SOL

Candelabro

Num golpe rápido criamos laços e abraçamos o infinito como se o universo fosse apenas a nossa casa.

Uma casa que construimos cuidadosamente, com todo o material adequado como consta na lista dos engenheiros, empreiteiros e arquitectos.

Uma casa que nos acolhe e onde nos refugiamos como quem se protege do infinito.

Chove lentamente ao ritmo dos meus passos e os dias soletram palavras que não consigo decifrar.

Paro por um momento e olho ao redor, continuamos a ter muita pressa de chegar a algum lado, a qualquer lado, desde que nos identifiquem com rapidez.

Na pressa do não chegar nunca, não chegamos a lado nenhum.

 A luz é difusa e quando olhamos ao redor, tudo parece tão disperso e indiferente e por vezes sombrio.

Tudo o que é "pequeno" fica perdido na sombra de um candelabro, velho e partido onde a luz reflecte apenas aquilo que os nossos olhos querem ver,

 Os olhos, que reflectem o tamanho da "alma"

A casa que a Luana inventou para colorir os sonhos de menina.

 

 

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A primeira vez

Dos seus olhos não brotou uma lágrima.

Ela tinha pressa, muita pressa,  queria agarrar o momento e saciar a curiosidade que lhe envolvia as pequenas mãos de criança.

Apesar de ter 3 anos, parecia uma «mulherzinha» misturada com as outras crianças do infantário, uma estatura um bocadinho superior á maioria, mas o sorriso revelava que ainda era novata nestas andanças.

Ouviam-se os choros aflitos  de algumas crianças. A separação entre pais e filhos torna-se por vezes dolorosa e nem sempre conseguimos controlar a situação.

Sentia-me ansiosa e com o coração aos solavancos, uma dor fininha envolvia-me os sentidos mas a Luana fez questão de resolver a situação rápidamente e  disse-me ao ouvido, gosto muito da minha escola, tens de ir para o teu trabalho e juntou-se de imediato a outras crianças que brincavam dentro da sala.

Estava a pensar na forma mais confortável de me despedir, talvez um "volto já", mas ela parecia  estar integrada com tudo o que a rodeava, a verdade é que ainda permaneci ali, encostada á parede á espera que ela voltasse para se despedir...

Foi um dia contornado por uma variedade de emoções, a minha filha parecia tão adulta a gerir o seu novo mundo e eu uma mãe "galinha" de olhos embaciados e gestos perdidos a tentar controlar os meus medos.                                                             b

Quando regressou no fim do dia disse-me, houve meninos que choraram de saudades dos pais, e eu amassei a massa e fiz o desenho do sol amarelo.

Confessou-me que durante o intervalo tinha fugido para a sala das crianças mais crescidas porque na sua sala eram todos bébes, e ela era uma criança grande, não usava chucha.

Disfarçei o sorriso e tentei convencê-la que ela ainda é uma criança, apenas é mais alta do que a maioria da sua sala e que não é preciso haver pressa para ser crescida.

Ficou um pouco amuada e replicou: - Eu não sou uma bébé, sou uma menina grande!

Foi o seu primeiro dia de escola, um dia diferente, mas concerteza muito especial.

 

«A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.»

Fernando Pessoa

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O Menino que quer ser Paleontologo

Era uma vez um menino prodígio, uma criança fora de série.

Parecia um menino de um conto de fadas, mas no entanto ele é real.

Vive na ilha e anda na escola, é interessado e curioso, possui uma dicção esplêndida e uma capacidade surpreendente em desenvolver temas variados, um menino que apesar de ter apenas oito anos de idade, surpreendeu-me de tal forma que  fiquei com dúvidas se estava a conversar com uma criança ou com um adulto.

Confessou-me que quando for grande quer ser Paleontólogo e já conhece todas as espécies de dinossauros e a sua história ao longo dos tempos, um menino que começa desde já a abraçar a profissão que quer seguir, um dia quando for "grande."

Sim, ele é uma criança muito especial, possui uma força de vontade em querer aprender cada vez mais, uma sede infinita em querer beber de todos os conhecimentos que estão ao seu redor, um pequeno, grande heroi que merece toda esta atenção que lhe estou dedicando.

 Este menino é filho de uma amiga de longa infância e fez recentemente uma segunda operação delicada há cabeça, apesar desse contratempo continua a ter uma mente veloz como o vento e um olhar profundo da cor do mar.

