SOL

Vilar de Maçada de luto

 

 Vilar de Maçada de luto

 

 

 Quando na Segunda - feira o sol se levantou por cima do Senhor da Capelinha, não foi para anunciar uma semana auspiciosa a Vilar de Maçada.

Infelizmente não.

Nestes primeiros dias da semana a povoação amanheceu vestida de luto, primeiro pelo falecimento do Sr. Arquitecto Fernando Pinto de Sousa, pessoa estimada por todos e, particularmente, por aqueles que privavam mais com ele.

Vivendo longe da terra, aqui, por força do destino, veio a falecer vítima de desditoso acidente.

À família enlutada os meus sentidos pêsames.

 

Hoje mesmo, Quarta – feira, têm os vilar-de-maçadenses de sofrer outra despedida. Uma despedida que envolve emocionalmente todos os habitantes desta Vila, pois tirando as crianças nascidas há menos de uma década, os outros foram baptizados ou casados e receberam os sacramentos pelas mãos deste grande amigo que agora se nos foi: o Senhor Padre Hermínio Chaves.

Não era um filho da terra porque aqui não nasceu, mas foi um filho do coração, adoptado por todos com muito respeito e carinho. Quase toda a sua vida foi passada aqui e quando há alguns anos partiu para a terra de sua naturalidade, apenas a distância o ficou a separar de nós, porque da nossa lembrança, do nosso coração, nem isso o afastou.

Estamos de luto pelo nosso querido pároco de toda a vida.

Nesta hora de despedida que não será para sempre mas um”até breve”, eu, que por motivos de saúde não irei ao seu funeral, lembro com ternura talvez as primeiras palavras que lhe dirigi no dia do meu baptizado, aos 4 anos de idade:

-Senhor Padre Hermínio, não molhe o meu laço.

Precisamente vinte anos depois, foi ele também que abençoou o meu matrimónio.

Hoje, com saudades, despeço-me com uma prece:

-Que os Anjos do Céu o recebam e o Senhor lhe dê o descanso Eterno.

 

 

A toda a sua família particularmente aos meus amigos de há tantos anos, Lurdes, Hermínio, Zé Luís, Filomena e D. Lúcia, a todos vós, os meus e os do meu marido sentidos pêsames, nesta hora da vossa dor, assim com sei que representam estas condolências o sentir de todo este  Povo que também é vosso.

 

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ANGOLA - Viagem a Benguela

 

Sei que muitas pessoas conseguem ter recordações bem remotas .

Eu não me lembro de grandes coisas da minha primeira infância.

Esta será uma dessas raridades dado que se alonga no tempo até lá pelos meus seis anitos.

Cabe-me primeiro esclarecer que, nos meus primeiros anos, isto é, até aos quatro, vivi em Angola terra onde vi a luz do mundo entre grandes sobressaltos da minha mãe no isolamento do “mato”  à data desse acontecimento.

Com aquela idade viemos a Portugal não só para o meu baptismo, mas também para recuperação da saúde de minha mãe que se não dava em terras ultramarinas, tão longe do seu “Puto” natal.

Já em Portugal, houve tempo para a minha pobre mãe sofrer nova vicissitude ao ver morrer a minha irmã pouco mais nova que eu.

Ela que já vinha fraca, foi-se ainda mais abaixo, de modo que os médicos não a deixaram embarcar de regresso a Angola onde o meu pai esperava e desesperava por nós. De modo que eu já tinha seis anos quando voltámos para o Marco de Canavezes, pequena povoação do Cubal com uma estação dos caminhos – de - ferro, que passava a escassos metros de minha casa e meia dúzia de outras habitações. Junto da minha, apenas recordo dois vizinhos, o Toninho da Senhora Francisca, de Vilar de Maçada, cujo muro lateral era comum com o meu, e outra casa colada ao meu quintal, nas traseiras, todas fazendo concorrência comercial ao meu pai. Mas davam-se bem como vizinhos, porque o negócio chegava para todos quero crer, olhando agora com os meus olhos adultos.

Mais afastada da minha, havia pelo menos a moradia do chefe do caminho - de- ferro, entre viçosas palmeiras, mas onde eu nunca me atrevi a ir por ser muito pequenita e porque nesse caminho havia enormes formigas de que eu tinha pavor.

Lembro-me vagamente do navio onde fizemos essa primeira viagem. Era da Companhia Colonial de Navegação e seria ou o Santa Maria, o Infante D. Henrique, o Angola, o Infante Santo ou outro onde embarcávamos em Lisboa para uma viagem de doze ou quinze dias.
Das outras viagens já me lembro melhor.

O que me recordo bem foi da calorosa recepção do meu pai, embora ensombrada pela ausência da minha mana que já não era deste mundo. De camisa de manga curta branca aberta no peito pelo menos dois botões, de chapéu na cabeça resguardando a careca, assim nos recebia sempre no cais de desembarque. Também nós nos ataviávamos com roupas frescas e as nossas peles pálidas levantavam sorrisos de compreensão :

-Vêm de Portugal!

Das poucas coisas que a minha mãe gostava em África a mais apetecida era o marisco, porque em Portugal se não alcançava e lá era o que se sabe, e a minha progenitora tinha-se deixado habituar a ele. Assim que, logo que chegávamos, descarregadas as malas que vinham no porão e postas na carrinha Chevrolet que o meu pai possuía, íamos direitinhos a uma esplanada - marisqueira e aí a minha mãe matava saudades do camarão de que tanto gostava, bem acompanhado com uma cerveja fresca Impala ou Palanca Negra.

E este ritual repetia-se sempre que chegávamos da Metrópole (três vezes pelo menos).

Depois rumávamos a caminho de casa lá no Marco.

Por lá ficávamos um tempo, os meus pais lutando pela vida e eu aprendendo a crescer, até que a minha mãe tinha de voltar a Portugal para tratar da saúde que rapidamente se lhe esvaía no calor tropical, longe das serras da sua juventude cuja lembrança mais lhe acabrunhava a alma.

Vivíamos então do comércio e para abastecer a casa tínhamos de ir ao Cubal, digamos que era a cidade mais próxima de nós. Lembro-me que era uma povoação alegre e aberta já bastante evoluída se comparada com a pequena aldeia de onde eram oriundos os meus pais e que eu considero como a minha terra: Vilar de Maçada, Trás – os – Montes.

No Cubal havia de tudo o que precisávamos: cabeleireiros, modistas, sapateiro ( o senhor Ezequiel que me fazia os meus lindos sapatinhos e sandálias de tiras à medida, porque o “pret à porter” nem sonhado ainda era). Havia ainda os colégios, um dos quais eu fui frequentar no ano seguinte e que era o Colégio de Santa Filomena.

 Recordo-me também dum jardim em frente ao meu colégio, do outro lado da rua e que pertencia ao caminho – de – ferro, onde eu só entrava pelo buraco da rede, esgueirando-me do colégio onde era interna com apenas sete aninhos. O parque era privativo e os guardas constantemente reparavam a rede que alguém de noite voltava a cortar e por ela furávamos nós para desfrutar dos baloiços do parque alheio.

 Como me lembro bem disso e de como uma vez me magoei valentemente e não pude pedir ajuda porque os donos do colégio (o Sr. Vitor e a esposa), não sonhavam sequer que nós fugíamos para o Parque! Cheguei dessa vez a casa com grandes hematomas  e foi assim que o director do colégio descobriu a marosca, porque inocentemente o meu pai lhe contou. Acabaram-se as fugas e o divertimento!

Já nessa altura existia no Cubal um Clube, coisa fina da sociedade cubalense, onde se faziam passagens de modelos e eleição de misses!

Claro que nós vivíamos em pleno “mato”. Na minha ideia, pelo tempo que demorávamos a chegar, devia ser à distância de uma hora. Eu vinha passar os fins de semana a casa. Ou ia o meu pai buscar-me ou ia o nosso alfaiate o Abel, um mestiço alto e magro de quem os meus pais eram amigos, patrões e compadres.

 Voltando ao assunto, para as grandes compras, suponho, era preciso ir a Benguela.

Nessas alturas a minha mãe afoitava-se a ir também porque era um grande passeio e ia ver o mar que no barco detestava, mas de quem em terra,  tinha saudades.

