SOL

CARTA A MEU FILHO

Publicação: 25 Novembro 06 08:05 | averissimo 

Rui, filho, estou a escrever-te hoje porque já há muito tempo que ando a tentar mas não tenho conseguido.

Mas hoje, como fizeste os teus 28 anos, e estou no sofá sozinha, comecei a pensar em te escrever. Fui buscar uma caneta e um caderno e estou a tentar escrever aquilo que o meu coração está a sentir.

Filho querido, tenho tantas, tantas, tantas saudades tuas que às vezes penso que não consigo aguentar a tua ausência, porque, sabes Rui, o quanto eu te adoro e isto é muito duro para mim. O meu coração não aguenta, está destroçado.

Rui amigo, peço-te para que me transmitas para a minha cabeça que estás melhor aí, aonde quer que estejas, do que estavas comigo. Será que estejas melhor? Será que não estás a sofrer? Isto é uma confusão na minha cabeça. Penso que estou a sonhar e a ter um pesadelo, que tudo é mentira, que isto não pode ser verdade… mas tenho que acreditar que é verdade, que tu nos deixaste, e que não voltas. Mas, como tu estás sempre presente aqui, na nossa casa, estás sempre comigo onde eu estiver, estás sempre no meu coração, no meu pensamento. Para mim, tu não nos deixaste, quando estou dentro de casa penso que estás no quintal a dar de comer aos teus pássaros, como era costume. Quando ando no quintal, quando vou dar comer aos teus patos e à tua gansa pantufa, como tu lhe chamavas, e reparo para as gaiolas e não te vejo lá como era costume, sempre que ia ao quintal tu estavas lá dentro a dar de comer aos teus pássaros, eu… agora não te consigo ver, melhor dizendo eu ver eu estou a ver, não consigo é ouvir tu dizeres “Mãe, eu estou aqui a tratar dos meus pássaros” como tu dizias quando eu ia chamar-te para vires almoçar. “Rui, vem comer, o comer está na mesa”, dizia-te eu. E tu, filho amigo, dizias para mim “Mãe, eu já vou”.

Filho, tenho tantas saudades, tantas saudades de ouvir a tua voz, quando me perguntavas “Mãe, onde é que pus a minha carta de condução? Onde é que deixei as minhas chaves?” e eu, filho, dizia-te que era impressionante, que nunca sabias onde punhas as coisas. Agora, quem me dera poder ouvir estas palavras milhares de vezes sem conta por dia, por noite.

Como a vida é tão injusta, filho querido. Foi tão injusta com a gente, filho querido. As saudades cada vez são mais, tenho vezes que não consigo aguentar tantas saudades e quando estou assim só me apetece partir também. Mas como tu sabias e sabes, tenho a nossa mana e o nosso papá e eles também estão no meu coração, também precisam de mim. E ponho-me a pensar que tenho que viver para eles. Tanto a mana como o papá também merecem que eu me preocupe com eles. Eu às vezes penso que estou a ser injusta para eles, quero que eles sofram como eu, mas depois de ler alguns livros, pelo menos um que me ajudou muito a compreender o que é ficar sem um filho, que cada um sofre à sua maneira, eu achava que eles, pela maneira de serem, que não sofriam, mas filho como sabes eu nunca fui muito inteligente sozinha, não conseguia compreendê-los. Tive que ler um livro, que foi escrito por cinco pais em luto, que me ajudou a compreender que eles sofrem também, só que sofrem à maneira deles.

Mas eu continuo a achar que eu sou a que sofro mais, porque ficar sem um filho, que eu criei com tanto amor, com tanto carinho, sempre preocupada contigo, sempre que te levava ao psiquiatra Duarte Falcão, e à psicóloga Dra. Fernanda, pensava que te ia curar, que as coisas iam bem, que tu arranjaste uma namorada, que ais casar que me ias dar netos…

Mas a vida pregou-nos esta partida, nada disto se concretizou. Como a vida foi injusta, filho. Mas eu respeito o que tu fizeste, só pensaste em ti, e eu respeito muito a tua decisão. Achaste que era a maneira de acabares com o teu sofrimento. Mas, filho! Porque andavas a sofrer? Achavas que eu não era uma boa Mãe? E que o papá não era um bom Pai? Mas, eu e o papá andávamos muito enganados. Pensávamos que éramos uns pais exemplares mas agora ponho-me a pensar que se calhar não éramos uns bons pais. No que é que nós falhámos? Não te demos o carinho, o apoio que tu precisavas?

E eu achava que tu tinhas tudo para ser feliz. Eu e o papá deixámos de viver a nossa vida, sempre a trabalhar, nunca tivemos férias, nunca tivemos domingos, sempre a trabalhar, para vos dar aquilo que eu e o papá nunca tivemos, mas volto a dizer, se calhar falhámos em alguma coisa. E é isto que me consome e me sufoca o meu coração. Faço tantas perguntas durante o dia e nunca consigo arranjar nenhuma resposta para elas. Mas depois consigo controlar-me e, depois de escrever tudo isto, penso para mim que foi muito bom ter um filho que se preocupava comigo quando eu tinha as minhas enxaquecas, as minhas dores de cabeça, e tu dizias “Mãe, vai tomar os teus comprimidos e vai descansar um pouco”. Ter um filho que era trabalhador, que não tinha maus vícios, não bebia bebidas alcoólicas, não tinha vícios em drogas, era um filho que o único vício que tinha era pelos pássaros, tinhas centenas de pássaros.

