SOL
Não gosto de ti nos dias
em que conduzes o mundo
nesse tom em gesto envernizado.

em que não escutas o murmúrio das cores
em que não vives o contorno dos dias
em que não provas da parede áspera
que carrega a marca da tua face

Cego por um fim trágico
que não há-de ser o meu.

Nisto entra o Alberto. Não vinha com boa cara, mas nada que ultrapassasse a habitual má disposição.

Os traços e modos rudes de Beto, diminutivo usado carinhosamente por Micas desde os curtos tempos de namoro, contrariavam os de Micas, Maria da Assunção, cujo ar doce e voz insegura lhe assentavam como o par de luvas que ia calçar a seguir para lavar os tachos que não couberam na máquina.

- Ó Beto: podias fazer-me o favor de tirar ali a roupa da máquina para eu ir aqui adiantando isto?

- Eu?!? Eu sou mecânico, não sou doméstica… tirar a roupa da máquina… olhem q’esta… Já agora…! Ia refilando Alberto, a caminho de mais um refastelado serão no sofá a ver o Domingo Desportivo.

Micas conhecia, como ninguém, o seu marido Alberto. Era um homem trabalhador, nada deixava faltar em casa, mas de um machismo atroz, quer no pensamento, quer no tratamento. Assim, estava impedida de trabalhar fora de casa, usar qualquer tipo de saia acima do joelho, roupa muito justa ou qualquer tipo de decote. O seu auge revolucionário enquanto mulher de um homem como o Alberto eram as escapadinhas que dava ao tasco do Sô Joaquim, sempre com uma boa desculpa em mente caso o Alberto disso viesse a ter conhecimento, e as reuniões secretas do Clube de Fãs do Tony Carreira, que se realizavam à tarde, no 1º Sábado de cada mês, na garagem da Dª Laura, sob o falso pretexto: “reunião Tupperware”.

- Deixa lá, pronto – respondeu Micas – vai lá descansado que eu já te vou tirar as botas.

Micas tinha ainda uma longa jornada de trabalho pela frente. Pedro, o primogénito, filho de Crispim (de quem Micas enviuvara há 15 anos), tinha entrado, este ano, em Engenharia Informática. Todos os finais de semana, para além do trabalho normal que uma casa com quatro pessoas requer, havia ainda que preparar a roupa e a comida para mais uma semana de estudos do Pedro. Mas houvesse o que houvesse, o Alberto nunca podia passar a personagem secundária naquela casa e a demora de Micas já estava a causar ventos na cabeça do marido que, tarda nada, se transformariam em furacão…

(Cont.)

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Não lhe agradava nada o barulho do aspirador, da máquina de lavar roupa e da máquina de lavar loiça, tudo em orquestração de Juízo Final a sobrepor-se à sua telenovela preferida da TVI. Mas desde que as coisas mudaram – era assim que lhe chamavam - tinha de ser assim e não havia volta a dar-lhe.

Um dia, no meio de uma conversa e um café no tasco do Sô Jaquim, decidira-se. Daquelas decisões de É isso mesmo! acompanhadas por um Pernas para que te quero! físico, e em dez minutos apenas já estava ao balcão à conversa com a dona Quitas, para mudar o contrato da electricidade para o horário económico nocturno. Se esperasse pelo Alberto havia de estar bem tramada, havia. Ainda lhe dizia que o melhor era lavar a roupa à mão e dar mais uso à vassoura. Se eu fosse outra eu dava-lhe o uso da vassoura, dava -, pensava.

Assim sendo, só lhe restavam aquelas horinhas para fazer tudo e mais alguma coisa ao mesmo tempo.

- Ó Miguel!!! Ajuda a mãe a tirar a roupa da máquina, que ainda tenho de lavar mais roupa e passá-la para o teu irmão levar para a Universidade.

- Ó mãe, agora não!

- Ó Pedro, filho! Ajudas-me?

- Não pode ser depois? Isto é mesmo urgente, não posso sair do computador agora! Só mais cinco minutos!