Eram pelo menos três dias.

Saímos no primeiro de madrugada, com o cacimbo baixo e eu fazia a viagem adormecida entre o meu pai e a minha mãe na cabine da velha Chevrolet de caixa aberta onde se transportavam as mercadorias.

 Aquilo era um carro todo o terreno que rompia pelas picadas fora sem temor e sem nos deixar ficar mal! Sim, na altura poucas estradas abertas havia e mesmo a que levava a Benguela, que devia ser a estrada principal, era em terra batida, que me recordo muito bem.

Bem da viagem não me lembro nada. Do que me recordo e sempre permanecerá na minha memória é que à hora de almoçar eu me encontrava no meio do mato com os meus pais, sentados à volta de uma pequena fogueira, onde a minha mãe tinha dois tachos de alumínio:

-Num cozia umas batatas e noutro…aaah, no outro é que estava o segredo!

Na noite anterior, a matriarca assaltara o pombal e trouxera uns borrachos que tinha estufado num tacho com cebola às rodas, alho e louro.

Quando o calor do lume começava a aquecer o estufado, desprendia-se do tacho um aroma de dar ânimo aos mortos e eu, que hoje sou totalmente avessa a comer este tipo de aves, na época regalava-me com o acepipe e o meu pai, esse então, adorava.

Lembro-me até de ensopar no molho que a minha mãe despejava nos nossos pratos, pequenos pedaços de pão que eram uma delícia!

Sempre que uso a mesma receita para cozinhar carne, esta evocação bucólica da mata na paragem para o almoço, assalta os meus pensamentos e ainda que o prato não esteja pronto, já as minhas papilas gustativas recuperam o sabor de então e espero ansiosamente a hora de me sentar à mesa. Mas não é a mesma coisa!

Ao lembrar, com tanta saudade, estes momentos, ”sinto-me” ainda lá, rodeada dos troncos finos das árvores, provavelmente embalada pelo trinar das avezitas fugidias, o sol envolvendo a minha pele no bom clima tropical que anelo.

Para o céu azul se escaparia então o meu olhar, por entre as copas frondosas e, era para mim reconfortante, aquele lugar. Na época, só a certeza do afecto e protecção dos meus pais me fazia falta, daí lembrar-me desses episódios com carinho.

Chegados à grande cidade procurávamos um hotel e eu deliciava-me andando para cima e para baixo no elevador, e tanto subi e desci que uma vez fiquei lá dentro fechada e só a poder de muito gritar me encontraram, episódio que em vingança da minha traquinice, me deixou sequelas para sempre porque sofro de claustrofobia.

O segundo dia era de compras e no terceiro regressávamos comigo sossobrando uma nova boneca para casa.

Eram já lindas, com cabelo verdadeiro penteado aos caracóis como usavam as crianças. Um luxo! Mas eu era filha única e os meus pais estavam bem na vida!

Não era a única ocasião em que eu tinha prendas.

No Natal ou nos meus anos, recebia lindos brinquedos e mais bonecas que o meu pai, se não podia, mandava o Abel ir buscar a Benguela.

Da modista (Dª Lurdinhas) do Cubal, chegavam-me lindos vestidos bordados ou não, acompanhados pelas combinações de tecido do mais fino. As meias, chamavam-se então “soquettes”, a condizer e os sapatinhos personalizados faziam de mim uma princesinha. Só da minha casa está certo, mas isso agora também não importa nada.

Hoje ao abrir o jornal vi um artigo que se referia a Benguela.

 É ainda um pouco a minha terra. Bateu fundo a saudade e, a força das recordações, fez o resto.

Como posso esquecer se fui lá tão feliz?

Quando pela mão do Abel ia à senzala e lá, sentada no chão com os seus filhos, me empanturrava de pirão comido com os dedos, acompanhado com molho de peixe, havia lá coisa melhor no mundo?

São assim as minhas parcas recordações desta época.

 Foram no entanto elas que me ajudaram a ser quem sou.

Trazendo comigo a sensibilidade e o calor das terras africanas que me viram nascer e a simplicidade do mundo rural transmontano que me adoptou.

Esta, sou eu.

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Baú de Recordações - A ileia...

 

 

 

Foi o vento o causador.

Todo o ano rugiu e sacudiu e esparramou por toda a minha casa folhas, agulhetas de pinheiro, terra, papéis…sei lá o quê!

Não contente, arremetia contra os meus lindos pinheiros do quintal e esgaça daqui esfandega dali tudo nos fazia crer poder estar iminente uma desgraça que se traduziria na queda de algum deles para o telhado vizinho e vá daí termos que meter a mão ao bolso e chegarmo-nos à frente. Haveria de ser cá uma conta calada!

Não havia noite de temporal que conseguíssemos cerrar olhos antecipando o estrondo do pinheiro a tombar.

Assim que mais remédio não tivemos que deitá-los abaixo pese embora a grande tristeza que tive pois estes anos todos os acarinhei e os vi crescer fortes e saudáveis.

Quatro pinheiros no chão e toda a rama para se queimar pois quem os levou não a quis e nós não somos de juntar mais combustível à mata aqui do lado.

Veio o homem para acarretar a rama enquanto eu a punha a arder no recinto posterior da casa.

O sr Manuel, pequeno e enrugado, mas rijo como a cepa de uma videira velha, trabalha que se farta e merece cada tostão que recebe não se importando com o excesso de peso para a sua idade. Ele sente-se forte e gosta de competir, sem se ficar, com os bem mais novos.

Estava a dar-lhe pouco resultado levar braçados de lenha pelo que se vira para mim e me diz:

-Se a Senhora tivesse por aí uma ileia...é que eu quero levar o móni mas não quero que os patrões digam que eu não fiz nada.

Senti mesmo a minha memória girar 360º.

Não fora eu menina de aldeia dos anos cinquenta e o senhor Manuel não ia servido. Mas este simples facto dá para eu entender o seu antigo modo de falar e lá vim então com a ileia para lhe dar.

- Ah assim está bem! Vai a Senhora ver com agora rende mais o trabalho.

E deitando a ileia no chão trata de lhe pôr em cima gabelas da rama espalhada por todo o lado.

Creio que já sabem de que tratava mas, mesmo assim não querendo que me julguem egoísta, digo-vos que uma ileia não é nem um baraço, nem uma guita, nem mesmo uma corda. Fica entre estas duas. É uma corda fina da grossura de um dedo mindinho que por feliz coincidência, ou se calhar não, faz parte do acervo da minha casa.

Embora a minha memória já esteja um pouco selectiva (maneira delicada de dizer… senil) serve-me às vezes muito bem nestas alturas domésticas. Mas vá que eu me queira exibir e fazer um brilharete em sociedade  falando de algo que eu até sei, e ela, não me prega a partida?

È mesmo para me remeter à humildade que deveria ter.

Por isso lembro-me quando, em pequenita, ouvi pela primeira vez este termo “ileia”.

Foi uma história contada pela minha mãe que Deus haja, sentadas ambas à lareira da minha cozinha.Era assim:

No mês de Maio florido quando os dias longos convidam a grandes afazeres, uma velhota da minha terra (Vilar de Maçada) resolveu ir buscar com que estrumar a loja dos recos  e, nem curta nem preguiçosa, tirou o avental de riscado, fez com ele uma rodilha que pôs na cabeça e pousou-lhe em cima a podôa, pondo-se a caminho. Ia com as mãos livres para partir e comer as nozes que levava no bolso.

Pelas ruas fora ia dando as boas tardes e quando chegou à minha porta estavam duas vizinhas sentadas ao soalheiro, ponteando meias e pondo remendos nas calças dos netos.

-Boa tarde! Aí bem se está! Apanhai-lo todo!

-É verdade, estamos mesmo a apanhar uma reçazinha. Assim com’assim, já que temos de remendar, pelo menos, olha, consolamo-nos de sol. E tu onde vais?

- Vou ali perto da Marinha Moira buscar um molho de gestas para a loja dos animais. – E levando a mão à cabeça para tirar a podôa…

- Ai que cabeça esta! Então não é que me esqueci das cordas. Ó Maria empresta-me aí umas para eu não voltar atrás.

