Morde aqui
Quando Drácula de Bram Stoker, realizado por Francis Ford Coppola, estreou por cá, tinha eu uns 12 ou 13 anos. Vesti-me aprumadinha e pus uns brincos muito catitas para conseguir convencer o senhor da bilheteira do Condes a deixar-me entrar, porque o filme era para maiores de 16. Hoje, nenhuma distribuidora cinematográfica deixaria que isto acontecesse: filme que meta vampiros leva pais e filhos e pipocas. O povo reclama para si o direito aos vampiros. Os vampiros são de todos. E estão em todo o lado.
A culpa é dos livros – e consequentes adaptações ao cinema – de Stephanie Meyer. Mas suponho que já nem a autora da saga Twilight possa ver caninos afiados à frente. O mais grave sintoma de que estamos perante um verdadeiro flagelo manifesta-se na chegada dos vampiros à ficção nacional: primeiro, como quem não quer a coisa, num subplot de Morangos Com Açúcar. Agora, com oportunismo desavergonhado, nos produtos mais agressivamente promovidos na SIC e na TVI : as séries Destino Imortal e Lua Vermelha.
Claro que, como Portugal é um país atrasado, isto pode ser um sinal de esperança de que, no resto do mundo, a moda esteja prestes a passar e os vampiros voltem finalmente a ser as personagens sociopatas e fotofóbicas que sempre adorámos e que agora são obrigadas a esconder-se em produtos televisivos de qualidade como a série de Alan Ball transmitida na RTP1, Sangue Fresco. Mas fica pelo menos a promessa de que os sucedâneos protagonizados por Catarina Wallenstein e Ricardo Pereira nos garantam horas e horas de humor involuntário.