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Rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política
Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas
o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais foi apanhado
Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)
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Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a ser estrella.
(parte V de um poema de Pablo Neruda
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Uma farsa.
“O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.
Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com a tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.
O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém? principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.”
Vasco Pulido Valente
Resposta:
“A marca de água de uma certa aristocracia falida é o ódio cego que têm aos não aristocratas que “ousam” viver bem, ódio potenciado por uma inveja doentia pelo dinheiro destes, inveja que visivelmente os mortifica. Então quando o aristocrata falido alimentou esperanças de fama intelectual, quiçá literária e se confronta com um “filho e neto de camponeses sem terra” que chega ao cume da fama enquanto escritor e vive mais do que desafogadamente dessa escrita, isso é um verdadeiro purgatório.
É assim a relação de Vasco Pulido Valente com José Saramago.
O infeliz Pulido Valente não é a única vítima. Por qualquer razão, Saramago traz ao cimo, nalgumas pessoas, exactamente o pior que têm para mostrar.
Não estou de acordo com muito do que recentemente tem sido dito por Saramago, aliás, pelos visto, ele também não... mas quando se vê alguém com a cultura, os cursos e a prosápia de um Vasco Pulido Valente, atacar o escritor de “Levantados do chão”, “Memorial do convento”... e “Caim”, como se pode ler neste texto asqueroso, com “argumentos” mais ou menos miseráveis, mas principalmente, por falta de adequados “dotes de nascença e de educação”, temos um vislumbre da miséria intelectual em que pode cair um pobre, reaccionário e taralhouco aristocrata, cuja última bóia de salvação, à qual tenta agarrar-se patética e desesperadamente... é o “berço” e uma remota formação académica.
Vocês imaginam a quantidade de seres humanos rigorosamente analfabetos com que me cruzei ao longo da vida, todos pessoas infinitamente mais interessantes, profundas e verdadeiramente úteis para a Humanidade, do que este pobre Vasco Pulido Valente?”
Samuel in "O Cantigueiro"
- Parabéns ao Samuel por este excelente comentário ao artigo publicado no Publico por este senhor que é verdadeiramente uma nulidade.
Chamar analfabetos aos portugueses, mostrar o seu ódio às classes trabalhadoras deste País é uma atitude neste caso bem demonstrativa da personalidade deste tipo de pessoas. Reaccionário e obviamente retrógrado.
Um conselho a este senhor. Enfie as pantufas refugie-se na sua ignorância e faça um favor aos Portugueses não diga mais disparates. Nós, as criaturas, os trolhas, os semi-analfabetos, os saloios e aqueles que temos só a escolariedade obrigatória, agradecemos.
A inveja por vezes leva-nos a cegueira. Sabia? Em conclusão digo: O Senhor é um miserável analfabeto intelectual.
Navegante55
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Lisboa, 20 Out (Lusa) - O euro deputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir "envergonhado" com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.
No sítio pessoal na Internet, o vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), eleito pelo PSD, escreveu hoje que José Saramago "há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize... E depressa!"
"Tenho vergonha de o ter como compatriota! Ou julga que, a coberto da liberdade de expressão, se lhe aceitam todas as imbecilidades e impropérios?", questiona o euro deputado.
Porque não te calas?
“Eu tinha vergonha era de pertencer ao partido do galã candidato à Câmara Municipal de Lisboa que fez o que fez na altura que o fez e obrigou assim o José Saramago a tomar a decisão que tomou.
O Senhor. por acaso é português ou sabe o que isso significa? Deve ser é um dos que bate com a mão no peito ao domingo e depois durante a semana explora o Zé português ou o humilde imigrante que para aqui vem trabalhar.
Tenha vergonha na cara e limite-se á sua insignificância de euro deputado pois já tem tacho e um chorudo ordenado. E quando falar em liberdade de expressão pense duas vezes pois não sabe do que está a falar. Triste do povo que elege este tipo de pessoas para os defender. Assim vemos os “democratas portugueses” que nos representam no Parlamento Europeu, prontos a vender o seu país a americanos, russos ou chineses.
