SOL

ou 

A INSUSTENTABILIDADE ULTRA KAFKIANA

 

1.     “Vivemos numa situação insustentável!” – proclamou, urbi et orbi, o senhor Presidente da República, em discurso proferido no Dia da Nação. E vai daí … nada mais fez (que saibamos) Sua Excelência.

2.     Um dos meus Amigos, agora quase na casa dos setenta anos, cidadão português, aqui nascido e aqui criado, andou mais de cinquenta anos a entregar generosamente ao Estado Português uma parte muito substancial dos rendimentos do seu trabalho: descontos para o Imposto Profissional, para o Imposto Complementar, para o Imposto do Trabalho, para a Caixa Geral de Aposentações, para o Montepio dos Servidores do Estado, para o Selo, para o IRS, para o Sindicato, etc… Na maioria dos meses, preferia que lhe pagassem aquilo que lhe levavam do que aquilo que, feitos todos os descontos, lhe entregavam…

3.     O meu Amigo nunca precisou do Estado Português para nada: as suas três Filhas, por falta de vagas no ensino público, fizeram todas elas as suas licenciaturas em universidades privadas. O meu referido Amigo tudo pagou de seu magro bolso e do Estado Português nada recebeu.

4.     Uma das suas filhas, licenciada, encheu-se inesperadamente de amores por um tosco “patife”, que a iludiu com mentiras sobre mentiras. Juntaram os trapinhos em casa dos pais dele,  e, desta união que o meu Amigo sempre detestou, nasceu um rebento, agora com 21 meses.

5.     O referido indivíduo, além de velho, bronco, mal-educado, trapaceiro e preguiçoso (i.é, nada amigo de trabalhar), era – e é – cruel: tratava mal a companheira, chamando-lhe todos os “nomes” feios que lhe vinham à cabeça, puxava-lhe os cabelos e, um belo dia, atirou-lhe com a porta da casa de banho à cara, provocando-lhe um enorme hematoma no rosto.

6.     O casal, assim mal constituído, foi vivendo com o produto das poupanças dela (amealhadas por ela enquanto viveu sozinha), e ela foi definhando, de dia para dia, a tal ponto que, há meses (mais precisamente em Março de 2010), teve de ser operada ao cérebro no Hospital de X.

7.     Quando, depois da referida operação, lhe deram alta, telefonou, do referido hospital, muito aflita, para o pai: “Já não tenho dinheiro nenhum, nem para comprar os medicamentos. Faz-me um favor: Vai ao Banco e transfere algum dinheiro para a  minha conta”.

8.     O meu apontado Amigo despiu o pijama, vestiu-se e foi de imediato depositar 200 euros na conta da filha.

9.     Regressada do hospital à casa que ela entretanto comprara em parte com recurso ao crédito bancário e em parte com a ajuda do pai, o falado indivíduo começou, de imediato, a maltratá-la de novo, por palavras e por actos, atirando, furioso, com as facas da cozinha contra as paredes.

10.                       No dia seguinte, ela correu a procurar protecção e refúgio na casa dos pais, levando ao colo a criança de 20 meses.

11.                       E só então o meu Amigo obteve a confirmação daquilo de que há muito suspeitara: ela mantivera-se a viver com aquele meliante porque ele ora a ameaçava de morte se ela o abandonasse, ora lhe garantia que, se isso acontecesse, lhe fugia com o filho para o estrangeiro, por modo que ela nunca mais visse a criança.

12.                       Foi então feita a correspondente participação criminal e o respectivo processo corre os seus termos no tribunal competente.

13.                       Alguém sugeriu à Jovem Mãe, convalescente de uma operação ao cérebro, sem dinheiro e sem rendimentos, vítima de violência doméstica, que pedisse a concessão do rendimento social de inserção, pois não parecia justo que o meu Amigo, já reformado e com a mulher doméstica, tivesse de suportar de seu magro bolso os alimentos da filha e do neto e, além disso, a prestação da casa dela e os consequentes encargos de água, gás e electricidade.

