Baú de Recordações - Cala-te boca.

Quando a certa altura da minha vida fui morar para Celeirós do Douro, fiz os possíveis para conhecer as pessoas que tinham visto crescer o meu marido cujos familiares maternos eram originários daquela pitoresca aldeia duriense. Os meus filhos eram ainda pequeninos pois o Pedro não tinha ainda feito cinco anos e o Luís era ainda mais novo.
Por essa altura o meu marido estava fora no seu trabalho, que, ao ser muito bom para a época tinha o grande defeito de o ter afastado da família para só nos ver de quinze em quinze dias.
De modo que toda a aprendizagem acerca de quem era quem, teve de ser feita por mim sozinha. Embora conhecesse as pessoas de nome, juntar o nome à respectiva cara não era tarefa fácil, mais ainda para mim que pouco saía de casa.
A minha profissão de professora, que eu levava muito a sério, a educação dos meus filhotes e o facto de ainda ser dona de casa, não me deixavam tempos livres que me permitissem desfrutar de amizades e ter novos conhecimentos.
Como gosto de ser cordial com todos e me recordo das palavras dos meus pais quando me educaram: -“Os bons dias e boas horas, dão-se a toda a gente”, era isso mesmo que eu praticava.
Assim o ensinei também, desde os meus filhos aos meus alunos. Espero que algum deles se recorde destes bons ensinamentos que nos distinguem de tantas pessoas que passam umas pelos outras e é o mesmo que nada.
Portanto na execução destes meus propósitos, sempre que saía à rua, esforçava-me por saber com quem estava a falar, mas principalmente, cumprimentava toda a gente.
Por diversas vezes saudava um senhor que encontrava na rua ( uma pessoa entroncada, em quem eu reparei especialmente no grande nariz ) e para meu espanto, ele não me retribuía a saudação.
Três ou quatro vezes isto me aconteceu e eu ficava não só aborrecida como intrigada com o que teria feito ou alguém dos meus que assim me fosse negado o simples bom dia.
Quem esteve connosco em Alijó, de certo reparou numa senhora bem idosa que se sentava nas cadeiras da frente. Era a senhora em casa de quem me hospedei quando tinha os meus dezassete anos. Tenho por ela um grande carinho e sei que sou retribuída, mas não me posso esquecer de como ela era malandra e dizia coisas engraçadas.
Uma das coisas que lhe ouvi dizer referia-se à maneira desdenhosa como algumas pessoas ao considerarem-se importantes, se recusavam a cumprimentar quem encontrassem na rua e não respondiam igualmente ao cumprimento dos outros. Assim que um dia, indo ambas pelas ruas de Alijó, alguém menos educado não lhe respondeu às boas tardes.
Vira-se ela de nariz empinado para a frente e diz:
-Ora, que Deus te dê a fala que deu a um burro!
Uma saída deste género era difícil de esquecer e eu guardei-a na memória sem nunca ter tido necessidade de a usar.
Até ali.
Em Celeirós.
De modo que na próxima vez que encontrei o fulaninho, foi como um relâmpago: veio-me à ideia a frase arquivada há tantos anos atrás. Assim que em surdina disse com os meus botões:
-Ora, que Deus te dê a fala que deu a um burro! Estou-me agora a incomodar! E passei adiante.
Quando o meu marido veio passar o fim – de - semana contei-lhe do meu aborrecimento e de como tinha reagido à falta de educação daquela pessoa. No entanto não fui capaz de lhe fazer perceber de quem estava a falar.
Passou.
Um dia, vínhamos de carro, quando à entrada da Aborrida o tal homem se cruza connosco. E eu disse para o Raul:
- Olha é este!
- É este quem?
- O que me não responde ao cumprimento.
Começa o meu marido a rir-se como um perdido. E eu a olhar para ele!
-O que foi? Porque te ris?
Resposta:
- Como queres tu que ele te responda se o pobre é surdo - mudo?
Caiu-me o queixo.
Então eu não tinha já ouvido falar do “mudo”?
Mas daí a conhecer-lhe a cara …
Vim depois a saber que lá até havia dois! O António Barros e o José Pisco, ou Zé Toneco.
De modo que fiquei cheia de remorsos por lhe ter dirigido a célebre frase que aprendi com a D. Etelvina.