
houve um tempo em que acordava de manhã. tinha nos olhos o xaile de joelhos caídos,
num açude intemporal, onde pernoitava as mãos. despida de argumentos sentia as folhas
inertes, levadas pelas brisas dum nevoeiro, silente, doloroso. aguçava os dedos no frio
questionado defronte às brumas da noite. acossava-lhe no prumo das horas, um tempo
demente, alucinado, que apesar de tudo me doía. incolor sem saber onde ficar, dobrava-me
em sobressaltos sem dizer adeus,ao último porto onde estilhaçava as memórias. no fundo
estilizado dos sargaços, ouve-se ainda a fonte resignada onde abracei a mudez.
Eduarda

amanhã vou pintar cores.
as que tenho e vejo estão baças e cansadas.
vou com pincéis nos olhos e tinta nos dedos, colorir esquinas...retirando o velho estuque das cortinas.
vou também pintar palavras!
estou farta das comedidas, das escuras em forma de fotos coloridas
com frases de postais que de ilustrados têm o nome.
não...não pensem que vou usar o preto ou o cinza.
não!
quero o branco das eiras, com os verdes das urzes em forma de ponto cruz
tão singelo quanto o próprio rio que me cerca.
amanhá vou pintar cores que me lembre os cheiros da minha infância.
.
Eduarda

Photo by: Peter Velter
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o que mais me impressiona no ser humano
é a capacidade de se prostituir,
para se sentar numa cadeira sem pés.
Eduarda

na água
experimento o grito
decepado
convocado
no pálido silêncio
que me provoca.
.
suporto a noite
que me entra
dessosssada
petrificada
numa ausência nua
indesejada.
.
cerro os olhos
concretamente
e visto a cama
de ultrajante luz
onde entro sem sair.
.
Eduarda

não é o vazio que me dói!
é este cansaço das palavras ditas e não sentidas.
das que se escrevem em forma de balas
do manto da inveja
e do átrio da vaidade
que em tanto me petrifica.
.
é este querer ver o sol em dia de chuva
querer a brisa no mais profundo silêncio
e ser desarmada nas entrelinhas.
.
é este ter querido permanecer
e partir num pó rasgado
de não ter sabido ir aquém.
..
Eduarda

Abri o meu velho baú
Onde guardei paixões e dores
Sonhos e pesadelos
Tive a noção do que fui
Do ontem que senti.
.
Tive amores de papel
Irreais e sem perfumes
E salpiquei de lágrimas
A terra onde nasci.
.
Vivi montes e vales
Enxergas e equações
Despi-me de pensamentos
E de todos os vestígios
Tropecei o vagabundo
E dormi todos os homens
Que me despiram a alma.
.
Corri ruas e noites escuras
À procura do meu mundo
Mas encontrei corpos de cera
Onde escreveram minhas dores
Com risos de palhaços.
.
Na nudez do desencanto
Em andamento moroso
Enlouqueci de gritos sem voz
O abismo das saudades.
.
Arquei a minha alma
Amarga com lágrimas de fel
E chorei este sentir
Sentindo só em mim.
.
Num gesto de desalento
Retirei minha mortalha
Mutilada de desejos
E escrevi estas palavras
Para morrer a um verso só!
.
Eduarda

no dia da feira despi-me das cores
e entrei no campo em forma de ponto.
cheirava a mel e a urze no rebordo do monte
que a tarde empurrava para o tom da noite.
.
colhi os perfumes das flores
no funda da terra e guardei no livro
pedaços de montanha que juntei à música
do cântico morno da amendoeira.
.
no dia da feira despi-me de barro
e de ilusões dos lenços nos saltos das rãs
quando fui metáfora no canto do vento.
.
Eduarda

Depois sento-me na pedra, declino a palavra
E deixo-me cair duma qualquer afronta temporária
Que não cabe na mão
E retribuo ao alto o aroma do que sou.
Não penetro em escadas secundárias
Tão pouco me interessa a razão inócua
dum pensamento alinhavado.
Desato o cordel no ponto de inflexão!
Tenho um pé na certeza
E o outro no voo da dimensão maior.
Em torno há uma mariposa
que me sopra as respostas.
Penso nelas e flutuo na clareira de todas as espécies!
Arranho a cicatriz como cripta do subsolo
E vejo o rosto imoto e cansado do artífice.
Deixo de lado este requerimento de instante
E alio-me à onda que é coisa maior.
Penso na metade da vida
E na sombra que me refresca a manhã.
E sinto-me diferente.
A outra metade, talvez a pense na viagem do sono
que terei logo à noite.
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Eduarda
(desculpem a ausência, mas tenho tido muitos afazeres)

