Não à Indiferença
Podia ser uma história bonita. Mas esta que vos vou contar não é bonita nem animada. É uma história de vida, ou se preferirem, de muitas vidas, conforme…
Bem, então cá vai… querem que conte ou não? …
- Então está bem.
Era Inverno, o segundo de trezentos e sessenta e cinco dos dias de 2009. A água gelada corria lamacenta junto às bermas das estradas, transformando-as em efémeras ribeiras de um castanho terra avermelhado. Pelas persianas das casas escorriam as gotas de um silêncio que a chuva quebrava com o seu som melancólico. E nesta tarde cinzenta, as nuvens espessas descarregavam as lágrimas do seu lamento, que assim confluíam para essas ribeiras lamacentas.
A paisagem campestre interrompe por vezes a argamassa e o betão e ali, nunca se sabe ao certo se é de cidade agrícola que se trata, ou de agricultura citadina.
Foi aqui, neste misto de cidade e campo, que ocorreu esta história.
Os meus pais tinham-se deslocado do seu cantinho, algures na paz e sossego da aldeia alentejana para visitarem nesse dia a sua querida filha e aproveitar estes primeiros dias da azáfama dos saldos. Era sempre bom dar uma voltinha ao Fórum e aproveitar para comprar qualquer coisinha que estivesse a preço.
A chuva era incessante. No percurso para o Fórum íamos observando aqui e além um rebanho de ovelhas, mais acolá uma manada de bois, as cabras, que reflectiam a carência de pastagens, embora por estes dias as chuvas tivessem dado lugar a um ou outro rebento de erva - apenas aquele que tinha conseguido vencer a adversidade das fortes geadas.
A seguir à ribeira que ladeia a nova ponte (e que abre portas para mais um sinal da forte modernidade deste século em plena evolução – o TGV) lá se encontrava ele – um animal – este especial pela sua singularidade. Já vão saber porquê.
Era branco, um branco imaculado. Mantinha, embora, toda a candura e pureza na sua cor. Escorria-lhe pelo dorso, a água gelada deste dia de Inverno. Em pé, pescoço flectido, olhos mortos, ausentes, fixos no chão, ou quem sabe, em lugar nenhum, abandonava-se ao seu estado de dor e profunda tristeza. A posição dos membros deixava antever a dor da humilhação e do abandono, para lá das outras dores físicas e do cansaço. Junto aos seus quadris fundos, sobressaíam uns ossos cobertos pela alvura do pêlo molhado. Junto ao rosto caíam-lhe duas manchas profundas e escuras, de lágrimas negras que já lhe perfuravam a carne e abriam duas longas feridas.
Ali, abandonado à sua triste sorte e amarrado à corda da indiferença que lhe envolvia o pescoço, rendeu-se, impotente ao destino que o Homem lhe deu. Aguardava, já indiferente, a morte. Enquanto muitos passavam ao seu lado e se surpreendiam com a nova ponte do TGV, eu fui violentamente agredida, apedrejada, ferida na alma por este sofrimento.
Liguei às autoridades e pedi que tomassem conta da ocorrência, visto que o animal já se encontrava ali há bastante tempo, entregue à triste sorte, sem comida, nem agasalho, em pleno século XXI, num país dito desenvolvido, onde a civilização citadina se mistura com o mundo rural. Os senhores das autoridades responderam que iriam tomar conta da ocorrência. Assim fiquei. Inquieta na minha consciência, mas acreditando na responsabilidade do ser humano. Por vezes é preciso acreditar que algo mudou nesta sociedade. Acreditei nisso e o meu espírito acalmou. Passaram dois dias, e nessa altura passei pelo local anunciado. Lá estava ele – agora caído sobre a sua dor, pendido sobre a sua humilhação, alienado da civilização que o ignorou. Abandonado, envergonhado por não ter tido direito a morrer com dignidade. (não há humilhação maior para um animal do que ser obrigado a morrer à vista de toda a gente e dos seus semelhantes, sem poder esconder a sua mágoa e a sua dor. Nem isso lhe foi concedido!). Foi assim. Foi necessário que tivesse morrido confinado à corda da indiferença que o aprisionou a este mundo de hipocrisia!
Era um animal, de que espécie ainda não sabem, pois não?
Tanto faz, podia ser qualquer um, até um animal humano morre assim, em qualquer canto, do mesmo modo, porque a indiferença, essa, não reconhece raças, nem espécies.
Pois. Este era um burro.
4 de Janeiro de 2009
Paula Rodrigues