-Cordas não tenho, amanhas-te com uma ileia?

- Então não amanho?

Já servida virou-se para as outras duas:

- Vinde vós daí também.

- Até íamos mas tu demoras-te muito….

- Não, vamos e viemos num instante porque eu também já não posso carregar muito. São só umas gabelas.

E lá foram elas pelo caminho do Zé António até à estrada descendo para a quinta.

Pelo caminho iam conversando e recordando o seu tempo de moças porque já na casa dos setenta sabiam bem das saudades que essa época lhes trazia.

Tinham criado os filhos e eram agora os netos que lhes davam canseiras. Na verdade estragavam -nos com o mimo, dando-lhes à sucapa rebuçados uns atrás dos outros ou qualquer outra lambisquice que tivessem à mão.

(-Ó mãe não lhes esteja a dar isso. Depois deixam a comida nos pratos e enchem-se de lombrigas.

-Ora, deixa lá. É só uma vez por outra.)

Nestes entreténs pelo quelho abaixo, ouvem de repente tocar o sino em Parada do Pinhão.

Entreolham-se e pergunta uma delas:

-Tocam os sinos em Parada. Que será?

Muito lesta e presumida responde uma das outras fazendo biquinho:

- É a casar velhas de boca pequenina!

E é claro que a minha mãe fazia biquinho como a velhota sem me explicar mais nada subentendendo que eu percebia.

Mas eu, nicles, não percebi patavina da conversa sem no entanto a esquecer até que cresci o suficiente para perceber a  picardia da historieta.

Pois quando o sr Manuel me falou da ileia foi, sem tirar nem pôr, aqui a esta circunstância que me transportou a minha memória.

E sabem que mais? Gostei de recordar. Afinal destas e de outras lembranças se forja o nosso passado e as raízes de quem somos.

 

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Baú de Recordações - Histórias de Celeirós do Douro

 

1ª- Era a primeira infância dos meus filhos e nessa altura estava connosco a minha irmã que já era uma mulherzinha.

Vivíamos em Celeirós, no Cêrro, e com o Outono chegara também o frio e a casa era gelada.

O meu marido tinha adaptado na cozinha um fogão a bagaço ou casca de amêndoa que apenas aquecia o espaço onde estava, mas pelo menos no quarto das crianças as paredes tornavam-se mais secas e menos frias.

Era um fogão que quando tinha bom combustível chegava a ficar em brasa mas custava muito a acender.

 Ainda tínhamos um pouco de bagaço do Inverno passado e por isso, embora sozinha, eu queria acendê-lo. Em casa nunca faltavam jornais quando o Raul estava, mas naquela altura não havia nenhum e eu precisava deles para iniciar a combustão.

Disse então à minha irmã que fosse a um estabelecimento da aldeia comprar um kilo deles, pois que uma vez acaso o fogão nas vezes seguintes acender-se-ia muito melhor e aquela quantidade chegava por uns dias.

Cabe agora aqui dizer que o dono dessa venda tinha a fama de ser um pouco agarrado ao dinheiro chegando mesmo à sovinice. A mim, é como diz o outro, logo que não me prejudicasse tanto se me dava. E não tinha razão de queixa, é a verdade, de modo que nos ríamos quando nos contavam mais uma, desse personagem que Deus haja.

Eu dizia cá para mim que ainda não deveria ser bem assim porque o “povo” posto a falar…

Bem, mando então buscar os jornais e dado o tempo necessário para a ida e a volta, lá me aparece a subir as escadas a correr, a minha irmã. Abriu a porta e morta de riso conta-me então o que tinha presenciado.

O senhor… pusera os jornais na balança para prefazer a quantidade que eu tinha pedido. Cheio de conversa virou-se para a minha irmã e disse-lhe:

-Ora aqui está um kilo bem pesado.

 A garota leva as mãos à balança para pegar nos jornais e quando já os trazia num braçado ele tira-lhos, vai à página de cima que era uma meia folha e rasga-lhe outra metade que foi a seguir guardar junto dos que tinha para ele.

Pasmada a minha irmã sai pela porta fora e vem a correr para me contar.

Fartamo-nos de rir. Não era por aquilo que eu ficava mais pobre.

Nem ele mais rico, mas pôde mais nele a força do amealhar.

 

2ª-Pela mesma altura andava entusiasmada nos meus tricôs mas como o tempo era pouco e tinha muito que fazer (dava aulas em Paradelinha), a renda andava dum lado para o outro, pousa aqui, pousa ali. Por causa disso em qualquer sítio me caiu a agulha que não houve meio de a encontrar.

Diz-se até que hão - de aparecer as coisas quando menos contarmos com elas e já não forem precisas. Assim foi.

Era a um Sábado e eu pensei que não queria passar o fim - de - semana sem ter nada com que me entreter. Mais uma vez lá vai a minha irmã ao povo ao tal estabelecimento comprar-me uma agulha de tricotar.

Quando regressou eu descobri que se tinha enganado no número e que aquela me não servia.

Pedi-lhe então para a ir trocar.

Pouco depois aparece-me de volta mas com uma cara comprometida com a agulha na mão.

-Que é que foi?

-Ele não me trocou a agulha.

-Não te trocou a agulha? Porquê?

- Diz que a agulha vindo a casa do cliente enferruja. Se quiseres outro número vais ter que comprar uma agulha nova!

-Quê?

-Olha foi o que ele me disse e mandou-me embora que viesse buscar o dinheiro para outra.

-Essa agora !!! É a primeira vez na vida que oiço uma coisa dessas e olha que já comprei muita agulha …!

-Pois é, mas foi assim mesmo.

Desta vez não consegui achar nenhuma piada àquilo.

Resultado: não fiz renda todo o fim - de - semana mas não voltei a comprar lá agulha nenhuma.

Vamos que se enferrujassem?

 

E com estas duas peripécias compreendi então que talvez não fossem só vozes que se ouviam.

Mais tarde soube outras anedotas que fizeram história lá por Celeirós e arredores.

“Onde há fumo há fogo “, não é assim que diz o ditado?

Pois…

 

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Baú de Recordações - Rescaldos, na primeira pessoa.

 

 

 

 

Era uma vez um pequeno paraíso terreal na encosta de uma serra sob a guarda de Nossa Senhora da Azinheira.

Sentíamos neste pedacinho de céu o lugar de merecido descanso em plena natureza num viver bucólico e singular, apenas na companhia dos nossos animais de estimação. Este universo feliz completava-se com a chegada dos nossos filhos ao fim de semana.

Esta foi a nossa opção de vida, marcadamente regida pela vontade de não fazer mal a ninguém nem mesmo aos pequenos seres vivos que nos rodeiam. Em vez de pisar uma formiga damos a volta e deixamo-la entregue aos seus afazeres.

Rodeados de uma bela paisagem campestre, colada ao coração do Douro vinhateiro, ela traz-nos muitos momentos de felicidade.

No Verão, pela calada da noite, sentada cá fora no quintal, não me canso de contemplar o firmamento embevecida com a beleza das estrelas tentando catalogá-las dentro do meu parco conhecimento astral. E, reparar no seu diferente posicionamento com o decorrer do ano, também tem o seu encanto, procurando-as no espaço à roda da casa.

- AH! Olha a Cassiopeia agora está ali!

Nessas noites de solidão fazem-me companhia os sons nocturnos dos animais como o coaxar das rãs lá em baixo nas lagoas, o grilar incessante destes bicharocos barulhentos, o piar da coruja ou do mocho e o sussurrar da ramagem dos pinheiros bravos que quase me cobrem na penumbra dos seus ramos nas tépidas noites serranas.

No Inverno ao braseiro da fogueira acesa, chega-me aos ouvidos a música do rumorejar rezingão do vento vadio que se acoita por entre os troncos das árvores e aqui fica perdido ou achado aos pés da Virgem que nos acolhe. São bravias as noites nessa estação. Enruga-se a terra de frio com o cair das geadas, tolhem-se as vozes das aves cantoras num silêncio de resignação, e quando os pios da coruja vêm até mim nestas noites nebulosas, não falta quem diga que auguram a “passagem “de alguém da vizinhança. Crenças. A mim fazem-me companhia e dão-me a saber que na negridão do Inverno há quem como eu, esteja de vela.