[YouTube:EvnIY_JVV0k]
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soubesse eu o canto da sibila
conhecer onde guardas as palavras
e mover-me-ia como dia de sede.
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soubesse eu a noite suspensa
entrar na tua alma incompleta
e seria a tua sombra apertada na gola da lua.
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pudesse eu conhecer todos os teus passos
saber-te como náufrago da noite
e apertar-te-ia o sono como ladrão de mar.
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pudesse eu ser o sossego de todas as perguntas
e seria o teu sono profundo na flor da luz.
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coubesse em mim todos os saberes
e serias o meu vestido do mundo em passo de monção.
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Eduarda

Nos avatares indigentes
existem sinais de trovões
e uma raiva surda
na meretriz do ódio.
São a cegueira da Lanterna de Diógenes
no ombro de Herodes
e sentem-se famintos
como promessa satânica nos dedos de Pã.
Inventam a arte de matar
com a mesma força
que bebem o sangue antigo dos Távoras.
Há nestes avatares
uma indigestão de estupidez,
uma bestialidade de donzelas arruinadas,
sem biografia na moral de Herodes.
São tantos a venderem venenos,
que a serpente de Cleópatra
se tornou pomba de ilustração.
Talvez um dia os veja crucificados
na estupidez do próprio sangue
coalhado na campa rasa de Pompeia
a penar as cinzas das pragas dos Bórgias.
.
Eduarda
escondo-me no tempo do sil&ecim****c;ncio
o inc&ecim****c;ndio do teu olham****
inspim****ando hom****as
desnudando lamentos.
.
dispo-me de luas e pm****antos
com sinas de ponteim****os
tocando o mesmo vem****so.
.
sem****ei sempm****e no tempo do mam****
a onda calma que espem****a
a hom****a do búzio a canP***m****.
.
Eduam****a

voz calada, sem tom
fechada no peito
silêncio só
em ponto de nó.
.
esconde a noite
que é diferente da outra
na ponta esconsa
calada de voz sem som
dorida de nada.
.
vejo-a na sombra do banco
fechada na linha
surda, vazia.
.
mas no entanto canto-a
dorida, ferida
sempre diferente
enviesada, encerrada
desigual do que pensa.
.
calo a voz
que permanece dentro
como vento
que oiço e não mexo …
Vida!
.
Eduarda

depois recusou a cidade que não lhe dizia nada. detestava as ruas cinzentas e as pessoas
atrofiadas e baças que destoavam dos seus passos. queria a liberdade de ver a sua sombra
límpida, sem subterfúgios de um qualquer paradigma ou cataclismo de retórica.
no campo sentia-se livre e podia pensar. deixar que as águas do rio lhe banhassem o corpo,
encorporar os cabelos molhados de líquido doce, enquanto os ramos das oliveiras lhe
agarravam as mãos. acariciar as pedras frias, e deitar-se nas giestas e contemplar o rasto
das aves no céu. não tinha saudades da cidade, onde as montras se assemelhavam
a tempestades de bocas ressequidas. no campo sentia-se livre e podia pensar:
dos filósofos tinha aprendido todos os saberes, dos poetas tinha guardado só algumas frases.
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Eduarda

na véspera de mim fui água doce e tempo sem lembranças.
tive o vento como companhia e guerreiro como gesto.
bradei postos e cavernas, e fui soldado visionário.
toquei a terra e o mar e todas as esperanças
de ser pedra na vitória e vela de mastro como bátega de sombra.
fui lago cinzento na noite e contemplei o pouco que foi muito.
no orvalho do som, procuro hoje o bordão da saudade
que se infiltrou na pele ressequida, como sal do silêncio.
do que me resta, ficaram as folhas baças
que sinto nas veias, como uivo morno
na boca do lobo.
~.
Eduarda
[YouTube:yV7MELY44DQ]

falam da minha existência como refém estetizada,
ignorando o que sinto.
na cerca dos aprumos, vestem-me de regras
e até me omitem na vedação
farpada do pântano feudal.
atolam-me de falsas vénias
e afastam-me do início sem ser desertora.
no concílio dos descrentes,
sou atilho de chão agreste
e pêlo crispado no zelo dócil do arrepio da caneta.
sinto as costas dobradas dos soluços e cansaços.
colocam-me nos ombros, mímicas de aplausos
e até já fui chama de inquisição.
usam-me num qualquer
manifesto ou num qualquer livro de fraquezas.
na catedral do papel amarrotado,
sou vitral de desfile
e criança esfarrapada.
eu, poesia nasci nua! sou filha do mundo
e verbo não conjugado.
sou vento alado na viagem sem retorno.
e não tenho armas na bagagem,
nem passaportes visionários.
serei sempre peito vincado na existência
e pórtico mítico de uma qualquer razão.
porque eu, poesia serei sempre livre!
.
Eduarda