- Raça do aspirador, também não aspira nada -, queixava-se Micas, empurrando o sofá da sala com as forças que lhe iam faltando para aspirar as migalhas, que eram sempre de batata frita ou amendoim.

Nisto entra o Alberto. Não vinha com boa cara.

(cont.) 

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Esboço de Degas, gentilmente cedido por Google

 

Hoje paira um cinza morno quase frio sobre nós e lembro-me dos dias gelados de baunilha degustados apressadamente para não pingarem a t-shirt e a alma.

Não é por acaso que finas gotas percorrem a janela principal. Nem é por acaso que chove, num ritmo lento mas preciso, tal como preciso paira um cinza morno quase frio.

Aconchego-me e imagino-me quente numa manta de palavras que, sem sentido, vão escorrendo num compasso absurdo, fora d’horas, enquanto lá fora se abrem em leque todas as cores. O interior crepita, as cores infiltram. Corre, em lume brando, o sangue, até que, num ápice, tudo é Luz. A tinta clara preenche os espaços negros na folha, quimérica anotação. Desenha-se, semi-circular, o tempo, que tranquiliza o dilúvio sem pomba, enquanto esta manta de palavras se dilui num acordar leve cinza morno quase frio.

 

 

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Imagem: Pipoca (com rinoplastia). Olha, mãe, agora sem nariz!


Sempre na Sombra
Secreta, Sombria
Subi Subtilmente
Sorvendo a Sacada.
Sentada Selei,
Senti, Sacudi,
Saber-me, Suspiro.
Saio, SERENA
Sorrio sem
[fim]

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Castanhas

Castanhas de Pedro Mendes

 

Se falasse contigo hoje, dir-te-ia de que cor pintei o meu cabelo.

O teu de cor saberia eu, ainda que não pudesse vê-lo.

     Há no entanto um senão. As cores que nos ficam no fim do verão...

Por que temos tanto afecto pelo deslize da cor? Por que é uma folha castanha caída a teus pés, enfim, amor?

Falemos então do Outono: já está maduro o medronho. Irá converter-se em licor.

Por falar nisso: acompanhas? - Enche. Dá-me dessa transformação de Outono.

Encho, claro, pois então! Dois medi.ocres copos. E ergo o meu que entretanto, balança em dúvida doce enquanto aguarda retorno.

Já te sentiste assim, como se caminhasses em falso sobre algodão doce? Como se fosses tu uma daquelas folhas castanhas com um fim precoce?

Já… Levitas. Pequena. Numa ilusão atroz que cabe na palma da mão... E quando a abres p'ra te agarrar ao tronco velho do castanheiro, já não vais a tempo. Cais no chão.

Como se fosses em contramão. Não bates, não choras, não matas, e quando a.corda parte, nunca nos sentimos acrobatas. Tudo se acastanha assa fere arranha - Porra, que já fiz ferida!

A ferida da alma dói mais que esta, mas esqueço-me disso e decido debalde dar cabo da festa. Vassoura é forte e varre memórias. Quer sejam de sonhos quer sejam de glórias. Xô réstia triste do meu coração, vai-te com o pó e este resto de pão.

[vá, anda p’rá mesa! As castanhas já estão prontas e a lareira acesa].

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Aviso da Alta Autoridade: O deslocamento de uma massa de ar frio levou a que o post PAR fosse publicado, excepcionalmente, neste blogue. O post que se segue é da exclusiva responsabilidade dos intervenientes.

 Imagem provisória: Pedro Rego.

