SOL

Malraux e Lucky Luke

Publicação: 14 Abril 07 08:00

Tudo começou com o retoque de uma fotografia. Aqui há uns anos, o Governo francês decidiu fazer um selo comemorativo da entrada de André Malraux no Panteão. A imagem escolhida foi uma célebre fotografia em que o autor do L’Espoir, no tempo da Guerra de Espanha, aparecia com a melena esvoaçando sobre um rosto esculpido, e uma ‘beata’ no canto da boca. Essa imagem foi, para muitos, o ícone do escritor aventureiro, seduzido pelos desafios do destino, pelas grandes causas românticas e pelo culto da fraternidade viril, aquilo a que chamou um dia a «ilusão lírica».
Só que tinha começado a época do ‘politicamente correcto’ e os responsáveis pela edição tiveram o zelo de eliminar a ‘beata’ da boca de Malraux. A seguir, foi a vez de limpar a ‘beata’ de Lucky Lucke, o cowboy que dispara mais rápido do que a sombra.

Vem isto a propósito de uma lei que o governo tenciona aprovar no Parlamento, onde se convida os proprietários de bares e restaurantes e respectivos utentes a denunciar e perseguir essa raça maligna que são os pacatos fumadores.
Faço questão de declarar que nunca fumei um cigarro na vida; fumo, isso sim, de há uns anos para cá, um charuto sempre que posso. E devo reconhecer que a descoberta dos ‘puros’ trouxe-me uma capacidade contemplativa que eu não tinha, ajudou-me frequentemente a não tomar decisões precipitadas e propiciou momentos de convívio inesquecíveis depois de jantares rabelaisianos.
Não estão em causa os possíveis efeitos negativos do fumo, mas a liberdade de cada um fazer o que lhe apetece, com conhecimento dos riscos, desde que não prejudique terceiros. Se o dono de um restaurante ou de um bar decidir que no seu estabelecimento se fuma, correndo o risco de afastar com isso os não fumadores, com que legitimidade pode o governo impedi-lo? Por que razão não se proíbem então os McDonald’s ou a Coca-Cola, tão nocivos para os adolescentes, e milhares de produtos referenciados como prejudiciais à saúde, a começar pelo ar condicionado?

Se a lei passar, resta-nos a desobediência civil. Parafraseando Tchékov, ainda viremos a descobrir «os benefícios do tabaco» – no combate ao stress e na capacidade de concentração, por exemplo. Quantos escritores lhe devem as suas obras-primas? E génios como Orson Welles ou como Churchil devem ao charuto, seguramente, muito do acerto das suas decisões mais inspiradas.
Pouco falta para que apaguem os vestígios do charuto de Grouxo Marx, do cigarro de Bogart e do cachimbo de Maigret. Nos meus filmes, os personagens fumam e hão de continuar a fumar sempre que isso fizer parte da situação. A menos que o Ministro da Saúde, na sua comovente preocupação em garantir que vamos todos morrer saudáveis, se lembre de acrescentar à Lei um artigo a proibir que, daqui em diante, se fume no plateau.
Já faltou mais.

apvasconcelos@gmail.com

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