Já agora quanto cobrou para dar ou escrever no seu sitio esta entrevista? Tenha vergonha na cara e já que nada sabe dizer no Parlamento Europeu limite-se á sua insignificância e poupe-nos a vergonha de dizer que é português. Nós portugueses agradecemos.
Vergonha, tenho eu, em ter como compatriota uma pessoa imbecil como o senhor. Se alguém devia renunciar a cidadania portuguesa é o senhor por isso faça-nos um favor aproveite e renuncie de imediato, pois por mais que queira nem aos calcanhares de José Saramago chega.
È este tipo de pessoa que nos enganam a toda a hora, em todo o local, em todas as eleições que o povo Português deve escorraçar de vez. Estamos fartos de falinhas mansas, enganadoras. Estamos fartos de vendedores de falsas verdades. Estamos fartos de gente como este Senhor que ao domingo vai á missa e a saída da missa cospe no coitado que está ali á porta a pedir uma moeda.
Já agora Senhor euro deputado já programou a data do auto da fé para queimar o livro em praça pública?
A Igreja de certeza que já o programou assim como tantos outros donos do mundo. Lembra-se de Hitler? Salazar? Franco? Talvez não esses são amigos. Saramago é o diabo.
Navegante55
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"Algumas canções ganham o dia, outras ganham a alma, outras suavizam a morte, outras embelezam a feiura, outras entristecem, outras fazem aparecer alguma coisa nova, alguma coisa velha, alguma coisa. E essa aqui, feita para nossa identificação através de nossas diferenças, feita para a memória de corações que se sentem latinos/americanos/mundanos/humanos, essa aqui, essa virou um hino geral, um hino da ternura de um povo mais do que mestiço, mais do que continental, de um povo criativo de coração aberto ao mundo."
"Salgo a caminar
Por la cintura cósmica del sur
Piso en la región
Más vegetal del tiempo y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de América en mi piel
Y anda en mi sangre un río
Que libera en mi voz
Su caudal.
Sol de alto Perú
Rostro Bolivia, estaño y soledad
Un verde Brasil besa a mi Chile
Cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña América y total
Pura raíz de un grito
Destinado a crecer
Y a estallar.
Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser canción en el viento.
¡Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz!"
Mercedes Sosa
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Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.
Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.
Manuel Alegre
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Hoje apetece-me Maria Teresa Horta.

É o meu mel
que eu cheiro na tua boca
É no teu pénis
que eu bebo a sede toda
Nos meus lábios abertos
que me vencem
eu nado devagar sem ter vergonha
É a lagoa - eu digo
de veludo
É o grito - eu sei
na raiva solta
É a proa do prazer
sobre o lençol
onde mais tarde vai rebentar a onda
Secreto é o ruído
dos corpos
no combate
Os elmos já depostos pelo chão
caídas as viseiras e as máscaras
o vestido misturado à armação
São fulvos os cavalos
com as patas cor do pó
tropeçando na paz adormecida
Eu levo a bandeira
do orgasmo
E "para tão grande amor é curta a vida"
(SÓ DE AMOR, 1999)
Maria Teresa Horta
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Um dia, encho-me de coragem
E vou mesmo discursar no parlamento
Confesso que fiz juramento
De ir a pé até lá
De entrar naquela sala,
Para discursar a minha mensagem
Um dia, apareço nas câmaras da televisão
Verdade mesmo, não é ilusão
Apareço com o meu rosto maltratado
Com o meu rosto de drogado
Para pedir um ponto de ordem
Aos senhores deputados,
Eu mesmo que vivo do outro lado da margem
Já sei que vão olhar com indignação
Para os meus pés descalços
Para os meus calções rotos
E para os meus magritos braços
Já consigo imaginar os vosso rostos
De indignação e estupefacção
Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar
Em plena assembleia nacional
Assim mesmo, com este meu visual
De menino de rua votado ao abandono
De menino de rua cão sem dono
Eu vou à assembleia nacional falar
Assim mesmo, sem convite
E sem ser chamado
Eu, que não sei falar português de escola
Vou entrar naquela sala
Para falar com os senhores deputados
Eu vou lá sem convite, acredite!
