Uma Aventura na Terra dos Direitos da Criança

Amanhã, dia 1 de Junho festeja-se o 57 º Dia Mundial da Criança. Para saber como este dia foi instituído pode consultar este site. O objectivo é chamar a atenção para os Direitos da Criança, e sobretudo para aquelas crianças a quem esses direitos ainda estão vedados: aquelas vítimas de crime, de rapto, venda e tráfico, de negligência, maus-tratos ou trabalho infantil. As piores formas de trabalho infantil incluem a prostituição e a exploração sexual. E ainda as que não têm família, cuidados de saúde ou frequência da escolaridade obrigatória. As que são desrespeitadas por serem de determinada cor ou religião. E as que não sabem o que é atenção, dedicação, carinho. As que agradeceriam um ralhete e correriam para um beijo. As que se deslumbrariam para sempre pelo momento único de uma história contada no aconchego de um colo novo que gostariam que fosse sempre seu. As que não têm com quem passar o Natal...
Para todas as crianças mas para estas últimas especialmente, vai este poema...
A Criança,
Toda a criança.
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido seja onde for,
Ela tem direito...
... A ser para o homem a
Razão primeira da sua luta.
O homem vai proteger a criança
Com leis, ternura, cuidados
Que a tornem livre, feliz,
Pois só é livre, feliz
Quem pode deixar crescer
Um corpo são,
Quem pode deixar descobrir
Livremente
O coração
E o pensamento.
Este nascer e crescer e viver assim
Chama-se dignidade.
E em dignidade vamos
Querer que a criança
Nasça,
Cresça,
Viva...
...E a criança nasce
E deve ter um nome
Que seja o sinal dessa dignidade.
Ao Sol chamamos Sol
E à vida chamamos Vida.
Uma criança terá o seu nome também.
E ela nasce numa terra determinada
Que a deve proteger.
Chamemos-lhe Pátria a essa terra,
Chamemos-lhe antes Mundo...
...E nesse Mundo ela vai crescer.
Já sua mãe teve o direito
A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.
E, depois, a criança nascida,
Depois da hora radial do parto,
A criança deverá receber
Amor,
Alimentação,
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai.
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz...
...Mas há crianças que nascem imperfeitas
E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.
Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.
E a criança nasceu
E vai desabrochar como
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro,
E
Uma flor,
Uma árvore
Um pássaro
Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do Sol.
De quanto amor a criança não precisará?
De quanta segurança?
Os pais e todo o Mundo que rodeia a criança
Vão participar na aventura
De uma vida que nasceu.
Maravilhosa aventura!
Mas se a criança não tem família?
Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justa
Todos serão sua família.
Nunca mais haverá uma criança só,
Infância nunca será solidão.
E a criança vai aprender a crescer.
Todos temos de a ajudar!
Todos!
Os pais, a escola, todos nós!
E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria
E os outros.
Descobrir o seu mundo,
A sua força,
O seu amor,
Ela vai aprender a viver
Com ela própria
E com os outros:
Ela vai aprender a fraternidade,
A fazer fraternidade.
Isto chama-se educar:
Saber isto é aprender a ensinar.
Em situação de perigo
A criança, mais do que nunca,
Está sempre em primeiro lugar...
Será o sol que não se apaga
Com o nosso medo,
Com a nossa indiferença:
A criança apaga, por si só,
Medo e indiferença das nossas frontes...
A criança é um mundo
Precioso
Raro.
Que ninguém a roube,
A negoceie,
A explore
Sob qualquer pretexto.
Que ninguém se aproveite
Do trabalho da criança
Para seu próprio proveito.
São livres e frágeis as suas mãos,
Hoje:
Se as não magoarmos
Elas poderão continuar
Livres
E ser a força do Mundo
Mesmo que frágeis continuem...
A criança deve ser respeitada
Em suma,
Na dignidade do seu nascer,
Do seu crescer,
Do seu viver.
Quem amar verdadeiramente a criança
Não poderá deixar de ser fraterno:
Uma criança não conhece fronteiras,
Nem raças,
Nem classes sociais:
Ela é o sinal mais vivo do amor,
Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.
Frágil e forte, ao mesmo tempo,
Ela é sempre a mão da própria vida
Que se nos estende,
Nos segura
E nos diz:
Sê digno de viver!
Olha em frente!
« Os Direitos da Criança », de Matilde Rosa Araújo
In As Crianças, Todas as Crianças,
Livros Horizonte, Lisboa, 1979.
