SOL
Fim de emissão
01 Abril 10 10:00

Vamos lá directos ao assunto: esta é a minha última crónica. É verdade que andei a ‘flirtar’ com o outro lado do ecrã em idas esporádicas a estúdios de televisão, mas nada me preparava para dar efectivamente o nó. É verdade, senhores leitores e telespectadores, eu sou uma troca-tintas, uma vira-casacas, uma vendida, uma vergonha – uma apresentadora de televisão.

Há um velho argumento que costuma ser atirado violentamente à cara de todos os que criticam alguma coisa nas páginas de um jornal: ‘Ah e tal, dizem mal porque são frustrados, porque queriam era ser músicos e não sabem, porque queriam era fazer filmes e não podem, porque queriam era aparecer na televisão...’. Pois bem, visto que acabo de vencer essa minha alegada frustração, eis que o Telenovelo termina. Sem pontas soltas.

 

Foi um par de anos em que fingi ver mais televisão do que realmente vi e, sobretudo, em que fingi saber mais sobre o assunto do que realmente sabia. Agora, que trabalho do lado de lá, sei um bocadinho mais. Mas não esperem que me comova ou, muito menos, que me redima de algumas barbaridades que aqui teci: não retiro nada do que disse. À excepção de um lapso que associava Rita Ferro Rodrigues ao CNL (a rapariga teve, de facto, um programa de entrevistas interessante há uns bons anos, mas não nesse canal).

 

Acho que a boa notícia é: todas as pessoas que se sentiram lesadas com os meus comentários vão poder vingar-se de mim. Como Rita Ferro Rodrigues, suponho. Mas talvez não seja preciso. É meu desejo que, neste sofá, continue a existir um monstro que aponte o dedo ao monstro que aparece no ecrã: eu e eu mesma. E que, no final, dêem as mãos e vivam felizes para sempre.

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Comer e comida
26 Março 10 10:00

A televisão já não cozinha para o povo, como nos tempos de Filipa Vacondeus e do Mestre Silva – sem qualquer desprimor para ambos. Mas a verdade é que a gastronomia, dentro e fora do ecrã, é cada vez mais transversal – mais ainda, chique e sexy. Antes, os programas de culinária debruçavam-se sobre ‘o comer’. Hoje discorrem sobre ‘a comida’.

 

Jamie Olivedr transformou o sentido prático em algo muito mais valioso do que o mero desenrasque de solteiro: dá-nos vontade de deitar fora o folhado de salmão com espinafres congelado do Pingo Doce (que, diga-se a bem da verdade, faz um vistaço à mesa) e fazer uma horta na varanda que dá ali para a Praça de Espanha. De arrancar couves-de-bruxelas da terra e saboreá-las como caviar, improvisando manjares biológicos para os amigos com uma perna às costas (no meu caso, literalmente, porque tenho uma kitchenette e a logística torna-se, por vezes, complicada).

 

Mas a derradeira revolução na cozinha televisiva dá pelo nome de Nigella Bites, programa apresentado pela britânica Nigella Law-son que passou recentemente pela grelha da SIC Mulher. Esta senhora não parece, como Vacondeus, aquela tia com mão para a cozinha: parece, sim (e agora, em modo solidário com o sexo masculino), aquela prima com o corpo inteiro para a cozinha. As mulheres querem provar a massa dos bolos com o dedo como Nigella, os homens querem transformar-se em massa de bolos. Tenho para mim que Freud não explicaria.

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Aprender
12 Março 10 10:00

Quando era garota, passava na televisão um anúncio a carros telecomandados que prometia que, a brincar a brincar, aprendíamos a guiar a sério. Apesar de não ter aprendido a guiar a sério (porque os meus pais nunca me deram uma dessas traquitanas), ainda hoje acredito que é a brincar que aprendemos tudo na vida. E, aliás, é provável até que morramos antes de aprendermos a fazer seja o que for a sério.

 

Apanhei há pouco tempo um programa infantil na RTP2, transmitido imediatamente antes do tempo de antena outrora ocupado pelo Vitinho, chamado Falaescreveacertaganha. Trata-se de um concurso para crianças baseado no seu conhecimento de língua portuguesa – e até aqui, tudo bem. É pedagógico e tal.

 

Porém, fosse eu criança e Falaescreveacertaganha seria a última coisa que desejaria ver antes de me deitar. É como ver um filme de terror ou comer uma feijoada à hora da caminha. As pobres crianças são postas à prova como numa sala de aula e estão visivelmente aborrecidas, para não falar do constrangimento de serem orientadas por um apresentador/professor/canastrão num ecrã a preto e branco qual telescola.

