscula ou minúscula para formas de tratamento, lugares, e títulos de obras: janeiro, verão, norte, professor ou Professor, avenida da Liberdade ou Avenida da Liberdade. Há a ressalva para a grafia dos nomes próprios de pessoa que pode ser mantida….

– como no Brasil se escreve úmido e em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa se escreve húmido, as formas mantêm-se; explica-se que se emprega h inicial quando é «etimologicamente válido, excepto quando a grafia sem h se encontra já inteiramente consagrada pelo uso. Para esclarecimentos adicionais, os autores deste guia remetem para o portal da Língua portuguesa que fornece toda a informação relativa à Língua: http://www.portaldalinguaportuguesa.org

Da extensa «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda», seguem outros exemplos, com a grafia antiga e a palavra ou palavras (aceitando-se variantes e excepções – com palavras em itálico da variante brasileira) regulamentadas:

Abdómen – abdómen, abdômen
Abjecto – abjeto, abjecto
Actividade – atividade
Agro-alimentar – agroalimentar
Anti-salazarista – antissalazarista
Director – diretor
Ejectar – ejetar, ejectar
Fracturar – fraturar, fracturar
Gastronómico – gastronómico, gastronômico
Pára-lamas – para-lamas
Pára-vento – para-vento
Pára-raios – para-raios
Pára-fogo – para-fogo
Pêra – pera
Reacção – reação
Recta – reta
Rectilínio – retilínio, rectilínio
Sub-raça – subraça
Sub-reino – subreino
Tecto – teto, tecto
Tramóia – tramóia
Vêem – veem


Voca Bulá Rio - As palavras que mudam com o Acordo Ortográfico, ILTEC - Instituto de linguística Teórica e Computacional; Editorial Caminho, Lisboa, Junho 2008

© Teresa Sá Couto
«Peregrinos Sem Fé»
A travessia da consciência, em tempo de romarias

O que fica do homem depois de deixar de acreditar? O que resta ao sonho depois de saber que a realidade não permite ilusões por muito tempo? Como prosseguir depois de perdida a esperança? Qual o valor da fé na errância humana? Estas são algumas questões suscitadas pela narrativa «Os Peregrinos Sem Fé», livro de Sérgio Luís de Carvalho, Director do magnífico Museu do Pão de Seia e escritor de cunho inconfundível, tanto no manuseio da palavra como nas temáticas.

Lançado no ano passado, este Os Peregrinos Sem Fé foi editado ao mesmo tempo em Portugal e na Galiza onde é acolhido sempre com o máximo entusiasmo ou não fossem os romeiros de Santiago a partilha de portugueses e galegos, como se refere no presente livro: «dizem que por aqui existem caminhos muito antigos, por onde desde sempre passaram portugueses ou galegos exibindo as raízes tão comuns.». Esta é, pois, uma leitura maior para este tempo de romarias e férias, esperando-se o próximo romance do autor a editar ainda este ano.

Neste, como no romance anterior a este - o magnífico Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio - Sérgio Luís de Carvalho mostra-nos que é possível narrar-se o tempo com recurso à memória, suporte da vida dos homens, mesmo sendo ela infiel e enganadora, pois é essa a «infeliz condição do homem». Com as histórias de dois homens que, separados por cinco séculos, narram as suas viagens de Lisboa a Santiago de Compostela, sempre acompanhados por outras memórias ainda mais antigas, as de Eneias, da Eneida de Virgílio, mostra-se que, independentemente dos tempos, a busca da consciência foi sempre um imperativo da existência, e o conhecimento alcançado na travessia é tão diverso quanto os homens que as fizerem.

Dois textos em alternância preenchem as 425 páginas da aprendizagem de dois homens, sem nome, pois podem ser qualquer um de nós. O primeiro é um médico e professor humanista, preso nos Estaus, sede em Lisboa do Santo Ofício, corre o ano de 1563. Acabou de assinar a carta de abjuração – pelo que aguarda a libertação – e, impulsionado pela leitura da Eneida de Virgílio, acaba de escrever a viagem que fez no meio de peregrinos a Santiago de Compostela. O segundo é o intérprete de Eneias na ópera «Dido e Eneias» de Henry Purcell, e regressa a Santiago, local donde fugiu por lhe ser insuportável o amor de Irina, a mulher que interpretou Dido, e que, também ela, se suicida depois da partida do seu Eneias.

Histórias de desamparo e solidão

A travessia dos dois homens é de desamparo, solidão e de expiação das culpas. Ainda que com finais diferentes, ambos os homens fazem a viagem a Santiago de Compostela com descrença: o médico fá-la pela descrença religiosa da peregrinação – disfarça-se de peregrino para fugir à perseguição da Inquisição –, mas animado pela crença nas suas ideias humanistas; o cantor fá-la, vazio de qualquer esperança – vai ao encontro do final que esperava e a confirmação do dano humano:
«para quase tudo é sempre demasiado tarde; passamos a fronteira e não notamos e fica para trás a estrada ou o atalho que eram os ideais para regressar»; «Também nós, cegos e surdos a todas as evidências assim somos, crentes sempre em algo de melhor, algo superior a nós. Corremos e insistimos e agimos sempre, e sempre, até a realidade enfim tombar sobre nós, nos cobrir com o seu negro manto e zombar das nossas esperanças. Mas tanta vez – ai de nós – nem assim abandonamos a nossa estúpida esperança. Não há pior coisa nem melhor coisa que a esperança. Somos fortes em a ter, somos fracos em a ter.».

Sem fé, prossegue, mas arrastando-se, com a inércia em vez do fulgor que a caminhada deveria ter. É com o olhar tragicamente ímpio que se detém nos peregrinos:

«Talvez os inveje. Talvez agora inveje a sua força, a sua crença que os leva tão ligeiros aonde um santo terá chegado há muito tempo. A fé os faz recusar as evidências, e isso é bom. A fé lhes diz que continuem, e isso é bom também. E se a realidade que os cerca contraria tudo aquilo em que acreditam, eles prosseguem, porque estarão certos ser a realidade que se engana. E são felizes, pois a realidade não lhes destrói as ilusões. Talvez…»

Também o médico detém-se nos peregrinos, seus companheiros de viagem, e a quem aprendeu a respeitar: «por vezes invejei a fé tão chã que eles tinham, e eu não. Livre, eu ia forçado em romaria, por dever que a mim mesmo assim me impus; eles todos, todavia, iam mais livres, mesmo se obrigados por promessas ou sentenças.».
Também ele se esquecera como «era perigoso ter esperança», pois, passados uns anos em Santiago, regressou a Portugal, onde a Inquisição não se tinha esquecido dele.

Agora, no seu cárcere, apesar de esperar a liberdade, maldiz-se traidor por ter assinado a carta onde, para se salvar, renegava os amigos e as ideias. Tal como o cantor que expia as culpas da sua fuga, o médico expia o seu acto. Medo ou cobardia? «Se calhar, cada um é cobarde como pode». Afinal, cada homem transporta consigo a sua sombra, consciência funda, a maestrina das suas acções, que pode ter a forma de um cão que uiva incessantemente, branco ou negro, como os que acompanham sempre os protagonistas desta narrativa de Sérgio Luís de Carvalho.

Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho; Campo das Letras, Porto, 2007



© Teresa Sá Couto

Ideaver esta e outras propostas de leituras aqui: http://comlivros-teresa.blogspot.com/

«A Morte de Portugal»

 

Reflexão sobre nós, num Ensaio de Miguel Real

.

.

A «”morte de Portugal” não significa que Portugal desapareça (Portugal “dura”, escrevia Eça de Queirós durante a crise do Ultimatum; é, aliás, a sua grande virtude, não dar felicidade ao seu povo, mas durar, sobreviver, existir por existir, criando contínuas mitologias que justifiquem a sua existência)», diz Miguel Real no novíssimo Ensaio «A Morte de Portugal».
.
A morte de Portugal residirá, então, no desaparecimento de toda a originalidade portuguesa substituída pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas». Mais, acrescenta Miguel Real:
.


«em nome de um orçamento metafísico e de uma canina imitação do pior da Europa, terão sido eliminados por este os curtos direitos ganhos pelas populações desde o 25 de Abril de 1974 (ter escola na sua terra, ter maternidade na sua terra, ter assistência hospitalar na sua terra, ter dinheiro suficiente para ir ao dentista, ter reforma garantida). É um Portugal solto, desregrado, cheirando alarvemente a dinheiro, os ricos por o terem, os pobres por o desejarem, todos por nas “Índias” o espreitarem, isto é, na mirífica Europa.».

