SOL

Trava, trava, trava língua!

ilustração de Frédérique Bertrand (France)

 

Os trava-línguas são pequenos textos, em prosa ou em verso, que desafiam o seu emissor a dizê-los depressa, o que se torna difícil, mesmo para adultos,  devido à sucessão de sons das palavras com que se realizam oralmente. A repetição da mesma consoante cria um efeito denominado aliteração. Se forem ditos muito depressa, é quase impossível pronunciá-los sem tropeçar. Alguns dos trava-línguas tradicionais não têm outro significado senão o da dificuldade da articulação ou da repetição da mesma letra.

 

Este tipo de texto insere-se na categoria das formas poético-líricas da literatura tradicional de transmissão oral, com notórias influências na actual poesia infantil.

 

 

Além de serem um desafio educativo e lúdico para crianças de todas as idades, são bons exercícios de dicção nas escolas de teatro. Promovem a perspicácia, a concentração e a memória através do contacto com a riqueza fonética das palavras.

 

Luísa Ducla Soares assina uma colectânea de trava-línguas, Destrava Línguas, ilustrado por Susana Oliveira e editado pela  Livros Horizonte.

 

Estes são alguns dos textos que a autora  recolheu e seleccionou da tradição oral:

Esta burra torta trota

 

Esta burra torta trota
Trota, trota, a burra torta.
Trinca a murta, a murta brota
Brota a murta ao pé da porta.

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Um ninho de mafagafas

 

Um ninho de mafagafas
Com sete mafagafinhos
Quando o mafagafa gafa
Gafam os setes mafagafinhos.

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A história é uma sucessão sucessiva

 

A história é uma sucessão sucessiva
dos sucessos que se sucedem
sucessivamente.

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Percebeste?

 

Percebeste?
Se não percebeste,
faz que percebeste
para que eu perceba
que tu percebeste.
Percebeste?

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Tenho um colarinho

 

Tenho um colarinho
muito bem encolarinhado.
Foi o colarinhador
que me encolarinhou
este colarinho
Vê se és capaz
de encolarinhar
^tão bem encolarinahdo
como o encolarinhador
que me encolarinhou
este colarinho.

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Mário Mora foi a Mora

 

Mário Mora foi a Mora
com intenções de vir embora
mas, como em Mora demora;
diz um amigo de Mora:
- Está cá o Mora?
- Então agora o Mora mora em Mora?
- Mora, mora.

 

 

Gosto especialmente deste texto de José Jorge Letria, de O Livro das Rimas Traquinas:

O rei dos trocadilhos

 

O rei dos trocadilhos

tinha cinco filhos

que andavam sempre

metidos em sarilhos.

Um dia trocou os filhos

por cinco trocadilhos

e, contente,

acendeu rastilhos.

Uma palavra diferente

surgiu com novos brilhos.

Fez dos filhos andarilhos

e, dos trocadilhos,

os mais belos

encaixou-os em caixilhos.

 

E quem é que nunca andou a brincar com estas palavras?

 

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo, o tempo tem
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto o tempo o tempo tem.

 

 

Deixo-vos ainda mais um trava-línguas (com aliteração do “P”) para gente crescida....para se divertirem. Não sei quem é o autor. Se alguém souber, agradeço a informação. Respirem fundo antes de começar!

 

Pedro Paulo Pereira Pinto Pires, pequeno pintor, português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirinéus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando rovavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações  passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. - Paris! Paris! - proferiu Pedro Paulo. - Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para a província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. - Porque pintas porcarias? - Papai - proferiu Pedro Paulo -, pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando... Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.


E achamos nós o máximo quando conseguimos dizer: 'O Rato Roeu a Rica
Roupa do Rei da Rússia' ou “Três Tristes Tigres”!...

 

 

 

 

 

Publicação: terça-feira, 1 de Maio de 2007 13:04 por anatarouca

Comentários

# re: Trava, trava, trava língua!

Ana Tarouca

Mais um bom post, como uma lição.

Vale sempre vir aqui a este seu cantinho.

Manuel Peralta

terça-feira, 1 de Maio de 2007 18:13 by Partebilhas

# re: Trava, trava, trava língua!

Olá,

Os trava-línguas são maravilhosos. A minha filha adora.