Também estou orgulhosa. Um dias em que tu, filho, estavas a tirar bolos do forno da nossa padaria, e como já era costume eu dar sempre um bolo ao Fernando, este que nunca teve um pai e uma mãe que lhe matasse a fome, puseram-no na rua quando ele tinha 12 anos e andou sempre a roubar para comer, agora já com 50 anos é que veio para casa dos pais quando eles já tinham falecido, foi sempre um desgraçado, eu como sabia que ela passava mal, dava-lhe sempre 2 ou 3 pães a mais, dava-lhe sempre um bolo, mas era sempre bolo que me sobrava das vendas.  E nesse dia em que tu estavas a tirar os bolos do forno quentinhos, chegou o Fernando que vinha ao pão e eu disse-te “dá cá um bolo, filho” e fui buscar um saquinho de papel e dei-o ao Fernando e ele virou-se para ti, filho, com um ar muito triste mas ao mesmo tempo contente e disse-te “é pá, tu tens uma mãe tão boa, coisa que eu nunca tive”. E tu, filho, continuaste a tirar os bolos do forno e disseste-lhe “ela nem tão boa havia de ser”.

E são com estas recordações e muitas mais que eu me orgulho do filho que eu tive e que me fazem viver para o papá e para a nossa mana.

Filho querido e amigo, quando me levanto vou sempre dar-te os bons dias ao teu quarto. Adoro ver as tuas roupas, as tuas coisas, as tuas fotografias, o teu edredão, os teus cortinados, que a tua madrinha fez. Isso choca-me muito mas, ao mesmo tempo, fico consolada e alivia-me um pouquinho o meu coração. E quando limpo a casa, limpo sempre o teu quarto. Quando ando a limpar, penso que está tudo bem em nossa casa, penso que tu te vens deitar e ando naquela ilusão, limpo o pó, agora também já o aspiro, mas quando termino ponho-me a chorar e a fazer perguntas a mim mesmo. Mas para que é que eu andei a limpar o quarto do meu filho? Ele não estava sujo, estava tudo no sítio, não tinham pó os tapetes, não tinham terra e eu fui sacudir os tapetes?

Mas filho, eu não consigo limpar o resto da casa e não limpar o teu quarto. Porque tu, filho, para mim não morreste, estás sempre vivo no meu coração e vais estar sempre.

Rui, querido filho, eu não sabia que quando se perde um filho amado que era tão duro, uma dor tão grande que não sei se é dor se o que é pois, quando é uma dor tomasse o comprimido e passa e esta dor não passa. É por isso que eu não consigo perceber, estou completamente confusa e baralhada das minhas ideias. Mas apesar das minhas ideias ainda muito confusas, tenho que ir vivendo. Mas filho, tenho momentos no dia a dia que sinto uma força para viver e penso que és tu que me estás a dar esta força, que estás a pedir por nós, para que eu e o papá continuarmos a nossa vida, para que sejamos felizes.

Parece-me que um dia me transmitiste para a minha cabeça, filho e me disseste “Mãe, agarra-te ao meu Pai, à minha mana, e continuem a vossa vida que vocês merecem ser felizes”.

Rui, filho, se és tu que me estás a dar essa força, continua que é para eu e o papá levarmos a nossa vida para a frente mesmo com a tua ausência.

Tu estás sempre presente. Saudades, muitas saudades Rui amigo.

Filho, peço a Deus que esteja contigo.

Eu, por ti, fico todos os dias a orar.

Pode ser que um dia, quando eu partir,

 junto com Deus e Nossa Senhora nos voltaremos a encontrar.

Muitos beijos e muitos beijos desta Mãe que te traz sempre no coração e no meu pensamento.

Fernanda Reigota

fernandareigota@iol.pt

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Comentários

# Kanoryo said on Novembro 26, 2006 18:11:

Para todas as mães que fecharam os ohos aos eus filhos:

 ---Filho, tu eras a primavera na terra.

-----Deus te levou e contigo levou a primavera para o céu.

.

.~Porque não há discursos  para tanta dor.

# EuniceTavares said on Novembro 26, 2006 18:26:

olá averissimo,

história muito tocante e muito comovente. Faz-nos pensar no quão pequeninos somos neste mundo, mas ao mesmo temp tão grandes no coração de quem nos ama.

Um beijinho e parabéns por esta escolha!

# contracorrente said on Novembro 27, 2006 15:10:

Não estava preparado para um encontro destes, numa altura deprimente como esta.

Um abraço

Santana-Maia Leonardo

# JAMES said on Novembro 27, 2006 18:10:

Caro António,

Linda história, comovente...

Abraço

James

# anascorpio said on Novembro 28, 2006 13:58:

Olá! Venho agradecer a visita ao meu blog. Acertaste na primeira hipotese, sou escorpião mesmo lol.

Quanto ao teu texto é muito tocante e só quem passa por isso é que consegue compreender toda a dor e sofrimento.

Beijos

# susy said on Novembro 30, 2006 19:58:

Acho que nesta carta existe um pouco de todos nós.

Quase todas as pessoas perderam alguém proximo e aqui está relatado de uma maneira muito sentida. Gostei que nos oferecesses tal sentimento de amor tão grande como é aqui de monstrado

# Anahory said on Dezembro 2, 2006 20:10:

Uma carta emocionante, que demonstra a angústia, a perda e tristeza de uma mãe, mas ao mesmo tempo o seu amor eterno por um filho.

Lindo texto. Parabéns

Kiki

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JORNALISTA, DETECTIVE LITERÁRIO, EDITOR, AMBIENTALISTA

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