.

Este é um «ensaiozinho despretensioso e reflexivo de horas nocturnas», no dizer do próprio ensaísta, texto ágil, acutilante, intervencionista, predicados para um prazer incomensurável de leitura, dizemos nós. Em 123 páginas, com Introdução, três capítulos e um Índice Onomástico, Miguel Real consulta 800 anos de política, mentalidades, História da Cultura e História das Ideias para desembocar nas actuais páginas de jornais onde corre a narrativa sobre quem somos e em quem nos estamos a transformar. Sobre o resultado do comando do Estado por «títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios casuais», «uma nova geração de engenheiros e economistas totalmente desprovida de espírito histórico», escreve o ensaísta:

.

«Portugal permanecerá, na sua posição relativa face aos países mais ricos da Europa, como se encontra desde o reinado de D. João III, na base da tabela», com um «povo pobre, analfabeto e supersticioso. (…) É o Portugal de D. João III (menos de 30 anos depois de D. João III tínhamos sido condenados à inexistência por Castela), o Portugal do “Nada para que caminhamos” de Marquesa de Alorna, um Portugal merecedor de um Gil Vicente, que infelizmente não o há. É a orgia báquica dos técnicos cinzentos e dos políticos janotas antes da grande derrocada, como aconteceu na segunda metade do século XVI e na passagem entre os séculos XVIII e XIX.». Invocando o nome grande das letras portuguesas que também designa o Dia de Portugal, escreve o ensaísta:

«Camões, de facto, merece ser o símbolo do povo português – homem azarado, poeta pobre, brigão, mulherengo, condenado pelo Estado, perseguido pela igreja, nunca terá frequentado a Universidade (“saber de experiência feito”), migrante do Império, ora aqui, ora acolá, a sua vida, como a de Fernão Mendes Pinto, reproduz a vida dos portugueses que nunca beijaram a sombra do Estado, adversa às elites reitoras do Poder.»

.

Os quatro complexos de Portugal

.

Desenhando os quatros pontos cardiais por que Portugal se tem movimentado na sua História, Miguel Real apresenta quatro complexos culturais. O primeiro, da ORIGEM EXEMPLAR, é o complexo viriatino, que «emerge na segunda metade do século XVI», radicado na imagem de Viriato, «herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro» que só pela traição é derrotado.

.

O segundo, o da NAÇÃO SUPERIOR, o complexo vieirinho, que irrompe depois de D. João III, Alcácer Quibir e a decadência do Império, com o Padre António Vieira a semear a esperança, anunciando-nos o Quinto Império «dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado», e que «nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstancias, pulsao social que orientou as caravelas portuguesas;»

.

O terceiro, da NAÇÃO INFERIOR, o complexo pombalino, radicado no ímpeto de Pombal, o da nação humilhada pelo seu atraso e sequiosa das luzes europeias, «hoje acefalamente política dominante do Estado português, que a segue como “bom aluno”.

.

Por fim, o do CANIBALISMO CULTURAL, o complexo canibalista, «que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol, bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao supremo hierárquico», aludindo-se, na actualidade, à «perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva.».

.

«Se a vitória europeia de Portugal se consumar, terá sido a geração nascida entre 1940 e 1960 a matar D. Sebastião pela segunda vez», diz, sem que, no entanto, antes desafie:

«Resta aos homens de bem virarem as costas a esta nova elite tecnocrática que assaltou e se apoderou do Estado português (..) e, se puderem, emigrarem, clamando que aos homens-técnicos leva-os o Tejo e o Douro nas enxurradas de Inverno, os homens-cultos, esses, permanecem, recriando a nova imagem literária, estética e cultural por que Portugal posteriormente se reverá no espelho da História.».

.

A Morte de Portugal, Miguel Real; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

.

© Teresa Sá Couto

«Discurso do Filho da p***»

Passing by...

Eis uma pequena paragem na sugestão de livros, mas nunca de leituras, para um desabafo gritado por palavras sábias que peço emprestadas a Alberto Pimenta do seu «Discurso do filho da p***». É que, enredada por um desses tipos manipuladores, narcísicos e de soberba desmedida, encontro naquele poema alguma depuração para a revolta e náusea e, como bem lembrado por um amigo meu, «lá dizem os brasucas: quando o estupro é inevitável, relaxa e goza!».

Pois……

.

Segue, então, o poema, com desculpas a Alberto Pimenta pela transcrição que, neste canal,  substiutuiu o adjectivo do filho por *** :

.

.

Discurso do filho da p***


O pequeno filho da p***
é sempre
um pequeno filho da p***;
mas não há filho da p***,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da p***.

no entanto, há
filhos-da-p*** que nascem
grandes e filhos da p***
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da p***.
de resto,
os filhos da p***
não se medem aos
palmos,diz ainda
o pequeno filho da p***.

o pequeno
filho da p***
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da p***.

no entanto,
o pequeno filho da p***
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da p***.
todos os grandes
filhos da p***
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da p***,
diz o pequeno filho da p***.

dentro do
pequeno filho da p***
estão em ideia
todos os grandes filhos da p***,
diz o
pequeno filho da p***.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da p***,
diz o pequeno filho da p***.

o pequeno filho da p***
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da p***.

é o pequeno filho da p***
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da p***,
diz o
pequeno filho da p***.
de resto,
o pequeno filho da p*** vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da p***:
o pequeno filho da p***
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da p***.

II
o grande filho da p***
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da p***,
e não há filho da p***,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da p***,
diz o grande filho da p***.

no entanto,
há filhos da p***
que já nascem grandes
e filhos da p***
que nascem pequenos,
diz o grande filho da p***.

de resto,
os filhos-da-p***
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-p***.

o grande filho da p***
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da p***.

por isso
o grande filho da p***
tem orgulho em ser
o grande filho da p***.

todos
os pequenos filhos da p***
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da p***,
diz o grande filho da p***.
dentro do
grande filho da p***
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da p***,
diz o
grande filho da p***.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da p***,
diz
o grande filho da p***.

o grande filho da p***
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da p***.

é o grande filho da p***
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da p***,
diz o
grande filho da p***.
de resto,
o grande filho da p***
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da p***:
o grande filho da p***
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da p***.

.

Alberto Pimenta

 

«O Nosso Século é Fascista!»

«O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)»

Salazar e Franco nasceram com 3 anos de diferença (1889 e 1892, respectivamente) e viriam a dar o nome às duas ditaduras ibéricas. O primeiro, com o programa Deus, Pátria, Família, com a força do Manda quem pode, obedece quem deve e numa «linha geral europeia»; o segundo, autoproclamando-se o Caudillo de Espanha pela graça de Deus e voz do movimiento general de rebeldia en las masas civilizadas del mundo; ambos, crendo-se portadores de uma nova ideia, que impuseram de forma totalizadora – no Estado Novo e Nuevo Estado –, a ideia de uma Nova Ordem, regeneradora e saneadora, integrante de uma nova Europa com fórmulas hitleriana e mussoliniana. 

 Conhecer o pensamento político daqueles dois homens filhos de um tempo complexo e vário é a proposta do soberbo e urgente Ensaio «O NOSSO SÉCULO É FASCISTA! – O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)» do historiador Manuel Loff. São quase mil páginas de fascínio, que, sedento, segue a profusa e rara documentação histórica, interpelada, interpretada e contextualizada pelo historiador.

A presente edição, revista e adaptada – retirado o peso ao carácter académico para ser acessível a um grande público não especializado –, tem por base uma Tese de Doutoramento de Manuel Loff, discutida publicamente em 2004, em Florença, e inscrita no programa de Doutoramento do Departamento de História e Civilização do Instituto Universitário Europeu, em San Domenico di Fiesole, Florença, Itália. Foram nove os anos que o historiador levou a redigir este trabalho que a Campo das Letras disponibiliza agora no formato para grandes leitores apaixonados pelo saber histórico.

Ao todo, são nove capítulos (1- As ditaduras Ibéricas na Nova ordem Eurofascista: Uma aproximação ao problema; 2 – Os Pressupostos Ideológicos; 3 – História e Império; 3 – A Lógica dos “Grandes Espaços Continentais”»; 5 – O “Saneamento” Político da Europa; 6 – A Nova Ordem Como Corolário da Evolução Recente Europeia; 7 – Do Projecto à Prática: a “Construção da Nova Ordem”; 8 – Perante a Colaboração e a Resistência; 9 – Várias Conclusões e Um Epílogo) desdobrados em minudentes alíneas.
.

