SOL

Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

 

 

O Douro já está a arder!

A notícia em primeira mão, está a dá-la o Serrano no seu blog.

Esta é a minha versão.

Já cá faltava o desassossego e a preocupação com o nosso bem - estar.

Não é sem razão que a partir do mês de Junho se não pode foguear em qualquer parte.

Começou cedo este ano.

Já que não durmo a sesta, fui entreter as mãos numa salutar terapia ocupacional e repor o STOK de telas que se venderam na exposição.

O calor aperta e até os meus cães, sobretudo a Ventoinha sempre alerta, se quedaram numa modorra engraçada, estendendo-se ao comprido e a sonhar. Como sei que sonhavam? Fácil. Estremecem e gemem até, na vivência das cenas que estão a protagonizar.

 O ZU, esse, ressona lindamente e perturba o meu silêncio.

 Tento acordá-lo, mas quê, ele nem sequer ouve.

Como ia dizendo, fui pintar lá para debaixo do telheiro que serve de acomodação tanto ao carro como aos meus amigos caninos. Montei ali um estúdio volante e por lá me entretenho, sempre que lembro de pintar.

Ensimesmada, não dei por que o tempo passou nem ao menos levantei o olhar do que estava a fazer. De modo que quando enfim olho para o céu, espantei-me verdadeiramente pois este passara do azul brilhante para a pretidão da noite, na parte virada a este.

Nuvens negras enoveladas subiam no ar e ocupavam o horizonte visual da minha casa.

Que vem a ser isto?

Não me digas que já é um incêndio?

Estas minhas previsões resultam da lógica da batata.

De um dos extremos de S. Martinho deflagra um incêndio que rapidamente atinge extensão preocupante.

De seguida aproxima-se um estrepitoso barulho e surge um helicóptero mesmo por cima do telhado onde me encontro. Coisa nunca antes acontecida felizmente.

Passou a rasar os pinheiros nas traseiras da minha casa e foi tão forte o barulho, tão inesperado, que a Ventoinha fugiu acelerada a escainçar e refugiou-se junto dos meus calcanhares com o rabo entre as pernas,

O Zu estava cá fora e, ele que se assusta pouco, levantou as orelhas a ver se valia a pena afligir-se ou lucrava mais ficando quieto. E assim fez.

Pousei os pincéis e levei as mãos aos ouvidos, quase doridos, tal foi o estampido provocado pela passagem do helicóptero e preparei-me para as novas incursões do heli no meu espaço aéreo, mesmo sem conhecimento oficial desta invasão. Como mandei os F21, passar o dia Santo a Las Palmas, veranear, não dispunha de meios para afugentar os culposos deste assalto repentino. Por isso mesmo, nem telefonei ao meu representante legal e, na moita, fui mas é ver qual a direcção necessária que estas libelinhas metálicas precisavam para atacar com prontidão o braseiro no matagal.

À minha volta cada vez mais nuvens negras densas se acotovelavam,  desafiando o meu atento olhar,

Interrogações.

-Onde está?

-Para onde vai?

As respostas traz-mas depois o Raul que foi de carro ver qual o cenário com que poderemos contar.

 É que o vento que há dois dias se entesou por aqui, sacode que sacode, espavorindo os melros e outros menores que se acoitam nos ramos das árvores da vizinhança, sopra mais uma vez desatinado com vontade de ficar pela noite adiante.

Estamos bem arranjados!

Daqui a pouco os meios aéreos recolhem e nós ficamos ao Deus dará.

Incêndio - Óleo sobre telaÉ um filme que passa incansavelmente por estas bandas.

Toda a tarde este rodopio de aeronaves, de carros cheios de mirones que procuram a serra para não jurarem falso.

De repente dá-se uma inversão na rota dos helis e estes vêm na direcção contrária sobrevoando a minha casa de novo.

Na varanda, procurando o melhor ângulo para o apanhar no ecrã da digital, vou pensando comigo e com o Raul a controvérsia da vida.

Depois do primeiro susto já nos distraíamos na procura da melhor imagem para mostrar a filhos e enteados esquecendo, embora que por pouco tempo, como é tão sério o risco que corremos no meio da Natureza que arde ali ao lado e que tem tanto de belo como de perigoso ao longo destes Verões do nosso descontentamento.

Neste divagar eis que o Raul prepara a câmara e eu, na varanda, vejo o”bicho”a  aproximar-se, o balde em desequilíbrio, avançando por cima dos pinheiros, qual anjo vingador.

 Parece que os tímpanos não vão aguentar os estalos fortes que ressoam pelo céu.

Do focinho empinado (vinha a subir) saem refulgentes raios do sol que lhe bate em cheio, quase no ocaso. E quando sobrevoa mesmo por cima das nossas cabeças estrondeia o ar em redor, entorta as copas dos pinheiros, esvoaça a caruma desperdiçada caindo suavemente no meu terraço muito propício a estes desmandos.

 Não admira que as aves em revoada corram, quer dizer, voem para bem longe daqui.

O facto é que o sol já se escondeu e o silêncio tomba agora sobre nós, abandonados assim pela providência aérea que fugazmente (dada a enormidade da frente) aqui andou.

Da janela do meu escritório onde alinhavo estas linhas, espreita ao longe, mas não assim tanto, uma esguia labareda laranja sinalizando que o perigo ainda ronda.

Valha-nos Deus!

De Inverno enregelamos e mal despertam os calores estivais, fritamos de calor e dos imprevisíveis fogos na mata.

Lá dizia o nosso poeta Torga: - Nove meses de Inverno e três de inferno.

-Mas que Inferno!  - digo eu.

 .

Publicação: sexta-feira, 4 de Junho de 2010 15:13 por aserrana

Comentários

# re: Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

sexta-feira, 4 de Junho de 2010 15:46 por Pedofilia

Minha Cara Celeste,

De facto apanhei um susto quando vi a notícia de um incendia em São Martinho d'Anta.

Fui à página da Protecção Civil e lá estava tudo escarrapachado: fogo florestal em S.Martinho. Estive na mesma página até às 2 da matina de hoje, para ver como ia andando. Só fui dormir quando percebi que estava tudo acabado. HUF!

Aqui vai o link que pode ser útil:

http://www.prociv.pt/Pages/default.aspx

Um abraço amigo

a foormiga

# re: Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

sábado, 5 de Junho de 2010 13:48 por OlindaGil

Olá Celeste

Fiquei muito triste com esta má notícia que já li no blogue do teu marido.

É uma pena que se tenha destruído essa magnífica paisagem.

O teu livro é uma delícia, ando a lê-lo aos poucos e a sentir aqueles sabores e odores que só tu sabes transmitir.

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

terça-feira, 8 de Junho de 2010 9:21 por aserrana

Caro amigo Alfredo:

Como estás?

Olha, que raio de nome arranjaste que ainda me não habituei?Não podias ter arranjado assim um como "Jardineiro do Espaço", "Cavaleiro do Rei Artur" "Justiceiro do Sul"?

Até eu fazia logo um soneto tendo como mote o teu nik.Agora assim o que vou eu rimar?

Pedofilia com aletria?

Vá, aí te mando um abraço da serra acabadinha de refrescar com as orvalhadas de S. Jõao.

# re: Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

terça-feira, 8 de Junho de 2010 9:23 por aserrana

Querida Olinda:

Imaginas que no meio de tanto pinhal, estamos sempre alerta.

Ainda bem que gostas do que lês.obrigada pelas tuas gentis palavras.

E a tua Exposição?

Conta lá as novidades.

Um grande beijo.

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