 

- O relógio teima em dar a hora que não esqueço.
Esfrego as mãos e aqueço, molho os lábios e repico, em jeito de dar horas, que por seu turno ignoras por não estar no calendário. E lá meço o cenário, feito a lápis de pastel, enquanto esfrego o calcário deposto no meu anel [ah p u t a da rima cruzada sem religião a servir].
Com os dedos a rir, ainda húmidos do chocolate quente, percorro todo o abecedário num fervor adolescente. Um pingo cai, depois outro, depois outro, parecendo escolher a dedo o alvo do seu entreposto.
- Comercial?
Ai agora já me ouves. [querem ver o traço entornado e a burra na couves!?]. Estava a dizer que é quase A.gosto!
- Sim, e depois?
E depois virá Setembro e um Outubro sem horas. Des.Maio e volto a correr ao calendário. Sabem-me a pouco os dias de Abril e é aí que me deparo que Fevereiro já passou. Às páginas tantas já não sei onde estou... Cadeira - certo. Mesa - certo. Chão - madeira. Lado esquerdo - torneira. Cozinha - chocolate. Está terminada a segunda parte.
- Falaste em Natal?
Não. Deixa-me ler o jornal!
Crimes. Ódio. Morte. Estrada.
E no meio do nada a Vida. Maiúscula, de Babel.

Sentimento gravado a cinzel.

 

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Imagem: Jo_schz

Encosto os meus pares à complementaridade dos teus ímpares e sorrio. O apoio em distância resulta natural e eu bebo da sede que deixa aquele travo a desafio no canto da boca. O corpo domingueiro levita num evaporar gradual, e o mundo desenrola-se em espiral à minha frente, mais grau menos grau. Lilás, a última gota, a tal que precede o aclarar da garganta perante um desafio, sempre me soube, aliás, a português suave. E os três copos à mesa iludem uma presença a dois. Ou sou eu que já não conto? Numa pose em linha de espera fitas-me nos olhos e ergues o copo já vazio. À nossa! Presumes bem que saiba onde está o saca-rolhas. Puxo de uma gaveta de olhos fechados e retiro. Abro-lhe os braços num dá-cá-toma-lá e pergunto-te o que é hoje o almoço.

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Queda livre. De olhos cerrados, sinto a vertigem correr-me nas veias, encher-me os pulmões e querer querer querer implodir pelo nariz. Não!

Queda livre. Olhos cerrados. Pulmões preparados. Vertigem… Alto! Que a amiga rinite está a meter o nariz onde não é chamada: “Implosão, não! Implosão, não!”. Encho-me não-sei-de-quê a contra gosto, SALTO e caio no segundo degrau da escada rolante de mais um dia.

Perante a queda toda eu sou fortaleza. É revelador o impacto que uma queda livre pode ter no passo a passo da tua vida. Acordas de repente a transpirar

- Nem acreditas… estava mesmo agora a sonhar que estava em queda livre. Parecia tão real.

A especulação transtorna, o copo transborda e

- Está aqui a dizer que a bolsa está em queda livre. Já leste a secção de cultura?

O teu filho que ainda ontem estava a pedir-te para lhe dares o lugar ao computador

- Mãe, estás sentada? Óptimo. Amanhã vou fazer um salto de queda livre.

A queda tira-nos o chão do mundo, contacto, e ao mesmo tempo prende-nos a nós. Na queda sou só eu e dou conta, a breves segundos do fim, da minha existência. É aí que voo.

 

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Imagem parcialmente desconhecida.

 

Ontem, depois do jantar, acendi a vela de coco e canela que comprei na Gato Preto p’ra disfarçar o cheiro a refogado que deixaste nas palavras. Hoje apetece-me chocolate. Só para derreter a agitação de uma ou outra hormona desvairada, teimosamente aborrecida. Ainda não percebi se as culpamos, se realmente têm a mania de interferir culposamente na nossa tranquilidade. O que é certo é que, incompreensivelmente, há dias em que consigo misturar chocolate, Lay’s receita camponesa, peixe frito e iogurte cremoso Biscuit, numa tentativa algo curiosa de as fazer explodir. Nesses dias gostava de sair de mim com algo doce num dos bolsos traseiros dos jeans e voltar a poente, aos pingos, lá mesmo no extremo onde se entorna a linha do horizonte. Complicada, eu?!? Complicadas, Nós! Tanto cerro os olhos de bem-querer que me esqueço que os meus pensamentos são tão nómadas quanto eu. Não. Não há interferências sensitivas sem nós. Na garganta, a reacção rítmica ao impacto é a mesma, a libertação quase imediata, mas algo se forma sem concordata e se dissolve em sol bemol. É um não ligar por recear mal fazer. Um apagar sem sequer desdizer. Um relógio que não precisa de dar as cinco horas. Porque tão bem sabe. É inevitável. E sem dó os mesmos pés que me pedem mais daquela explosão ficam eles, nus e sós, sem chão.

