"Está mal e vai ficar pior, embora cada dia nos pareça que não pode ficar pior. Pode, pode. Existem
escondidos, não se sabe onde, ou sabe-se demais, recursos de uma
capacidade infinita de mostrar que abaixo do grau zero, há muitos mais
graus abaixo de zero. Cada circulo do Inferno aqui tem dez sub círculos,
por sua vez divididos noutros dez. No nosso Inferno, Dante nunca
chegaria ao fim da sua viagem e passava a habitante permanente mesmo que
merecesse o Paraíso. É por isso que Deus nunca vem cá e Nossa Senhora
arrependeu-se em 1917." (JPP in blogue 'Abrupto')
Com a devida venia aos autores desta perola...
Vejam
só o que se está a passar na Grécia e na Irlanda e que nos pode
acontecer também, caso não se corte "já" a despesa pública (10
ministérios, menos 1/3 das Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, 151
deputados, redução da frota dos popós do Estado, das subvenções aos
partidos, dos institutos públicos, das fundações públicas, das empresas
públicas e municipais - especialmente as que só dão prejuízos - aí em
80%, etc, etc, etc, e neste etcetera incluiria o corte dos salários dos
gestores públicos para um máximo igual ao do PR)
3 de Abril, 2011por
Luís Gonçalves
Gregos e irlandeses contaram
ao SOL como é viver com a ajuda externa do Fundo Monetário Internacional e da
União Europeia.
Nos últimos quatro meses, Giorgio
Trompukis viu serem despedidos oito dos 30 empregados da empresa de consultoria
onde trabalha, em Arta, no Noroeste da Grécia, e Christo Iosifidis, engenheiro
alimentar, mudou-se para um apartamento mais barato em Atenas, após ter visto o
salário cortado em 30%. Entretanto, o horário laboral de Michael Flyin num
hotel de Skibbereen, no Sul da Irlanda, foi reduzido para um terço para evitar
o desemprego.
O preço das medidas de
austeridade impostas pelos planos de ajuda do Fundo Monetário Internacional
(FMI) e da União Europeia (UE) à Grécia e à Irlanda estão a ter um forte
impacto na vida das populações. «A ajuda externa tornou-nos mais pobres, cépticos e pessimistas
quanto ao futuro. Os sonhos acabaram», diz ao SOL Afroditi Kalomari, jornalista grega residente em
Atenas e membro da Federação Internacional de Jornalistas.
A Grécia e a Irlanda foram os
primeiros países a pedir ajuda financeira à UE e ao FMI, em resultado da crise
da dívida soberana. Atenas accionou o auxílio nos últimos dias de Abril de
2010. Dublin, seis meses depois. As razões do resgate foram as mesmas, as
causas distintas. Na Irlanda, os excessos da banca obrigaram a um resgate
milionário de 43 mil milhões de euros para salvar o sistema financeiro,
enquanto na Grécia o fim da manipulação das contas públicas destapou um défice
orçamental de 15% e uma dívida pública de 130% do Produto Interno Bruto (PIB).
Os custos de financiamento incomportáveis resultantes das sucessivas descidas
de rating colocaram ambos no saco de ajuda desenhado pelo FMI e UE.
«O ambiente é pesado», conta George Kokkinis. «Vemos imensa gente sentada horas e
horas nos cafés, não porque sejam preguiçosos, segundo a nossa fama, mas porque
é uma forma barata de socializar. Os restaurantes, por outro lado, estão vazios
e muitos vão fechar. As pessoas juntam-se em casa umas das outras para tentarem
encontrar uma saída para viver esta nova realidade», refere o consultor de empresas em
Iraklio, na ilha de Creta.
Recessão há três anos
Na Irlanda, a crise financeira
mundial colocou o tigre celta numa recessão que dura há três anos. «Estamos
a sentir a austeridade desde 2008 e já vamos no terceiro ou quarto plano de
austeridade. O resgate foi mais um episódio», diz Michael Flyin. Este
empregado de hotel em Skibbereen, a cidade mais a Sul da Irlanda, salienta que
as horas de trabalho semanais foram reduzidas de 25 a 30 para dez e que, nas
aulas particulares de inglês que dá fora do expediente, o número de alunos caiu
para metade. «As
pessoas estão a fazer o que podem para sobreviver». Como a maioria dos irlandeses, acha
que o pior ainda «está
para vir».
