ANGOLA - Viagem a Benguela
Sei que muitas pessoas conseguem ter recordações bem remotas .
Eu não me lembro de grandes coisas da minha primeira infância.
Esta será uma dessas raridades dado que se alonga no tempo até lá pelos meus seis anitos.
Cabe-me primeiro esclarecer que, nos meus primeiros anos, isto é, até aos quatro, vivi em Angola terra onde vi a luz do mundo entre grandes sobressaltos da minha mãe no isolamento do “mato” à data desse acontecimento.
Com aquela idade viemos a Portugal não só para o meu baptismo, mas também para recuperação da saúde de minha mãe que se não dava em terras ultramarinas, tão longe do seu “Puto” natal.
Já em Portugal, houve tempo para a minha pobre mãe sofrer nova vicissitude ao ver morrer a minha irmã pouco mais nova que eu.
Ela que já vinha fraca, foi-se ainda mais abaixo, de modo que os médicos não a deixaram embarcar de regresso a Angola onde o meu pai esperava e desesperava por nós. De modo que eu já tinha seis anos quando voltámos para o Marco de Canavezes, pequena povoação do Cubal com uma estação dos caminhos – de - ferro, que passava a escassos metros de minha casa e meia dúzia de outras habitações. Junto da minha, apenas recordo dois vizinhos, o Toninho da Senhora Francisca, de Vilar de Maçada, cujo muro lateral era comum com o meu, e outra casa colada ao meu quintal, nas traseiras, todas fazendo concorrência comercial ao meu pai. Mas davam-se bem como vizinhos, porque o negócio chegava para todos quero crer, olhando agora com os meus olhos adultos.
Mais afastada da minha, havia pelo menos a moradia do chefe do caminho - de- ferro, entre viçosas palmeiras, mas onde eu nunca me atrevi a ir por ser muito pequenita e porque nesse caminho havia enormes formigas de que eu tinha pavor.
Lembro-me vagamente do navio onde fizemos essa primeira viagem. Era da Companhia Colonial de Navegação e seria ou o Santa Maria, o Infante D. Henrique, o Angola, o Infante Santo ou outro onde embarcávamos em Lisboa para uma viagem de doze ou quinze dias.
Das outras viagens já me lembro melhor.
O que me recordo bem foi da calorosa recepção do meu pai, embora ensombrada pela ausência da minha mana que já não era deste mundo. De camisa de manga curta branca aberta no peito pelo menos dois botões, de chapéu na cabeça resguardando a careca, assim nos recebia sempre no cais de desembarque. Também nós nos ataviávamos com roupas frescas e as nossas peles pálidas levantavam sorrisos de compreensão :
-Vêm de Portugal!
Das poucas coisas que a minha mãe gostava em África a mais apetecida era o marisco, porque em Portugal se não alcançava e lá era o que se sabe, e a minha progenitora tinha-se deixado habituar a ele. Assim que, logo que chegávamos, descarregadas as malas que vinham no porão e postas na carrinha Chevrolet que o meu pai possuía, íamos direitinhos a uma esplanada - marisqueira e aí a minha mãe matava saudades do camarão de que tanto gostava, bem acompanhado com uma cerveja fresca Impala ou Palanca Negra.
E este ritual repetia-se sempre que chegávamos da Metrópole (três vezes pelo menos).
Depois rumávamos a caminho de casa lá no Marco.
Por lá ficávamos um tempo, os meus pais lutando pela vida e eu aprendendo a crescer, até que a minha mãe tinha de voltar a Portugal para tratar da saúde que rapidamente se lhe esvaía no calor tropical, longe das serras da sua juventude cuja lembrança mais lhe acabrunhava a alma.
Vivíamos então do comércio e para abastecer a casa tínhamos de ir ao Cubal, digamos que era a cidade mais próxima de nós. Lembro-me que era uma povoação alegre e aberta já bastante evoluída se comparada com a pequena aldeia de onde eram oriundos os meus pais e que eu considero como a minha terra: Vilar de Maçada, Trás – os – Montes.
No Cubal havia de tudo o que precisávamos: cabeleireiros, modistas, sapateiro ( o senhor Ezequiel que me fazia os meus lindos sapatinhos e sandálias de tiras à medida, porque o “pret à porter” nem sonhado ainda era). Havia ainda os colégios, um dos quais eu fui frequentar no ano seguinte e que era o Colégio de Santa Filomena.
Recordo-me também dum jardim em frente ao meu colégio, do outro lado da rua e que pertencia ao caminho – de – ferro, onde eu só entrava pelo buraco da rede, esgueirando-me do colégio onde era interna com apenas sete aninhos. O parque era privativo e os guardas constantemente reparavam a rede que alguém de noite voltava a cortar e por ela furávamos nós para desfrutar dos baloiços do parque alheio.
Como me lembro bem disso e de como uma vez me magoei valentemente e não pude pedir ajuda porque os donos do colégio (o Sr. Vitor e a esposa), não sonhavam sequer que nós fugíamos para o Parque! Cheguei dessa vez a casa com grandes hematomas e foi assim que o director do colégio descobriu a marosca, porque inocentemente o meu pai lhe contou. Acabaram-se as fugas e o divertimento!
