Baú de Recordações - Histórias de Celeirós do Douro

1ª- Era a primeira infância dos meus filhos e nessa altura estava connosco a minha irmã que já era uma mulherzinha.
Vivíamos em Celeirós, no Cêrro, e com o Outono chegara também o frio e a casa era gelada.
O meu marido tinha adaptado na cozinha um fogão a bagaço ou casca de amêndoa que apenas aquecia o espaço onde estava, mas pelo menos no quarto das crianças as paredes tornavam-se mais secas e menos frias.
Era um fogão que quando tinha bom combustível chegava a ficar em brasa mas custava muito a acender.
Ainda tínhamos um pouco de bagaço do Inverno passado e por isso, embora sozinha, eu queria acendê-lo. Em casa nunca faltavam jornais quando o Raul estava, mas naquela altura não havia nenhum e eu precisava deles para iniciar a combustão.
Disse então à minha irmã que fosse a um estabelecimento da aldeia comprar um kilo deles, pois que uma vez acaso o fogão nas vezes seguintes acender-se-ia muito melhor e aquela quantidade chegava por uns dias.
Cabe agora aqui dizer que o dono dessa venda tinha a fama de ser um pouco agarrado ao dinheiro chegando mesmo à sovinice. A mim, é como diz o outro, logo que não me prejudicasse tanto se me dava. E não tinha razão de queixa, é a verdade, de modo que nos ríamos quando nos contavam mais uma, desse personagem que Deus haja.
Eu dizia cá para mim que ainda não deveria ser bem assim porque o “povo” posto a falar…
Bem, mando então buscar os jornais e dado o tempo necessário para a ida e a volta, lá me aparece a subir as escadas a correr, a minha irmã. Abriu a porta e morta de riso conta-me então o que tinha presenciado.
O senhor… pusera os jornais na balança para prefazer a quantidade que eu tinha pedido. Cheio de conversa virou-se para a minha irmã e disse-lhe:
-Ora aqui está um kilo bem pesado.
A garota leva as mãos à balança para pegar nos jornais e quando já os trazia num braçado ele tira-lhos, vai à página de cima que era uma meia folha e rasga-lhe outra metade que foi a seguir guardar junto dos que tinha para ele.
Pasmada a minha irmã sai pela porta fora e vem a correr para me contar.
Fartamo-nos de rir. Não era por aquilo que eu ficava mais pobre.
Nem ele mais rico, mas pôde mais nele a força do amealhar.
2ª-Pela mesma altura andava entusiasmada nos meus tricôs mas como o tempo era pouco e tinha muito que fazer (dava aulas em Paradelinha), a renda andava dum lado para o outro, pousa aqui, pousa ali. Por causa disso em qualquer sítio me caiu a agulha que não houve meio de a encontrar.
Diz-se até que hão - de aparecer as coisas quando menos contarmos com elas e já não forem precisas. Assim foi.
Era a um Sábado e eu pensei que não queria passar o fim - de - semana sem ter nada com que me entreter. Mais uma vez lá vai a minha irmã ao povo ao tal estabelecimento comprar-me uma agulha de tricotar.
Quando regressou eu descobri que se tinha enganado no número e que aquela me não servia.
Pedi-lhe então para a ir trocar.
Pouco depois aparece-me de volta mas com uma cara comprometida com a agulha na mão.
-Que é que foi?
-Ele não me trocou a agulha.
-Não te trocou a agulha? Porquê?
- Diz que a agulha vindo a casa do cliente enferruja. Se quiseres outro número vais ter que comprar uma agulha nova!
-Quê?
-Olha foi o que ele me disse e mandou-me embora que viesse buscar o dinheiro para outra.
-Essa agora !!! É a primeira vez na vida que oiço uma coisa dessas e olha que já comprei muita agulha …!
-Pois é, mas foi assim mesmo.
Desta vez não consegui achar nenhuma piada àquilo.
Resultado: não fiz renda todo o fim - de - semana mas não voltei a comprar lá agulha nenhuma.
Vamos que se enferrujassem?
E com estas duas peripécias compreendi então que talvez não fossem só vozes que se ouviam.
Mais tarde soube outras anedotas que fizeram história lá por Celeirós e arredores.
“Onde há fumo há fogo “, não é assim que diz o ditado?
Pois…