14.                       Assim aconselhada, ela dirigiu-se aos serviços da segurança social de M. e pediu que lhe fosse concedido o tal subsídio, alegando estar sem saúde, sem trabalho, sem dinheiro, com um filho nos braços, refugiada em casa dos pais.

15.                       Pediram-lhe uma série de documentos, que ela entregou.

16.                       Convocaram-na para nova conferência com as técnicas, a que ela compareceu.

17.                       Pediram-lhe o IRS do pai e ela alegou que não faz parte do agregado familiar do pai, embora esteja refugiada na casa dele, por recear ser maltratada e/ou até morta pelo ex-companheiro.

18.                       Insistiram as técnicas da segurança social, reclamando as provas dos rendimentos e das despesas do pai e da mãe.

19.                       O pai – que é este meu Amigo – respondeu, dizendo que dera guarida à filha, mas que esta há muitos anos não faz parte do seu agregado familiar.

20.                       Mais alegou que a filha, a convalescer de uma delicada operação ao cérebro, está sem trabalho e sem dinheiro.

21.                       As técnicas chamaram-na de novo ao seu gabinete, ela foi e voltaram a pedir as provas da pensão do pai e das despesas deste.

22.                       O pai insistiu que a filha só não estava na casa dela (melhor, casa praticamente do Banco), porque o ex-companheiro passava o dia a rondar-lhe a porta e ela tinha – e tem – medo de ficar sozinha.

23.                       As técnicas mostraram-se impassíveis (elas recebem pontualmente os seus vencimentos …) e, passadas algumas semanas, a filha recebeu um ofício emanado dos serviços da segurança social de T. e enviado para a sua casa de habitação, notificando-a de que lhe fora indeferido o pedido do rendimento social de inserção … porque não juntara os documentos que lhe haviam sido pedidos (leia-se: declaração do IRS do meu indicado Amigo).

24.                       No entretanto, contrariando a lei, as técnicas da segurança social tinham-lhe antes sugerido até que, nos serviços da segurança social, alterasse a morada para a casa dos pais… onde ela ainda continua, muito a contragosto, com receio de ser molestada na sua casa, pois o ex-companheiro, embora a casa não lhe pertença, teve até o desplante de mudar as fechaduras, com a intenção clara de lá permanecer.

25.                       O meu referido Amigo e a sua indicada Filha, ambos cidadãos portugueses – aqui nascidos e aqui criados – são pessoas honestas, cumpridoras, educadas e trabalhadoras, que sempre pagaram ao Estado Português todos os impostos e taxas devidos.

26.                       Nunca responderam em juízo fosse pelo que fosse e nunca estiveram detidos, nem presos, mas, pelo que parece, este facto impede que seja concedido à Jovem Mulher e Mãe, doente, sem trabalho e sem recursos, vítima de violência doméstica, o apoio solicitado.

27.                       Ora, no jornal “Correio da Manhã” de 18.06.2010 vem publicada, na primeira página, esta notícia, que em Portugal não é insólita: “PRESOS TÊM RENDIMENTO MINIMO! Jovem de 18 anos roubou 18 mil euros e continua a receber ajuda. Traficante que vendeu metralhadora usada para matar PJ beneficia”.

28.                       E, nas páginas 4 e 5 do aludido Jornal, pode ler-se nomeadamente o seguinte: “Recebem 96 euros por cada membro do agregado familiar. Traficante tem direito a 400 euros. Violador de menor tem apoio mensal. Um dos casos mais flagrantes dos últimos meses foi o de 23 traficantes de armas detidos em Maio pela PJ do Porto. Proprietários de uma enorme fortuna, a maioria tinha direito ao rendimento mínimo. Por cada metralhadora vendida, os membros do grupo recebiam cerca de 5 mil euros. Mesmo assim, todos os meses a segurança social atribuía-lhes um subsídio”.

