SOL

Dissecando desgraças

Publicação: 22 Janeiro 10 10:00

De cada vez que há uma guerra ou catástrofe, reagimos com choque às primeiras imagens transmitidas nos noticiários. Mas, à medida que os dias vão passando, habituamo-nos a conviver com cenários que fazem Massacre no Texas parecer uma coisinha querida.

Depois de adquirirmos uma certa imunidade – que nos permite abocanhar um bife mal passado enquanto mastigamos impropérios de boca aberta, com os olhos postos na televisão –, a discussão passa a girar em torno da cobertura televisiva dos acontecimentos. Onde acaba a informação e começa a exploração? Nada de novo.

E agora, com a tragédia no Haiti, vai dar ao mesmo. Mas vale a pena atentar num pormenor e lançar mais uma acha para a mesa do jantar: o acto heróico do jornalista americano da CNN Anderson Cooper, que interrompeu a sua reportagem para salvar uma criança haitiana que acabara de ser agredida com um bloco de cimento. Sim, é uma boa obra, que ninguém tenha dúvidas. Só que, ao ser propositadamente transmitida ao mundo, não se tornará uma melhor história do que uma boa obra?

Em Portugal ainda não temos um cromo da categoria do interventivo e proactivo Anderson Cooper – temos alguns que para lá caminham, mas não quer dizer que esse seja um bom caminho. Sei que os meus professores do curso de Jornalismo do Cenjor gostariam que eu tivesse tido essa atitude apaixonada de proto-repórter de guerra em vez de andar a dizer que queria escrever sobre cultura e essas parvoíces. Mas, até agora, a coisa mais emocionante que aconteceu a um jornalista português no Haiti foi – infelizmente, diga-se – ter-se magoado numa queda. E Anderson Cooper nem sequer estava lá para acudir.

por Ana

Comentários

# ProfetaPolitico said on Março 5, 2010 13:24:

O simbolismo de um gesto pode ganhar alguma força mediática, dependente do grau de mediatismo do seu protagonista, e servir para desencadear alguma reação global. Neste caso foi um gesto de caridade e bom senso, e penso que há que ler as coisas desse âmbito positivo. Tantas pessoas deixam as suas ocupações momentâneas para salvar outras, sem serem notícia? Ao fim e ao cabo as circunstâncias e o acaso também tiram partido da fama e mediatismo, para gerar forças globais positivas e contagiosas.

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