Quando o manto da neve se abate silenciosamente e nivela na sua palidez as diferentes camadas de solo, traz a placidez à alma e aquieta-se tudo à volta rendido a esta beleza frágil e serena.

Na Primavera, rebenta tudo em flor, desde os cardos do monte aos borbotões de verde no jardim à volta da minha casa. Esplêndidos cheiros  se evolam e perfumam o ambiente e até o incómodo pólen dos pinheiros nos lembra a renovação da natureza. Sacudimos o torpor do longo Inverno e o sangue pulsa mais leve nas veias. Ao abrir as janelas na manhã fresca e radiosa, somos de novo mais jovens e temos outra vez coragem de levar a vida.

Foi este viver que escolhemos.

Os anos passaram e pouco a pouco os ecos da civilização foram penetrando serra dentro, criando ruas e espaços familiares onde primeiro nada havia. Fomos os pioneiros.

Cercam-nos agora viçosos e rudes pinheiros que em dez anos se transformaram em enormes traves e que no seu desenvolvimento, à lei da natureza, taparam como uma espessa cortina a paisagem em redor. Apenas sobrepujando as suas frondosas copas, se vêem ao longe o cinzento azul das montanhas e mal branquejam as pequenas povoações circundantes.

Foi pena!

E foi pena por mais do que este motivo.

Na estação primaveril, infestam-se de lagartas processionárias e ficam por elas consumidos em tons de vermelho queimado que faz dó. Gosto delas mas preciso de acautelar a saúde dos meus cães a quem podem causar a morte e a nós graves alergias.

Ainda não é tudo.

Quando, fazendo jus às palavras do escritor Miguel Torga, a moderação  deste clima se transforma nos calores infernais do Verão, eis que o nosso paraíso deixa de o ser e é mais causa de desassossego e insegurança que outra coisa. Todos os Verões que Deus deita ao mundo são para nós tempo de vigília e preocupação.

Como para provar esta minha declaração, de Sábado para Domingo e de Domingo para Segunda vivemos aqui horas de intenso medo e mesmo terror. E nunca melhor dizendo porque se estes fogos não foram actos de terrorismo, expliquem-me lá o que foram.

Alguém se assanhou com o nosso Conselho ainda com retalhos verdejantes, que tem passado mais ou menos incólume, deu asas ao seu instinto predador e o transformou num braseiro.

Povoações, pessoas e bens postos em causa pela mão de alguns criminosos, que ainda por cima logo serão postos em liberdade por via de algum julgamento incompetente que assim os exime de pagarem caro o mal que fazem voluntariamente a tantos.

Só não se sente quem não é de boa gente. E eu estou sentida e indignada porque no pavor de ver carregar sobre nós e a nossa casa um tsunami de fogo abismal, ficámos impotentes, tendo apenas entre ambos uma barreira humana, tão frágil, que é essa elite chamada “bombeiros” e que na hora da verdade, não vira costas antes encara o fogo apocalíptico que ameaça a nossa vida e os nossos pertences.

Em duas ocasiões vimos quase perdida a batalha e aquela onda tenebrosa de chamas cavalgando por cima de corta-matos, de crista em crista de pinheiro, rugindo bestialmente, embicou em direcção à minha casa.

Foi quando nos vimos aconselhados a termos tudo preparado para uma possível evacuação.

Salvar carros e preparar os animais para os tirar daqui foram as primeiras medidas, mas quando um familiar me disse que tirasse de casa aquilo que para mim tinha mais valor, petrifiquei.

Gostaria de ter o engenho e arte necessários para vos poder mostrar o que é chegar a esta hora!

Com as lágrimas a deslizarem quentes e salgadas pelo rosto, não soube o que salvar.

Pois se tudo é tão importante para nós, o que trazia? As fotos dos meus filhos, o registo do seu crescimento, as diferentes fases da sua vida?

A travessa de louça da minha bisavó, única herança do passado? O quadro da Crucificação que tanto representa para mim? A mobília do meu casamento?

O quê, por Deus? O quê?

Pressionada, lá consegui ir buscar os documentos e ainda com ajuda, peguei numas calças e blusa e numa camisola para o Raul e…meti tudo num saco plástico a que juntei um saco de papel rasgado (!) que zelosamente dobrei e guardei junto destas peças de roupa!

Nem sequer me lembrei duma mala ou dum saco de viagem. Duns sapatos, porque estava de chinelos; duma muda de roupa interior. Nada! Também, nesta hora, dada a riqueza dos meus futuros haveres, qualquer saco plástico serviria.

E, no último olhar que deitei à minha casa antes de vir cá para fora, toda a amargura, toda a saudade de uma vida, todo o atroz sofrimento, deixei – os impregnados nas paredes do lar que ia deixar para trás, coagida por este incêndio devastador que assim nos atingia estando nós inocentes (falo só por mim, mas, e os outros?).

Não sei se consegui passar - vos, pelo menos um pouco, o tormento que aqui vivemos. Muito ainda vos poderia dizer, mas vai longa a conversa.

Porém…

Ainda não ardeu tudo. Quando seremos confrontados de novo com mais este flagelo?

Até que alguém, alegadamente insano, volte a pegar numa caixa de fósforos e queira fazer de nós bodes expiatórios de culpas que não temos de pagar?

E o que ficou?

Além do negro e da cinza que fazem agora parte do meu horizonte visual, as cicatrizes da terra queimada, violentada.

Ficou a incerteza, a consciência mais vívida do que ainda pode acontecer; a insegurança deste lugar tão apetecido que escolhemos para morada e que já mostrou, se pode tornar no fim de um sonho, um pesadelo, acordados.

Resta-nos ainda o protesto do corpo sujeito a este desgaste.

Depois das dores físicas, chegou agora a letargia que nos faz arrastar pela casa, cansados, olhar vigilante, não vá ainda encontrar-se focos de incêndio no rescaldo deste dia de penitência.

Um OBRIGADO imenso a todos os que combateram este combate,à Proteção Civil, às corporações de bombeiros aqui presentes, que deixaram de ser para nós anónimos em cada uma das suas corporações, porque lhes vimos os rostos, o cansaço, a sede, a juventude e a coragem indómita de enfrentar o perigo.

Ou não tivessem sido eles o escudo da nossa protecção!

Anjos da guarda.

Deus os ajude.

 

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Baú de Recordações - Pó, cinza...e nada!

 

 

 

 

O vento toda a noite sacolejou furiosamente e o resultado desse seu desconforto traduziu-se em uma enchente de agulhas que se espalharam castanhas e tristes pelos espaços envolventes da minha casa.

Não fosse o trabalho que varrê-las e apanhá-las acarreta e até que eu, com paciência, poderia apreciar o seu bailado langoroso até ao chão, onde ficam esperando para soltar o derradeiro suspiro e, literalmente, desfazerem-se em proveito da nova rebentação nos começos da Primavera.

Assim mirradas e acamadas no solo dos pinhais mais não são do que combustível pronto para que qualquer demasia de calor natural ou acto de mãos criminosas, as transformem em pavorosos incêndios destruidores de vida e de bens tão preciosos para quem por eles marinhou a vida inteira.

Por isso quando levantei a cabeça ao ouvir o troar do heli carregado com mais um balde de água (parecendo um nédio gafanhoto com uma presa nas garras ) para valer aos a que a esta hora têm o coração a bater descompassado com o temor de mais um fogo, uma desgraça, senti como em mim, essa aflição e remoquei  zangada com o vento vadio que este ano se assanhou à volta da minha casa, assobiando pelos cantos e rouquejando de meter medo mesmo agora em pleno Verão, imagine-se no agreste Inverno da serra.

Alguém mais temeroso que eu, teria certamente no meio deste matagal sussurrante, muitas  oportunidades de se enfiar debaixo dos cobertores, para não ouvir os seus rugidos tormentosos. Mas eu faço por esquecer e dou-o ao desprezo coisa que quanto o enfurece por lhe negar a importância de que se pavoneia. Mas… acautelo o que posso, porque é um vizinho perigoso.

E toda esta arenguice vem a propósito do meu receio dos fogos florestais ao estar rodeada de densos  mares verdejantes , sempre de olhos postos no horizonte à cata da mais leve coluna de fogo que nos ponha de sobreaviso.