Pode ver este poema ilustrado pelos alunos da EB1, nº 101 e Jardim de Infância de Alvalade em Lisboa em http://www.iacrianca.pt/noticias/ficheiros/OsDireitosdaCrianca.pdf
A imagem que abre este post foi retirada de Uma Aventura na Terra dos Direitos, da autoria de Paula Guimarães, editada pelo IDS. Fica aqui um excerto para aguçar o apetite:
« (...)
- Onde é que estamos? - perguntou o João.
- Na terra dos direitos.
- Mas está tudo vazio.
- Aqui. Porque é o aeroporto dos direitos novos. Daqueles que ainda não foram escritos. Anda comigo que eu vou mostrar-te o resto...
E lá se puseram a caminho, através de uma estrada de letras que apareciam à medida que iam avançando como se uma grande caneta invisível fosse andando à frente.
- Mas afinal quem és tu?
A Convenção ia saltitando, com o longo vestido de palavras...
- Chamo-me Convenção dos Direitos da Criança, mas podes chamar-me São e nasci há 12 anos. Em 1989 as Nações Unidas resolveram aprovar-me para defenderem os direitos de todas as pessoas com menos de 18 anos...
- Hum... então és uma lei?
- Exacto! Sou feita de artigos...
- E cada um deles fala de um direito, não é? - insistiu ele.
- Muito bem, sabes disto não há dúvida!
O João ficou todo orgulhoso. Já ouvira falar dos Direitos das Crianças nas aulas, mas nunca imaginara que fosse divertido conhecer uma lei.
- És muito mais gira do que eu pensei...
A Convenção sorriu vaidosa. E no espaço de segundos os seus olhos passaram de azuis a orientais.
- Como é que fazes isso?
- Ora, é fácil... o meu artigo 2º diz que as crianças têm todos os direitos independentemente da raça, do sexo, da língua ou da religião. Por isso consigo ser igual a todas as crianças do mundo ...»
Podem ler, na íntegra, esta história infantil ilustrada aqui. Se preferirem ler esta mesma aventura em banda desenhada então sigam por aqui.
A Unicef disponibiliza um folheto ilustrado em que a Convenção dos Direitos da Criança é explicada de forma acessível para as crianças. À distância de um clique.
Por fim, recomendo um livro de Maria João Carvalho, com lindas ilustrações de Carla Nazareth, Direitos da Criança, da Everest Editora.
Sara Silva, do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, comenta deste modo este livro soberbo (pelo menos eu não lhe resisti!):
“(...)Se a capa prende os olhos, o interior deste pequeno grande livro surpreende página a página, convidando a um percurso pictórico e verbal pleno de sensibilidade, cujo ponto de partida é a Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada em 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Maria João Carvalho constrói, então, a partir desse documento (que se quer sem tempo nem espaço), o seu discurso da fraternidade, da harmonia e do bem-estar, preenchendo-o de cores (como o «azul da amizade e dos mares», o «vermelho dos desertos» ou o «verde das selvas»), de metáforas, de elementos simbólicos (por exemplo, a ponte ou o sol) e de seres maravilhosos, como as «fadas que sorriem» ou «os duendes que repousam» sempre que uma criança especial é tratada de modo igualmente especial. Neste livro, fala-se «dos tons, dos cheiros e do sentido do mundo» (Carvalho, 2003:42), apela-se à compreensão, à amizade, à solidariedade e à justiça entre os Povos, relembram-se algumas vantagens do amor («dispensa palavras», «alimenta sonhos» e «afasta a dor»), alerta-se, enfim, para a necessidade de uma convivência terna e sorridente. E tudo isto nasce de uma aliança feliz entre algumas palavras-espelho dos direitos da criança e muitas ilustrações de Carla Nazareth, um conjunto de imagens que, só por si, exigem uma leitura particular.
Por tudo aquilo que acabámos de mencionar e muito sucintamente, Direitos da Criança faz parte daqueles livros que vale a pena abrir vezes sem conta, porque nos envolve com as suas palavras e as suas formas multicoloridas e risonhas, propondo uma espécie de convívio, agora renovado, com esse texto paradigmático que é a Declaração Universal dos Direitos da Criança. “
Termino com uma citação de Antoine de Saint-Exupéry:
“Todas as grandes personagens começaram por ser crianças, mas poucas se recordam disso.”