Abrunhosa
Se não me falha a memória, devo ter escrito para aqui em tempos que o vídeo matou as estrelas da rádio e que a internet matou as estrelas do vídeo e por aí fora. Mas, afinal, contra tudo o que as vozes da reacção dizem, a internet é a melhor amiga da televisão.
Tive esta epifania enquanto via o Ídolos com o meu portátil ao colo.
Primeiro, dá-se o seguinte fenómeno: conheço várias pessoas (incluindo eu mesma) que, no sossego solitário do lar, têm por hábito ver programas com um olho no computador e outro no televisor (uma espécie de ciberestrabismo que embeleza as windows da alma), trocando comentários ao segundo com os amigos das redes sociais. E foi assim que uma amiga me espetou no ecrã: «DIZ-ME QUE VISTE O ABRUNHOSA A CAIR!».
Pois claro que vi – e bem me soube partilhar essa experiência logo ali, teclando ‘ahahahahas’, em vez de me limitar a emitir gargalhadas a cappella. Nem sequer acho particular piada a pessoas a cair, mas o momento foi maravilhosamente aparatoso e o homem não se magoou por aí além (por isso não vou para o inferno). E, caso não tivesse visto a queda, o vídeo ficou disponível no YouTube quase instantaneamente. Abrunhosa entrou para a história da televisão. E este é outro extraordinário fenómeno.
Se Abrunhosa tivesse caído em directo há 15 anos, a minha amiga só me teria dito «diz-me que viste o Pedro Abrunhosa a cair» depois de discar vagarosamente o meu número no telefone. Talvez apenas no dia seguinte. E eu talvez não tivesse visto. E ela descrever-me-ia a queda sem saber bem como, porque tinha sido tudo muito rápido. E eu talvez não achasse piada nenhuma. E ainda dizem que a internet afasta as pessoas.