SOL

Baú de Recordações - Viajando no Tua!

 

 

 

 

Em tempos remotos,quando a mocidade ditava regras de folgança e aventura, em tímida e aventurosa missão fui colocada numa aldeia beirando o rio Tua, que descia a sobressaltos de Mirandela.

A minha experiência de viajar em comboios era limitada à curta saída do Magistério em Vila Real, até ao casino das Pedras Salgadas, onde fomos em passeio de fim de curso, no fim do ano lectivo de setenta e um.

Acontece que, nessa aldeia, a estrada se encontrava ainda em fase de promessa e dela só se viam, no Inverno, as rilheiras dos poucos carros que se afoitavam por ela, desbravando o lamaçal e deixando os rodados bem definidos, para se deslocarem à sede; e, no Verão, eram os novelos de pó em nuvens enroladas que anunciavam o trânsito local. Quando o ar se toldava a lembrar os filmes do faroeste, sabíamos de antemão que o padeiro tinha vindo abastecer o povo do pão para cada dia, nem que, esse dia fosse de semana a semana, consoante a estrada.

Assim que, para virmos de fim – de – semana, eu e outra colega, aprendemos o caminho a pé para a linha férrea, bem enterrada nas ravinas que ladeiam o rio – e graças! - por nesse ano terem rasgado um estradão que lá nos conduzia, embora mostrando ainda as cicatrizes desta ruptura abrupta e fresca de cor sanguínea.

Era lon…ge!

Saíamos cedo, embora soubéssemos que o comboio só passava para lá das tantas, porque os usuários eram pouco exigentes com as horas, conhecedores do percurso sinuoso e desapiedado que o trem, a trancos e barrancos, tinha de fazer.

Não me dava a idade canseira dos que tinham emprego e horas para cumprir. Eu só sabia que os que mais se serviam da linha eram aqueles que iam e vinham da feira e, para esses, chegava a muito boas horas. E para nós, igual, porque mal púnhamos o pé fora da sala à Sexta, já estávamos em fim de semana, mesmo que pisássemos as mesmas pedras que nos dias anteriores.

Enquanto fazíamos horas para a chegada do comboio, aproveitávamos para parar nas caldas de águas sulfurosas e boas para os males da pele e do fígado, segundo constava.

Ai as caldas !

Bem, tantos anos passados e relembrar-me desses tempos traz-me um rasgado sorriso aos lábios!

Tudo aquilo era um descampado, rodeado de ralas vinhas e muito mato. E, quase rasando as águas do rio calcinado pelos sulfuretos, havia um complexo de ruínas e aí, um casebre com o telhado meio destapado pelas intempéries e falta de manutenção. Acreditem ou não, lá dentro existia uma banheira de latão de quatro pés, para onde corria um quase fio de água … quente !!! Nada mais havia no lugar. Então, enquanto uma desfrutava da doce benesse termal, a outra ia aos gambuzinos que é como quem diz, procurava distracção por ali perto, de vigilância, já que a porta, desengonçada, não fechava sequer. Na minha vez, cabriolava de pedra em pedra no rio, que se alastrava, manso e alapado por baixo de grandes árvores que por ali deram em se perder em imemoráveis passados. Gostava de sentir nos pés descalços o calor suave das pedras esbranquiçadas e de respirar aquele ar diferente.

 Tudo eram motivos de riso nas horas que tivéssemos de esperar pelo abençoado transporte. Digo mais: era uma aventura!

Quando o comboio chegava, vinha normalmente arrastando dois vagons, se a memória não me falha (e eu bem sei, quanto já me não posso fiar dela!)

Um traria bens comerciais e na outra carruagem viajavam os passageiros. Nem sequer confortavelmente instalados nos bancos de ripas duros como cascos de cabras montesas, sem distinção de fortuna, de elite, ou uma que outra mais  valia social. Tanto se abancava ao meu lado um senhor mais composto, como me adormecia no ombro o borracho que enchera a pança e agora ressonava, tombando para cima de mim, num bafo pestilento de bode indigestado. Quando não havia lugares, e a timidez me não deixava dar um empurrão no pobre diabo, vá de aguentar até à sua muda, mesmo à custa das risadas da minha amiga, que de longe me piscava o olho e me fazia de fel e vinagre. Ora, como se não me bastasse o emplastro!

Nesses dias em que calhava os feirantes encherem a carruagem via-se de tudo: cabos de sachos ou enxadas completas; garrafões de vinho ou de azeite, aos três e quatro que os donos metiam entre as pernas para os não deixarem tombar e perder-se assim o dinheiro e o bem; cabos de cebolas e réstias de alhos; depois eram os que traziam os peixes do rio frescos, pendurados na mão, enfiados pelas guelras em junco verde maleável, que todo o caminho tresandavam a lodo viscoso e atraíam as varejeiras  lá de cascos de rolha; vinham ainda as mulheres que nos cestos da cabeça carregavam aves de capoeira, galo gingão ou galinha poedeira, os quais, em lhes dando para o cacarejo, se esganiçavam e deixavam os ouvidos moucos. Então quando chegávamos ao pequeno túnel, o raio da bicharada como se temesse a escuridão momentânea, entrava numa cacofonia, nunca antes vista.

