Baú de Recordações - Rescaldos, na primeira pessoa.

Era uma vez um pequeno paraíso terreal na encosta de uma serra sob a guarda de Nossa Senhora da Azinheira.
Sentíamos neste pedacinho de céu o lugar de merecido descanso em plena natureza num viver bucólico e singular, apenas na companhia dos nossos animais de estimação. Este universo feliz completava-se com a chegada dos nossos filhos ao fim de semana.
Esta foi a nossa opção de vida, marcadamente regida pela vontade de não fazer mal a ninguém nem mesmo aos pequenos seres vivos que nos rodeiam. Em vez de pisar uma formiga damos a volta e deixamo-la entregue aos seus afazeres.
Rodeados de uma bela paisagem campestre, colada ao coração do Douro vinhateiro, ela traz-nos muitos momentos de felicidade.
No Verão, pela calada da noite, sentada cá fora no quintal, não me canso de contemplar o firmamento embevecida com a beleza das estrelas tentando catalogá-las dentro do meu parco conhecimento astral. E, reparar no seu diferente posicionamento com o decorrer do ano, também tem o seu encanto, procurando-as no espaço à roda da casa.
- AH! Olha a Cassiopeia agora está ali!
Nessas noites de solidão fazem-me companhia os sons nocturnos dos animais como o coaxar das rãs lá em baixo nas lagoas, o grilar incessante destes bicharocos barulhentos, o piar da coruja ou do mocho e o sussurrar da ramagem dos pinheiros bravos que quase me cobrem na penumbra dos seus ramos nas tépidas noites serranas.
No Inverno ao braseiro da fogueira acesa, chega-me aos ouvidos a música do rumorejar rezingão do vento vadio que se acoita por entre os troncos das árvores e aqui fica perdido ou achado aos pés da Virgem que nos acolhe. São bravias as noites nessa estação. Enruga-se a terra de frio com o cair das geadas, tolhem-se as vozes das aves cantoras num silêncio de resignação, e quando os pios da coruja vêm até mim nestas noites nebulosas, não falta quem diga que auguram a “passagem “de alguém da vizinhança. Crenças. A mim fazem-me companhia e dão-me a saber que na negridão do Inverno há quem como eu, esteja de vela.
Quando o manto da neve se abate silenciosamente e nivela na sua palidez as diferentes camadas de solo, traz a placidez à alma e aquieta-se tudo à volta rendido a esta beleza frágil e serena.
Na Primavera, rebenta tudo em flor, desde os cardos do monte aos borbotões de verde no jardim à volta da minha casa. Esplêndidos cheiros se evolam e perfumam o ambiente e até o incómodo pólen dos pinheiros nos lembra a renovação da natureza. Sacudimos o torpor do longo Inverno e o sangue pulsa mais leve nas veias. Ao abrir as janelas na manhã fresca e radiosa, somos de novo mais jovens e temos outra vez coragem de levar a vida.
Foi este viver que escolhemos.
Os anos passaram e pouco a pouco os ecos da civilização foram penetrando serra dentro, criando ruas e espaços familiares onde primeiro nada havia. Fomos os pioneiros.
Cercam-nos agora viçosos e rudes pinheiros que em dez anos se transformaram em enormes traves e que no seu desenvolvimento, à lei da natureza, taparam como uma espessa cortina a paisagem em redor. Apenas sobrepujando as suas frondosas copas, se vêem ao longe o cinzento azul das montanhas e mal branquejam as pequenas povoações circundantes.
Foi pena!
E foi pena por mais do que este motivo.
Na estação primaveril, infestam-se de lagartas processionárias e ficam por elas consumidos em tons de vermelho queimado que faz dó. Gosto delas mas preciso de acautelar a saúde dos meus cães a quem podem causar a morte e a nós graves alergias.
Ainda não é tudo.
Quando, fazendo jus às palavras do escritor Miguel Torga, a moderação deste clima se transforma nos calores infernais do Verão, eis que o nosso paraíso deixa de o ser e é mais causa de desassossego e insegurança que outra coisa. Todos os Verões que Deus deita ao mundo são para nós tempo de vigília e preocupação.
Como para provar esta minha declaração, de Sábado para Domingo e de Domingo para Segunda vivemos aqui horas de intenso medo e mesmo terror. E nunca melhor dizendo porque se estes fogos não foram actos de terrorismo, expliquem-me lá o que foram.
