Truques
Nem sempre é fácil fazer-se uma entrevista. Em imprensa, um jornalista sempre pode arranjar um embrulho interessante mesmo que a conversa tenha versado sobre ponto cruz ao longo de duas horas. Trocam-se as voltas à sequência, enrolam-se as citações em prolegómenos (já é a segunda vez que Kant vem à baila nesta coluna só para puxar estilo) e, no final, até parece que o entrevistado passou o tempo todo a falar de política internacional. São truques.
Em televisão, na melhor das hipóteses, faz-se uma montagem para dar à conversa uma dinâmica que nunca existiu. Como acontece no programa de Daniel Oliveira, Alta Definição: os entrevistados dizem que adoram o mar, detestam falsidade, gostam de paz e não gostam de chanfana, tudo a um ritmo tão fascinante que até parece que o entrevistado passou o tempo todo a falar de política internacional. Truques.
Na pior das hipóteses, tem-se pela frente José Sócrates em directo. Miguel Sousa Tavares estreou-se assim no seu regresso às entrevistas televisivas com o programa Sinais de Fogo, na SIC. Boas audiências, claro: 13,9% de audiência média e 32,1% de share. Consigo imaginar o povo galvanizado, balde de pipocas no colo, tudo a confiar na melena tingida de Sousa Tavares para varrer o primeiro-ministro em direcção à verdade.
Mas não. Sousa Tavares não se safou, nem com a sua mais intimidante expressão de azia e impaciência. Entrevistar José Sócrates é pior do que falar para uma parede. É como tentar convencer um miúdo de seis anos de que o nosso Gormiti é o mais poderoso quando o seu único argumento é gritar à exaustão que o dele é mais poderoso vezes infinitos. E contra isto não há truques.