SOL

Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

 

 

De repente eis que se reúnem as condições necessárias para que eu possa vir aqui tentar escrever um pouco.

Explico:

Estou mais moída que o chapéu de um pobre; tenho as pernas mais rotas que um canastro velho!

Assim sendo, não é dia para grandes folias de trabalho doméstico e para passear também não dá. Por isso convém-me imenso sentar-me e calmamente pôr ordem nos pensamentos e daí passá-los ao papel. Quer dizer, papel, papel, já não, mas os velhos costumes estão tão arreigados, que custa a gente desfazer-se deles.

Como estas mazelas não atingiram o córtex cerebral, vou mais uma vez fazer uso da memória e contar a experiência vivenciada ontem na Segunda Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa.

Começámos timidamente o ano passado e, feito o balanço final, concluiu-se que tínhamos pernas para andar. Vai daí, o Sr Dr Veladimiro, lança-se em grandes pesquisas e foi desenterrar, (nunca melhor dito), um trilho de alto lá com ele!

Às oito da manhã já se reuniam em Sabrosa os primeiros entusiastas e pouco depois, serra fora ao som ronronante do velho motor do autocarro, encontrámo-nos com o alto de S. Domingos de Abrecôvo (o S. Domingos Grande) ponto de partida para o nosso passeio salutar e turístico

Sendo o ponto mais alto da zona, tem a atestar esta qualidade o marco geodésico que deve estar ali pelos novecentos metros de altitude.

Assombra-nos a serena beleza natural até ao horizonte onde os verdes se confundem já com os azuis do céu luminoso, apesar da tempestade da tarde anterior.

O esplendor do coração do Douro, aqui se encontra magnificamente representado nos seus vinhedos, adormecidos ainda, pelas encostas abaixo até ao sopé, bordejando o Pinhão.

As vinhas, de verde engalanadas, lembram-me artísticos penteados Afro: carreirinha para aqui, carreirinha para ali…

Os vinhedos antigos, saídos das mãos amorosas dos que outros tempos atrás, se tomaram com as enxadas e, com elas, bardo a bardo domaram os declives bravios, plantando as plumas e deixando-as satisfeitas de humidade com o suor que lhes escorria do rosto torrado e duro, ficam hoje paredes meias com os tristes mortórios, mal agrabunhados em terras soltas que agora deslizam uns sobre os outros numa bem desnecessária imagem de desleixo, nada conforme com o trabalho de gigantes que herdámos.

São um regalo para a vista esses desenhos que ao longe cobrem as diferentes colinas e quando já ao perto se observam os cachos formados e em crescendo, esta visão traz um gomil de esperança, aos lavradores receosos da crise mais penosa, dos rigores deste clima que até no Verão nos açoita de saraiva e lhes mete o coração num punho. Não tarda, se assim continuarmos, que se oiça:

-Ai a vindima! Este ano já deve estar feita!

Depois de saciados com a paisagem tão nossa e tão renovada a cada ano, pusemos pés à descida com coragem e alegria. Não combinaram muito bem cantigas e escorregadelas e pouco a pouco, foram-se esmorecendo as vozes quando o fôlego não deu para mais.

 Mas quando já tínhamos entrado no ritmo da caminhada, houve que parar.

Um rebanho de cabras bem armadas pastava por entre tojos e carquejas, como manchas móveis de preto e branco e, quando passávamos pela pastora solitária, de queixo apoiado ao cajado, ela, feliz também, disse-nos que tinha acabado de nascer um cordeirinho.

Auspicioso acontecimento, todos nos aproximámos para saudar a novel criatura e esta coitadinha, desequilibrada nos seus frágeis membros, húmida ainda do parto recente, tentava a todo o custo manter-se de pé e na sua trémula aparência, trouxe-nos a todos, mas mais a nós mulheres, uma vaga de carinho que se traduziu em expressões de meiguice e ternura. Mas o cordeirinho, balia de espanto e medo e os seus imensos olhos castanhos pestanudos procuravam pela mãe, aflito com a sua chegada tumultuosa ao mundo que, sozinho, já estava a enfrentar. Não que a mãe o tivesse abandonado. Não. Mas cortado o cordão umbilical que ele ainda ostentava, eram horas da mãe se alimentar com o rebanho, pois grande encargo lhe vinha pela frente: criá-lo.