O despertar da Raça

.

«Salazaristas e franquistas revelar-se-iam prolíficos na elaboração teórica das maravilhas da unidade», escreve Manuel Loff, na explanação do ideário que presidiria ao Partido Único sustentado pelos movimentos Nacionalistas da nova era. Imbuídos pelo poderio nazi, salazaristas e franquistas faziam convergir os seus modelos políticos com os do «novo director da Europa», numa oportunidade histórica única de participarem no grande sonho da grande unidade europeia.

Em Portugal, criava-se, no início dos anos 30, a «União Nacional como partido único admitido por um regime que ainda estava em criação» e que iria sustentar o salazarismo. Segundo o texto, João Ameal – conde de Ameal (1902- 1982), militante monárquico tradicionalista e “agente de Salazar” – «garantia que “a corrente nacionalista é hoje, entre nós, a força mais viva, mais importante e mais progressista – a força que representa o despertar consciente de uma grande Raça, apta a reatar uma grande História. O novo destilava-se em primeiro lugar da idade dos seus partidários: “Só o nosso ideal, nacionalista e reconstrutivo, satisfaz os homens de menos de quarenta anos, a mocidade do nosso século”, insistia Ameal, (…)”Só nós incarnamos a autêntica vanguarda espiritual e política”».

Em Espanha, «a lei descrevia Franco como “Jefe Nacional de Falange Española Tradicionalista y de las J.O.N.S., Supremo Caudillo del Movimiento, [que] personifica todos los Valores y todos los Honores del mismo», «Autor de la Era Histórica donde España adquiere las posibilidades de realizar su destino».

.

O programa do ódio

.

Também os regimes ibéricos tinham na ideologia do Liberalismo e no seu filho, o Comunismo, os inimigos a abater; para Franco, eram «um peligro universal», para Salazar, «o maior problema humano de todos os tempos». E o ditador português, à semelança do espanhol, esmiuçaria as razões desse ódio, em 1943, apontando-lhes a responsabilidade de todos os males, num texto reproduzido por Manuel Loff:

«descalabro das finanças e da moeda, a ruína da economia, o assalto da propriedade, a desordem da rua e dos espíritos, os assassinatos dos inimigos políticos e dos militares de prestígio, os insultos e vexames da gente honesta nas praças e nas cadeias, as campanhas anti-religiosas, a “justiça popular”, a indisciplina e afundamento dos órgãos do Estado, o riso escarninho do mundo perante uma gloriosa Nação multi-secular que, parecendo não querer viver em paz, não fazia ao menos revoluções mas sangrentos motins.». 
.
Neste programa de ódio que visava a URSS, o bolchevismo, a que chamavam o comunismo asiático, e a «América plutocrática e imperialista», conta-se, também, a suspeita do «papel das minorias judaicas na Europa» e o epíteto de «terroristas aos que resistiam à ocupação nazi-fascista, primeiro em França, depois na Jugoslávia e na Grécia, depois na URSS».
.
Delírio Imperial e propaganda. 
.
Da excelsa odisseia de conhecimento que nos dá Manuel Loff, cujo olhar que aqui deixo é necessariamente exíguo, destaco ainda o trabalho de pesquisa sobre as ideias Imperialistas dos dois regimes ibéricos e as manobras de promoção de salazaristas e franquistas – de «dois Estados internacionalmente periféricos e praticamente impotentes» – no palco internacional, nomeadamente na autojustificação colonial «contra a vontade de britânicos e franceses».

Por cá, Salazar explorava propagandisticamente, até ao tutano, a ideia da universalidade e da «imagem espiritual da Pátria». O culto do passado é bem evidenciado pelo próprio Salazar no empenho das cenográficas «Exposição Colonial do Porto», em 1934, participação em exposições internacionais e «Exposição do Mundo português», em Lisboa, em 1940.

Uma «apoteose da Consciência nacional» que levava salazaristas e franquistas a configurarem um calendário próprio com as datas do orgulho. Entre outras datas, em Portugal, o 28 de Maio (pela Revolução Nacional de 1926); o 10 de Junho, proclamado como «Dia de Portugal e da Raça a partir da evocação do poeta quinhentista Camões, alcandorado o poeta dos Descobrimentos e da gesta imperial»; os 27 e 28 de Abril – o primeiro, dia da nomeação de Salazar para o Governo (1928) e o segundo, o aniversário do Ditador; em Espanha, o 18 de Julho na comemoração do Alzamiento de 1936, ou o 12 Outubro, a marcar a chegada de Colombo à América, que se tornava o Dia de la Raza e da Hispanidad.

.

Já em nota de conclusão, escreve o historiador neste Ensaio - que é, indubitavelmente, um marco no campo da investigação da nossa História recente, acrescido do poder de nos alertar para as ameaças à Democracia -, que «não foi por terem naturezas ideológicas pretensamente distintas que o Franquismo e o Salazarismo sobreviveram nos trinta anos seguintes à derrocada do Nazismo e do Fascismo», comprovando-o com recurso a diversa documentação. Trata-se de uma «capacidade demonstrada por estes regimes em recorrer ao mais despudorado dos pragmatismos e em se comportar como autênticos camaleões políticos se de tal procedimento tiver percebido depender com muita probabilidade a sua sobrevivência», acrescenta.

.

.

O Nosso Século é Fascista! - O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Manuel Loff; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008

.

© Teresa Sá Couto

Grande Prémio Camilo Castelo Branco para Ondjaki

Vinte e duas imagens da infância

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, autor de uma vasta obra que se desdobra em contos, romances e poesia, autor da magnífica história infantil «Ynari – a menina das cinco tranças», acaba de ser galardoado com o Grande Prémio de Conto "Camilo Castelo Branco" 2007 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Os da Minha Rua", já editado no Brasil (segunda capa na fotomontagem).

Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando comprova-se que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afecto, da identidade.

Ondjaki regressa às pequenas estórias com Angola no batimento narrativo, agora ainda mais mágica, pois olhada pelos olhos da idade da inocência. «Escrevo para compreender. Compreender o quê? Tudo», disse José Saramago. Respondendo ao grito das raízes e desafiando o pó do tempo, o jovem poeta de Há Prendisajens com o Xão recria os ramos e os laços da infância para os fixar e compreender ou, segundo Manoel Barros, «um livro o ensinou a não saber nada – agora já sabe».

Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projectando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: «A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…) nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.».


Cinco miúdos, Ndalu, o narrador, Tibas, o mais velho, Bruno Ferraz e Jika, o mais novo, constituem a equipa do tang que sonhava com coca-cola a ponto de dos seus olhos sair um brilho «tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e a assustar os mosquitos». Com eles constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está a aprender a viver como as crianças que a contam. Neste sentido, esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.

A nova nação pelos olhos das crianças

Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».

Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:


«Chamava-se "Cine Atlântico" e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, umas poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela toda gente fazer um silêncio de espera e logo depois assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começarem a gritar "Jerri Quan!, Jerri Quan!". Bateram palmas e eu também..».

Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».

A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:


«um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi estava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também, muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.».

A perda e a luz

Diz-nos o texto:
(…)o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso ir perguntar aos galhos de um abacateiro velho(…);

(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.

Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.


Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007

© Teresa Sá Couto

Estado português condecora o poeta Albano Martins

O poeta e professor universitário Albano Martins, nascido na Aldeia do Telhado, Fundão, em 1930, será condecorado pelo Presidente da República, no próximo dia 10 de Junho, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O livro recente do autor, lançado dia 7 de Junho, na Feira do Livro do Porto, dirige-se às crianças e titula-se «Uma Casa à Beira da Floresta» (ver aqui o meu artigo sobre esse livro: http://comlivros-teresa.blogspot.com/).
.
Albano Martins nasceu em 1930, na Aldeia do Telhado, Fundão. Foi agraciado pelo Governo da República do Chile com a Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral no Grau de Grande Oficial, pela sua obra poética e pelo seu trabalho de tradução de Pablo Neruda. Foi distinguido com a Medalha de Ouro da Cidade do Fundão, em 2006. Esta condecoração do Dia de Portugal enche-nos de orgulho: pelo poeta e pelo país o reconhecer!
.
Sobre a sua poesia, deixo um olhar pela Antologia poética «Assim são as Algas», editada pela Campo das Letras e que reúne 50 anos de vida literária (de 1950 a 2000).
.