29.                       No entretanto, este meu Amigo, que, repete-se, nunca teve o mínimo problema com as autoridades, continua a retirar do seu magro bolso as quantias indispensáveis ao sustento da Filha e do Neto e ao pagamento da prestação da casa que ela adquiriu com recurso ao crédito, taxas de água, de electricidade e de gás incluídas – até que ela, recuperada fisicamente da operação ao cérebro e psicologicamente dos maus tratos de que foi vítima por parte do ex-companheiro, esteja em condições de arranjar trabalho, num mercado cada vez difícil.

30.                       São estas, senhor Presidente da República, as verdadeiras situações insustentáveis, que Vossa Excelência, mestre consagrado na macro-economia, provavelmente não conhece!

31.                       E as senhoras técnicas da segurança social de M. e de T., com os ordenadinhos pagos pontualmente pelo mesmo Estado Português, continuam talvez a dormir sossegadamente os seus sonos, pois fizeram aquilo que a segurança social, pelos vistos, lhes ordenou: Não conceder qualquer subsídio a esta gente honesta.

32.                       Se discordar, que recorra aos Tribunais, foi o teor do ofício que enviaram à Requerente.

33.                       Pois claro: Advogados não faltam à segurança social portuguesa (também pagos, como é óbvio, do mesmo bolo, com o dinheirinho de todos nós).

34.                       Subsídios da segurança social portuguesa, há-os para quem for acusado e/ou pronunciado pelo cometimento de crimes … pelo menos até ao trânsito em julgado da sentença condenatória (o qual, neste País, como se sabe, ocorre normalmente num curtíssimo período de tempo, i. é, enquanto o Diabo esfrega um olho…)

35.                       Nem Franz Kafka teve imaginação para chegar tão longe!....

36.                       Aliás, é dele o seguinte ditado:  "Há esperanças, só não para nós."

                                                              

                                    

 

1.                QUANTO MAIS O ESTADO ENGORDA,

2.                MAIS EMAGRECEM OS CIDADÃOS                    

1. TENHO PERMANECIDO MUDO E QUEDO.

 2. CONTINUO EM OBSERVAÇÃO ATENTA

3. E EM APURADA REFLEXÃO.

4. ESPERO QUE A POEIRA ASSENTE.

5. PARA ENTÃO DIZER O QUE PENSEI.

 

UM ABRAÇO.

 

ANTONIO GAMITO

 

                                                                                                 

                                                                                                                                                                                                             

1. SALVO O DEVIDO RESPEITO - QUE É MUITO - A REPETIÇÃO DOS MESMOS COMENTADORES NOS DIVERSOS CANAIS DE TV JÁ SE TORNOU MUITO CANSATIVA.

2. NA VERDADE, OUVINDO UMA E OUTRA VEZ A MESMA PESSOA, FICAMOS TODOS A SABER O QUE PENSA, QUAL A SUA POSTURA NA VIDA E NA SOCIEDADE, QUAIS OS CONCEITOS QUE A ALIMENTA E, TAMBÉM, QUAIS OS CONCRETOS INTERESSES QUE A MOVE.

3. POR ISSO, É NO MINIMO ENTENDIANTE - SEMPRE COM A RESSALVA DO RESPEITO DEVIDO - QUE OS DIRECTORES DE PROGRAMAÇÃO DAS TVS., Á SOMBRA DE UMA PRETENSA PLURALIDADE, CONVIDEM SEMPRE, DIA SIM, DIA SIM, AS MESMAS PESSOAS PARA OPINAREM SOBRE TUDO.

4. E, GUARDADO AINDA O RESPEITO DEVIDO, QUEM OPINA SOBRE TUDO POUCO OU NADA SABE.

5. POR ISSO, BOM SERIA QUE OS CANAIS DE TV - ALHEADOS DOS INTERESSES PARTIDÁRIOS - QUE SÃO ALGUNS DOS INTERESSES ECONÓMICOS - ALARGASSEM AMPLAMENTE O LEQUE DOS SEUS COMENTADORES.

