Quero é aparecer
Uma pessoa que escreve sobre televisão não devia ir à televisão. Principalmente depois de alguém ter escrito no 24 Horas que essa pessoa anda a criar inimizades nas estações por causa das suas crónicas. Essa pessoa sou eu. E eu vou à televisão.
Não é a primeira vez que espreito o lado de lá da barricada. É pior do que espreitar: é dormir com o inimigo e nem sequer sair do quarto em bicos de pés na manhã seguinte. Porque a verdade é que eu gosto de ir à televisão.
Gosto de percorrer corredores deprimentes até chegar a cenários espectaculares. De entrar com cara de adolescente deslavada e sair como uma senhora acabada de fazer um lifting, de despir o casaco verde para não desaparecer no cenário de croma. Mas, mais do que tudo isto, gosto de ser artificialmente natural a representar o papel de mim mesma.
A internet permite-nos expor a nossa imagem perante milhões de pessoas em todo o mundo, mas ainda subsiste alguma mística em redor de uma aparição televisiva, mesmo que seja num canal de cabo com pouca audiência a dizer nada de especial ao longo de dois fulminantes minutos. Nunca tive tantos comentários na minha página do Facebook como na última vez em que apareci na televisão. Uma boa parcela, porém, refere-se apenas ao decote do meu vestido.
O meu próximo desafio vai ser ver-me na televisão na noite dos Óscares – tirando a pele de crítica de televisão e vestindo a de cinema, para não haver promiscuidades – e criticar a minha própria performance. O passo seguinte será convencer as pessoas de que não sofro de esquizofrenia – que eu cá gosto de ir à televisão. Mas ainda gosto mais de dizer mal.