A singularidade poética de Albano Martins

.

É possível fechar-se o horizonte num livro; por isso, é preciso abri-lo para que se solte o infinito: «Assim são as Algas» é o título da Antologia Poética que reúne 50 anos de vida literária (de 1950 a 2000) do professor universitário e poeta beirão Albano Martins. Uma edição de capa dura feita com detalhe e esmero, guardiã de um conteúdo raro. Por 552 páginas, corre o inefável compromisso do poeta com a poesia: «Cumpro o meu destino como qualquer fonte».

Um Destino inebriante, tecido com a palavra exacta, policroma, polifónica, odorífica, tudo envolto na solidão e no silêncio donde brota toda a criação: «Im /puro sou. Escavo /com minhas mãos a lama /do silêncio. Não /conheço outro oficio.».

No seu ofício, o poeta talha o centro do amor – «Centro do próprio centro» –, que está no corpo da mulher amada, o mesmo é dizer, na poesia: «Dei-te o nome da abelha, /mas tu és favo e mel, /substância vermelha /feita de sangue e pele». Uma poesia que declara a partilha e, sobretudo, o acto de amor para com a Literatura Portuguesa.

.

A natureza, a senha para a felicidade

Albano Martins encontra na natureza a chave da harmonia existencial. Associando a natureza à natureza da palavra, diz o poeta que «A verdadeira beleza /está no que o homem tem de semelhante /com a natureza.». Mais, aconselha o homem a aproximar-se dela para lhe apreender a perfeição: «Para saberes, ergue /um monumento, deixa /que as rolas façam /seu ninho no topo».


Aos 20 anos de idade, em Secura verde (1950), Albano detinha-se na observação da natureza para interpretar a sua condição de poeta iniciático: «Sou um mundo fechado /ainda por abrir, /uma flor imperfeita /que não sabe florir»; «Meus versos, gritos do vento das ramagens, /são a minha própria alma angustiada /a reflectir imagens /duma lenda em mim iniciada». Decretava o seu voo feito de «Pássaros que abandonam /o calor e o âmbito do ninho», multiplicava-lhes auras e arco-íris em versos que eram «encontros da sombra com a luz». Debatia-se com o drama da criação – «Posso ter o corpo aberto /e não mostrar o que sou». Definia o seu método e escolhia o seu destino – seguir sozinho um caminho achado «nas palavras dos que vinham»; «Construo e destruo /meu destino é esse».

Em «Rodomel Rododendro» (1989), um belíssimo conjunto de textos em Prosa poética, pode ler-se o que seria, recorrentemente, a sua bússola humanista: «Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário».

Assim são as Algas, substância genesíaca que circula na epiderme; assim é o sangue que o poeta deixa correr para que o leitor o persiga.

Amor e erotismo no mapa do corpo

Paul Éluard escreveu: «combatíamos juntos o sono. /Dois sóis em nós se erguiam».
A reciprocidade amorosa sobressai na temática do Amor em Albano Martins, com intimismo avassalador. A mulher amada surge como complemento de lugar onde o sujeito encontra a sua plenitude, carne e espírito: «Assim me deito /sobre a ternura /Este é o meu leito /e a minha lura». O pronome pessoal “Eu” dá lugar ao “Nós”, e o possessivo “Nosso” atesta a conjura amorosa: «Nenhum excesso /nos contém. Nenhuma /onda nos devolve.»; «O que em nós sobra /à maré pertence.»; «Basta uma flor, /basta uma asa /para saber que a primavera /entrou em nossa casa.». Juntos partilham uma margem – «Esta é a margem /do azul. Nenhum /outro limite / reconheço ao sangue» –, repleta de luz, emaranhados no erotismo.


Em «A margem do azul» (1982), o poeta desata a pulsão do amor e do desejo em palavras como espécies de mãos que bebem, sôfregas, a pele: «De ti fiz a harpa e a lira, /a guitarra. /Outra música não sei.». Em «Vertical o Desejo» (1985), os interditos abrem-se à luz, num mapa erótico que se desnuda pela vibração vocabular: «Entras / em mim descalça, vulnerável /como um alvo próximo, ferida /nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto /nos conhecemos, é essa luz /oblíqua que nos cega. E te pertenço /e me pertences como /a lâmina /à bainha, a chama /ao pavio.».


Com «Uma Colina para os Lábios» (1993), o desejo edifica-se no altar do corpo amado, no processo que reitera o destino do poeta que constrói e destrói, dando forma à avidez da descoberta: «Não sei medir-te de outro modo: /te dispo e visto o tempo todo.». A exclusividade do amor conjuga com a paixão o verbo ser e este com a vontade de ser homem: «Apenas um dos dedos /conhece a luva. Só uma pétala /convém à rosa.».
Trata-se de um amor extasiado, porém real ou, como diria Éluard, «Estar enlevado é uma forma de realidade».


No entanto, a melopeia amorosa não se faz apenas de luz e orvalho, mas também de sombras e lodo: «Cubro-te a face /de sombras. Sou /o teu e meu eclipse.». Sendo esta uma poesia que afirma que «A vida / – essa invenção magnífica /da morte.», faz da vida um hino à felicidade: «Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão. A harmonia de contrários geradores de equivalências é uma constante na poesia de Albano, e apanágio da grande poesia.

«O ninho» da memória

Porque o homem faz-se também de memória, em «Em tempo de memória», de 1974, o poeta enceta a «viagem das flores sem moldura», recupera o tempo branco, «sem cor e sem regresso». Não se julgue, porém, que este retorno ao passado é feito de passividade: não há imobilismo nesta poesia, mas reminiscências, cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos doridas e requiem aos «gestos perdidos /no espaço da memória». Em «Paralelo ao vento», (1979), caracterizam-se e questionam-se os «Anos plácidos, /fulvos, /que luz ainda perdura? /Que piano guarda /ainda uma nota /grave, /cintilante /e pura?». A demanda seguiria em «Os Remos escaldantes» (1983) onde «Há um melro que faz /o ninho» na memória: «Ouço-o /agora. Canta /a flor das giestas /e da cerejeira». Esses «dias enxutos» instigam, em «O mesmo nome» (1996), a «Rosa-dos-ventos» da infância, onde cabiam todos os lugares e todas as direcções. Reiterava-se, na poesia de excelência, o mel das «Lendárias e luminosas abelhas», a «Magnólia dos símbolos», a florida e «incandescente metáfora», o «Aveludado perfume», recorrências que palmilham e dinamizam todo o trabalho poético de Albano.

José Régio disse: «Eis como tudo se reduz a pouco: literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço». Assim vemos a poesia de Albano Martins; um hausto íntimo que atinge a universalidade e intemporalidade humanas; uma orquestração de palavras que depois de nos deixarem «todos os jardins da terra e do mar» nos incitam e ensinam a plantar «uma flor no vazio».

.

 

© Teresa Sá Couto

Prémio para «O Padre António Vieira e as Mulheres»
O gáudio da leitura numa excelsa monografia
.
.
Em plenas comemorações dos 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, surge-nos um livro soberbo que inquire, minudente, 47 sermões vieirinhos, no encalço do universo feminino dos séculos XVII/XVIII: «O Padre António Vieira e as mulheres» de José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas, que acaba de arrecadar o Prémio SHIP – Monografia 2008, instituído pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com o valor pecuniário de €1.250,00 e um troféu representativo da SHIP. Confiro que é um justíssimo prémio para um documento essencial da História das Mentalidades, acrescido de um incomensurável prazer de leitura.


Bem organizado, permitindo uma consulta eficaz, o livro explana o estudo sobre o mito barroco do universo feminino – mas também apresenta uma esplendorosa e vasta incursão pela psicologia do homem de Seiscentos – em 5 grandes capítulos que, por sua vez, se organizam em subcapítulos e estes em alíneas. Ao todo, são 233 páginas de investigação rigorosa e profusamente documentada, marcada pela paixão com que foi feita pelos autores, paixão que contamina o leitor a ponto de a eleger como uma das mais singulares obras, porquanto alia o saber ao infinito gáudio provocado a quem o recebe.


Não quis o Autor da natureza que a mulher se contasse entre os bens móveis. O edifício não se move do lugar onde o puseram; e assim deve ser a mulher; tão amiga de estar em casa, como se a mulher e a casa foram a mesma coisa. Assim ordenava sobre as mulheres, com postura misógina, o incansável Padre António Vieira, na sua rejubilante, teatral e moralista parenética, deixando-nos para a eternidade registos sobre a condição da mulher no seiscentismo, que nos instigam à reflexão sobre a psicologia machista, revelada em palavras, motejos e actos, que persiste neste século XXI.


