SOL

Meduarda

" A ética está à altura daquilo que nos acontece" - Gilles Deleuze

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A MUDEZ DOS SARGAÇOS

http://1x.com/OEfullSize/22640-fullsize.jpg

houve um tempo em que acordava de manhã. tinha nos olhos o xaile de joelhos caídos,

num açude intemporal, onde pernoitava as mãos. despida de argumentos sentia as folhas

inertes, levadas pelas brisas dum nevoeiro, silente, doloroso. aguçava os dedos no frio

questionado defronte às brumas da noite. acossava-lhe no prumo das horas, um tempo  

demente, alucinado, que apesar de tudo me doía. incolor sem saber onde ficar, dobrava-me 

em sobressaltos sem dizer adeus,ao último porto onde estilhaçava as memórias. no fundo

estilizado dos sargaços, ouve-se ainda a fonte resignada onde abracei a mudez.

Eduarda

Publicado sábado, 23 de Outubro de 2010 22:07 por Meduarda | 18 Comentário(s)

VOU PINTAR CORES

http://mastersofphotography.files.wordpress.com/2010/08/as.jpg?w=1024&h=768

 amanhã vou pintar cores.

as que tenho e vejo estão baças e cansadas.

vou com pincéis nos olhos e tinta nos dedos, colorir esquinas...retirando o velho estuque das cortinas.

vou também pintar palavras!

estou farta das comedidas, das escuras em forma de fotos coloridas

com frases de postais que de ilustrados têm o nome.

não...não pensem que vou usar o preto ou o cinza.

não!

quero o branco das eiras, com os verdes das urzes em forma de ponto cruz

tão singelo quanto o próprio rio que me cerca.

amanhá vou pintar cores que me lembre os cheiros da minha infância.

.

Eduarda

 

 

Publicado domingo, 17 de Outubro de 2010 21:03 por Meduarda | 6 Comentário(s)

(IN)LÓGICO

http://gallery.photo.net/photo/11016473-lg.jpg

Photo by: Peter Velter

 

.

o que mais me impressiona no ser humano

é a capacidade de se prostituir,

para se sentar numa cadeira sem pés.

 

Eduarda

Publicado sexta-feira, 8 de Outubro de 2010 22:53 por Meduarda | 6 Comentário(s)

GRITO CONVOCADO.

http://1.bp.blogspot.com/_eUkKXqc62gQ/SSBGR2PT2KI/AAAAAAAADCo/OtV0wwi8nUg/s640/peter+velter2.jpg

 

na água

experimento o grito

decepado

convocado

no pálido silêncio

que me provoca.

 .

suporto a noite

que me entra

dessosssada

petrificada

numa ausência nua

indesejada.

.

cerro os olhos

concretamente

e visto a cama

de ultrajante luz

onde entro sem sair.

 

.

Eduarda

Publicado domingo, 3 de Outubro de 2010 11:32 por Meduarda | 12 Comentário(s)

DIGO ADEUS AO VAZIO...

http://www.eos.uoguelph.ca/webfiles/robotvision/hands.jpg

 

não é o vazio que me dói!

é este cansaço das palavras ditas e não sentidas.

das que se escrevem em forma de balas

do manto da inveja

e do átrio da vaidade

que em tanto me petrifica.

 .

é este querer ver o sol em dia de chuva

querer a brisa no mais profundo silêncio

e ser desarmada nas entrelinhas.

 .

é este ter querido permanecer

e partir num pó rasgado

de não ter sabido ir aquém.

..

Eduarda

Publicado terça-feira, 3 de Agosto de 2010 19:49 por Meduarda | 35 Comentário(s)

MORRER A UM VERSO SÓ!

Abri o meu velho baú

Onde guardei paixões e dores

Sonhos e pesadelos

Tive a noção do que fui

Do ontem que senti.

 .

Tive amores de papel

Irreais e sem perfumes

E salpiquei de lágrimas

A terra onde nasci.

 .

Vivi montes e vales

Enxergas e equações

Despi-me de pensamentos

E de todos os vestígios

Tropecei o vagabundo

E dormi todos os homens

Que me despiram a alma.

 .