6. É QUE, NA SOCIEDADE CIVIL, EXISTEM MUITAS PESSOAS QUE, NAS RESPECTIVAS ÁREAS, DÃO MEÇAS POR ESSE MUNDO FORA.

7. APROVEITEM-SE, POIS, A EXPERIENCIA E O SABER-FAZER E SABER-DIZER DE MUITOS MILHARES DE PORTUGUESES.

8. COM ISSO LUCRARIAM OS DITOS CANAIS, TORNAR-SE-IA MENOS ABORRECIDA A LENGALENGA DOS QUE, HÁ ANOS, NOS ENTRAM PELA CASA DENTRO, E TODOS NÓS BENEFICIARÍAMOS.

9. QUANTO A MIM, SE "ISTO" NÃO MUDAR, DEIXO DE VER A TV.

10. ALIÁS, JÁ QUASE SÓ VEJO BONS FILMES E UM OU OUTRO PROGRAMA ESTRANGEIRO.

11. NÃO MATEM, POIS, MEUS AMIGOS, A GALINHA DOS OVOS DE OIRO.

COM A ETERNA AMIZADE,

DO ANTONIO GAMITO

                                                                                                                                                                                                                                                             

MEUS AMIGOS:

 1. OUÇAM, POR FAVOR, O BOM POVO DESTE PAÍS.

 

                                                                  

 

 2. DIVULGUEM NICHOS DE MERCADO ONDE É INTERESSANTE INVESTIR.

3. ABRAM AS VOSSAS PÁGINAS AOS LICENCIADOS, SOBRETUDO AOS JOVENS.

4. ESTEJAM DE OLHOS E OUVIDOS ATENTOS AO PULSAR DA SOCIEDADE.

5. VASCULHEM NA ESTRUTURA E ESQUEÇAM A SUPERESTRUTURA.

6. ENFIM, SEJAM DEFINITIVAMENTE BONS PATRIOTAS.

                                                                       

                                                                    

                                                                         

UM ABRAÇO, DE MUITA AMIZADE!

                                                         

 

 POR FAVOR, DIVIRTAM-SE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

UFA!!!!...................................................................

 

 

 

                                       FELIZ NATAL

                                               E

                                  PROSPERO ANO NOVO

 

                                                                      

 

 

                   

 

SÃO OS MEUS VOTOS MUITO SINCEROS PARA TODOS (AS) AQUELES (AS) QUE ME VISITAM

 

 

 

                                                                                

                                                                     

 

AVÔ, TU ACREDITAS

 

Avô, tu acreditas em Deus, pergunta a Raquel, 6 anos.

Sim, acredito, Raquel.

E tu acreditas no sol, pergunta a Rita, 4 anos.

Claro que acredito, Rita.

Seguimos pela A28 a caminho de Carnaxide.

A Leonor, mãe de ambas, conduz o bmw, levando ao lado a avó Rosa.

E tu acreditas nas árvores, nas plantas, no céu, nas estrelas, insiste a Raquel.

Acredito, pois.

E também acreditas nos cavalos, replica a Rita.

Sim, nos cavalos, nos pássaros, nos peixinhos e nos coelhos.

E no nobi.  acrescenta Rita. O nobi já morreu, esclarece.

Pois, também acredito no nobi.

Onde é que está agora o nobi, pergunta a Rita.

Está nas estrelas, explica a Raquel.

Avô. tu tens muito dinheiro, assevera a Rita. Quero que me compres um cavalo com asas (ele é doida por cavalos).

Está bem, Rita, eu compro-te um cavalo com asas.

A carinha dela desdobra-se num imenso sorriso.

E a mim compras-me uma barbie grande (a Raquel adora barbies).

Está bem, Raquel, eu compro-te uma barbie grande.

