SOL

Baú de Recordações - A ileia...

 

 

 

Foi o vento o causador.

Todo o ano rugiu e sacudiu e esparramou por toda a minha casa folhas, agulhetas de pinheiro, terra, papéis…sei lá o quê!

Não contente, arremetia contra os meus lindos pinheiros do quintal e esgaça daqui esfandega dali tudo nos fazia crer poder estar iminente uma desgraça que se traduziria na queda de algum deles para o telhado vizinho e vá daí termos que meter a mão ao bolso e chegarmo-nos à frente. Haveria de ser cá uma conta calada!

Não havia noite de temporal que conseguíssemos cerrar olhos antecipando o estrondo do pinheiro a tombar.

Assim que mais remédio não tivemos que deitá-los abaixo pese embora a grande tristeza que tive pois estes anos todos os acarinhei e os vi crescer fortes e saudáveis.

Quatro pinheiros no chão e toda a rama para se queimar pois quem os levou não a quis e nós não somos de juntar mais combustível à mata aqui do lado.

Veio o homem para acarretar a rama enquanto eu a punha a arder no recinto posterior da casa.

O sr Manuel, pequeno e enrugado, mas rijo como a cepa de uma videira velha, trabalha que se farta e merece cada tostão que recebe não se importando com o excesso de peso para a sua idade. Ele sente-se forte e gosta de competir, sem se ficar, com os bem mais novos.

Estava a dar-lhe pouco resultado levar braçados de lenha pelo que se vira para mim e me diz:

-Se a Senhora tivesse por aí uma ileia...é que eu quero levar o móni mas não quero que os patrões digam que eu não fiz nada.

Senti mesmo a minha memória girar 360º.

Não fora eu menina de aldeia dos anos cinquenta e o senhor Manuel não ia servido. Mas este simples facto dá para eu entender o seu antigo modo de falar e lá vim então com a ileia para lhe dar.

- Ah assim está bem! Vai a Senhora ver com agora rende mais o trabalho.

E deitando a ileia no chão trata de lhe pôr em cima gabelas da rama espalhada por todo o lado.

Creio que já sabem de que tratava mas, mesmo assim não querendo que me julguem egoísta, digo-vos que uma ileia não é nem um baraço, nem uma guita, nem mesmo uma corda. Fica entre estas duas. É uma corda fina da grossura de um dedo mindinho que por feliz coincidência, ou se calhar não, faz parte do acervo da minha casa.

Embora a minha memória já esteja um pouco selectiva (maneira delicada de dizer… senil) serve-me às vezes muito bem nestas alturas domésticas. Mas vá que eu me queira exibir e fazer um brilharete em sociedade  falando de algo que eu até sei, e ela, não me prega a partida?

È mesmo para me remeter à humildade que deveria ter.

Por isso lembro-me quando, em pequenita, ouvi pela primeira vez este termo “ileia”.

Foi uma história contada pela minha mãe que Deus haja, sentadas ambas à lareira da minha cozinha.Era assim:

No mês de Maio florido quando os dias longos convidam a grandes afazeres, uma velhota da minha terra (Vilar de Maçada) resolveu ir buscar com que estrumar a loja dos recos  e, nem curta nem preguiçosa, tirou o avental de riscado, fez com ele uma rodilha que pôs na cabeça e pousou-lhe em cima a podôa, pondo-se a caminho. Ia com as mãos livres para partir e comer as nozes que levava no bolso.

Pelas ruas fora ia dando as boas tardes e quando chegou à minha porta estavam duas vizinhas sentadas ao soalheiro, ponteando meias e pondo remendos nas calças dos netos.

-Boa tarde! Aí bem se está! Apanhai-lo todo!

-É verdade, estamos mesmo a apanhar uma reçazinha. Assim com’assim, já que temos de remendar, pelo menos, olha, consolamo-nos de sol. E tu onde vais?

- Vou ali perto da Marinha Moira buscar um molho de gestas para a loja dos animais. – E levando a mão à cabeça para tirar a podôa…

- Ai que cabeça esta! Então não é que me esqueci das cordas. Ó Maria empresta-me aí umas para eu não voltar atrás.

-Cordas não tenho, amanhas-te com uma ileia?

- Então não amanho?

Já servida virou-se para as outras duas:

- Vinde vós daí também.

- Até íamos mas tu demoras-te muito….

- Não, vamos e viemos num instante porque eu também já não posso carregar muito. São só umas gabelas.

E lá foram elas pelo caminho do Zé António até à estrada descendo para a quinta.

Pelo caminho iam conversando e recordando o seu tempo de moças porque já na casa dos setenta sabiam bem das saudades que essa época lhes trazia.

Tinham criado os filhos e eram agora os netos que lhes davam canseiras. Na verdade estragavam -nos com o mimo, dando-lhes à sucapa rebuçados uns atrás dos outros ou qualquer outra lambisquice que tivessem à mão.

(-Ó mãe não lhes esteja a dar isso. Depois deixam a comida nos pratos e enchem-se de lombrigas.

-Ora, deixa lá. É só uma vez por outra.)

Nestes entreténs pelo quelho abaixo, ouvem de repente tocar o sino em Parada do Pinhão.

Entreolham-se e pergunta uma delas:

-Tocam os sinos em Parada. Que será?

Muito lesta e presumida responde uma das outras fazendo biquinho:

- É a casar velhas de boca pequenina!

E é claro que a minha mãe fazia biquinho como a velhota sem me explicar mais nada subentendendo que eu percebia.

Mas eu, nicles, não percebi patavina da conversa sem no entanto a esquecer até que cresci o suficiente para perceber a  picardia da historieta.

Pois quando o sr Manuel me falou da ileia foi, sem tirar nem pôr, aqui a esta circunstância que me transportou a minha memória.

E sabem que mais? Gostei de recordar. Afinal destas e de outras lembranças se forja o nosso passado e as raízes de quem somos.

 

Publicação: quinta-feira, 4 de Novembro de 2010 17:56 por aserrana

Comentários

# re: Baú de Recordações - A ileia...

quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010 19:15 por OlindaGil

Feliz 2011

Com saúde, dinheiro e amor.

Beijinhos

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