Talvez este poema ilustre melhor a desolação que fica depois de um incêndio.

.

.

 

Levando meu rumo, caminho

Campo fora ensimesmada,

E vou pensando comigo

No objectivo da jornada:

.

Levo na mochila apetrechos

Para em pintura plasmar

A beleza da paisagem

Que me ficara no olhar.

.

Porém…

Agora que cheguei

Não reconheço

Naquele negrume torcido,

O meu pedaço de céu!

E, olhando ao redor

Me quedei,

Porque o local apetecido

Não podia ser aquele

 Não era o meu!

.

E, com pasmo, reparando em mim,

Vi-me de negro, tal como o chão!

Meus dedos sujos do pó escuro,

Na tela traçaram negro coração.

.

De luto ficou a alma da artista

Que de cinzento viu pincelada,

Uma tela que fora quadro vivo

E era agora…pó…cinza e nada!

 

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Baú de Recordações - Se as minhas mão falassem ...

 

Papoilas- Quadro a óleo sobre Tela

.

.

Habitua-se a gente a viver nesta simplicidade e ao dizer singelo do povo que não sendo erudito se exprime muitas vezes com velhos ditados ou com as chamadas expressões idiomáticas que são irrepetíveis.

Vem isto a propósito de alguém com quem eu conversava e que pelos vistos aprecia algum dote mais proeminente em mim.

E com um ar admirativo disse-me como que em despedida:

-Ah, a senhora tem umas mãos…

E eu fiquei-me a meditar.

É que, de verdade, não são as minhas umas mãos de lady ; nem sequer  ricas de cuidados de manicures; são umas simples mãos de trabalho. De mulher.

Será?

E pensando, pensando, concluí  que era chegado o tempo de rever a minha opinião sobre esta matéria e de repor a verdade .Uma verdade muito sentida uma vez debruçada sobre este tema.

Surgiu então esta elegia às minhas importantes mãos:

.

.

.

.

.

.

  Minhas mãos vazias…

.

Cheias de tanto

Que desconhecia:

De energia no trabalho;

De coragem no desgosto;

De Amor, em carícias

Que posso fazer num rosto.

.

Mãos que no desespero

me não abandonaram.

Que choraram comigo

Quando eu chorei.

Mãos que,

 sem nunca pensar,

me acompanharam

quando um ser querido,

sozinha,

amortalhei.

.

Mãos a quem devo tudo.

Mãos a quem quero agradecer

porque,

sempre comigo,

permitem

que eu possa escrever.

.

E assim me vou.

Um abraço.

 

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Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa (FOTOS)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Baú de Recordações - Na II Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa

 

 

De repente eis que se reúnem as condições necessárias para que eu possa vir aqui tentar escrever um pouco.

Explico:

Estou mais moída que o chapéu de um pobre; tenho as pernas mais rotas que um canastro velho!

Assim sendo, não é dia para grandes folias de trabalho doméstico e para passear também não dá. Por isso convém-me imenso sentar-me e calmamente pôr ordem nos pensamentos e daí passá-los ao papel. Quer dizer, papel, papel, já não, mas os velhos costumes estão tão arreigados, que custa a gente desfazer-se deles.

Como estas mazelas não atingiram o córtex cerebral, vou mais uma vez fazer uso da memória e contar a experiência vivenciada ontem na Segunda Caminhada do Centro de Saúde de Sabrosa.

Começámos timidamente o ano passado e, feito o balanço final, concluiu-se que tínhamos pernas para andar. Vai daí, o Sr Dr Veladimiro, lança-se em grandes pesquisas e foi desenterrar, (nunca melhor dito), um trilho de alto lá com ele!

Às oito da manhã já se reuniam em Sabrosa os primeiros entusiastas e pouco depois, serra fora ao som ronronante do velho motor do autocarro, encontrámo-nos com o alto de S. Domingos de Abrecôvo (o S. Domingos Grande) ponto de partida para o nosso passeio salutar e turístico

Sendo o ponto mais alto da zona, tem a atestar esta qualidade o marco geodésico que deve estar ali pelos novecentos metros de altitude.

Assombra-nos a serena beleza natural até ao horizonte onde os verdes se confundem já com os azuis do céu luminoso, apesar da tempestade da tarde anterior.

O esplendor do coração do Douro, aqui se encontra magnificamente representado nos seus vinhedos, adormecidos ainda, pelas encostas abaixo até ao sopé, bordejando o Pinhão.

As vinhas, de verde engalanadas, lembram-me artísticos penteados Afro: carreirinha para aqui, carreirinha para ali…

Os vinhedos antigos, saídos das mãos amorosas dos que outros tempos atrás, se tomaram com as enxadas e, com elas, bardo a bardo domaram os declives bravios, plantando as plumas e deixando-as satisfeitas de humidade com o suor que lhes escorria do rosto torrado e duro, ficam hoje paredes meias com os tristes mortórios, mal agrabunhados em terras soltas que agora deslizam uns sobre os outros numa bem desnecessária imagem de desleixo, nada conforme com o trabalho de gigantes que herdámos.

São um regalo para a vista esses desenhos que ao longe cobrem as diferentes colinas e quando já ao perto se observam os cachos formados e em crescendo, esta visão traz um gomil de esperança, aos lavradores receosos da crise mais penosa, dos rigores deste clima que até no Verão nos açoita de saraiva e lhes mete o coração num punho. Não tarda, se assim continuarmos, que se oiça:

-Ai a vindima! Este ano já deve estar feita!

Depois de saciados com a paisagem tão nossa e tão renovada a cada ano, pusemos pés à descida com coragem e alegria. Não combinaram muito bem cantigas e escorregadelas e pouco a pouco, foram-se esmorecendo as vozes quando o fôlego não deu para mais.

 Mas quando já tínhamos entrado no ritmo da caminhada, houve que parar.

Um rebanho de cabras bem armadas pastava por entre tojos e carquejas, como manchas móveis de preto e branco e, quando passávamos pela pastora solitária, de queixo apoiado ao cajado, ela, feliz também, disse-nos que tinha acabado de nascer um cordeirinho.

Auspicioso acontecimento, todos nos aproximámos para saudar a novel criatura e esta coitadinha, desequilibrada nos seus frágeis membros, húmida ainda do parto recente, tentava a todo o custo manter-se de pé e na sua trémula aparência, trouxe-nos a todos, mas mais a nós mulheres, uma vaga de carinho que se traduziu em expressões de meiguice e ternura. Mas o cordeirinho, balia de espanto e medo e os seus imensos olhos castanhos pestanudos procuravam pela mãe, aflito com a sua chegada tumultuosa ao mundo que, sozinho, já estava a enfrentar. Não que a mãe o tivesse abandonado. Não. Mas cortado o cordão umbilical que ele ainda ostentava, eram horas da mãe se alimentar com o rebanho, pois grande encargo lhe vinha pela frente: criá-lo.

Lá regressámos à passeata e depois de algum tempo o nosso timoneiro levou-nos a porto seguro para descanso e nem acreditávamos na mesa que esperava por nós em Gouvães.

Isto para bem receber,  estão as nossas gentes por cá…!

A condizer com as estiradas anteriores, as ruas da povoação são íngremes, mas o alegre casario, algumas casas de boa traça, a limpeza, a bela igreja, o ar puro e a simpatia, fazem desta povoação uma agradável rota turística que pena é, não ser mais aproveitada.

E depois, sempre caminhando com boa disposição, calcorreando por uma velhíssima calçada de xisto laminado, fomos dar à Quinta da Eira Velha e dali a uma vista espectacular foi um saltinho.

Que vista!

O Douro espraiado a nossos pés, brilha em superfície de prata e o barco turístico rasgando as águas serenas, deixa para trás de si, sulcos de espuma desfazendo-se em leque, deixando-nos na saudade daquela beleza que do alto dominávamos.

E sempre descendo, num pendor de rompe pernas, lá fomos chegando ao cais do Pinhão e eu e a enfermeira Paula, que não poderemos ser consideradas pesos pluma, fomos das últimas, confesso que eu, já presa só por um fio.