 

Há uns dias, a minha mãe perguntou a uma vizinha se a sua filha, aluna de um colégio interno, gostava da escola. A resposta foi: «Tem de ser». Isso sabemos nós, que dá jeito aprender umas coisas. Mas é mais importante sentirmos o coração a bater do que sabermos medir a pulsação. Em televisão, pedagogia deve ser entretenimento. Se não, é porque a criança dentro de alguns educadores já nasceu velha.

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Quero é aparecer
05 Março 10 10:00

Uma pessoa que escreve sobre televisão não devia ir à televisão. Principalmente depois de alguém ter escrito no 24 Horas que essa pessoa anda a criar inimizades nas estações por causa das suas crónicas. Essa pessoa sou eu. E eu vou à televisão.

Não é a primeira vez que espreito o lado de lá da barricada. É pior do que espreitar: é dormir com o inimigo e nem sequer sair do quarto em bicos de pés na manhã seguinte. Porque a verdade é que eu gosto de ir à televisão.

Gosto de percorrer corredores deprimentes até chegar a cenários espectaculares. De entrar com cara de adolescente deslavada e sair como uma senhora acabada de fazer um lifting, de despir o casaco verde para não desaparecer no cenário de croma. Mas, mais do que tudo isto, gosto de ser artificialmente natural a representar o papel de mim mesma.

A internet permite-nos expor a nossa imagem perante milhões de pessoas em todo o mundo, mas ainda subsiste alguma mística em redor de uma aparição televisiva, mesmo que seja num canal de cabo com pouca audiência a dizer nada de especial ao longo de dois fulminantes minutos. Nunca tive tantos comentários na minha página do Facebook como na última vez em que apareci na televisão. Uma boa parcela, porém, refere-se apenas ao decote do meu vestido.

O meu próximo desafio vai ser ver-me na televisão na noite dos Óscares – tirando a pele de crítica de televisão e vestindo a de cinema, para não haver promiscuidades – e criticar a minha própria performance. O passo seguinte será convencer as pessoas de que não sofro de esquizofrenia – que eu cá gosto de ir à televisão. Mas ainda gosto mais de dizer mal.

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Truques
26 Fevereiro 10 10:00

Nem sempre é fácil fazer-se uma entrevista. Em imprensa, um jornalista sempre pode arranjar um embrulho interessante mesmo que a conversa tenha versado sobre ponto cruz ao longo de duas horas. Trocam-se as voltas à sequência, enrolam-se as citações em prolegómenos (já é a segunda vez que Kant vem à baila nesta coluna só para puxar estilo) e, no final, até parece que o entrevistado passou o tempo todo a falar de política internacional. São truques.

Em televisão, na melhor das hipóteses, faz-se uma montagem para dar à conversa uma dinâmica que nunca existiu. Como acontece no programa de Daniel Oliveira, Alta Definição: os entrevistados dizem que adoram o mar, detestam falsidade, gostam de paz e não gostam de chanfana, tudo a um ritmo tão fascinante que até parece que o entrevistado passou o tempo todo a falar de política internacional. Truques.

Na pior das hipóteses, tem-se pela frente José Sócrates em directo. Miguel Sousa Tavares estreou-se assim no seu regresso às entrevistas televisivas com o programa Sinais de Fogo, na SIC. Boas audiências, claro: 13,9% de audiência média e 32,1% de share. Consigo imaginar o povo galvanizado, balde de pipocas no colo, tudo a confiar na melena tingida de Sousa Tavares para varrer o primeiro-ministro em direcção à verdade.

Mas não. Sousa Tavares não se safou, nem com a sua mais intimidante expressão de azia e impaciência. Entrevistar José Sócrates é pior do que falar para uma parede. É como tentar convencer um miúdo de seis anos de que o nosso Gormiti é o mais poderoso quando o seu único argumento é gritar à exaustão que o dele é mais poderoso vezes infinitos. E contra isto não há truques.

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A luta
19 Fevereiro 10 10:00

Dizem que Deus está em todo o lado, mas eu cá só sei que quem está em todo o lado são os Homens da Luta. Foi assim nessa histórica quinta-feira em que este mesmo jornal abriu todos os serviços noticiosos. O infame Jel pintou o bigode, banhou o cabelo em óleo e, de megafone em punho, mascarou-se de sindicalista. O seu irmão, Vasco Duarte, empunhou a guitarra e fez de cantor de intervenção. O número é conhecido mas já é mais do que um número: é um manifesto.