Esta ilustração de Frédérique Bertrand é muito boa (não conhecia este ilustrador). Parecia-me, inicialmente, uma ilustração do André Letria.

Nem sempre envio comentários, mas consulto este maravilhoso blog diariamente. Os seus posts são sempre muito úteis.

Mais uma vez deixo uma sugestão de um tema que, penso, merecia ter algum destaque: a principal feira do livro infantil internacional realizada em Bolonha (Itália), que terminou na semana passada.

Muito obrigado

Cumprimentos  

terça-feira, 1 de Maio de 2007 18:41 by validade

# re: Trava, trava, trava língua!

Ana Tarouca,

dou os parabéns ao seu texto e sobretudo dou os parabéns ao seu blogue.

É sem dúvida uma das melhores referências neste SOL.

Entretive-me a ler o seu texto, a tentar dizer alguns dos trava-línguas que colocou, mas não dá para mim. Eu conseguir dizer ?Três Tristes Tigres? já é mesmo uma grande vitória.

Cumprimentos

terça-feira, 1 de Maio de 2007 19:00 by bluewater68

# re: Trava, trava, trava língua!

Olá Ana

No meu último post fiz uma ligação ao teu para os alunos lerem a tua versão do "Capuchinho".

Vou ter de fazer mais ligações com as tuas propostas tão motivadoras.

Beijinhos

PS. Tens uma mensagem privada.

quarta-feira, 2 de Maio de 2007 0:21 by OlindaGil

# re: Trava, trava, trava língua!

A história é uma sucessão sucessiva

A história é uma sucessão sucessiva

dos sucessos que se sucedem

sucessivamente.

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Tenho um colarinho

Tenho um colarinho

muito bem encolarinhado.

Foi o colarinhador

que me encolarinhou

este colarinho

Vê se és capaz

de encolarinhar

^tão bem encolarinahdo

como o encolarinhador

que me encolarinhou

este colarinho.

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Mário Mora foi a Mora

Mário Mora foi a Mora

com intenções de vir embora

mas, como em Mora demora;

diz um amigo de Mora:

- Está cá o Mora?

- Então agora o Mora mora em Mora?

- Mora, mora.

***

Ana

Não conhecia estas três.

rs

Estamos sempre a aprender...

Beijinhos

Ana

quarta-feira, 2 de Maio de 2007 2:51 by Chinezinha

# re: Trava, trava, trava língua!

Validade, agradeço as suas sugestões, sempre pertinentes. Não me esqueci dos ilustradores portugueses. Obrigada pela informação sobre esta feira internacional do livro infantil, que desconhecia.

Olinda, fico lisonjeada por achar os meus post de utilidade para os seus alunos.

Manuel, Ana, BW68, Olinda e Validade, muito obrigada pelos vossos comentários.

Bjs a todos

Ana T.

quarta-feira, 2 de Maio de 2007 10:22 by anatarouca

# re: Trava, trava, trava língua!

Olá Ana,

Mias uma vez fiquei maravilhada ao visitar o seu blogue. Muitos parabéns pelo mesmo e pelos posts tão interessantes que publica. Vou tentar ensinar estes à Catarina (se bem que vai ser dificil para ela, pois a 1ª lingua que aprende é inglês). Ela também lê rimas em inglês e adora mas não conheço trava línguas em inglês. Conhece?

quinta-feira, 3 de Maio de 2007 10:34 by patana

# re: Trava, trava, trava língua!

Continuo a Gostar muito do teu blog.

Obrigado!

Cumprimentos

quinta-feira, 3 de Maio de 2007 12:43 by Humanrace

# re: Trava, trava, trava língua!

Olá

Gostei imenso. E já andei a brincar consigo, hoje. O que é muito bom.

Smile

quinta-feira, 3 de Maio de 2007 12:45 by FELICE

# re: Trava, trava, trava língua!

Patana, em inglês só conheço as "nursery rhimes". Ainda hei-de fazer um post sobre elas!

Felice, ainda bem que se divertiu. Brincar traz felicidade!

Humanrace, muito obrigada.

Beijinhos a todos. Obrigada pelos comentários.

Ana T.

quinta-feira, 3 de Maio de 2007 14:32 by anatarouca
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