Eu depois vou mostrar-te onde ela está.

Está bem, eu vou lá contigo, e compro-a.

Prometido.

Prometido.

O carro deixou a A28 e segue agora pela Crel.

Olha, avô, está tanto nevoeiro, exclama a Raquel.

São as nuvens que desceram à terra.

Para quê.

Para a beijar, que as nuvens às vezes gostam de dar beijinhos na terra.

Ah, dizem ambas, em unísono.

Vão ambas sentadas na parte de trás do carro e o avô segue “ensanduichado” e encostado à porta de trás, do lado direito.

À chegada, a porta não se abre.

Vá, avô, despacha-te, ordena a Raquel.

Espera, que a porta não se abre.

Sai a avó do carro, abre a porta e vamos os quatro para o escritório.

Eu vou tabalhá, diz a Rita. Avô, abe o computadô.

O avô liga o computador, a Rita senta-se à secretária e começa a dedilhar no teclado.

Eu sou a dótora, esclarece. E chamo-me … Madalena.

António, tu tás doente.

E que é que me dás: uma pica, um comprimido ou xarope.

Hum…. Xarope.

Vá, toma. Vá, engole. Tás com febre. Tens muitos bichinhos.

Uma manhã de sábado assim magnífica: almoçámos todos num pequeno restaurante no centro cívico de Carnaxide.

O Frank apareceu, almoçou e abalou a comprar ténis para as duas filhas.

A Rita não quis ir: Eu quelo ficá com a avó.

Ficou e foi brincar para o parque infantil.

O que ela adora.

A avó ficou a vigiá-la.

O avô foi ajudar a filha a completar uma contestação em último dia.

Que seguiu nesse mesmo dia pelo “sitaf”.

Jornada concluída, regresso a casa.

Mãe, eu quero ficar na casa da avó, disse a Raquel.

Eu também, acrescentou a Rita.

Ficaram, brincaram, lancharam, jantaram e, já noite, foram dormir a casa.

 

 

 

 

A PRENDA MAIS LINDA

 

É um rectângulo enorme de cartolina branca.

Todo ele pintalgado com imensos motivos.

O Avô, pintado duas vezes, com a coroa real.

- Avô, tu és o Rei!, proclamam ambas as Netas em uníssono.

A casa do Avô, resplandecendo com mil cores.

Árvores, flores, pássaros, borboletas, animais outros.

E muitos, muitos corações!

Todo o rectângulo coberto de desenhos multicores.

Pintadas, à uma, pelas mãos hábeis da Rita e da Raquel.

A Raquel, seis anos; a Rita, quatro anos.

No dia dos meus anos, vieram ambas, apressadas e pressurosas:

- Avô, toma a tua prenda! Gostas?!...

- Gosto imenso!!!

Alegra agora um dos quartos da casa, onde tenho uma estante, uma secretária e o meu computador portátil:

- É o escritório do Avô, esclarece a Rita.

O “escritório” ficou mais cheio, mais vivo, mais ternurento.

Sinto um gosto redobrado ao sentar-me à secretária, espreitando, de quando em vez, a prenda de anos, ÚNICA E IMPERDÍVEL, das minhas duas referidas NETINHAS.

                          


 FOI-SE...descanse em paz

 

I

Companheiro prazenteiro e jovial em todas as manhãs.

Ladino e prestável em todos os  almoços.

Solidário e amigo em todas as sestas.

Prestável e solícito em todas as caminhadas.

II

Sempre alegre, sempre amigo, sempre disponível.

Sempre pronto para se entristecer com as minhas mágoas.

Sempre franco e gentil nas minhas  alegrias.

Triste comigo, alegre comigo, comigo esfusiante, comigo taciturno.

Saudável comigo,doente comigo.

Comigo andava, comigo coxeava.

III

Comia comia e comigo dormia.

Comigo passeava e comigo repousava.

Comigo ria e comigo chorava.

Comigo vivia.