Da fadiga me queixo, mas a beleza da paisagem, o convívio, o reencontro com pessoas que só de longe em longe encontramos, farão parte das nossas boas recordações que com estas caminhadas esperamos coleccionar.

Um grande abraço, até para o ano, se Deus quiser.

 

 

Baú de Recordações - O mal dos outros...

 

O mal dos outros…conforto de tolos

Eis uma história de pequena monta mas que, apesar disso, é capaz de nos mostrar as facetas humanas com que nós tropeçamos no dia a dia.

Um dia, na sua ronda habitual e pelas povoações no desempenho das suas profissões de vendedores ambulantes, uns amigos a quem quero chamar Silvano e Manuela, ao passar aqui nesta vila de S. Martinho de Anta, pararam em casa de uns lavradores, clientes habituais.

Naquele dia a dona da casa, atarefada e com muitas bocas a sustentar para a sementeira das batatas, comprou ao nosso amigo a quantidade de três kgs de congro  (safio mais grosso), para pôr na mesa ao pessoal que andava na vinha de enxada nas unhas, tresandando a suor do esforço necessário para “plantar” os ditos tubérculos.

Ora acontece que a gente se habitou há quase vinte anos, a ver duas vezes por semana estes amigos que ao conforto das nossas casas, nos vêm trazer o peixe fresquinho que de outro modo não alcançaríamos a não ser na cidade a trinta Kms de distância.

Fizemos deles amigos e por isso, quando nos vemos há sempre alguma coisa para contar, mesmo que seja só das nossas vidas, que eles conhecem bem. Outras vezes fala-se da política local e atrevemo-nos mesmo, qual treinador de bancada, a ”cortar na casaca” dos políticos nacionais.

Naquele ocasião, apesar da pressa, a senhora Maria, encostou-se à porta da carrinha frigorífica e enquanto puxou do porta - moedas, pousou o saco do peixe no chão para receber o troco e dar dois dedos de conversa com a D. Manuela, enquanto esta se pagava e lhe dava de torno o excedente.

Palavra puxa palavra ali se demoraram um pouquinho na cavaqueira.

Quando a senhora Maria se curvou para apanhar o saco do peixe, este…já lá não estava.

Não havia possibilidade de ter sido roubado por ninguém visto a casa ser afastada das restantes moradias da vila.

-Omessa agora! Cadé o peixe?

-O peixe estava aí.

-Ai o malvado do gato! Querem ver que foi o latagão do gato que o levou?

- Pode lá ser - diz a D. Manuela. Como é que um gato arranca assim com três kilos de peixe?

-Ai arranca, arranca. É grande como um toiro! Ora vejam lá! Carnão (quer não) que é pequena a despesa…!

E a mulher entra pelo portão a correr como uma desalmada na esperança de ainda encontrar o bichano, com o peixe intacto.

Com aquela algazarra levanta o marido as costas do rego das batatas e pergunta o que aconteceu.

Ao saber do que tinha acontecido, empurra o chapéu para trás e dá uma boa risada.

-Todos os prejuízos fossem esse! Com o seu, posso eu bem! O pobre do bicho foi encher o bucho. Não se lhe pode levar a mal.

-Ó senhor Manuel, eu não estou nada preocupado - diz mansamente o senhor Silvano - O peixe já estava pago!

-O quê? Vossemecê nem me diga uma coisa dessas. Ai o excomungado do gato.

E o homem, como lhe tinham mexido na algibeira, pega no cabo da sachola e corre atrás do gato que já estava refastelado debaixo de uma figueira com a água a crescer-lhe na boca na mira do grande petisco que lhe coubera em sorte.

-Sape gato! Vais levar c’um fueiro…Olhem qu’isto. E eu a gozar c’o outro.

Entretanto os peixeiros meteram-se no carro e foram à vida deles, não sem que se tivessem rido a bom rir de mais este “chico esperto”que com o mal dos outros se regalava.

Somos assim um povo.

 

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Baú de Recordações - Variações sob o mesmo tema: Incêndios

 

 

O Douro já está a arder!

A notícia em primeira mão, está a dá-la o Serrano no seu blog.

Esta é a minha versão.

Já cá faltava o desassossego e a preocupação com o nosso bem - estar.

Não é sem razão que a partir do mês de Junho se não pode foguear em qualquer parte.

Começou cedo este ano.

Já que não durmo a sesta, fui entreter as mãos numa salutar terapia ocupacional e repor o STOK de telas que se venderam na exposição.

O calor aperta e até os meus cães, sobretudo a Ventoinha sempre alerta, se quedaram numa modorra engraçada, estendendo-se ao comprido e a sonhar. Como sei que sonhavam? Fácil. Estremecem e gemem até, na vivência das cenas que estão a protagonizar.

 O ZU, esse, ressona lindamente e perturba o meu silêncio.

 Tento acordá-lo, mas quê, ele nem sequer ouve.

Como ia dizendo, fui pintar lá para debaixo do telheiro que serve de acomodação tanto ao carro como aos meus amigos caninos. Montei ali um estúdio volante e por lá me entretenho, sempre que lembro de pintar.

Ensimesmada, não dei por que o tempo passou nem ao menos levantei o olhar do que estava a fazer. De modo que quando enfim olho para o céu, espantei-me verdadeiramente pois este passara do azul brilhante para a pretidão da noite, na parte virada a este.

Nuvens negras enoveladas subiam no ar e ocupavam o horizonte visual da minha casa.

Que vem a ser isto?

Não me digas que já é um incêndio?

Estas minhas previsões resultam da lógica da batata.

De um dos extremos de S. Martinho deflagra um incêndio que rapidamente atinge extensão preocupante.

De seguida aproxima-se um estrepitoso barulho e surge um helicóptero mesmo por cima do telhado onde me encontro. Coisa nunca antes acontecida felizmente.

Passou a rasar os pinheiros nas traseiras da minha casa e foi tão forte o barulho, tão inesperado, que a Ventoinha fugiu acelerada a escainçar e refugiou-se junto dos meus calcanhares com o rabo entre as pernas,

O Zu estava cá fora e, ele que se assusta pouco, levantou as orelhas a ver se valia a pena afligir-se ou lucrava mais ficando quieto. E assim fez.

Pousei os pincéis e levei as mãos aos ouvidos, quase doridos, tal foi o estampido provocado pela passagem do helicóptero e preparei-me para as novas incursões do heli no meu espaço aéreo, mesmo sem conhecimento oficial desta invasão. Como mandei os F21, passar o dia Santo a Las Palmas, veranear, não dispunha de meios para afugentar os culposos deste assalto repentino. Por isso mesmo, nem telefonei ao meu representante legal e, na moita, fui mas é ver qual a direcção necessária que estas libelinhas metálicas precisavam para atacar com prontidão o braseiro no matagal.

À minha volta cada vez mais nuvens negras densas se acotovelavam,  desafiando o meu atento olhar,

Interrogações.

-Onde está?

-Para onde vai?

As respostas traz-mas depois o Raul que foi de carro ver qual o cenário com que poderemos contar.

 É que o vento que há dois dias se entesou por aqui, sacode que sacode, espavorindo os melros e outros menores que se acoitam nos ramos das árvores da vizinhança, sopra mais uma vez desatinado com vontade de ficar pela noite adiante.

Estamos bem arranjados!

Daqui a pouco os meios aéreos recolhem e nós ficamos ao Deus dará.

Incêndio - Óleo sobre telaÉ um filme que passa incansavelmente por estas bandas.

Toda a tarde este rodopio de aeronaves, de carros cheios de mirones que procuram a serra para não jurarem falso.

De repente dá-se uma inversão na rota dos helis e estes vêm na direcção contrária sobrevoando a minha casa de novo.

Na varanda, procurando o melhor ângulo para o apanhar no ecrã da digital, vou pensando comigo e com o Raul a controvérsia da vida.

Depois do primeiro susto já nos distraíamos na procura da melhor imagem para mostrar a filhos e enteados esquecendo, embora que por pouco tempo, como é tão sério o risco que corremos no meio da Natureza que arde ali ao lado e que tem tanto de belo como de perigoso ao longo destes Verões do nosso descontentamento.

Neste divagar eis que o Raul prepara a câmara e eu, na varanda, vejo o”bicho”a  aproximar-se, o balde em desequilíbrio, avançando por cima dos pinheiros, qual anjo vingador.