Maria, a redentora e Eva, a pecadora

Dissecando o sermonário vieirense, a presente monografia mostra-nos que no mundo androcêntrico de Vieira, «a mulher é construída como um ser capaz do melhor e do pior». Por um lado, Maria, a redentora, por quem o jesuíta tem extrema devoção, a utopia, o exemplo espiritual para todas as mulheres; por outro, Eva, «a mãe de todos os viventes», a tentadora, a pecadora, a que desobedeceu a Deus e arrastou consigo o homem, a responsável por ter aberto a «porta do mal na história da humanidade». É nesta dicotomia mariana e eviana, o positivo e o negativo, que Vieira, munindo-se dum «rico e variado elenco de mulheres», aborda o universo feminino, empenhado na persuasão dos ouvintes/leitores, para salgar a terra, para lhe eliminar os vícios.

Na caracterização do universo feminino, anotando-se a segregação da mulher, Vieira aponta-lhes um rol interminável de vícios que, por serem observados nos costumes, mostram-nos a insurreição das mulheres que ousavam certas liberdades numa sociedade que as agrilhoava. Assim surge a acusação ao carácter movediço das mulheres, que Vieira aponta como a sua natureza itinerante que dá azo à tentação, «o gosto de sair», de «andar mais fora do lar do que dentro, encontrando-se aí a causa da sua perdição e da perdição dos homens, pois acerca da mulher cabe dizer que é “tão vagabunda nos olhos como nos passos”».

Defendendo o «recolhimento» ou a «domesticação» da mulher, Vieira apela a que elas sejam submetidas a intensa vigilância, mesmo nas suas idas à igreja por utilizarem o terço «como “terceiro” dos sacrilégios»; intenta-se contra a argúcia feminina que cria «pretextos para sair e enganar os maridos», pois as mulheres são «mestras no pecado da hipocrisia e na procura de artimanhas que sirvam para satisfazer os seus prazeres pessoais», dizendo-o Vieira desta maneira: «Quantas vezes a mulher faz um voto para cumprir na igreja e acaba por encontrar um devoto».

Com a mesma agudeza retórica, o jesuíta mostra-nos possuir uma espantosa sabedoria da psicologia feminina ao apontar-lhes muitas comportamentos indecorosos, fruto de um carácter perverso, encontrados no viver quotidiano, como o «apetite desmedido», a ambição, a curiosidade, a vaidade, o egoísmo, entre outros, todos apetites para a leitura desta monografia.

Nota sobre os autores:

José Eduardo Franco é historiador, doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em "História e Civilização". Tem uma vasta obra de investigação, e é considerado um dos maiores especialistas portugueses sobre a História dos Jesuítas. Actualmente é Presidente da Direcção do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.

Maria Isabel Morán Cabanas é Professora Titular da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, onde lecciona na licenciatura e em cursos de doutoramento e tem inúmeros trabalhos publicados na área da história e crítica da literatura portuguesa e fez a sua tese de doutoramento sobre o "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende. É membro do Graall (Grupo de Análise de Aspectos Linguístico-literários na Lusofonia), da Universidade de Santiago de Compostela.

O Padre António Vieira e as Mulheres – O mito barroco do universo feminino, José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008

© Teresa Sá Couto
O Apogeu das Crónicas de Fernão Lopes
Arte e História num livro portentoso


O majestoso álbum FERNÃO LOPES CRÓNICASANTOLOGIA ANTÓNIO BORGES COELHO e ILUSTRAÇÕES ROGÉRIO RIBEIRO é apresentado no dia 27 de Maio, em Almada, no FÓRUM MUNICIPAL ROMEU CORREIA - SALA PABLO NERUDA. A apresentação será feita por ANTÓNIO BORGES COELHO, CLÁUDIO TORRES e JOSÉ LUÍS PORFÍRIO. Estarão, também, patentes os originais das ilustrações e será prestada homenagem ao seu autor, o Professor e artista plástico Rogério Ribeiro que viria a falecer uns meses depois da edição deste álbum, a 10 de Março último, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, devido a complicações cardíacas.


Corria a época Medieval e Fernão Lopes deixava para a eternidade a palpitação do povo português, o sofrimento, a alegria, as pelejas, os escolhos, a exasperação, os amores, as intrigas e os ódios descritos com o pitoresco arrebatador e sensível de crónicas que seriam as percursoras da historiografia portuguesa. No final de 2007, a Campo das Letras impulsiona aquela herança extraordinária ao lançar o melhor livro do ano em Portugal, se não o melhor dos últimos anos, o majestoso álbum «FERNÃO LOPES – CRÓNICAS de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I», antologia do incontornável historiador António Borges Coelho com desenhos e 25 pinturas poderosas de Rogério Ribeiro.


E ficamos a «esguardar como se fôssemos presentes» os quadros humanos de forte visualismo, mas também mistério, reportados por um dos mais geniais escritores da Literatura Portuguesa que «tanto mais se aprecia quanto mais se lê», como disse Rodrigues Lapa.

«Este homem fala para os seus contemporâneos, a eles dirige juízos de valor sobre os acontecimentos e a actuação das personagens. Dá relevo aos acontecimentos militares, à intriga política, ao quotidiano. Introduz os temas económicos e de política monetária. E quando os acontecimentos dramáticos escasseiam, é recorrente afirmar: “Pois não temos mais nada que contar…”», escreve António Borges Coelho na magnífica apresentação da Antologia, numa prosa viva como há muito já nos habituou. O historiador, que nasceu em 1928, nome maior da nossa cultura, continua a mostrar uma vitalidade assombrosa, para nosso gáudio. Também é magnífica a parceria com o ilustrador Rogério Ribeiro, nascido em Estremoz, em 1930, que revela um trabalho assombroso (exemplos nas fotografias das pinturas).

Ainda segundo Borges Coelho, o presente livro «visa alargar a um maior número de leitores a fruição destes tesouros da cultura medieval portuguesa.» Sendo a Antologia uma escolha, o historiador explica a inclusão das duas primeiras crónicas por fazerem parte do «“ primeiro princípio” que desembocaria nos acontecimentos de 1383/85» e o facto dos textos da Crónica de D. João I ocuparem o maior espaço devido ao tamanho e à «riqueza histórica e literária». Em relação à revisão da escrita, refere que se actualizaram a grafia e os sinais, e deu-se «nova veste» a algumas palavras antigas. A obra conta, ainda, com uma Cronologia e um Glossário.


O fresco global de uma época

Sobre a visão multifacetada de Fernão Lopes, que se deteve nos aspectos colectivos da vida nacional para os iluminar na prosa recitada, linguagem flexível, ardor, e ironia, onde se sente a voz do autor, escreve Borges Coelho:

"Na sua narrativa não faltam heróis com as suas fraquezas e façanhas, mas integrados na moldura colectiva: e posto que nós louvemos Fulano e Fulano, “não entendais vós porém que eles sós defendiam as galés sem outrem pelejar por as defender.” E na descrição dos feitos militares não assume o verbo grandiloquente. “Bradava o Mestre que fizessem algumas cousas”, mas o ruído das gentes e o som das armas era tanto, “que parecia que mandava em vão"
(...)
A História falava dos de cima (e ainda fala, mas Fernão Lopes abriu as janelas para os de baixo. Duarte , rei filósofo, encarregou-o “de pôr em crónica as estórias dos reis” e “isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-Rei meu senhor e padre”. Ora, ao narrar esses feitos de João, mestre de Avis, matador do Andeiro, Messias da arraia-miúda, Fernão Lopes fez entrar de roldão a cidade de Lisboa, os mesteirais, os ventres ao sol, os honrados, aqueles que não eram dos maiores nem dos mais pequenos, as mulheres, o cidadão Álvaro Pais, o Gil Fernandes de Elvas, libertado pela malta das vinhas, o “bom” do Rui Pereira, o guerreiro novo Nuno Álvares Pereira, sem esquecer Leonor Teles, a Rainha que ensinou as mulheres a ter novos jeitos com seus maridos.