Já nessa altura existia no Cubal um Clube, coisa fina da sociedade cubalense, onde se faziam passagens de modelos e eleição de misses!
Claro que nós vivíamos em pleno “mato”. Na minha ideia, pelo tempo que demorávamos a chegar, devia ser à distância de uma hora. Eu vinha passar os fins de semana a casa. Ou ia o meu pai buscar-me ou ia o nosso alfaiate o Abel, um mestiço alto e magro de quem os meus pais eram amigos, patrões e compadres.
Voltando ao assunto, para as grandes compras, suponho, era preciso ir a Benguela.
Nessas alturas a minha mãe afoitava-se a ir também porque era um grande passeio e ia ver o mar que no barco detestava, mas de quem em terra, tinha saudades.
Eram pelo menos três dias.
Saímos no primeiro de madrugada, com o cacimbo baixo e eu fazia a viagem adormecida entre o meu pai e a minha mãe na cabine da velha Chevrolet de caixa aberta onde se transportavam as mercadorias.
Aquilo era um carro todo o terreno que rompia pelas picadas fora sem temor e sem nos deixar ficar mal! Sim, na altura poucas estradas abertas havia e mesmo a que levava a Benguela, que devia ser a estrada principal, era em terra batida, que me recordo muito bem.
Bem da viagem não me lembro nada. Do que me recordo e sempre permanecerá na minha memória é que à hora de almoçar eu me encontrava no meio do mato com os meus pais, sentados à volta de uma pequena fogueira, onde a minha mãe tinha dois tachos de alumínio:
-Num cozia umas batatas e noutro…aaah, no outro é que estava o segredo!
Na noite anterior, a matriarca assaltara o pombal e trouxera uns borrachos que tinha estufado num tacho com cebola às rodas, alho e louro.
Quando o calor do lume começava a aquecer o estufado, desprendia-se do tacho um aroma de dar ânimo aos mortos e eu, que hoje sou totalmente avessa a comer este tipo de aves, na época regalava-me com o acepipe e o meu pai, esse então, adorava.
Lembro-me até de ensopar no molho que a minha mãe despejava nos nossos pratos, pequenos pedaços de pão que eram uma delícia!
Sempre que uso a mesma receita para cozinhar carne, esta evocação bucólica da mata na paragem para o almoço, assalta os meus pensamentos e ainda que o prato não esteja pronto, já as minhas papilas gustativas recuperam o sabor de então e espero ansiosamente a hora de me sentar à mesa. Mas não é a mesma coisa!
Ao lembrar, com tanta saudade, estes momentos, ”sinto-me” ainda lá, rodeada dos troncos finos das árvores, provavelmente embalada pelo trinar das avezitas fugidias, o sol envolvendo a minha pele no bom clima tropical que anelo.
Para o céu azul se escaparia então o meu olhar, por entre as copas frondosas e, era para mim reconfortante, aquele lugar. Na época, só a certeza do afecto e protecção dos meus pais me fazia falta, daí lembrar-me desses episódios com carinho.
Chegados à grande cidade procurávamos um hotel e eu deliciava-me andando para cima e para baixo no elevador, e tanto subi e desci que uma vez fiquei lá dentro fechada e só a poder de muito gritar me encontraram, episódio que em vingança da minha traquinice, me deixou sequelas para sempre porque sofro de claustrofobia.
O segundo dia era de compras e no terceiro regressávamos comigo sossobrando uma nova boneca para casa.
Eram já lindas, com cabelo verdadeiro penteado aos caracóis como usavam as crianças. Um luxo! Mas eu era filha única e os meus pais estavam bem na vida!
Não era a única ocasião em que eu tinha prendas.
No Natal ou nos meus anos, recebia lindos brinquedos e mais bonecas que o meu pai, se não podia, mandava o Abel ir buscar a Benguela.
Da modista (Dª Lurdinhas) do Cubal, chegavam-me lindos vestidos bordados ou não, acompanhados pelas combinações de tecido do mais fino. As meias, chamavam-se então “soquettes”, a condizer e os sapatinhos personalizados faziam de mim uma princesinha. Só da minha casa está certo, mas isso agora também não importa nada.
Hoje ao abrir o jornal vi um artigo que se referia a Benguela.
É ainda um pouco a minha terra. Bateu fundo a saudade e, a força das recordações, fez o resto.
Como posso esquecer se fui lá tão feliz?
Quando pela mão do Abel ia à senzala e lá, sentada no chão com os seus filhos, me empanturrava de pirão comido com os dedos, acompanhado com molho de peixe, havia lá coisa melhor no mundo?
São assim as minhas parcas recordações desta época.
Foram no entanto elas que me ajudaram a ser quem sou.
Trazendo comigo a sensibilidade e o calor das terras africanas que me viram nascer e a simplicidade do mundo rural transmontano que me adoptou.
Esta, sou eu.