Um dia desses, vínhamos nós de fim – de - semana, até à estação da Brunheda, depois à do Tua, onde ainda teríamos de nos transferir para o que vinha do Pocinho porque não nos ficávamos por ali. Seguíamos para Pinhão e era outro tanto de tempo.

Um dia inteiro para chegar a casa!

Estávamos estafadas! Fora a caminhada, mais a demora do barqueiro para nos trazer para a banda de cá (andava o homem a regar e tiveram de o ir chamar); a espera na estação sentadas nos carris, a mirar sem ver, a paisagem rude de íngremes rochedos, pendurados ao Deus dará quase até ao rio.

A carruagem nem sequer vinha cheia mas uma matrafona já de boa idade, rubicunda e tagarela, mais sabida que o tempo, que carregava um cabaz com três galinhas pedreses, uma ruiva e um galispo de pescoço careca, tinha – se vindo acachapar ao meu lado.

Todo o caminho a santinha se não calara metendo conversa com todos e morta de curiosidade para saber quem nós éramos, mas esbarrou no nosso mutismo e não engoliu facilmente a afronta.

Enquanto uns jogavam à sueca em cima duma caixa de papelão, eu virava a cara para a janela, enojada do cheiro dos galináceos que não contiveram as suas necessidades fisiológicas, bem nas nossas barbas. As aves iam meias esganadas, de olhos redondos quase a saltarem de medo e deitavam as cabeças de fora, coitadinhas, de bicos abertos e linguitas pendentes. Eu rogava na pele daquela desalmada criatura que assim trazia os bichos com as patas presas com uma guita as asas arredondadas, fazendo-os sofrer sem precisão, e incomodando todos os passageiros.

Quando nos aproximámos do túnel, as galinhas entraram em desespero e num revoltear de asas e corpos tombaram o cesto que rebolou de entre os pés da dona e rodando, rodando, vão direitas à porta da carruagem aberta por causa do calor, suponho.

Ó gritaria!

-Ó ti mulher olhe as pitas, que vão porta fora!

Nem era preciso o aviso que a mulher lançara-se à guarda – redes com os braços estendidos para agarrar a pitarada. Em má hora o fez que se estendeu ao comprido e não fora os homens deitar-lhe a mão ao tornozelo, ia ela e as pitas beber ao rio, não muito longe dos carris.

-Você está maluca, mulher? Não vê que se matava?

-E você não vê que se me foram as pitas? Ai o meu rico dinheirinho! O meu governo! Então não havia de as apanhar?

- Deixe lá as pitas! P’rá semana compra outras, agora vossemecê ir atrás delas p’ró rio é que não tinha piada nenhuma!

-É, é, mas eu é que fiquei de prejuízo!

Entretanto, passado o susto, eu e a minha colega ríamo-nos à socapa do caricato da situação, pensando que ninguém dava por ela.

Mas a mulherzinha que olha e nos vê a rir?

Oh, oh! Acabou-se-lhe a compostura e furiosa virou-se para nós:

- Olhem lá, ó suas sirigaitas. Estão -se a rir de quê? Acharam muita graça foi? Pois vão-se lá rir da p… que as pariu, ouviram? Eu bem vi que vinham todas enjoadas por causa das pitas. Por’i nunca viram mer…  ?

Coitadas das lambisgóias! Nem se sabe onde penduram o pote, estão agora a rir-se da gente honrada! Julgam que são mais do que nós? Bo era!

Nós, encafuadas lá no nosso canto, nem tuge nem muge, se não ainda levávamos algumas lambadas, que a pobre estava uma bicha furibunda!

-Deixe lá as cachopas que elas não têm culpa nenhuma. Se formos a ver, tirante vossemecê ir caindo, até foi engraçado.

-Ai, não têm culpa? Então eu não vi elas a rirem-se? Foram mas é elas que me deitaram mau olhado ao gado. Não têm respeito nenhum! Pensam que são alguém!

Mau, que a conversa estava azeda!

-Deixe lá isso, pronto. Aconteceu. Olhe, ia fazer uma cabidela e já não a faz. Fica para a próxima.

Tudo se calou na carruagem e, mal chegámos ao Tua, descemos cabisbaixas.

Procurámos um lugar sossegado, não fossem as nossas brincadeiras causar melindre a mais alguém e nós já trazíamos que contar!

 

Publicação: terça-feira, 20 de Abril de 2010 17:38 por aserrana

Comentários

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

terça-feira, 20 de Abril de 2010 21:23 por OlindaGil

Olá Celeste

Parabéns por mais uma deliciosa crónica da serra.