 

Basta que esteja lá uma câmara para testemunhar (à porta do SOL estavam várias) e os Homens da Luta provam que todos nós podemos entrar para a história. Podemos, aliás, fazer história. Pela primeira vez me ocorreu que, numa série de momentos-chave da vida política portuguesa registados em televisão, lá aparecem dois malucos com uma guitarra e um megafone a gritar palavras de ordem. Foi o Emplastro quem lhes ensinou como entrar pela realidade adentro. Jel aproveita para intervir, mais ainda do que para fazer comédia.

 

Imagino muitas vezes como será o mundo sem mim (chego frequentemente à conclusão de que vai ser uma grande desgraça), mas desta vez detenho-me no que serão as imagens de arquivo destes tempos quando já não estivermos aqui para as contextualizar. As reportagens passam e já quase nenhuma jornalista se dá ao trabalho de explicar o que estão aqueles dois ali a fazer. No futuro, até pode ser que se dê o equívoco de dedicar estátuas – ou, vá, uma ou outra praceta suburbana – a estes heróis da revolução esquecidos. Só tenho pena de já cá não estar para me rir. Quiriquiri.

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Abrunhosa
12 Fevereiro 10 10:00

Se não me falha a memória, devo ter escrito para aqui em tempos que o vídeo matou as estrelas da rádio e que a internet matou as estrelas do vídeo e por aí fora. Mas, afinal, contra tudo o que as vozes da reacção dizem, a internet é a melhor amiga da televisão.

Tive esta epifania enquanto via o Ídolos com o meu portátil ao colo.

Primeiro, dá-se o seguinte fenómeno: conheço várias pessoas (incluindo eu mesma) que, no sossego solitário do lar, têm por hábito ver programas com um olho no computador e outro no televisor (uma espécie de ciberestrabismo que embeleza as windows da alma), trocando comentários ao segundo com os amigos das redes sociais. E foi assim que uma amiga me espetou no ecrã: «DIZ-ME QUE VISTE O ABRUNHOSA A CAIR!».

Pois claro que vi – e bem me soube partilhar essa experiência logo ali, teclando ‘ahahahahas’, em vez de me limitar a emitir gargalhadas a cappella. Nem sequer acho particular piada a pessoas a cair, mas o momento foi maravilhosamente aparatoso e o homem não se magoou por aí além (por isso não vou para o inferno). E, caso não tivesse visto a queda, o vídeo ficou disponível no YouTube quase instantaneamente. Abrunhosa entrou para a história da televisão. E este é outro extraordinário fenómeno.

Se Abrunhosa tivesse caído em directo há 15 anos, a minha amiga só me teria dito «diz-me que viste o Pedro Abrunhosa a cair» depois de discar vagarosamente o meu número no telefone. Talvez apenas no dia seguinte. E eu talvez não tivesse visto. E ela descrever-me-ia a queda sem saber bem como, porque tinha sido tudo muito rápido. E eu talvez não achasse piada nenhuma. E ainda dizem que a internet afasta as pessoas.

 

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E mais vampiros
05 Fevereiro 10 10:00

tanto para dizer sobre vampiros. Tanto, que me vejo obrigada a regressar ao tema que em tempos abordei em jeito de antecipação, que é para depois não andarem a dizer: «Ah e tal, a gaja diz mal do que não vê». Não, meus caros, eu vejo tudo – como o Outro – e isso confere-me o poder para dizer mal de tudo. E por isso vi Lua Vermelha, a nova série juvenil (ou telenovela retardada) da SIC.

Tenho para mim que o fiasco de Rebelde Way está a ser reciclado neste novo produto. Só que, em vez de os jovens protagonistas beberem Sumol, bebem A Rh positivo (centros de análises clínicas do país, eis uma boa oportunidade de patrocínio). Ora, temos um colégio finório, uma loura betinha, uma morena rebelde – enfim, os ingredientes do costume. E depois temos os irmãos Azevedo, que bebem «aqueles sumos estranhos», como refere a tal loura logo no primeiro episódio. Bebem sumos estranhos e são macilentos, acrescento eu. Devem andar nas drogas, dirão os pais dos colegiais.

E dizem os conhecedores da obra da maldita Stephanie Meyer que Lua Vermelha é uma imitação desavergonhada do imaginário de Crepúsculo. Ainda há pouco afirmei que via tudo mas a verdade é que não vi o suficiente para corroborar. Sei que Lua Vermelha – ou, pelo menos, o seu primeiro episódio – sofre da mesma falta de imaginação e conhecimento da adolescência que qualquer outra série portuguesa do género. E sei que não é por lhes meterem mais pó de arroz que os inadaptados desta vida ganham glamour. Com o dinheiro gasto em efeitos especiais, investia-se numa boa história e, em vez de vampiros, arranjava-se outra minoria qualquer que não andasse aos saltos e a quem não crescessem os dentes. E isto não acaba aqui – que eu cá vejo tudo, mas ainda não mordi os vampiros da TVI.