Sim, estou dedicando este simples texto, porque acho que ele é um" pequeno, grande heroi" que eu tenho o prazer de aclamar.

São estes momentos, que nos fazem acreditar que as crianças tem uma força superior em ultrapassar os obstáculos e nos alegrar o dia com a sua espontaneidade.

Estas crianças nunca poderão ser vistos como "coitadinhos", que pessimismo de sabor a fragilidade, os lutadores e vencedores terão de ser vistos por algo que transmita esperança, felicidade e nunca amargura.

Há dias em que os gestos perduram no nosso espírito e o sorriso nos ilumina a alma, as crianças tem o poder de abrir as portas dos corações fechados.

Sim, ele é o meu heroi preferido, segredou-me a Luana ao ouvido, porque ofereceu-me a sua cadeira para eu andar segura no carro da minha mãe!

Bem haja este menino Paleontologo!

 

 

 

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Pai, o rato comeu a chucha!

É dificil ser criança!

Não caiu uma lágrima, mas fluiu uma tristeza no ar, o seu rosto contraiu-se  e as suas mãos envolveram-me num gesto terno e sedento de mistério.

Hoje é dia do Pai e nós vamos comprar uma prenda, mas o olhar da Luana continuava a questionar-me sobre o facto de o rato ter comido a chucha.

- O rato do filme? - perguntou-me ela.

- Sim o rato do filme, o ratatui.

- Vamos comprar uma prenda para o Pai?

- Sim, vamos comprar um brinquedo - gritou ela sorrindo de alegria.

- Um brinquedo? retorqui eu admirada.

- Sim, um brinquedo para o Pai brincar comigo!

Hoje é concerteza um dia especial, e o Pai vai adorar a tua prenda.

O tema da conversa mudou com uma rapidez  que me deixou meia atordoada.

- Mãe, o sol acordou, é amarelo!

Para a Luana tudo o que a rodeia é amarelo e verde.

E dificil ser criança?

Sim, acho que é dificil ser criança, nós adultos temos uma tendência inata para exigir constantemente, que estejam sossegadas, que não remexam naquilo que faz parte do mundo dos adultos, que cumpram as regras que julgamos ser essenciais e que conrrespondam ás caracterìsticas tipicas da sua idade e sem nos apercebemos perdemos muito tempo a dizer não faças isto ou aquilo, quando elas apenas precisam que as deixem ser crianças.

A Luana é assim, uma criança muito irrequieta, muito extrovertida, não pára um minuto, tem uma altura acima da média para a idade, com três anos acabados de fazer é confundida muitas vezes com uma criança de cinco ou seis anos.

Apesar de ser extrovertida, se forçarem ou questionarem-na muito, fica sem dizer uma palavra.

No entanto os seus gestos e a sua maneira de ser conrrespondem apenas aos de uma criança de 3 anos, que tem uma tendência ainda para ser um pouco desajeitada no andar e cautelosa nas escadas porque a altura dela assim o permite. e isso confunde  a cabeça de muitas pessoas, mas não a minha, graças a Deus..

Confesso que me revolta que "algumas pessoas" analisem uma criança pela altura, pelos gestos, pelo uso da chucha, pela aparência, pelas classes sociais, elas não merecem essa estigma, principalpelmente pessoas que não são formadas em pediatria, em medicina nem em psicologia, não podemos seguir os modelos  da perfeição e fazer comparações entre as crianças.

 São todas diferentes e no entanto todas iguais.

Respeitem a diferença e retirem a venda que turva o olhar.

É verdade que em criança e na adolescência também fui confundida por ser uma criança estranha, ao contrário da Luana, era tão sossegada e quieta que até na escola, algumas vezes as minhas expressões escritas eram confundidas.

Eram escolhidos os melhores textos em trabalho de grupo, e depois o professor fazia tipo concurso e de todos os grupos escolhiam um. Os meus textos foram muitas vezes escolhidos, mas no entanto algumas vezes confundidos por terem sido feitos por uma colega de carteira que era muito extrovertida e verdade seja dita muito bonita, mas no entanto boa amiga.

Claro que ela interrompia o professor na aula e dizia, não fui eu que escrevi, foi a minha colega Berta, e eu como menina tímida, ficava caladinha, por mim ficava mesmo assim como o professor quizesse achar, a confusão era dele, não minha!