IV

Interrompeu há dias o seu percurso.

E eu fiquei.

Sem ele. Só comigo. Sózinho.

V

Faz-me falta.

Passeio sozinho.

Dormito sozinho.

Alegro-me e choro sozinho.

Como e bebo sem ele.

VI

Já não tenho quem me lamba os pés doridos.

Nem quem venha, rápido e alegre,esperar-me à porta.

Nem quem se ponha, cabeça no ar,rabinho girando, espirrando, à espera que eu saia à rua.

Já cá não está, o meu inseparável companheiro de quase dezoito anos.

VII

- Morreu de velhinho – disse a Veterinária, depois de lhe aplicar uma injecção piedosa.

Que eu não vi.

Que eu não quis ver.

Partiu, foi-se embora, abalou.

E deixou por aqui um vazio enorme

VIII

Tinha uma alma enorme.

Muito maior que a nossa.

Chamava-se Noby.

E era caniche.

Um Ser imenso, que durante muitos anos nos alegrou a existência.

Que repouse em paz.

 

 


I

Vagueia errante por todas as lonjuras,

Sopra atrevido por todas as janelas,

Anseia levar-me às máximas alturas,

Quer mostrar-me o encanto das estrelas.

 II

Faz irado o mar,

Cavalga lesto as nuvens,

Gira de par em par,

Alado ser sem penugens.

 III

Ele me dá a vida,

Ele me dá o amor,

Vida mil vezes sentida,

Amor que às vezes é dor.

 IV

Ó ar que me dás a voz,

Que em meu coração palpitas,

Dinheiro não queres de nós,

Pois com ele não te agitas.

 V

Tenho uma alma atrevida,

Tenho uma vida danada,

Com dinheiro não compro a vida,

Com ele compro  quase nada.

 

                                        **** 


 
                

Lança-se o lápis em folguedos de azul

Estremece a folha em fundos anseios,

Dançam ambos em correres do sul

E saltam das mãos voláteis volteios

 

Os dedos miúdos mal seguram a pena,

A folha escorrega, leda e traquina.

Des úbito, oh!, será uma rena,

Uma ave,um bicho ou quiçá outra sina?

 

Pateta, vôzinho,

Não é nada disso,

Não vês que é uma estrela,

Um anjo,um deus e até um ouriço.

 

E o lápis teimoso

E as mãos que não param

E o avô choroso

Que as netas amparam

 

Não chores, amigo,

Nós estamos aqui.

Desde sempre contigo.

Por favor sorri!

 

Lá longe no céu brilha uma estrela.

É o Pedro,vôvô, que nos está a ver!

O avô sorri: Que noite mais bela!

Está tudo ok, como Deus quer.

 

 

 

 

SURPREENDE-ME A INTELIGÊNCIA DAS PLANTAS.

MARAVILHO-ME COM A SUA MEMÓRIA.

INTRIGA-ME O FACTO DE ELAS

COMUNICAREM TÃO BEM ENTRE SI.

 SÃO, NA REALIDADE, MARAVILHOSAS.

QUERIDAS PLANTAS, VENHA A NÓS O VOSSO REINO! 

 

 

                                                  

 

MESMO QUE ME DIGAM QUE O MUNDO ACABA AMANHÃ,

 NÃO DEIXAREI DE PLANTAR HOJE, NELE,

 A MINHA MACIEIRA.

OS  FIGOS DA ÍNDIA

1.     Comia-os em criança, colhidos nos espinhosos valados da quinta dos meus Avós Paternos, em Valverde, concelho de Santiago de Cacém, ajudado, na árdua e perigosa tarefa do descasque dos frutos, pela minha amorosa irmã Tina, sete anos mais velha do que eu.

2.     Nunca mais saboreei nenhum e quantas saudades eu tenho desse tempo inesquecível em que eu, criança de quatro anos, vagueava pela alameda rodeada de árvores de fruta, pelas hortas eternamente mimosas, pelos campos recém-cultivados, “pirilau” sempre ao léu, em correrias doidas atrás de galos, galinhas e pintos!...