Fernão Lopes está atento aos de cima, que retrata com a verdade das suas humanas mazelas, e aos de baixo, fantásticos ou temíveis, se enchem as ruas de alegria ou tumulto. No Paço a par de São Martinho, acompanha o conde João Fernandes à câmara onde vai receber a cutilada do Mestre e a estocada final de Rui Pereira, abre a janela para a rua onde ferve a multidão manipulada: - Oh Senhor! Como vos quiseram matar por traição!
Em geral o Poder desconfia dos de baixo. Assenta nos seus ombros e tem medo da queda. Gasta fortunas no ritual e na definição do protocolo. Como é que foi possível traçar retratos tão realistas dos de cima e deixar entrar com aquela força os de baixo?."


Obra que se sonha ter em casa, este álbum com 456 páginas de Arte e História é uma prenda especial para pessoas especiais.


FERNÃO LOPES – CRÓNICAS de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I, António Borges Coelho (Antologia), Rogério Ribeiro (ilustrações); Editorial Campo das Letras, Porto 2007
© Teresa Sá Couto
«Os Girassóis» - Novo Livro de Rui Herbon

O escritor Rui Herbon acabou de lançar novo Livro, dia 7 de Maio: «Os Girassóis», com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, e que tive a honra de apresentar. É esse texto que serviu de base à apresentação do livro, na cerimónia, que aqui edito:

******

Com o olhar dos Girassóis
O novíssimo romance de Rui Herbon

«Quem leu os anteriores romances de Rui Herbon já sabe três coisas: sabe que não encontra uma leitura recreativa que se extingue com o fechar do livro; sabe que é convocado para a viagem do texto, para nela se empossar, enquanto personagem; sabe que não faz a menor ideia de quais os caminhos do romance seguinte. Depois da reinvenção do espanto em Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português) e do deambulador e notável Absinto – a inútil deambulação da escrita, o título que se segue é Os Girassóis.

 

Inspirado nas famosas telas de Van Gogh, este «Os Girassóis» de Rui Herbon traz-nos um homem de meia-idade à procura da sua imagem, que perscruta o passado para entender as trevas da sua vida, para compreender donde lhe surgiu a agonia que lhe paralisa a existência, outrossim para achar a esperança, como bússola para o resto da caminhada, como o girassol que, agrilhoado à terra, procura, rebelde e irreverente, a luz.

Nada é ocasional neste novo livro de Rui Herbon, como, aliás, é seu timbre. A abrir, numa página, o Atrium, um pequeno texto com um grande ardil, como uma pequena sala de entrada forrada a espelhos que recebe o leitor, para o preparar para as 186 páginas onde ele se pode ver, multiplicado, redescobrir e reinventar.

Para isso, concorre o narrador omnisciente e engenhoso, que se confunde com a voz de Ricardo, a personagem principal, que imprime o tom confessional e intimista, e com lugar para a voz do leitor que se enreda no mal-estar e na espera do homem de 50 anos, pintor fracassado, exaurido na indiferença e tédio do casamento de quase 30 anos, com Sílvia, passando a viver, depois do adultério da mulher, «num quartinho dos fundos, com os seus desenhos e quadros» e um segredo terrível do passado: a atracção incestuosa, mas sublimada, pela irmã Ana, falecida abruptamente há 25 anos, mais declarada por ela em relação a ele.

Mas esta não é a história, ou não fosse do indisciplinado Rui Herbon; esta é apenas a base da história.

.

Narrativa de encruzilhadas

.

Este Os Girassóis é uma narrativa sobre uma grande viagem interior com encruzilhadas que se configuram, fortíssimas, na unidade espácio-temporal. É na varanda altaneira, onde Ricardo passa as noites de insónia, que se dá a grande viagem. É dessa varanda, ponto fixo sobre a praça, com Ricardo imóvel, na imobilidade de quem perdeu a esperança, que ele sai e regressa modificado; é nela que ele luta com «aquele olho invisível» que parecia ver-lhe a alma e gritar-lhe a mentira da sua existência, que ele, com remorso, cala. Cabe à narrativa esclarecida dar voz ao silêncio de Ricardo (e voz às nossas varandas de inquietação) para mostrar a verdade, pois, como disse Miguel de Unamuno, «Há momentos em que silenciar é mentir». E o leitor sabe, porque o texto o faz encontrar em si, que o tédio de Ricardo é um tédio agitado que apenas espera o momento para se desamarrar.

.

Lê-se no Atrium que há pecados «que o homem esconde nos lugares mais ocultos do seu coração, e aí permanecem, aí aguardam» até que uma qualquer palavra casual os evoca e eles erguem-se, «em visão ou em sonho» para nos encararem, num ajuste de contas…

Ajustar as contas com o tempo – desafiá-lo, revolvê-lo, moldá-lo, desordená-lo para o ordenar – é uma marca insigne da escrita de Rui. Realizar o Tempo «em visão ou em sonho» é enchê-lo de construções impressionistas e surrealistas: luz, sombra e movimento, sinestesias que colhem o real, metáforas, hipálages que transferem para os objectos o drama da luta de Ricardo com a memória, isto é, a luta consigo mesmo, expressa no «sofá insano, estoirado e sem préstimo, braços gastos», no qual se senta, para olhar para o exterior, imagens inquietantes resgatadas nos subterrâneos do ser, tudo urdido numa escrita poética arrebatadora e repleta de símbolos, como o pequeno relógio de algibeira, que Ricardo consulta, e que se agiganta no grande relógio, o «farol da memória», que se recorta iluminado no fundo da praça, e que nos catapulta para outras telas, também dum outro pintor famoso: as dos relógios moles de Salvador Dali.

O Tempo é reversível e moldável, prova-nos Rui Herbon, e prova-nos que esse acto de moldar o Tempo exige sacrifício e dor...

.

O sacrifício da caminhada

.

Na linha do Romance – ensaio, este «Os Girassóis» traz-nos uma narrativa exploratória sobre a condição existencial. Sempre a contas consigo, Ricardo resgata o passado em registos que amplifica na medida da sua angústia e da necessidade da sua demanda, em fragmentos desordenados, porque a alma humana quando procura não reconhece metodologias, a ânsia não tem programa (também neste sentido, a escrita do Rui é de Verdade, e por isso fideliza leitores).

.

Na ânsia da viagem surgem: a infância e juventude passadas no Porto; a estada em Paris, para estudo inútil e vida boémia, julgada pelos olhos infinitamente tristes de um prostituta quando se fixam em Ricardo; a passagem por Londres com o eco do som triste de um realejo, e o entendimento de que por baixo dos jardins exuberantes e silenciosos existem outros jardins, as raízes subterrâneas, mais maravilhosas e terríveis; pela guerra colonial de Ricardo numa repartição técnica do exército, em Lourenço Marques, militar sem arma porque ele não era dado a heroísmos.

.

É também da varanda, com olhar viajante, que Ricardo interpreta o quotidiano: tenta penetrar a vida para lá dos vidros, para lá das cortinas, atenta nas sombras dentro das casas, ou fixa as pupilas na praça, nos homens e mulheres, jovens e velhos, nos que saem do autocarro, regista-lhes os olhos e os gestos, conjectura-lhes as vidas, os caminhos caídos e saqueados, regista os recortes das sombras que a luz desenha, o «odor húmido e vasto» que lhe chega do rio, o silvo potente dos barcos que lhe desata a emoção de um sonho que parte. 

A fúria de um temporal permite a renovação do projecto interior de Ricardo, que inclui a visita ao Museu Van Gogh, em Amesterdão, para contemplar o seu quadro favorito: os girassóis; Uma ida em jeito de peregrinação celebradora do sacrifício da caminhada contra a renúncia, de homenagem à luz, tanto mais que só se reconhece plenamente a luz quando se experimentaram as trevas: Van Gogh foi a prova disso, e é-o, também, esta narrativa do Rui. Não se pense, todavia, que o final é fechado; o leitor reconhece a circularidade da procura, do nunca acabado e sempre retomado, o eterno retorno, sempiterna marca de Rui Herbon.

Urbano Tavares Rodrigues diz, no prefácio, que este «Os Girassóis» «poderá tornar-se em breve um livro de culto». Irá juntar-se aos outros livros de culto do Rui, acrescento eu, convicta de que são assim tidos pelos leitores que os souberam ler.»

 © Teresa Sá Couto

.