Lá regressámos à passeata e depois de algum tempo o nosso timoneiro levou-nos a porto seguro para descanso e nem acreditávamos na mesa que esperava por nós em Gouvães.

Isto para bem receber,  estão as nossas gentes por cá…!

A condizer com as estiradas anteriores, as ruas da povoação são íngremes, mas o alegre casario, algumas casas de boa traça, a limpeza, a bela igreja, o ar puro e a simpatia, fazem desta povoação uma agradável rota turística que pena é, não ser mais aproveitada.

E depois, sempre caminhando com boa disposição, calcorreando por uma velhíssima calçada de xisto laminado, fomos dar à Quinta da Eira Velha e dali a uma vista espectacular foi um saltinho.

Que vista!

O Douro espraiado a nossos pés, brilha em superfície de prata e o barco turístico rasgando as águas serenas, deixa para trás de si, sulcos de espuma desfazendo-se em leque, deixando-nos na saudade daquela beleza que do alto dominávamos.

E sempre descendo, num pendor de rompe pernas, lá fomos chegando ao cais do Pinhão e eu e a enfermeira Paula, que não poderemos ser consideradas pesos pluma, fomos das últimas, confesso que eu, já presa só por um fio.

Da fadiga me queixo, mas a beleza da paisagem, o convívio, o reencontro com pessoas que só de longe em longe encontramos, farão parte das nossas boas recordações que com estas caminhadas esperamos coleccionar.

Um grande abraço, até para o ano, se Deus quiser.

 

 

Publicação: terça-feira, 29 de Junho de 2010 14:57 por aserrana

Comentários

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

terça-feira, 29 de Junho de 2010 17:48 por OlindaGil

Olá Celeste

Maravilhei-me uma vez mais com a tua escrita deliciosa. Parecia que estava a ver a paisagem.

Beijinhos

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

quarta-feira, 30 de Junho de 2010 12:36 por void2

Olá Celeste,

Vocês fazem cá um dueto de se lhe tirar o chapéu!

Gostei da prosa - creio que se destinava a criar "invejas" aos fulanos do Sul !!! - e cá fico à espera das sequencias.

Um abraço amigo

a formiga

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

quarta-feira, 30 de Junho de 2010 20:10 por aserrana

Querida Olinda:

Olha, tu estás sempre a pôr água benta, mas agradeço as tuas palavras amigas.

Havías de gostarde ver,mas vou-te dizer que só hoje estou a começar a melhorar.Têm sido umas dores!

A vista sobre o Douro é soberba.E do Alto de S. Domingos vê-se a 360º!

Um grnde beijinho para ti.

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

quarta-feira, 30 de Junho de 2010 20:16 por aserrana

Amigo Alfredo:

Fica aqui prometido que aos amigos que vierem até cá, os vou levar ao S. Domingos... de carro.

Mas dali não se vê o Douro, tão escondidinho ele vai por entre os montes.

Mas se vieres nós levamos-te a Galafura que tu e a Clara não conheceis.Eu é que fico à espera de vós.

Obrigada pelas tuas palavras. A Clara havia de gostar de ver o cordeirinho mesmo ali à mão.

Um abraço.

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

terça-feira, 6 de Julho de 2010 1:31 por veladimiro

Peço desculpa pela "maldade" do percurso mas se não tivesse valido por mais nada, só por este texto já valeu!

Obrigado pelas lições de história, pela  tenacidade e por as suas dores musculares serem tão boas!

Um abraço amigo.

# re: Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

terça-feira, 6 de Julho de 2010 16:35 por aserrana

Senhor Dr:

Eu é que agradeço ter-me permitido participar na caminhada. Apesar das dores ,foi muito bom.

Para a próxima, vou com a Filomena fazer a preparação!

Obrigada também pela sua apreciação ao texto.

Retribuo o abraço com amizade e consideração.

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