SOL

Política do gosto do Estado

Publicação: 02 Fevereiro 08 08:00

No primeiro artigo que aqui escrevi, levantava a questão de saber «para que serve um ministério da Cultura?». Não vou repetir as razões que me levam a pensar nos riscos de um ministério que alberga em si políticas tão distantes como a do património e o apoio às artes vivas, porque a visão de uma tende a contaminar a outra; e, se não se discutem os painéis de S. Vicente ou Eça de Queiroz (que o Estado tem inquestionavelmente o dever de proteger), discute-se Lobo Antunes ou Siza Vieira. Depois, porque as decisões sobre a ‘cultura’ devem centrar-se predominantemente na criação de públicos – isto é, na educação – e nas políticas públicas para o audiovisual e não no apoio directo aos artistas, como é tendência desde sempre na SEC, entretanto promovida a ministério. A verdade é que não deveria caber ao Estado a política do gosto, própria do dirigismo cultural dos países da ex--URSS – mas é o que sucede.

No que respeita ao cinema, p.e., o Estado continua a chamar a si a decisão sobre os filmes que os portugueses merecem ou não ver nos ecrãs. Essa política criou um parasitismo tenaz, que se alicerçou: 1) num sistema de júris, onde têm assento críticos de cinema e criaturas afins; 2) numa crítica que, depois, naturalmente, defende os filmes que havia apoiado nos júris; 3) numa Escola Superior de Cinema que formata as novas gerações no culto do mestre Manuel de Oliveira; 4) na Cinemateca Portuguesa, onde o Dr. Bénard da Costa se encarrega de abençoar ou excomungar as obras e os ‘autores’ da sua preferência (as mesmas), num ciclo vicioso que perpetua ad nauseam uma ‘ideia’ da 7ª Arte, que assenta na ideia peregrina de que 1) um filme não serve para contar uma história; 2) os ‘autores’ devem ser livres de quaisquer constrangimentos económicos, porque a dependência das receitas é uma ameaça à sua liberdade; 3) o Estado deve, portanto, protegê--los do mercado através de subsídios, porque o dinheiro público é mais puro do que o dinheiro da bilheteira.

Com este sistema, que vigora, inalterado, desde o 25 de Abril, os filmes subsidiados não são depois escrutinados por ninguém, a não ser pelos críticos (que já antes haviam intervindo na escolha dos realizadores e dos projectos!) e por uma miríade de pequenos festivais espalhados pelo mundo, desde uma remota cidade da Toscana a uma pequena praia do Mediterrâneo.
Em vez de criar as condições para haver uma indústria e ganhar público para os filmes portugueses, o Estado optou por uma ‘visão ecológica’ da actividade: é preciso proteger os filmes do gosto soez das multidões que consomem pipocas nas salas de cinema!
Na altura em que acaba de ser nomeado um novo MC, o que podemos desejar-lhe é que rompa com este ciclo vicioso e perverso e lance as bases de uma actividade sustentada no sector. Tudo o que precisa é de visão, coragem e boa sorte.
apvasconcelos@gmail.com

Comentários

# Deckard said on Fevereiro 9, 2008 1:05:

Caro António-Pedro,

mais uma vez, um comentário na mouche!

Não andei na Escola de Cinema, mas licenciei-me em Cinema na Univ. Lusófona, e o drama é o mesmo. Fala-se de cinema Americano, cinema narrativo, e quase que nos atiram com uma câmara à cabeça.

Enquanto os realizadores insistirem em fazer "home movies" de 1 milhão de euros para o seu umbigo e para os amigos, o cinema Português está condenado a pertencer neste marasmo.

Como podem alguns realizadores continuar a ganhar sistematicamente apoios, quando os seus filmes não atingem mil pessoas em sala?

E mais, porque é que um dos critérios de avaliação do ICA para curtas-metragens é o CV do realizador? Não devia esse apoio ser uma plataforma para descobrir novos talentos? Em vez disso, vemos todos os anos os mesmos nomes nas listas de escolhidos.

Um abraço cinéfilo,

Ricardo Maria

www.primeirodraft.blogspot.com

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