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Fiquei a pensar se seriam teus os chinelos de quarto azuis, clarinhos, que trago na ideia... e porque raio chamamos chinelos de quarto a uns chinelos que percorrem toda a casa e por vezes o caminho da porta até ao caixote do lixo e do caixote do lixo até à porta. Serão necessários uns chinelos azuis só para deitar conversa fora? Por falar em deitar fora, recebi a tua deixa em forma de segredo. Vinha trémula de medo e num tom aparvalhado, não sei se escrito se falado. Mas chegou. Agarrei nela com cuidado, envolvi-a melhor no papel pardo e devolvi-a à caixa, agora aberta. Sento-me e examino, incerta. Descasco o equivalente a sete batatas mentais. Já dizia o Höller que a dúvida é bela. Bela, trémula e com tom aparvalhado, acrescento eu. Pergunto-me como saberás tu a cor dos meus chinelos, mas escrevo que também eu desconheço porque lhe chamamos chinelos de quarto. Entretanto o olhar escapa para o solo e vislumbro afinal um rosa aqui e acoli em farelo, a cobrir o tal azul que não vês. Há sempre em tudo um rosa em farelo por adivinhar, não há? Entre a tua profecia cega e os meus pés frios fico a pensar no que dizes e de cá para lá [os pensamentos, não os chinelos] chego à conclusão que os meus nunca vão comigo. Como se lhes quisesse dar raízes à força. Como se gritasse do alto dos meus botões de flor: "Eu vou, mas vocês ficam por mim, extensão da minha voz." Por falar em ficar, fiquei satisfeita por cuidares do meu segredo e o deixares a arejar. Mais uma vez, certeira como a crise: resta deixar a apurar. Diz-me. Já sentes o cheiro a refogado e a uma cadeira a mais à mesa?

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Primeiro quero pedir-te desculpa pelo estado em que recebes esta nota.

Ontem lembrei-me de combinar contigo uma coisa. Uma daquelas Coisas, com letra maiúscula, que nunca podem ficar para depois, esquecimento certo, e que em vão procuram o sítio ideal onde serem ditas.

Enfim, tão importante era que o meio deixou de ser mensagem e reservei a primeira coisa que me veio à mão: um guardanapo.

Depois passei a noite a tentar dar forma ao guardanapo. Nada. Por mais que o moldasse, cozinhasse, lhe desse cor de fruta da época, nada me tira da ideia que o que te escrevia era ultrapassado e já não dava recado. Por mais que encaixasse palavras, não soava a mais que desatino recortado. Tudo porque era tão simples, tão mais simples que a complexidade de um guardanapo. No fundo o que tinha para te dizer é tão insignificante que cabe mesmo numa casca de noz [hoje sabe-me a castanhas; e a ti?]: não torno a ir lá ter. Assim só, sem verniz para proteger.

Conta-me o segredo dentro da caixa. Numa daquelas de conteúdo frágil, transparente, como as unhas que teimo usar, e envia-mo por express mail mesmo que seja à cobrança, enquanto eu vou ali à esquina sentir o aroma do amendoim torrado, que quase cheira a queimado. Talvez assim consiga dar uso ao papel. Limpar-lhe o gosto a esta escrita de cordel e finalmente dobrá-lo, domá-lo e enjaulá-lo em copo de água da fonte. Sabes que mais? Na volta, ainda passo pela senhora dos jornais para saber das últimas. Umas e outras. Aquelas de que não fazes parte.

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