Baú de Recordações - O mal dos outros...

O mal dos outros…conforto de tolos
Eis uma história de pequena monta mas que, apesar disso, é capaz de nos mostrar as facetas humanas com que nós tropeçamos no dia a dia.
Um dia, na sua ronda habitual e pelas povoações no desempenho das suas profissões de vendedores ambulantes, uns amigos a quem quero chamar Silvano e Manuela, ao passar aqui nesta vila de S. Martinho de Anta, pararam em casa de uns lavradores, clientes habituais.
Naquele dia a dona da casa, atarefada e com muitas bocas a sustentar para a sementeira das batatas, comprou ao nosso amigo a quantidade de três kgs de congro (safio mais grosso), para pôr na mesa ao pessoal que andava na vinha de enxada nas unhas, tresandando a suor do esforço necessário para “plantar” os ditos tubérculos.
Ora acontece que a gente se habitou há quase vinte anos, a ver duas vezes por semana estes amigos que ao conforto das nossas casas, nos vêm trazer o peixe fresquinho que de outro modo não alcançaríamos a não ser na cidade a trinta Kms de distância.
Fizemos deles amigos e por isso, quando nos vemos há sempre alguma coisa para contar, mesmo que seja só das nossas vidas, que eles conhecem bem. Outras vezes fala-se da política local e atrevemo-nos mesmo, qual treinador de bancada, a ”cortar na casaca” dos políticos nacionais.
Naquele ocasião, apesar da pressa, a senhora Maria, encostou-se à porta da carrinha frigorífica e enquanto puxou do porta - moedas, pousou o saco do peixe no chão para receber o troco e dar dois dedos de conversa com a D. Manuela, enquanto esta se pagava e lhe dava de torno o excedente.
Palavra puxa palavra ali se demoraram um pouquinho na cavaqueira.
Quando a senhora Maria se curvou para apanhar o saco do peixe, este…já lá não estava.
Não havia possibilidade de ter sido roubado por ninguém visto a casa ser afastada das restantes moradias da vila.
-Omessa agora! Cadé o peixe?
-O peixe estava aí.
-Ai o malvado do gato! Querem ver que foi o latagão do gato que o levou?
- Pode lá ser - diz a D. Manuela. Como é que um gato arranca assim com três kilos de peixe?
-Ai arranca, arranca. É grande como um toiro! Ora vejam lá! Carnão (quer não) que é pequena a despesa…!
E a mulher entra pelo portão a correr como uma desalmada na esperança de ainda encontrar o bichano, com o peixe intacto.
Com aquela algazarra levanta o marido as costas do rego das batatas e pergunta o que aconteceu.
Ao saber do que tinha acontecido, empurra o chapéu para trás e dá uma boa risada.
-Todos os prejuízos fossem esse! Com o seu, posso eu bem! O pobre do bicho foi encher o bucho. Não se lhe pode levar a mal.
-Ó senhor Manuel, eu não estou nada preocupado - diz mansamente o senhor Silvano - O peixe já estava pago!
-O quê? Vossemecê nem me diga uma coisa dessas. Ai o excomungado do gato.
E o homem, como lhe tinham mexido na algibeira, pega no cabo da sachola e corre atrás do gato que já estava refastelado debaixo de uma figueira com a água a crescer-lhe na boca na mira do grande petisco que lhe coubera em sorte.
-Sape gato! Vais levar c’um fueiro…Olhem qu’isto. E eu a gozar c’o outro.
Entretanto os peixeiros meteram-se no carro e foram à vida deles, não sem que se tivessem rido a bom rir de mais este “chico esperto”que com o mal dos outros se regalava.
Somos assim um povo.