Os Girassóis, Rui Herbon; Parceria A. M. Pereira, Lx, 2008

«De palavra em punho» contra a mordaça

HOMENAGEM a ABRIL (texto de Teresa Sá Couto)

 

«De palavra em punho» contra a mordaça
Poesia que atravessou o ”tempo de chumbo”

  

A palavra jamais se compadeceu com a censura. O pensamento não entende a mordaça, e a palavra torna-se alarme. Impedi-la é impeli-la para as asas do vento para que este dê disso notícia a todos os homens. Porque, como disse Carlos de Oliveira, nada apaga a luz que vive dentro do homem, ou a vida seria sem razão: «Não há machado que corte /a raiz do pensamento: /não há morte para o vento, /não há morte».

Na celebração da Liberdade trazida por Abril, sugiro «De Palavra em Punho», uma Antologia

Poética da Resistência que colige palavras insurrectas de 95 poetas. Mostra-se que «quando o homem está em sangue, a palavra está em sangue»; solta-se a corrente que dá o exemplo e ateia as almas para o combate à iniquidade, à mentira, à resignação.
 ....

A Antologia tem organização e apresentação de José Fanha e a chancela da Campo das Letras. Numa breve, mas eficaz introdução, o organizador contextualiza a poesia da resistência no tempo da ditadura do Estado Novo que semeou miséria, atraso económico, social e cultural, e contra os quais a palavra se hasteou. Incluem-se alguns poetas que, refere José Fanha, não obstante terem vivido «à margem das inquietações sociais e políticas», mostraram, ainda que num intervalo, o seu incómodo, deixando no labor poético «uma simples queixa ou zurzidela de pau e verso no regime, na polícia ou no ditador».

Comunicados ao Ditador

Contra o estratego do Estado Novo, o obreiro dos muros do exílio, muitos poetas levantavam o verbo que explodia sob os açaimes impostos por Salazar. Jaime Cortesão pergunta e exclama: «Salazar, cuidas que o Povo /Te suporta, quando cala? /Ninguém te condena mais /Que aquela Boca sem fala!».
Fernando Pessoa, com a mestria que lhe conhecemos, ironiza o insólito: «António de Oliveira Salazar. /Três nomes em sequência regular… /António é António /Oliveira é uma árvore. /Salazar é só apelido. /Até aí tudo bem. /O que não faz sentido /É o sentido que tudo isto tem.»; «Isto é o Estado Novo, e o povo /Ouviu, leu e assentiu: /Sim, isto é um Estado Novo /Pois é um estado de coisas /Que nunca antes se viu.».
Sophia de Mello B. Andresen refere-se ao ditador com uma metáfora de repugnância e castração: «O velho abutre é sábio e alisa as suas penas / A podridão lhe agrada e seus discursos /Têm o dom de tornar as almas mais pequenas».
Claro que toda a moral tem uma história, e desta, diz-nos Alexandre O´Neill: «Você tem-me cavalgado, /seu safado! /Você tem-me cavalgado, /mas nem por isso me pôs /a pensar como você. /Que uma coisa pensa o cavalo; /outra quem está a montá-lo.».
O ódio que crescera na mesma proporção do estertor psicológico, e por este incentivado, irrompe num poema de José Gomes Ferreira, aquando da morte de Salazar: «(Todos andámos a matá-lo em pensamento. É horrível! – Dirão alguns moralistas no futuro.) Todos nós /trazemos punhais /no sonho /fora da lei. /Mas ninguém sente remorsos de pensar: /”Fui eu que o matei.”».

Contra o cárcere da alma e da pátria

Ainda que exilado de si e da sua pátria, o poeta engatilha a realidade na poesia e grita o que se exige que cale. A Guerra Colonial, os dramas da emigração, a miséria, a repressão surgem em poemas feitos janelas abertas na claustrofobia que a todos exauria. Das trincheiras dessa resistência, Miguel Torga lança um breve, mas certeiro, comunicado: «Na frente ocidental nada de novo. /O povo continua a resistir /Sem ninguém que lhe valha, /Geme e trabalha /Até cair.»
José Blanc Portugal confessa «A pequena angústia» sobre a miséria da pátria: «O que Portugal /poderia ser /se todos os portugueses emigrassem…/../Seria livre, /ilimitado, /como nuvem humilde /que se dissolve. /O que Portugal /poderia ser /se todos os portugueses regressassem… /A pergunta tenta como osso /debaixo da carne.».
António Gedeão denuncia a guerra colonial, e mostra que a ilusão e o embuste fazem abrir os olhos: «Na berma da estrada, nuns quinhentos metros, /Estão quinhentos mortos com os olhos abertos /…/Eles bem sabiam dos bancos da escola /como os homens dignos sucumbem
na guerra. /Lá saber sabiam. /A mão firme empunhando a espada ou a pistola, /Morrendo sem ceder nem um palmo de terra. /Pois é. /Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis, /não lhes deu tempo para serem heróis.».
Ary dos Santos, que assume a poesia como campo de batalha, aborda "turisticamente" Portugal com a raiva e o magnetismo que o caracterizaram: «Aqui ao pé do fel gritamos o segredo /do que parece fácil neste país de luz: /é apenas a fome. /É apenas o medo. /É apenas o sangue. /É apenas o pus.»

A missão do poeta

O poeta desvenda-se na raiz; nasceu para encarnar uma aspiração, dar forma ao inconformismo, e a sua missão é ser, pela sua voz, a voz dos outros. O seu poema deve passar de mão em mão, na cumplicidade do sofrimento, outrossim como fogueira de esperança:
«Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas /que possam perturbar a nossa caminhada, /em que os poetas são os próprios versos dos poemas /e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.» – Sidónio Muralha; «cada palavra tua é um homem de pé, /cada palavra tua faz do orvalho uma faca, /faz do ódio um vinho inocente /para bebermos contigo /no coração em redor do fogo.» - Eugénio de Andrade.

José Gomes Ferreira define a missão do poeta e incita à rebelião: «E não há maior orgulho /do que o nosso destino /de nascer em todas as bocas…/…Nós os poetas viris /que trazemos nos olhos /as lágrimas dos outros»; «Agora são os homens que não querem esperar /Nem eu com eles. /Queremos asas já. /Abaixo a tua paciência, macieira, /E viva a dinamite verdadeira!».
José Afonso ficou ligado, justamente, ao anúncio da chegada da Liberdade. Uma voz que foi o rastilho para Abril florir: «Ergue-te ó sol de Verão /Somos nós os teus cantores /Da matinal canção /Ouvem-se já os rumores /Ouvem-se já os clamores /Ouvem-se já os tambores».


De Palavra em Punho - Antologia Poética da Resistência; organização e apresentação de José Fanha; Editorial Campo das Letras, Porto 2004

 

Rui Herbon vence Prémio Maria Matos

PARABÉNS RUI!!!!

Ora aí está uma boa notícia, que nos enche de orgulho.

                                   ..................................palavras do Diário Digital /Lusa:

.

Rui Herbon vence Prémio Maria Matos com «Masoch»

O escritor Rui Herbon é o vencedor do Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia, com a peça «Masoch», anunciou hoje o director do Teatro Maria Matos, Diogo Infante, por ocasião do segundo aniversário da reabertura daquele teatro.

O prémio, que inclui o valor monetário de cinco mil euros e a publicação da peça vencedora na Colecção de Teatro Maria Matos, foi atribuído a Rui Herbon por um júri composto pelo dramaturgo Abel Neves (presidente), o actor e encenador Diogo Infante, a actriz e encenadora Fernanda Lapa, o encenador Nuno Carinhas e a jornalista do Correio da Manhã Ana Maria Ribeiro.

Para esta segunda edição do galardão, destinado a estimular a escrita para teatro, distinguindo uma obra inédita de um autor português, foram recebidas 54 candidaturas.

Natural de Lisboa, o autor de «Masoch», de 36 anos, frequentou os cursos de Economia do ISEG e Informática de Gestão do ISLA e trabalhou durante dez anos em tecnologias da informação antes de decidir, em 2001, dedicar-se em exclusivo à literatura.

Publicou já três romances, o primeiro dos quais, «Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português)», conquistou o Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002.

«Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita)» é o seu segundo título, pelo qual lhe foi atribuído o Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão.

O terceiro romance que escreveu, intitulado «Eterno Retorno», foi distinguido com o Prémio Afonso Lopes Vieira 2005, da cidade de Leiria, o Prémio Orlando Gonçalves 2005, da Amadora, e uma Menção Honrosa no Prémio Alves Redol 2005, de Vila Franca de Xira.

Rui Herbon escreveu, além disso, um livro de contos chamado «A Preto e Branco», que lhe valeu, em 2007, o Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal.».

.

