Comer e comida
A televisão já não cozinha para o povo, como nos tempos de Filipa Vacondeus e do Mestre Silva – sem qualquer desprimor para ambos. Mas a verdade é que a gastronomia, dentro e fora do ecrã, é cada vez mais transversal – mais ainda, chique e sexy. Antes, os programas de culinária debruçavam-se sobre ‘o comer’. Hoje discorrem sobre ‘a comida’.
Jamie Olivedr transformou o sentido prático em algo muito mais valioso do que o mero desenrasque de solteiro: dá-nos vontade de deitar fora o folhado de salmão com espinafres congelado do Pingo Doce (que, diga-se a bem da verdade, faz um vistaço à mesa) e fazer uma horta na varanda que dá ali para a Praça de Espanha. De arrancar couves-de-bruxelas da terra e saboreá-las como caviar, improvisando manjares biológicos para os amigos com uma perna às costas (no meu caso, literalmente, porque tenho uma kitchenette e a logística torna-se, por vezes, complicada).
Mas a derradeira revolução na cozinha televisiva dá pelo nome de Nigella Bites, programa apresentado pela britânica Nigella Law-son que passou recentemente pela grelha da SIC Mulher. Esta senhora não parece, como Vacondeus, aquela tia com mão para a cozinha: parece, sim (e agora, em modo solidário com o sexo masculino), aquela prima com o corpo inteiro para a cozinha. As mulheres querem provar a massa dos bolos com o dedo como Nigella, os homens querem transformar-se em massa de bolos. Tenho para mim que Freud não explicaria.