Raça dos míudos
Há sempre algo de errado com as séries juvenis – sempre um pai que se revolta por serem uma má influência ou uma mãe que as ridiculariza por serem irrealistas. Ninguém as considera pedagógicas, isso é consensual. Mas também ninguém se questiona por que raio hão-de ser elas mais pedagógicas do que qualquer outro produto de ficção nacional generalista. E, convenhamos, um filme que marcou muito a minha adolescência foi o Trainspotting. Outro foi o Assassinos Natos. E hoje em dia sou uma adulta relativamente saudável.
Claro que nem todo o público dos Morangos Com Açúcar tem arcaboiço para assimilar este tipo de fantasia televisiva com o recuo crítico necessário. A miudagem chega da escola ainda a cheirar a lápis e leite com chocolate, sabe lá o que lhe reserva o futuro. Ou sabe? Sabe que, pelo menos, lhe reserva uma gloriosa perda de virgindade e uma borracheira de caixão à cova.
O último episódio que vi levou-me a escrever mais uma vez sobre este produto: quase todas as personagens tiveram relações sexuais ou se embebedaram ou se drogaram ou invadiram propriedade privada (senhores guionistas, no meu tempo os ‘okupas’ não assaltavam mansões) ou fugiram de casa dos pais. Ou tudo isto ao mesmo tempo. Esperei pela lição de moral a qualquer momento. Não chegou, pelo menos naquele episódio.
Mas não é com lições de moral que se vai lá. Pais, é verdade: há álcool, droga, sexo e festas rijas durante a adolescência. Se ainda não disseram aos vossos filhos o que os espera (nem tencionam dizer), não os deixem ver os Morangos Com Açúcar. Caso contrário, juntem-se a eles em frente ao televisor que aquilo sempre dá para rir.