IdeaArtigos meus sobre Rui Herbon que podem ser lidos aqui: http://www.revista.agulha.nom.br/ag47herbon.htm

Hipnotismos de Paulinho de Assunção

Teresa Sá Couto

.

Hipnotismos de Paulinho de Assunção
O arrebatamento de uma narrativa poética

Titula-se «O Hipnotizador», é escrito por Paulinho Assunção e vem do Brasil. Mesmo os resistentes à Literatura Brasileira, que não lhe divisam o «português açucarado», mas sim um ruído da língua de Camões, encontram na escrita deste autor uma expressão linguística espantosamente depurada a enformar uma prosa poética singular e hipnótica.

Repleta de personagens fantásticas, esta é uma narrativa sobre a demanda da escrita, a investigação do próprio caminho e da emoção da caminhada, por luz e trevas da cidade de Ouro Preto, aqui homenageada, para atingir o mundo todo. São mil e uma histórias inebriantes feitas de caminhada em caminhada, a bordo de letras andarilhas, com palavras que pedem palavras, «acasos dispersos que entram em convergência». «E não é saboroso esse exercício de pôr em andaimes as construções feitas de vento?», pergunta o narrador ao leitor sabendo que, rejubilante, este aplaudirá, aparelhado para a soberba viagem.

.

O narrador, Ferdinando Flauta Mágica, é um viajante que andou por muitos «mundos e caminhos em busca das chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.». Um nome misterioso de quem já teve «centenas de nomes» pela vida fora: nomes de «guerra» e de «paz», nomes «claros» e «escuros», nomes «oceânicos», esquisitos, ciciantes e murmurantes. O que viu «transborda de uma vida e vai preencher outras vidas mais», entenda-se, a de todos quantos lerem este excelso Diário de Viagem. O enredo desenvolve-se pela «dádiva de um chamado», refere o misterioso narrador, numa altura em que já é impossível abandonar a narrativa: um «convite para um encontro com o mistério do meu nome», eis o «tema desta história que, toscamente, e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e a você, leitora.».

E tem o leitor em 109 páginas uma prosa límpida e alada, visual, musical e de odor inebriante, consequência de uma cabeça de viajante: «sempre desembestada e sem rédeas: basta um descuido e ela muda de trilhas. Basta um descuido e ela vai daqui para acolá, livre, sem freios. Essa é a dívida que pago por ser amante das histórias e das peripécias. Um homem como eu, um homem assim da minha espécie, está condenado a trilhar sem bússolas os caminhos feitos de pedra e os caminhos feitos de nuvens».

.

A «Sociedade de Contadores de histórias»

Tudo se passa «numa certa noite de Inverno», «num dos lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto», onde o narrador acaba de chegar, vindo de muitas partes do mundo para as ceder àquele local. O desafio é conhecer a Cidade-Baixa, os subterrâneos de Ouro Preto, «lugarejos secretos» que Flauta Mágica – o que viaja de recordações e é «residente das lembranças» – assemelha aos que há sob Praga, Munique, Buenos Aires, Porto, e o «leme da imaginação» leva-o pela Grécia, Hungria, savanas africanas, ao interior de mosteiros espanhóis, à «meditação nas altas montanhas da Indochina». Assim se faz uma história sobre as peregrinações pelo mundo em busca de histórias. E assim se leva o mundo a uma pequena cidade transformando-a numa cidade do mundo.

A Ferdinando Flauta Mágica vão-se juntando outras tantas personagens surpreendentes para uma jornada de convívio com a «Sociedade de Contadores de Histórias»: entre muitos outros, estão Língua-Solta, homem de «rosto ameno e pacífico», apesar da «cicatriz em forma de lua minguante» a cortar-lhe a face, «olhos cor de pedra-sabão» e que, «embora seu nome indicasse o posto, parecia tudo fazer e tudo dizer com a língua guardada»; Centauro Veloz, um velhinho «galante e com nariz para o alto» que em jovem fora mordomo de dois governadores de Minas Gerais e com elegância segurava as tochas que iluminavam a caminhada «rumo às profundezas de Ouro Preto»; Jerónimo, um cego que sonhava com o fogo, e que o narrador imagina que tivesse asas, «as asas talvez de um anjo, talvez as asas de uma ave cuja espécie jamais conheceremos»; António-das-Hipérboles, homem «especialista em exagerar os factos do mundo» ; João Codax, um sineiro aposentado, com novas grandes missões; Maga Romena, especialista em dragões e conhecedora de todas as suas histórias «já escritas ou inventadas pelo mundo afora»; Nancy Cairo, «uma perfumista, fabricante de fragrâncias, inventora de odores, arquitecta de cheiros»; Magóia Coromande, uma detective que investiga o roubo das ossadas do «Hipnotizador» patrono da Petúnia Negra, organização dedicada aos estudos da hipnose, mas que é disputado por outra sociedade rival que o quer para patrono do seu mundo com grandes bibliotecas de ficção.

Todos percorrem os subterrâneos de Ouro Preto, rumam ao Salão das Histórias de Suspense, ao Salão das Histórias Intermináveis, ao Salão das Histórias Policiais, pelos corredores labirínticos onde a magia da imaginação acontece.

«O coração de um homem que acredita em fábulas é um coração destinado aos sobressaltos, aos disparos incontroláveis.» Por mais viajado que fosse Flauta Mágica, esperava-o o inesperado. Por mais livros que um leitor tenha lido, é o sobressalto, o espanto da leitura que ele procura. E, claro, o hipnotismo. Tudo está neste livro de Paulinho Assunção: «Ah, os filósofos. E os poetas. E os loucos. E as crianças. As mulheres apaixonadas. E os sem eira nem beira pelo morro abaixo das fantasias.»

 O Hipnotizador, Paulinho Assunção; Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008

.

Blog do escritor: http://paulinhoassuncao.blogspot.com/

Palavras sobre Amor e Miséria

 Texto de Teresa Sá Couto

Palavras sobre Amor e Miséria
Em páginas iluminadas de Juan Marsé

«Qualquer mulher sentada num bar de alterne à espera de clientes sabe que o comportamento de um homem que perdeu tudo menos a vida é um mistério.». Assim nos é apresentado o soberbo romance «Canções de Amor em Lolita’s Club», o recente título chegado a Portugal do inigualável escritor catalão Juan Marsé.

Mestre de um realismo inquietante e arrebatador, escrita de densidade psicológica e desenvoltura narrativa, o autor enleia o leitor em 271 páginas de descida às zonas mais recônditas que o ser humano tem e que nem a si confessa. Caminho de indagação e de luz, este, que confirma a asserção de Carlos Pujol: «A nada se pode regressar. Mas temos que regressar para o saber».

O que acontece nas almas ressacadas que se reúnem num bar de p***s? Que mulheres são estas para lá da disponibilidade do corpo? Que homens são estes que chegam àquele tugúrio esvaziados de sentido? De que forma o encontro destes dois mundos interiores, igualmente áridos, de «fúria sexual, desamor e solidão», pode ser um conforto ou a confirmação da perda? Há lugar para o amor no meio deste paul, deste lodaçal? Ou a música caribe do Lolita’s Club Bar Musical é apenas um requiem da morte anunciada?

(...........)

Nas arestas da vida

Este romance lembra-nos que a vida é um percurso de arestas angulosas e que a morte coexiste com a vida, antes daquele ponto derradeiro, o da finitude do corpo. Daí o seu carácter imprevisível: o da vida e o da morte. O homem escolhe e o resto acontece. Consoante o caminho que escolher terá de enfrentar as chagas que não previu. Há quem sucumba aos ferimentos dos gumes da vida e, numa qualquer noite sem lua, decida «partir-se em mil pedaços por dentro e por fora».

Desirée, uma das prostitutas, escolheu e a vida fez o seu trabalho: numa noite, navegando no Alhambra II, na rota Barcelona – Palma, em alto mar, os «seus olhos azuis cravam-se obsessivamente nas negras águas», e atira-se para o abismo. O seu corpo é achado vinte e quatro horas depois, longe do ponto onde se atirou à água, «na espuma dos alcantilhados». Os seus olhos eram agora verdes e a borboleta vermelha e amarela que antes estivera estampada no ombro direito «estava no seu peito esquerdo e tinha as asas cinzentas.». O mar imprevisível tinha feito o seu trabalho. O mar imprevisível faz com que o comportamento dos seus afogados seja, também ele, imprevisível…

.

Canções de Amor em Lolita’s Club, Juan Marsé; Editorial Campo das Letras; Porto, 2006

More Posts Next page »