 

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A ressaca
29 Janeiro 10 10:00

HÁ a terapia dos 12 passos. A cura dos 28 dias. Os 120 dias de Sodoma. Tudo isto me parece um agradável piquenique perante a perspectiva de passar os próximos oito meses sem Conan O’Brien. Já se disse tudo sobre esta grande desgraça que se abateu sobre o mundo da televisão. Mas eu ainda não disse que estou triste.

Conan O’Brien é, aos meus olhos, um super--herói da comédia. Daqueles super-heróis à antiga, dos tempos em que o Batman era invencível e não tinha crises existenciais. Reconforta--me a sensação de que nenhuma piada morre na boca de Conan, por mais ineficaz que possa parecer. Jay Leno é Jay Leno. Jimmy Fallon é Jimmy Fallon. E Conan O’Brien é uma piada viva com uma poupa ruiva.

Aliás, Jay Leno é, hoje em dia, precisamente aquilo que parece: uma caricatura feita na Baixa por um pelintra qualquer com algum jeito para o desenho. Há pessoas que acham graça e pagam um dinheirão pela caricatura sem se aperceberem de que o segredo do negócio é exagerar os traços todos independentemente das feições de cada um. Jay Leno é só mais um queixo. E Jimmy Fallon... A bem dizer, nem sei que traços tem.

Sim, estou zangada. Piursa. Fallon e Leno têm muitas qualidades, é verdade. Mas eu, que nem sequer sou apologista do amor incondicional, tenho vontade de empunhar cartazes a reivindicar a presença de Conan na minha vida mal o que nos resta do Tonight Show acabe na SIC Radical. Depois disso, apontarei um foco com a silhueta da sua poupa aos céus e esperarei que ele apareça para me salvar.

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Dissecando desgraças
22 Janeiro 10 10:00

De cada vez que há uma guerra ou catástrofe, reagimos com choque às primeiras imagens transmitidas nos noticiários. Mas, à medida que os dias vão passando, habituamo-nos a conviver com cenários que fazem Massacre no Texas parecer uma coisinha querida.

Depois de adquirirmos uma certa imunidade – que nos permite abocanhar um bife mal passado enquanto mastigamos impropérios de boca aberta, com os olhos postos na televisão –, a discussão passa a girar em torno da cobertura televisiva dos acontecimentos. Onde acaba a informação e começa a exploração? Nada de novo.

E agora, com a tragédia no Haiti, vai dar ao mesmo. Mas vale a pena atentar num pormenor e lançar mais uma acha para a mesa do jantar: o acto heróico do jornalista americano da CNN Anderson Cooper, que interrompeu a sua reportagem para salvar uma criança haitiana que acabara de ser agredida com um bloco de cimento. Sim, é uma boa obra, que ninguém tenha dúvidas. Só que, ao ser propositadamente transmitida ao mundo, não se tornará uma melhor história do que uma boa obra?

Em Portugal ainda não temos um cromo da categoria do interventivo e proactivo Anderson Cooper – temos alguns que para lá caminham, mas não quer dizer que esse seja um bom caminho. Sei que os meus professores do curso de Jornalismo do Cenjor gostariam que eu tivesse tido essa atitude apaixonada de proto-repórter de guerra em vez de andar a dizer que queria escrever sobre cultura e essas parvoíces. Mas, até agora, a coisa mais emocionante que aconteceu a um jornalista português no Haiti foi – infelizmente, diga-se – ter-se magoado numa queda. E Anderson Cooper nem sequer estava lá para acudir.

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Morde aqui
15 Janeiro 10 10:00

Quando Drácula de Bram Stoker, realizado por Francis Ford Coppola, estreou por cá, tinha eu uns 12 ou 13 anos. Vesti-me aprumadinha e pus uns brincos muito catitas para conseguir convencer o senhor da bilheteira do Condes a deixar-me entrar, porque o filme era para maiores de 16. Hoje, nenhuma distribuidora cinematográfica deixaria que isto acontecesse: filme que meta vampiros leva pais e filhos e pipocas. O povo reclama para si o direito aos vampiros. Os vampiros são de todos. E estão em todo o lado.

