SOL

Quando o Sol se Põe em Machu Pichu

Publicação: 10 Maio 08 08:00

Na extraordinária biografia que Charlotte Chandler dedicou a Billy Wilder, e a que chamou, como não podia deixar de ser, Nobody Is Perfect, o autor de Quanto Mais Quente Melhor diz-lhe, melancolicamente, no final do livro: «A velhice é quando os nossos sonhos se transformam em memórias». Isso fez-me pensar que, se hoje se dedica tanto tempo à memória de Maio 68, é porque esse foi, porventura, o último momento em que a Europa sonhou com alguma coisa. O que conservou a memória de Maio intacta e impediu que o sonho de uma geração se tornasse um pesadelo, foi, porventura, o facto de os líderes do movimento terem resistido à tentação de transformar uma rebelião espontânea numa revolução organizada. Ou talvez porque os operários da Renault já não eram os proletários de Marx, e sabiam que, desta vez, tinham mais a perder do que as suas grilhetas.
«Porque é que a Europa deixou de sonhar?», devia ser a pergunta a fazer quando se confrontam os sonhadores de 68 com a letargia em que o Velho Continente soçobrou depois de ter caído o muro de Berlim. A questão levava-nos muito longe, mas vem a propósito de Quando o Sol se Põe em Machu Pichu, o romance que marca a auspiciosa estreia literária de Luís Novais.

Ao contrário de muitos dos nossos escritores, que não saem do seu bairro, Luís Novais escolheu o Peru, onde se abriga o mito da civilização andina – e cujo último Inca, Athaulpa, e o seu imponente exército foram dizimados sem piedade pelos escassos soldados de Pizarro – para situar a acção do seu livro: uma viagem iniciática de vários personagens que são atraídos a Machu Pichu por um postal misterioso, e que vão procurar descobrir quem são e qual o sentido da vida. Os protagonistas dessa aventura são ocidentais ou carregam consigo o peso da cultura ocidental – uma francesa, um alemão, um israelita, um inglês, um americano, a que se juntam um castelhano e um catalão, um italiano e duas austríacas – e têm um traço em comum: acordam um dia e descobrem que deixaram de sonhar, de desejar outro destino, como se até aí eles se limitassem a olhar sem ver, a agir sem pensar, a dormir sem sonhar.

Luís Novais tem o talento de criar personagens, cada um com uma história particular, mas que, no conjunto, condensam as várias contradições e dilemas do nosso tempo: a miragem da carreira, o endeusamento da tecnologia, o pragmatismo político, o frenesim da competição, a ignorância do outro, a prostração do bem-estar, o vazio da felicidade, o peso inútil da liberdade, a perda do sentido do sagrado, do mistério e da magia, o fim das utopias.
Mas, se tivesse que escolher, é sobretudo a figura de Antioc, um jovem andino que é testemunha ocular, cinco séculos atrás, dos acontecimentos que precipitaram a destruição sangrenta do império dos Incas, que ressalta como um dos grandes achados deste livro a vários títulos surpreendente.
apvasconcelos@gmail.com

Comentários

# SnusJunkie said on Julho 15, 2008 21:18:

Comprei o livro por ser um apaixonado pelas civilizações antigas, especialmente a dos Incas, arrependi-me profundamente... Nem sei se a história é interessante, simplesmente porque não consegui passar do 1º paragrafo! Nota-se uma grande inexperiência do autor que usa uma narativa muito pobre! Tem uma forma de escrever um pouco esquisita, por exemplo, ele usa e abusa dos sujeitos/nomes dos personagens, numa unica pagina ele usa o nome de 1 peronagem umas 20 vezes sem exageros, Sophie faz isto, Sofie faz aquilo, Agora Shopie vai ali... Isso tudo em quase todas as paginas do 1º capitulo. Parece um dialogo do tipo "Mim Tarzan, tu Jane", perdi logo o interesse na leitura, quis pelo menos dar o beneficio da duvida acabando o capitulo mas foi um grande sacrificio... Comprei-o na Bertrand de Faro, juntamente com o "Rio das Flores" que li 1º, e depois de ler um belissimo livro (apesar de alguns erros históricos), começar a ler este fez-me um mal terrivel! Senti que esta foi a pior compra que fiz este ano!

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