 Parece que os tímpanos não vão aguentar os estalos fortes que ressoam pelo céu.

Do focinho empinado (vinha a subir) saem refulgentes raios do sol que lhe bate em cheio, quase no ocaso. E quando sobrevoa mesmo por cima das nossas cabeças estrondeia o ar em redor, entorta as copas dos pinheiros, esvoaça a caruma desperdiçada caindo suavemente no meu terraço muito propício a estes desmandos.

 Não admira que as aves em revoada corram, quer dizer, voem para bem longe daqui.

O facto é que o sol já se escondeu e o silêncio tomba agora sobre nós, abandonados assim pela providência aérea que fugazmente (dada a enormidade da frente) aqui andou.

Da janela do meu escritório onde alinhavo estas linhas, espreita ao longe, mas não assim tanto, uma esguia labareda laranja sinalizando que o perigo ainda ronda.

Valha-nos Deus!

De Inverno enregelamos e mal despertam os calores estivais, fritamos de calor e dos imprevisíveis fogos na mata.

Lá dizia o nosso poeta Torga: - Nove meses de Inverno e três de inferno.

-Mas que Inferno!  - digo eu.

 .

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Baú de Recordações - Cala-te boca.

 

Cala-te boca ! ( óleo sobre tela)

Quando a certa altura da minha vida fui morar para Celeirós do Douro, fiz os possíveis para conhecer as pessoas que tinham visto crescer o meu marido cujos familiares maternos eram originários daquela pitoresca aldeia duriense. Os meus filhos eram ainda pequeninos pois o Pedro não tinha ainda feito cinco anos e o Luís era ainda mais novo.

Por essa altura o meu marido estava fora no seu trabalho, que, ao ser muito bom para a época tinha o grande defeito de o ter afastado da família para só nos ver de quinze em quinze dias.

De modo que toda a aprendizagem acerca de quem era quem, teve de ser feita por mim sozinha. Embora conhecesse as pessoas de nome, juntar o nome à respectiva cara não era tarefa fácil, mais ainda para mim que pouco saía de casa.

A minha profissão de professora, que eu levava muito a sério, a educação dos meus filhotes e o facto de ainda ser dona de casa, não me deixavam tempos livres que me permitissem desfrutar de  amizades e ter novos conhecimentos.

Como gosto de ser cordial com todos e me recordo das palavras dos meus pais quando me educaram: -“Os bons dias e boas horas, dão-se a toda a gente”, era isso mesmo que eu praticava.

Assim o ensinei também, desde os meus filhos aos meus alunos. Espero que algum deles se recorde destes bons ensinamentos que nos distinguem de tantas pessoas que passam umas pelos outras e é o mesmo que nada.

Portanto na execução destes meus propósitos, sempre que saía à rua, esforçava-me por saber com quem estava a falar, mas principalmente, cumprimentava toda a gente.

Por diversas vezes saudava um senhor que encontrava na rua ( uma pessoa entroncada, em quem eu reparei especialmente no grande nariz ) e para meu espanto, ele não me retribuía a saudação.

Três ou quatro vezes isto me aconteceu e eu ficava não só aborrecida como intrigada com o que teria feito ou alguém dos meus que assim me fosse negado o simples bom dia.

Quem esteve connosco em Alijó, de certo reparou numa senhora bem idosa que se sentava nas cadeiras da frente. Era a senhora em casa de quem me hospedei quando tinha os meus dezassete anos. Tenho por ela um grande carinho e sei que sou retribuída, mas não me posso esquecer de como ela era malandra e dizia coisas engraçadas.

 Uma das coisas que lhe ouvi dizer referia-se à maneira desdenhosa como algumas pessoas ao considerarem-se importantes, se recusavam a cumprimentar quem encontrassem na rua e não respondiam igualmente ao cumprimento dos outros. Assim que um dia, indo ambas pelas ruas de Alijó, alguém menos educado não lhe respondeu às boas tardes.

Vira-se ela de nariz empinado para a frente e diz:

-Ora, que Deus te dê a fala que deu a um burro!

Uma saída deste género era difícil de esquecer e eu guardei-a na memória sem nunca ter tido necessidade de a usar.

Até ali.

Em Celeirós.

De modo que na próxima vez que encontrei o fulaninho, foi como um relâmpago: veio-me à ideia a frase arquivada há tantos anos atrás. Assim que em surdina disse com os meus botões:

-Ora, que Deus te dê a fala que deu a um burro! Estou-me agora a incomodar! E passei adiante.

Quando o meu marido veio passar o fim – de - semana contei-lhe do meu aborrecimento e de como tinha reagido à falta de educação daquela pessoa. No entanto não fui capaz de lhe fazer perceber de quem estava a falar.

Passou.

 Um dia, vínhamos de carro, quando à entrada da Aborrida o tal homem se cruza connosco. E eu disse para o Raul:

- Olha é este!

- É este quem?

- O que me não responde ao cumprimento.

Começa o meu marido a rir-se como um perdido. E eu a olhar para ele!

-O que foi? Porque te ris?

Resposta:

- Como queres tu que ele te responda se o pobre é surdo - mudo?

Caiu-me o queixo.

Então eu não tinha já ouvido falar do “mudo”?

Mas daí a conhecer-lhe a cara …

Vim depois a saber que lá até havia dois! O António Barros e o José Pisco, ou Zé Toneco.

De modo que fiquei cheia de remorsos por lhe ter dirigido a célebre frase que aprendi com a D. Etelvina.

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Baú de Recordações - Merecido descanso

 

Natureza Morta - Óleo sobre Tela, de minha autoria

 

 

 

 

Após uns dias de repouso para assentar os pés no chão e esfriar um pouco a cabeça, regresso agora para vos dizer como foi importante para mim e a minha família aquele dia 15 de Maio em Alijó, onde pude contar com tantos amigos, alguns a quem eu já não via há muitíssimos anos.

Faço pois questão, de aqui renovar o meu agradecimento a todos quantos deixaram as suas vidas e estiveram presentes no evento da apresentação do meu livro e onde estava a nossa exposição de pintura.

Com muita alegria vos vi lá. Aos que vieram de muito longe e aos que de mais perto não quiseram deixar passar este dia sem aparecerem.

Porém quero fazer uma menção especial ao meu Povo: às gentes de Vilar de Maçada que com a sua presença transformaram aqueles momentos em tempo de aconchego e de carinho, que só sente quem está há muito longe do berço. Sim, do berço.

Longe vi a luz do mundo mas foi aí que aprendi a brincar, a crescer…a viver.

A todos vós o meu “bem hajam” um abraço apertado de compromisso: assim Deus me ajude e eu continuarei a escrever.

Até sempre.

 

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Baú de Recordações - Viajando no Tua!

 

 

 

 

Em tempos remotos,quando a mocidade ditava regras de folgança e aventura, em tímida e aventurosa missão fui colocada numa aldeia beirando o rio Tua, que descia a sobressaltos de Mirandela.

A minha experiência de viajar em comboios era limitada à curta saída do Magistério em Vila Real, até ao casino das Pedras Salgadas, onde fomos em passeio de fim de curso, no fim do ano lectivo de setenta e um.

Acontece que, nessa aldeia, a estrada se encontrava ainda em fase de promessa e dela só se viam, no Inverno, as rilheiras dos poucos carros que se afoitavam por ela, desbravando o lamaçal e deixando os rodados bem definidos, para se deslocarem à sede; e, no Verão, eram os novelos de pó em nuvens enroladas que anunciavam o trânsito local. Quando o ar se toldava a lembrar os filmes do faroeste, sabíamos de antemão que o padeiro tinha vindo abastecer o povo do pão para cada dia, nem que, esse dia fosse de semana a semana, consoante a estrada.

Assim que, para virmos de fim – de – semana, eu e outra colega, aprendemos o caminho a pé para a linha férrea, bem enterrada nas ravinas que ladeiam o rio – e graças! - por nesse ano terem rasgado um estradão que lá nos conduzia, embora mostrando ainda as cicatrizes desta ruptura abrupta e fresca de cor sanguínea.

Era lon…ge!