Corri ruas e noites escuras

À procura do meu mundo

Mas encontrei corpos de cera

Onde escreveram minhas dores

Com risos de palhaços.

 .

Na nudez do desencanto

Em andamento moroso

Enlouqueci de gritos sem voz

O abismo das saudades.

 .

Arquei a minha alma

Amarga com lágrimas de fel

E chorei este sentir

Sentindo só em mim.

 .

Num gesto de desalento

Retirei minha mortalha

Mutilada de desejos

E escrevi estas palavras

Para morrer a um verso só!

 .

Eduarda

 

Publicado terça-feira, 20 de Julho de 2010 17:18 por Meduarda | 24 Comentário(s)

DESPI-ME DE ARGUMENTOS|

no dia da feira despi-me das cores

e entrei no campo em forma de ponto.

cheirava a mel e a urze no rebordo do monte

que a tarde empurrava para o tom da noite.

colhi os perfumes das flores

no funda da terra e guardei no livro

pedaços de montanha que juntei à música

do cântico morno da amendoeira.

no dia da feira despi-me de barro

e de ilusões dos lenços nos saltos das rãs

quando fui metáfora no canto do vento.

Eduarda

Publicado domingo, 11 de Julho de 2010 20:42 por Meduarda | 22 Comentário(s)

METADE!...

Depois sento-me na pedra, declino a palavra

E deixo-me cair duma qualquer afronta temporária

Que não cabe na mão

E retribuo ao alto o aroma do que sou.

Não penetro em escadas secundárias

Tão pouco me interessa a razão inócua

dum pensamento alinhavado.

Desato o cordel no ponto de inflexão!

Tenho um pé na certeza

E o outro no voo da dimensão maior.

Em torno há uma mariposa

que me sopra as respostas.

Penso nelas e flutuo na clareira de todas as espécies!

Arranho a cicatriz como cripta do subsolo

E vejo o rosto imoto e cansado do artífice.

Deixo de lado este requerimento de instante

E alio-me à onda que é coisa maior.

Penso na metade da vida

E na sombra que me refresca a manhã.

E sinto-me diferente.

A outra metade, talvez a pense na viagem do sono

que terei logo à noite.

.

Eduarda

(desculpem a ausência, mas tenho tido muitos afazeres)

Publicado sábado, 3 de Julho de 2010 21:47 por Meduarda | 23 Comentário(s)

SOUBESSE EU...

 

[YouTube:EvnIY_JVV0k]

.

soubesse eu o canto da sibila

conhecer onde guardas as palavras

e mover-me-ia como dia de sede.

.

soubesse eu a noite suspensa

entrar na tua alma incompleta

e seria a tua sombra apertada na gola da lua.

 .

pudesse eu conhecer todos os teus passos

saber-te como náufrago da noite

e apertar-te-ia o sono como ladrão de mar.

 .

pudesse eu ser o sossego de todas as perguntas

e seria o teu sono profundo na flor da luz.

coubesse em mim todos os saberes

e serias o meu vestido do mundo em passo de monção.

.

Eduarda

Publicado sábado, 29 de Maio de 2010 12:01 por Meduarda | 20 Comentário(s)

AVATARES SEM BIOGRAFIAS....

Nos avatares indigentes

existem sinais de trovões

e uma raiva surda

na meretriz do ódio.

São a cegueira da Lanterna de Diógenes

no ombro de Herodes

e sentem-se famintos

como promessa satânica nos dedos de Pã.

Inventam a arte de matar

com a mesma força

que bebem o sangue antigo dos Távoras.

Há nestes avatares

uma indigestão de estupidez,

uma bestialidade de donzelas arruinadas,

sem biografia na moral de Herodes.

São tantos a venderem venenos,

que a serpente de Cleópatra

se tornou pomba de ilustração.

Talvez um dia os veja crucificados

na estupidez do próprio sangue

coalhado na campa rasa de Pompeia

a penar as cinzas das pragas dos Bórgias.

.

Eduarda

Publicado sábado, 8 de Maio de 2010 12:04 por Meduarda | 93 Comentário(s)

HOm****AS QUE ESPEm****AM

[annemette-m****osenbom****g-em****iksen+1.jpg] 

 

escondo-me no tempo do sil&ecim****c;ncio

o inc&ecim****c;ndio do teu olham****

inspim****ando hom****as

desnudando lamentos.