Alguém se assanhou com o nosso Conselho ainda com retalhos verdejantes, que tem passado mais ou menos incólume, deu asas ao seu instinto predador e o transformou num braseiro.
Povoações, pessoas e bens postos em causa pela mão de alguns criminosos, que ainda por cima logo serão postos em liberdade por via de algum julgamento incompetente que assim os exime de pagarem caro o mal que fazem voluntariamente a tantos.
Só não se sente quem não é de boa gente. E eu estou sentida e indignada porque no pavor de ver carregar sobre nós e a nossa casa um tsunami de fogo abismal, ficámos impotentes, tendo apenas entre ambos uma barreira humana, tão frágil, que é essa elite chamada “bombeiros” e que na hora da verdade, não vira costas antes encara o fogo apocalíptico que ameaça a nossa vida e os nossos pertences.
Em duas ocasiões vimos quase perdida a batalha e aquela onda tenebrosa de chamas cavalgando por cima de corta-matos, de crista em crista de pinheiro, rugindo bestialmente, embicou em direcção à minha casa.
Foi quando nos vimos aconselhados a termos tudo preparado para uma possível evacuação.
Salvar carros e preparar os animais para os tirar daqui foram as primeiras medidas, mas quando um familiar me disse que tirasse de casa aquilo que para mim tinha mais valor, petrifiquei.
Gostaria de ter o engenho e arte necessários para vos poder mostrar o que é chegar a esta hora!
Com as lágrimas a deslizarem quentes e salgadas pelo rosto, não soube o que salvar.
Pois se tudo é tão importante para nós, o que trazia? As fotos dos meus filhos, o registo do seu crescimento, as diferentes fases da sua vida?
A travessa de louça da minha bisavó, única herança do passado? O quadro da Crucificação que tanto representa para mim? A mobília do meu casamento?
O quê, por Deus? O quê?
Pressionada, lá consegui ir buscar os documentos e ainda com ajuda, peguei numas calças e blusa e numa camisola para o Raul e…meti tudo num saco plástico a que juntei um saco de papel rasgado (!) que zelosamente dobrei e guardei junto destas peças de roupa!
Nem sequer me lembrei duma mala ou dum saco de viagem. Duns sapatos, porque estava de chinelos; duma muda de roupa interior. Nada! Também, nesta hora, dada a riqueza dos meus futuros haveres, qualquer saco plástico serviria.
E, no último olhar que deitei à minha casa antes de vir cá para fora, toda a amargura, toda a saudade de uma vida, todo o atroz sofrimento, deixei – os impregnados nas paredes do lar que ia deixar para trás, coagida por este incêndio devastador que assim nos atingia estando nós inocentes (falo só por mim, mas, e os outros?).
Não sei se consegui passar - vos, pelo menos um pouco, o tormento que aqui vivemos. Muito ainda vos poderia dizer, mas vai longa a conversa.
Porém…
Ainda não ardeu tudo. Quando seremos confrontados de novo com mais este flagelo?
Até que alguém, alegadamente insano, volte a pegar numa caixa de fósforos e queira fazer de nós bodes expiatórios de culpas que não temos de pagar?
E o que ficou?
Além do negro e da cinza que fazem agora parte do meu horizonte visual, as cicatrizes da terra queimada, violentada.
Ficou a incerteza, a consciência mais vívida do que ainda pode acontecer; a insegurança deste lugar tão apetecido que escolhemos para morada e que já mostrou, se pode tornar no fim de um sonho, um pesadelo, acordados.
Resta-nos ainda o protesto do corpo sujeito a este desgaste.
Depois das dores físicas, chegou agora a letargia que nos faz arrastar pela casa, cansados, olhar vigilante, não vá ainda encontrar-se focos de incêndio no rescaldo deste dia de penitência.
Um OBRIGADO imenso a todos os que combateram este combate,à Proteção Civil, às corporações de bombeiros aqui presentes, que deixaram de ser para nós anónimos em cada uma das suas corporações, porque lhes vimos os rostos, o cansaço, a sede, a juventude e a coragem indómita de enfrentar o perigo.
Ou não tivessem sido eles o escudo da nossa protecção!
Anjos da guarda.
Deus os ajude.