 

3.     Ensinaram-me as minhas Irmãs a encostar o ouvido aos paus de fio que atravessavam a herdade, para “ouvir o combóio”, ou ao búzio trazido da praia de Sines, para “ouvir o mar”, ou, nas noites de invernia, aos vidros toscos das janelas, para melhor “ouvir os trovões”,  a colher e a comer as amoras silvestres, a descascar, com os dentes, as sumarentas romãs e, até, em algumas invernias, a comer do chão as “bolinhas” de água que caíam das nuvens.

4.     De vez em quando, os meus Pais, mula arreada e carroça preparada, pegavam em mim e no meu irmão Jacinto, dois anos mais novo, e abalávamos todos, estrada fora, à busca de vime, com o qual, nas horas livres, o Pai se entretinha, debaixo do alpendre, a entrelaçar cestos maravilhosos e robustos e outros delicados artefactos, que a minha Mãe depois vendia na feira de Santiago. Lembro-me que ficávamos por lá dias e dias, dormindo ao relento, com as ervas do campo servindo de colchão e uma manta alentejana para nos proteger da cacimba da madrugada.

 

5.     Ao findar do verão, partiam os meus Pais por essas terras fora, vindimando por aqui e por ali, dormindo onde calhava e nós, as crianças, barriguinha cheia de fruta, pulávamos entre as vides como ariscos cabritinhos, urinando e defecando onde melhor calhava, tudo com uma alegria, uma espontaneidade e uma naturalidade que talvez se tenha perdido para sempre.

6.     As minhas Manas, marotas mas sem maldade, puxavam-me o “pirilau” e quedavam-se, ariscas e atrevidas, a ver “aquilo” crescer: não cresceria grande coisa, mas para a curiosidade juvenil delas, era talvez o suficiente para se distraírem.

7.     Lembro-me de o meu Pai, uma vez, me pôr, rabinho nú, em cima do dorso da mula, e andar assim comigo a passear pela quinta, com as minhas Irmãs, em risonho cortejo, a acompanhar esta bizarra “procissão”.

8.     Lembro-me pouco dos meus Avós Paternos, mas guardo na memória uma tigela de louça de barro (para mim enorme), cheia de sopas de café com leite que o meu Avô preparava para o meu (pequeno) almoço: sentava-me ao lado dele, na “imensa” mesa de madeira corrida, e ele acompanhava-me neste matinal repasto, tomando provavelmente o seu “mata-bicho”.

9.     Recordo também um magote de “moços” que, um belo dia, tendo encontrado aberto o portão que dava para a estrada, se lançaram, com uns varapaus, a destruir os ninhos das andorinhas que semeavam os telhados do alpendre: parece-me que ainda agora, já sexagenário, ainda sinto no peito a dor imensa daquela ocasião, que senti aos ver os “putos” a fugir com os passarinhos caídos dos seus ninhos.

                                   

10.Enfim, “emigrado”, desde novo, na cidade grande, nunca mais comi os tais saborosos “figos da índia”,nem as sumarentas “amoras silvestres”, nem pus os ouvidos em “paus de fio” ou em “búzios”, nem passei noites ao relento, nem pulei por entre as vides e, sempre que me puxaram o “pirilau”, as intenções passaram a ser sempre outras...

11. Oh!... Que belos tempos!!!

10.Enfim, “emigrado”, desde novo, na cidade grande, nunca mais comi os tais saborosos “figos da índia”,nem as sumarentas “amoras silvestres”, nem pus os ouvidos em “paus de fio” ou em “búzios”, nem passei noites ao relento, nem pulei por entre as vides e, sempre que me puxaram o “pirilau”, as intenções passaram a ser sempre outras...

11. Oh!... Que belos tempos!!!

                                                 

More Posts Next page »