.

dispo-me de luas e pm****antos

com sinas de ponteim****os

tocando o mesmo vem****so.

.

sem****ei sempm****e no tempo do mam****

a onda calma que espem****a

a hom****a do búzio a canP***m****.

.

Eduam****a

Publicado quarta-feira, 7 de Abril de 2010 22:19 por Meduarda | 84 Comentário(s)

VIDA...

 

voz calada, sem tom

fechada no peito

silêncio só

em ponto de nó.

esconde a noite

que é diferente da outra

na ponta esconsa

calada de voz sem som

dorida de nada.

vejo-a na sombra do banco

fechada na linha

surda, vazia.

mas no entanto canto-a

dorida, ferida

sempre diferente

enviesada, encerrada

desigual do que pensa.

calo a voz

que permanece dentro

como vento

que oiço e não mexo …

Vida!

.

Eduarda

 

Publicado segunda-feira, 29 de Março de 2010 12:36 por Meduarda | 54 Comentário(s)

SABORES E SENTIRES.

 

depois recusou a cidade que não lhe dizia nada. detestava as ruas cinzentas e as pessoas

atrofiadas e baças que destoavam dos seus passos. queria a liberdade de ver a sua sombra

límpida, sem subterfúgios de um qualquer paradigma ou cataclismo de retórica.

no campo sentia-se livre e podia pensar. deixar que as águas do rio lhe banhassem o corpo,

encorporar os cabelos molhados de líquido doce, enquanto os ramos das oliveiras lhe

agarravam as mãos. acariciar as pedras frias, e deitar-se nas giestas e contemplar o rasto

das aves no céu. não tinha saudades da cidade, onde as montras se assemelhavam

a tempestades de bocas ressequidas. no campo sentia-se livre e podia pensar:

dos filósofos tinha aprendido todos os saberes, dos poetas tinha guardado só algumas frases.

.

Eduarda

Publicado segunda-feira, 22 de Março de 2010 10:41 por Meduarda | 36 Comentário(s)

GUERREIRO NUM TEMPO.

na véspera de mim fui água doce e tempo sem lembranças.

tive o vento como companhia e guerreiro como gesto.

bradei postos e cavernas, e fui soldado visionário.

toquei a terra e o mar e todas as esperanças

de ser pedra na vitória e vela de mastro como bátega de sombra.

fui lago cinzento na noite e contemplei o pouco que foi muito.

no orvalho do som, procuro hoje o bordão da saudade

que se infiltrou na pele ressequida, como sal do silêncio.

do que me resta, ficaram as folhas baças

que sinto nas veias, como uivo morno

na boca do lobo.

~.

Eduarda

 

[YouTube:yV7MELY44DQ]

Publicado quarta-feira, 17 de Março de 2010 12:49 por Meduarda | 40 Comentário(s)

A CONFISSÃO DA POESIA.

falam da minha existência como refém estetizada,

ignorando o que sinto.

na cerca dos aprumos, vestem-me de regras

e até me omitem na vedação

farpada do pântano feudal.

atolam-me de falsas vénias

e afastam-me do início sem ser desertora.

no concílio dos descrentes,

sou atilho de chão agreste

e pêlo crispado no zelo dócil do arrepio da caneta.

sinto as costas dobradas dos soluços e cansaços.

colocam-me nos ombros, mímicas de aplausos

e até já fui chama de inquisição.

usam-me num qualquer

manifesto ou num qualquer livro de fraquezas.

na catedral do papel amarrotado,

sou vitral de desfile

e criança esfarrapada.

eu, poesia nasci nua! sou filha do mundo

e verbo não conjugado.

sou vento alado na viagem sem retorno.

e não tenho armas na bagagem,

nem passaportes visionários.

serei sempre peito vincado na existência

e pórtico mítico de uma qualquer razão.

porque eu, poesia serei sempre livre!

.

Eduarda

 

Publicado sábado, 13 de Março de 2010 11:01 por Meduarda | 39 Comentário(s)

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