E antes de me porem andar à paulada
Antes de me mandarem calar à porrada
Vou rasgar o meu peito
Para vocês escutarem o grito
De tanto sofrimento vivido
De tanto sofrimento bebido
E enquanto estiver a ser arrastado
Para fora da assembleia nacional
Eu, menino de rua cão sem dono e drogado
Eu, menino de rua marginal
Ainda terei coragem
Ainda serei capaz
De trovejar a minha mensagem:
POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!
Não levem a mal
Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!
Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"
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Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito dum rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...
Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!
Sidónio Muralha
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"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí.
José Régio
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Enquanto passa a estrela fugaz
junto neste desejo instantâneo
montes de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme meu amor
que os assassinos do povo engulam
seus molares caninos e incisivos
e se mordam sensatamente o fígado
que as grades das celas
se tornem de açúcar ou se curvem de piedade
e meus irmãos possam fazer de novo
o amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não maldigamos nem nos maldigamos
que os justos avancem
mesmo que estejam imperfeitos e feridos
que avancem porfiados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chega pontual não nos encontre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que você mocinha continue alegre e dolorida
pondo em seus olhos a alma
e sua mão em minha mão
e nada mais
porque o céu já está de novo turvo
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.
Mário Benedetti
Do livro "Inventário"
Tradução de Julio Luís Gehlen
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Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
(José Saramago)
In "Os Poemas Possíveis", 1966
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Direis que não é poesia
e a mim que importa?
Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
E grito porque respondo
às lanças que me espectam
e aos braços que me chamam,
E porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,
por estranhas telegrafias,
dos cantos mais ignotos
e das linhas perdidas
e dos campos esquecidos
e dos lagos remotos,
e dos montes,
recebem longas mensagens e comunicações:
para que grite e cante.
O meu grito e meu canto é a voz de milhões.
Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e grito e gritarei o que tiver a gritar
e falo e falarei o que tiver a falar.
Direis que não é poesia.
E a mim que importa
se eu estou aqui apenas para escancarar a porta
e derrubar os muros?
E a mim que importa
se vós sois afinal o que hei-de ultrapassar
e esmigalhar
em nome
de todos os futuros?
Eu sigo e seguirei.
como um doido ou um anjo,
obstinado e heróico a caminho de nós
em palavras e acções
por todos os vendavais
e temporais
e multidões
nos cantos mais ignotos
e nas linhas perdidas
e nos campos esquecidos
e nos lagos remotos
e nos montes
- por terra, mar e ar.
Direis que não é poesia
E a mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a outra raça, a outro mundo, a outra gente.
É andar, é andar!
Mário Dionísio
(Lisboa, 16/7/1916 - Lisboa, 17/11/1993)
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Há Maio em cada rosto
em cada olhar
que passa pelo asfalto da Avenida
Há Maio em cada braço
que se ergue
há Maio em cada corpo em cada vida
Há Maio em cada voz
que se levanta
há Maio em cada punho que se estende
há Maio em cada passo
que se anda
há Maio em cada cravo que se vende
Há Maio em cada verso
que se canta
há Maio em cada uma das canções
há Maio que se sente
e contagia
no sorriso feliz das multidões
Há Maio nas bandeiras
que flutuam
e mancham de vermelho
o céu de anil
Há Maio de certeza
em cada peito
que sabe respirar o ar de Abril
Mas há Maio sobretudo
no poema
que se escreve sem ler o dicionário
porque Maio há-de ser
mais do que um grito
porque Maio é ainda necessário
Canto Maio e se canto
logo existo
que o meu canto de Maio é solidário
com o canto que escuto
e em que medito
e que sai da boca do operário
(Fernando Peixoto)
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És ventre de uma flor por nascer
e de toda a esperança por florir
certeza inquietação amor e fome
És ventre de flores cravos de Abril
de ventos que norteiam as marés
de risos choros e águas de beber
És ventre do jardim que nos aquece
rio que renasce em cada fonte
És ventre de uma flor que amanhece
És ventre de uma flor Abril em Maio
e de todos os sonhos por cumprir...
in “O Cheiro da Ilha”