SOL

A luta

Publicação: 19 Fevereiro 10 10:00

Dizem que Deus está em todo o lado, mas eu cá só sei que quem está em todo o lado são os Homens da Luta. Foi assim nessa histórica quinta-feira em que este mesmo jornal abriu todos os serviços noticiosos. O infame Jel pintou o bigode, banhou o cabelo em óleo e, de megafone em punho, mascarou-se de sindicalista. O seu irmão, Vasco Duarte, empunhou a guitarra e fez de cantor de intervenção. O número é conhecido mas já é mais do que um número: é um manifesto.

 

Basta que esteja lá uma câmara para testemunhar (à porta do SOL estavam várias) e os Homens da Luta provam que todos nós podemos entrar para a história. Podemos, aliás, fazer história. Pela primeira vez me ocorreu que, numa série de momentos-chave da vida política portuguesa registados em televisão, lá aparecem dois malucos com uma guitarra e um megafone a gritar palavras de ordem. Foi o Emplastro quem lhes ensinou como entrar pela realidade adentro. Jel aproveita para intervir, mais ainda do que para fazer comédia.

 

Imagino muitas vezes como será o mundo sem mim (chego frequentemente à conclusão de que vai ser uma grande desgraça), mas desta vez detenho-me no que serão as imagens de arquivo destes tempos quando já não estivermos aqui para as contextualizar. As reportagens passam e já quase nenhuma jornalista se dá ao trabalho de explicar o que estão aqueles dois ali a fazer. No futuro, até pode ser que se dê o equívoco de dedicar estátuas – ou, vá, uma ou outra praceta suburbana – a estes heróis da revolução esquecidos. Só tenho pena de já cá não estar para me rir. Quiriquiri.

por Ana

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