SOL

Baú de Recordações - Pó, cinza...e nada!

 

 

 

 

O vento toda a noite sacolejou furiosamente e o resultado desse seu desconforto traduziu-se em uma enchente de agulhas que se espalharam castanhas e tristes pelos espaços envolventes da minha casa.

Não fosse o trabalho que varrê-las e apanhá-las acarreta e até que eu, com paciência, poderia apreciar o seu bailado langoroso até ao chão, onde ficam esperando para soltar o derradeiro suspiro e, literalmente, desfazerem-se em proveito da nova rebentação nos começos da Primavera.

Assim mirradas e acamadas no solo dos pinhais mais não são do que combustível pronto para que qualquer demasia de calor natural ou acto de mãos criminosas, as transformem em pavorosos incêndios destruidores de vida e de bens tão preciosos para quem por eles marinhou a vida inteira.

Por isso quando levantei a cabeça ao ouvir o troar do heli carregado com mais um balde de água (parecendo um nédio gafanhoto com uma presa nas garras ) para valer aos a que a esta hora têm o coração a bater descompassado com o temor de mais um fogo, uma desgraça, senti como em mim, essa aflição e remoquei  zangada com o vento vadio que este ano se assanhou à volta da minha casa, assobiando pelos cantos e rouquejando de meter medo mesmo agora em pleno Verão, imagine-se no agreste Inverno da serra.

Alguém mais temeroso que eu, teria certamente no meio deste matagal sussurrante, muitas  oportunidades de se enfiar debaixo dos cobertores, para não ouvir os seus rugidos tormentosos. Mas eu faço por esquecer e dou-o ao desprezo coisa que quanto o enfurece por lhe negar a importância de que se pavoneia. Mas… acautelo o que posso, porque é um vizinho perigoso.

E toda esta arenguice vem a propósito do meu receio dos fogos florestais ao estar rodeada de densos  mares verdejantes , sempre de olhos postos no horizonte à cata da mais leve coluna de fogo que nos ponha de sobreaviso.

Talvez este poema ilustre melhor a desolação que fica depois de um incêndio.

.

.

 

Levando meu rumo, caminho

Campo fora ensimesmada,

E vou pensando comigo

No objectivo da jornada:

.

Levo na mochila apetrechos

Para em pintura plasmar

A beleza da paisagem

Que me ficara no olhar.

.

Porém…

Agora que cheguei

Não reconheço

Naquele negrume torcido,

O meu pedaço de céu!

E, olhando ao redor

Me quedei,

Porque o local apetecido

Não podia ser aquele

 Não era o meu!

.

E, com pasmo, reparando em mim,

Vi-me de negro, tal como o chão!

Meus dedos sujos do pó escuro,

Na tela traçaram negro coração.

.

De luto ficou a alma da artista

Que de cinzento viu pincelada,

Uma tela que fora quadro vivo

E era agora…pó…cinza e nada!

 

Publicação: quarta-feira, 18 de Agosto de 2010 17:03 por aserrana

Comentários

# re: Baú de Recordações - Pó, cinza...e nada!

sábado, 21 de Agosto de 2010 12:45 por void2

Cara Amiga Celeste,

A tua tristeza ficou bem patente neste teu post.

Infelizmente os incendiários e até as pessoas que deveriam fazer justiça em Portugal não tem a sensibilidade necessária para compreender o óbvio.

Um abraço amigo

a formiga

# re: Baú de Recordações - Pó, cinza...e nada!

terça-feira, 31 de Agosto de 2010 20:15 por aserrana

Amigo Alfredo:

A tua persistência em vir aqui , comove-me.

Parece que estamos destinados a escrever sobre a desgraça indefinidamente.

É a justiça que temos. Se fosse um desgraçado que sem querer chegasse o fogo à mata ia logo para o chelindró durante anos. Os que o fazem voluntariamente, são dependentes e precisam de compreensão.Disse há dias um homem de S. Cibrão ,uma aldeia perto daqui, que espelha a nossa justiça.Ele há juízes!!!

Um grande abraço para ambos.

# re: Baú de Recordações - Pó, cinza...e nada!

terça-feira, 31 de Agosto de 2010 22:08 por portocego

Minha querida amiga,

As palavras em prosa ou em verso juntamente com a imagem, definem o que lhe vai na alma e que se propaga e se repete nos peitos sofridos de tantos portugueses. Clamam, imploram justiça, e impotentes ficam com as cinzas de um ano de trabalho e com as imagens de terror dos momentos que viveram, nestes dias. Lamentavelmente, friamente, como quem vira a página, começa já a ouvir-se papaguear, frases feitas onde em todas elas a palavra planeamento e ordenamento, não falham. Porem, falham as palavras, sentimento, dor, participação das pessoas, das populações, especialmente atingidas. As Câmaras até se apressam a intimar os particulares para limpar 50 metros em torno das casas mas, se a propriedade é sua, cadê a regra?

Beijinhos solidários e desculpe-me este alongamento.

Daniela e muitos mais

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