Quando o Sol se Põe em Machu Pichu
Na extraordinária biografia que Charlotte Chandler dedicou a Billy Wilder, e a que chamou, como não podia deixar de ser, Nobody Is Perfect, o autor de Quanto Mais Quente Melhor diz-lhe, melancolicamente, no final do livro: «A velhice é quando os nossos sonhos se transformam em memórias». Isso fez-me pensar que, se hoje se dedica tanto tempo à memória de Maio 68, é porque esse foi, porventura, o último momento em que a Europa sonhou com alguma coisa. O que conservou a memória de Maio intacta e impediu que o sonho de uma geração se tornasse um pesadelo, foi, porventura, o facto de os líderes do movimento terem resistido à tentação de transformar uma rebelião espontânea numa revolução organizada. Ou talvez porque os operários da Renault já não eram os proletários de Marx, e sabiam que, desta vez, tinham mais a perder do que as suas grilhetas.
«Porque é que a Europa deixou de sonhar?», devia ser a pergunta a fazer quando se confrontam os sonhadores de 68 com a letargia em que o Velho Continente soçobrou depois de ter caído o muro de Berlim. A questão levava-nos muito longe, mas vem a propósito de Quando o Sol se Põe em Machu Pichu, o romance que marca a auspiciosa estreia literária de Luís Novais.
Ao contrário de muitos dos nossos escritores, que não saem do seu bairro, Luís Novais escolheu o Peru, onde se abriga o mito da civilização andina – e cujo último Inca, Athaulpa, e o seu imponente exército foram dizimados sem piedade pelos escassos soldados de Pizarro – para situar a acção do seu livro: uma viagem iniciática de vários personagens que são atraídos a Machu Pichu por um postal misterioso, e que vão procurar descobrir quem são e qual o sentido da vida. Os protagonistas dessa aventura são ocidentais ou carregam consigo o peso da cultura ocidental – uma francesa, um alemão, um israelita, um inglês, um americano, a que se juntam um castelhano e um catalão, um italiano e duas austríacas – e têm um traço em comum: acordam um dia e descobrem que deixaram de sonhar, de desejar outro destino, como se até aí eles se limitassem a olhar sem ver, a agir sem pensar, a dormir sem sonhar.
Luís Novais tem o talento de criar personagens, cada um com uma história particular, mas que, no conjunto, condensam as várias contradições e dilemas do nosso tempo: a miragem da carreira, o endeusamento da tecnologia, o pragmatismo político, o frenesim da competição, a ignorância do outro, a prostração do bem-estar, o vazio da felicidade, o peso inútil da liberdade, a perda do sentido do sagrado, do mistério e da magia, o fim das utopias.
Mas, se tivesse que escolher, é sobretudo a figura de Antioc, um jovem andino que é testemunha ocular, cinco séculos atrás, dos acontecimentos que precipitaram a destruição sangrenta do império dos Incas, que ressalta como um dos grandes achados deste livro a vários títulos surpreendente.
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