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

quarta-feira, 21 de Abril de 2010 11:19 por void2

Cara Amiga Celeste,

Gostei da crónica e em especial da forma de contar.

"Raparigadas", ein?

Um abraço amigo

a formiga

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sexta-feira, 23 de Abril de 2010 14:01 por aserrana

Querida amiga Olinda:

Só hoje vim ao blog e por isso peço desculpas das respostas atrasadas.

Obrigada pela tua participação neste espaço que anda um pouco desacompanhado.

Um beijo para vós.

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sexta-feira, 23 de Abril de 2010 14:03 por aserrana

Olá Alfredo.

Há quanto tempo!!!

Donas de casa metidas a artistas é no que dá.

Mais uma vez agradeço a tua colaboração.

Espero que esteja tudo a correr "nos conformes".

Um beijo para ti e para a Clara.

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sábado, 24 de Abril de 2010 10:49 por portocego

Não andar muito, ultimamente pela blogosfera é culpa muito do sistema a que aderi que me deixa muitas vezes sem velocidade capaz de me permitir navegar com gosto e então desligo e vou indo!!!

Mas, o que não é culpa da ineficácia da Zon, é a minha própria ineficácia como cidadã e acima de tudo como amiga. Sim,  amiga porque, apesar das minhas falhas humanas, a palavra amigo tem um peso e gosto muito de a usar com propriedade que é o caso.

Isto é uma espécie de confissão pública de uma falha organizativa de que sofro de forma crónica - "esquecimento dos aniversários".

Mais uma vez falhei no dia 4 do corrente.e falhou o meu despertador que, pelos vistos, não está melhor que eu.

Se subir o Tua não fosse um enorme prazer com a descrição que aqui faz, eu dizia: para castigo, agora, vais ter que subir o Tua.

Celeste um combóio cheio de beijinhos e ares do mar do Guincho.Nossos!

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sábado, 24 de Abril de 2010 18:05 por aserrana

Querida Daniela;

Mandaram-me aqui vir, porque sim senhor, sem culpa sua,há um pequeno lapso. O seu despertador não suou com muita razão. Ainda não é hora. Alguém, de quem não dizemos o nome, errou ao colocar a data. De modo que vai estar ainda a tempo de me mandar mais beijinhos, OK? Mas, não vá a Net de novo falhar,´cá fico com os beijinhos todos e retribuo.A data é 04-05.

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sábado, 24 de Abril de 2010 21:00 por portocego

Ui! Ui!Fiquei bem mais tranquila.Desta vez safei-me....! Agora vou colocar post-it por todo o lado, não vá o diacho tecê-las!!!

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

domingo, 2 de Maio de 2010 13:32 por OlindaGil

Venho desejar-te um Feliz Dia da Mãe!

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

terça-feira, 4 de Maio de 2010 16:18 por portocego

Bom! Desta vez, escapei e aqui estou para desejar um feliz aniversário e que muitos outros se celebrem com amor paz e saúde.

Os nossos beijinhos de muita amizade e este vídeo se entrar..!

Daniela e Companhia!

[youtube:RtmJ6zPGrUc&feature]

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

terça-feira, 4 de Maio de 2010 17:19 por aserrana

Olá Olinda!

Muito obrigado pelos teus votos Amiga!

Beijinhos nossos

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

terça-feira, 4 de Maio de 2010 17:30 por aserrana

Olá Daniela, querida Amiga.

Muito obrigado pela sua lembrança e pela paciência de me presentear com coisas que sabe que adoro.

Há ali paisagens que parecem aqui da Serra.

Que beleza.

Muito obrigado.

Beijos amigos da Serra

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

terça-feira, 4 de Maio de 2010 20:16 por portocego

Também achei parecido com as paisagens serranas e, à falta de cãesinhos, até achei um gato...!

Continuação de um bom dia.

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sexta-feira, 14 de Maio de 2010 12:30 por portocego

É já amanhã o grande evento em que o "Baú de Recordações" fica patente para quem queira deliciar-se com  uma mostra de cultura genuína dos costumes, tradições, formas de estar, ser e sentir das gentes transmontanas, das gentes genuínas do nosso país, nem sempre devidamente relevadas a não ser por quem ousa dedicar-lhes um tempo escrevendo e deixando estes preciosos registos para a posteridade.

Obrigada Aserrana(Celeste R. Coutinho)autora do livro, a quem nós deixamos aqui, desde já, aquele grande abraço, bem do peito, mesmo à distância. A amizade não tem distâncias, a verdadeira amizade, é permanente e interior.

Muitas felicidades.

Daniela e António

# re: Baú de Recordações - Viajando no Tua!

sexta-feira, 14 de Maio de 2010 20:23 por aserrana

Queridos amigos:

Nesta ocasião venho retribuir-vos a amizade e deixar-vos um grande abraço.

Muito obrigada.

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