Aprender
Quando era garota, passava na televisão um anúncio a carros telecomandados que prometia que, a brincar a brincar, aprendíamos a guiar a sério. Apesar de não ter aprendido a guiar a sério (porque os meus pais nunca me deram uma dessas traquitanas), ainda hoje acredito que é a brincar que aprendemos tudo na vida. E, aliás, é provável até que morramos antes de aprendermos a fazer seja o que for a sério.
Apanhei há pouco tempo um programa infantil na RTP2, transmitido imediatamente antes do tempo de antena outrora ocupado pelo Vitinho, chamado Falaescreveacertaganha. Trata-se de um concurso para crianças baseado no seu conhecimento de língua portuguesa – e até aqui, tudo bem. É pedagógico e tal.
Porém, fosse eu criança e Falaescreveacertaganha seria a última coisa que desejaria ver antes de me deitar. É como ver um filme de terror ou comer uma feijoada à hora da caminha. As pobres crianças são postas à prova como numa sala de aula e estão visivelmente aborrecidas, para não falar do constrangimento de serem orientadas por um apresentador/professor/canastrão num ecrã a preto e branco qual telescola.
Há uns dias, a minha mãe perguntou a uma vizinha se a sua filha, aluna de um colégio interno, gostava da escola. A resposta foi: «Tem de ser». Isso sabemos nós, que dá jeito aprender umas coisas. Mas é mais importante sentirmos o coração a bater do que sabermos medir a pulsação. Em televisão, pedagogia deve ser entretenimento. Se não, é porque a criança dentro de alguns educadores já nasceu velha.