 

A culpa é dos livros – e consequentes adaptações ao cinema – de Stephanie Meyer. Mas suponho que já nem a autora da saga Twilight possa ver caninos afiados à frente. O mais grave sintoma de que estamos perante um verdadeiro flagelo manifesta-se na chegada dos vampiros à ficção nacional: primeiro, como quem não quer a coisa, num subplot de Morangos Com Açúcar. Agora, com oportunismo desavergonhado, nos produtos mais agressivamente promovidos na SIC e na TVI : as séries Destino Imortal e Lua Vermelha.

 

Claro que, como Portugal é um país atrasado, isto pode ser um sinal de esperança de que, no resto do mundo, a moda esteja prestes a passar e os vampiros voltem finalmente a ser as personagens sociopatas e fotofóbicas que sempre adorámos e que agora são obrigadas a esconder-se em produtos televisivos de qualidade como a série de Alan Ball transmitida na RTP1, Sangue Fresco. Mas fica pelo menos a promessa de que os sucedâneos protagonizados por Catarina Wallenstein e Ricardo Pereira nos garantam horas e horas de humor involuntário.

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Raça dos míudos
08 Janeiro 10 10:00

Há sempre algo de errado com as séries juvenis – sempre um pai que se revolta por serem uma má influência ou uma mãe que as ridiculariza por serem irrealistas. Ninguém as considera pedagógicas, isso é consensual. Mas também ninguém se questiona por que raio hão-de ser elas mais pedagógicas do que qualquer outro produto de ficção nacional generalista. E, convenhamos, um filme que marcou muito a minha adolescência foi o Trainspotting. Outro foi o Assassinos Natos. E hoje em dia sou uma adulta relativamente saudável.

 

Claro que nem todo o público dos Morangos Com Açúcar tem arcaboiço para assimilar este tipo de fantasia televisiva com o recuo crítico necessário. A miudagem chega da escola ainda a cheirar a lápis e leite com chocolate, sabe lá o que lhe reserva o futuro. Ou sabe? Sabe que, pelo menos, lhe reserva uma gloriosa perda de virgindade e uma borracheira de caixão à cova.

 

O último episódio que vi levou-me a escrever mais uma vez sobre este produto: quase todas as personagens tiveram relações sexuais ou se embebedaram ou se drogaram ou invadiram propriedade privada (senhores guionistas, no meu tempo os ‘okupas’ não assaltavam mansões) ou fugiram de casa dos pais. Ou tudo isto ao mesmo tempo. Esperei pela lição de moral a qualquer momento. Não chegou, pelo menos naquele episódio.

 

Mas não é com lições de moral que se vai lá. Pais, é verdade: há álcool, droga, sexo e festas rijas durante a adolescência. Se ainda não disseram aos vossos filhos o que os espera (nem tencionam dizer), não os deixem ver os Morangos Com Açúcar. Caso contrário, juntem-se a eles em frente ao televisor que aquilo sempre dá para rir.

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Feliz 2010
31 Dezembro 09 10:00

Não é que um serão passado em frente à televisão seja propriamente um réveillon de sonho, mas consigo recordar um ou outro momento em que pensei: esta festança está gira e tal, mas espero que amanhã repitam este, aquele ou aqueloutro programa especial de passagem de ano. Não sei há quanto tempo terei deixado de sentir isto. Ou os meus réveillons estão melhores ou algo está mal na televisão de Portugal (ou, definitivamente, não havia necessidade nenhuma de rimar).

Lembro-me da última vez em que uma festa de arromba parou para que os olhos dos convivas se fixassem demoradamente na caixa mágica, mesmo depois da inevitável contagem decrescente (uma questão: por que confiamos nós nessa contagem mais do que em qualquer outra?): Zé Maria acabara de ganhar o Big Brother. O Big Brother uniu o país como a selecção no tempo do Scolari. Nunca mais me esquecerei da Cantina Velha da Universidade de Lisboa, em peso, a aplaudir de pé a expulsão do Marco depois do mítico pontapé na garota que sabia muito sobre iogurtes.

Este ano não há nada de novo em relação a qualquer outro. Na RTP, o Dança Comigo no Gelo (que, não tendo audiências de todo extraordinárias, significa uma estratégia desesperada); na SIC, o Ídolos (a maior e mais eficaz aposta da SIC, digna de fazer orgulhoso o maior orgulhoso dos orgulhosos, Pedro Boucherie Mendes, responsável pelo apadrinhamento do apresentador João Manzarra); na TVI, as criancinhas a cantar (fórmula comprovada no último ano porque, como já terá sido referido, tudo o que é pequenino tem graça – até um crocodilo). Como entrará 2010, nova década, nas nossas contas? Da mesmíssima maneira que todos os outros mistérios da vida.

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