A receita externa deu, até
agora, poucos resultados. Desde o resgate, a performance dos dois países tem
sido trágica: o desemprego está em máximos históricos (triplicou na Irlanda em
três anos, até 13,4%), a recessão aprofundou-se e os juros da dívida pública -
principal justificação do resgate - nunca aliviaram. Os juros de longo prazo
(um indicador do risco-país) da Grécia e da Irlanda são hoje os mais altos do
Mundo (12% e 10%, respectivamente).
Muitos dos entrevistados
admitem que a ajuda financeira era inevitável, tal a fragilidade de cada país
perante a crise e pressão dos mercados. Porém, as culpas dividem-se entre a
necessidade dos credores estrangeiros recuperarem o dinheiro que -
abusivamente, dizem - emprestaram durante anos (Grécia), a irresponsabilidade
da banca (Irlanda), a necessidade de o Banco Central Europeu (BCE) «dar o exemplo» aos outros Estados-membros (resgate da
Irlanda), as más decisões da UE, a corrupção política e o excessivo consumo das
populações (Grécia).
«Os burocratas de Bruxelas
não são mais eficientes do que os gregos. Não pode separar-se a política fiscal
da monetária. Isso aprende-se em Introdução à Macroeconomia», lembra Kokkinis.
«Durante anos a população
grega foi dependente do consumo. Hoje, mesmo com um salário de 300 euros e um
buraco como casa, as pessoas têm receio de falar com medo de perder até isso», diz Stylianos Papardelas, fotógrafo
em Heraklion, em Creta.
Apesar das fortes manifestações
transmitidas para todo o Mundo, Kalomari salienta que a realidade grega é bem
distinta da que surgiu nas TVs: «Ao contrário do que se pensa, a maioria dos gregos permanece
inerte em resistir e protestar. Aceitou o seu destino como algo de incondicional», diz.
Todos referem estar mais
cépticos face à UE e ao euro. Porém, confessam que os danos de uma eventual
saída da moeda única europeia seriam piores. «Sou a favor do euro e penso que o
regresso à libra irlandesa não iria mudar a situação», adianta Frank Samms, ex-jornalista e
ex-gestor de companhias discográficas, residente em Westport, na costa Oeste
irlandesa.
Sobre uma eventual ajuda a
Portugal, gregos e irlandeses alertam que a situação é muito semelhante ao
período anterior ao resgate: juros em máximos, cortes de rating, queda do
executivo (Grécia) e sucessivos desmentidos do governo sobre a necessidade de
ajuda.
«O anterior governo negou o
auxílio externo mesmo quando o FMI já tinha embarcado no avião para Dublin», lembra Flyin.
Iosifidis é mais directo:
«Se tiverem coragem,
mandem o FMI dar uma volta. Se não, façam como os gregos, voltem a aprender a
cultivar a terra, a organizar festas com bebidas baratas e desliguem a TV
quando a publicidade começar».
Todos os depoimentos
foram recolhidos por email
A ajuda em números:
Grécia
110 mil milhões de euros
Contribuição 80 mil milhões de euros (UE) + 30 mil
milhões (FMI).
Impacto Medidas de austeridade para 2010-2013
visam poupar 25 mil milhões (11% do PIB).
Objectivo Reduzir défice orçamental de 7,4% em
2011 para menos de 3% em 2014.
IVA Taxa mínima subiu de 10% para 11% e a
máxima de 21% para 23%.
Impostos Subida das taxas sobre combustíveis,
álcool e jogo.
Função Pública Salários reduzidos em 7%.
Pensões Congelamento e redução de pensões.
Salários Corte de 30% no subsídios de férias e
de 60% no subsídio de Natal.
Empresas Imposto extraordinário sobre lucros.
Irlanda
85 mil milhões de euros
Contribuição 45 mil milhões de euros (UE) + 22,5
mil milhões (FMI) + 17,5 mil milhões (Tesouro).
Impacto Medidas de austeridade para 2011-2014
pretendem poupar 12,7 mil milhões de euros (8% do PIB).
Objectivo Reduzir défice de 9,1% em 2011 para
2,8% em 2014
Função Pública Despedimento de 10% dos funcionários:
21 mil até 2014 e mais quatro mil em 2015.
IVA Taxa mínima do imposto sobe de 11%
para 13,5% e a máxima para 23%.
Família Corte de 10% nos abonos.
Privatizações Vendas no valor de dois mil milhões de
euros.
Pensões Redução de 4%.
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