Saíamos cedo, embora soubéssemos que o comboio só passava para lá das tantas, porque os usuários eram pouco exigentes com as horas, conhecedores do percurso sinuoso e desapiedado que o trem, a trancos e barrancos, tinha de fazer.

Não me dava a idade canseira dos que tinham emprego e horas para cumprir. Eu só sabia que os que mais se serviam da linha eram aqueles que iam e vinham da feira e, para esses, chegava a muito boas horas. E para nós, igual, porque mal púnhamos o pé fora da sala à Sexta, já estávamos em fim de semana, mesmo que pisássemos as mesmas pedras que nos dias anteriores.

Enquanto fazíamos horas para a chegada do comboio, aproveitávamos para parar nas caldas de águas sulfurosas e boas para os males da pele e do fígado, segundo constava.

Ai as caldas !

Bem, tantos anos passados e relembrar-me desses tempos traz-me um rasgado sorriso aos lábios!

Tudo aquilo era um descampado, rodeado de ralas vinhas e muito mato. E, quase rasando as águas do rio calcinado pelos sulfuretos, havia um complexo de ruínas e aí, um casebre com o telhado meio destapado pelas intempéries e falta de manutenção. Acreditem ou não, lá dentro existia uma banheira de latão de quatro pés, para onde corria um quase fio de água … quente !!! Nada mais havia no lugar. Então, enquanto uma desfrutava da doce benesse termal, a outra ia aos gambuzinos que é como quem diz, procurava distracção por ali perto, de vigilância, já que a porta, desengonçada, não fechava sequer. Na minha vez, cabriolava de pedra em pedra no rio, que se alastrava, manso e alapado por baixo de grandes árvores que por ali deram em se perder em imemoráveis passados. Gostava de sentir nos pés descalços o calor suave das pedras esbranquiçadas e de respirar aquele ar diferente.

 Tudo eram motivos de riso nas horas que tivéssemos de esperar pelo abençoado transporte. Digo mais: era uma aventura!

Quando o comboio chegava, vinha normalmente arrastando dois vagons, se a memória não me falha (e eu bem sei, quanto já me não posso fiar dela!)

Um traria bens comerciais e na outra carruagem viajavam os passageiros. Nem sequer confortavelmente instalados nos bancos de ripas duros como cascos de cabras montesas, sem distinção de fortuna, de elite, ou uma que outra mais  valia social. Tanto se abancava ao meu lado um senhor mais composto, como me adormecia no ombro o borracho que enchera a pança e agora ressonava, tombando para cima de mim, num bafo pestilento de bode indigestado. Quando não havia lugares, e a timidez me não deixava dar um empurrão no pobre diabo, vá de aguentar até à sua muda, mesmo à custa das risadas da minha amiga, que de longe me piscava o olho e me fazia de fel e vinagre. Ora, como se não me bastasse o emplastro!

Nesses dias em que calhava os feirantes encherem a carruagem via-se de tudo: cabos de sachos ou enxadas completas; garrafões de vinho ou de azeite, aos três e quatro que os donos metiam entre as pernas para os não deixarem tombar e perder-se assim o dinheiro e o bem; cabos de cebolas e réstias de alhos; depois eram os que traziam os peixes do rio frescos, pendurados na mão, enfiados pelas guelras em junco verde maleável, que todo o caminho tresandavam a lodo viscoso e atraíam as varejeiras  lá de cascos de rolha; vinham ainda as mulheres que nos cestos da cabeça carregavam aves de capoeira, galo gingão ou galinha poedeira, os quais, em lhes dando para o cacarejo, se esganiçavam e deixavam os ouvidos moucos. Então quando chegávamos ao pequeno túnel, o raio da bicharada como se temesse a escuridão momentânea, entrava numa cacofonia, nunca antes vista.

Um dia desses, vínhamos nós de fim – de - semana, até à estação da Brunheda, depois à do Tua, onde ainda teríamos de nos transferir para o que vinha do Pocinho porque não nos ficávamos por ali. Seguíamos para Pinhão e era outro tanto de tempo.

Um dia inteiro para chegar a casa!

Estávamos estafadas! Fora a caminhada, mais a demora do barqueiro para nos trazer para a banda de cá (andava o homem a regar e tiveram de o ir chamar); a espera na estação sentadas nos carris, a mirar sem ver, a paisagem rude de íngremes rochedos, pendurados ao Deus dará quase até ao rio.

A carruagem nem sequer vinha cheia mas uma matrafona já de boa idade, rubicunda e tagarela, mais sabida que o tempo, que carregava um cabaz com três galinhas pedreses, uma ruiva e um galispo de pescoço careca, tinha – se vindo acachapar ao meu lado.

Todo o caminho a santinha se não calara metendo conversa com todos e morta de curiosidade para saber quem nós éramos, mas esbarrou no nosso mutismo e não engoliu facilmente a afronta.

Enquanto uns jogavam à sueca em cima duma caixa de papelão, eu virava a cara para a janela, enojada do cheiro dos galináceos que não contiveram as suas necessidades fisiológicas, bem nas nossas barbas. As aves iam meias esganadas, de olhos redondos quase a saltarem de medo e deitavam as cabeças de fora, coitadinhas, de bicos abertos e linguitas pendentes. Eu rogava na pele daquela desalmada criatura que assim trazia os bichos com as patas presas com uma guita as asas arredondadas, fazendo-os sofrer sem precisão, e incomodando todos os passageiros.

Quando nos aproximámos do túnel, as galinhas entraram em desespero e num revoltear de asas e corpos tombaram o cesto que rebolou de entre os pés da dona e rodando, rodando, vão direitas à porta da carruagem aberta por causa do calor, suponho.

Ó gritaria!

-Ó ti mulher olhe as pitas, que vão porta fora!

Nem era preciso o aviso que a mulher lançara-se à guarda – redes com os braços estendidos para agarrar a pitarada. Em má hora o fez que se estendeu ao comprido e não fora os homens deitar-lhe a mão ao tornozelo, ia ela e as pitas beber ao rio, não muito longe dos carris.

-Você está maluca, mulher? Não vê que se matava?

-E você não vê que se me foram as pitas? Ai o meu rico dinheirinho! O meu governo! Então não havia de as apanhar?

- Deixe lá as pitas! P’rá semana compra outras, agora vossemecê ir atrás delas p’ró rio é que não tinha piada nenhuma!

-É, é, mas eu é que fiquei de prejuízo!

Entretanto, passado o susto, eu e a minha colega ríamo-nos à socapa do caricato da situação, pensando que ninguém dava por ela.

Mas a mulherzinha que olha e nos vê a rir?

Oh, oh! Acabou-se-lhe a compostura e furiosa virou-se para nós:

- Olhem lá, ó suas sirigaitas. Estão -se a rir de quê? Acharam muita graça foi? Pois vão-se lá rir da p… que as pariu, ouviram? Eu bem vi que vinham todas enjoadas por causa das pitas. Por’i nunca viram mer…  ?

Coitadas das lambisgóias! Nem se sabe onde penduram o pote, estão agora a rir-se da gente honrada! Julgam que são mais do que nós? Bo era!

Nós, encafuadas lá no nosso canto, nem tuge nem muge, se não ainda levávamos algumas lambadas, que a pobre estava uma bicha furibunda!

-Deixe lá as cachopas que elas não têm culpa nenhuma. Se formos a ver, tirante vossemecê ir caindo, até foi engraçado.

-Ai, não têm culpa? Então eu não vi elas a rirem-se? Foram mas é elas que me deitaram mau olhado ao gado. Não têm respeito nenhum! Pensam que são alguém!

Mau, que a conversa estava azeda!

-Deixe lá isso, pronto. Aconteceu. Olhe, ia fazer uma cabidela e já não a faz. Fica para a próxima.

Tudo se calou na carruagem e, mal chegámos ao Tua, descemos cabisbaixas.

Procurámos um lugar sossegado, não fossem as nossas brincadeiras causar melindre a mais alguém e nós já trazíamos que contar!

 

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Baú de Recordações em Livro

 

A Capa do meu Livro

 

 

 

Sairá no próximo mês!

Mostro-vos, para já a capa, deixando para mais

 tarde pormenores sobre a apresentação, que será

no próximo mês de Maio.

 

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