Nessa altura não me preocupava com essas coisas, agora sim, passados alguns anos, preocupa-me muito que confundam a minha filha, não por eu achar que ela é superior  ou inferior a nenhuma criança, apenas por serem ageis e catedrásticos em pôr estigmas e não as deixarem evoluir na sua espontaneidade.

As crianças sentem e percebem esse tipo de coisas e sofrem, criam complexos e esquecem o sorriso, mas se depender de mim, a Luana jámais deixará de sorrir.

Todas as crianças são lindas, todas tem algo a oferecer á vida e ao sol, não poluam o ar que elas respiram, não lhes "prendam" as mãos!

É para ti Pai que nós as duas, eu como mãe e a Luana como filha te dedicamos este texto, para te dizer que és o nosso heròi, o melhor Pai do mundo.

Um Pai de olhar límpido e belo, que possui uma alma do tamanho do mundo.

Obrigado por teres aparecido nas nossas vidas, o mundo precisa de jardins floridos, e tu és o nosso jardim, onde juntos regamos as nossas flores e agradecemos a Deus e á vida por sermos abençoados por um sol radioso que ilumina a nossa casa.

A  Luana tem uma prenda para ti, eu não queria mas ela insistiu em comprar uma chucha.

ahhhhhhhhhhhh

- Pai, o rato comeu a chucha, mas eu já tenho outra...

Pai eu fiz-te um desenho lindo, um sol amarelo!

Segredou-me baixinho, quase em segredo, eu gosto muito do Pai.

Deixem as crianças serem simplesmente crianças, dêem-lhes tempo para crescer!

Bem haja todos os pais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Um conto para crianças "grandes e pequenas"

Nessa noite o Panda dormiu mal, deu voltas e mais voltas na cama, não conseguia esquecer a conversa que tinha tido com o pai, ele falava-lhe em acreditar...

Estava a ficar confuso, era muito fácil dizer que acreditamos em algo, mas sentir aquilo que dizemos dentro de nós como algo que nos envolve os sentidos e nos resgata a alma, bem ... isso era concerteza mais dificil para alguém como ele, ainda era muito novo nessas andanças, mas gostava de acreditar e sentir ao mesmo tempo.

Adormeceu a sorrir e sonhou.

Esvoaçou por entre nuvens de estrelas, caminhou por estradas de luz e de  alegria, cruzou-se com o sol de Primavera e brincou com a Lua.

Uma Lua luminosa e brilhante, parecia uma bola de futebol, mas o Panda não tinha muito geito para o desporto, por isso ficou meio desconcertado, mas a lua quebrou o silêncio e falou -lhe como uma voz doce e terna, sobre a magia das crianças que contèm o mundo no olhar. contou-lhe histórias para crianças grandes e crianças pequenas e o Panda acreditou que a magia existe, ele sentiu as suas carícias afagarem o seu sorriso e uma força sedutora e atrevida invadir-lhe o peito.

 Adorou ouvir as histórias de meninos que gostam de sonhar com a esperânça, rodopiar por entre carroceis coloridos e pintar o mundo de vários cores como quem desenha um arco - íris e o embrulha num papel de prenda e oferece a um adulto que não sabe sorrir.

O tempo parou naquele momento e o Panda aproveitou para sentir tudo o que o rodeava, tinha asas de condor, e uma força de abraçar o mundo,  dizer a toda agente as coisas bonitas que estavam ali, ao seu lado.

Ao rodopiar a uma grande velocidade não se deu conta que tinha tropeçado e caído no chão, será que já tinha acordado?

Não, olhou ao redor e tudo continuava na mesma, afinal tinha  aos seus pés uma tabuleta, será que era algum sinal de trânsito a dizer que não podia entrar..

Olhou com mais atenção, pegou no pedaço de madeira que estava meio despedaçado e com letras apagadas pelo tempo, mas após algumas tentativas consegiu ler com alguma dificuldade, "Sinto o medo do avesso", Miguel Torga.

Ficou curioso, mas quem seria aquele senhor que se chamava Miguel Torga, talvez algum cientista famoso, ou algum herói dos contos de fadas, porque  o mais engraçado é que a frase encaixava mesmo naquilo que ele estava a sentir, tinha virado o medo do avesso e sentia-se corajoso, sem medo de sonhar, começava a creditar que podia fazer muita coisa além de ajudar o pai nas lidas do restaurante, talvez até jogar á bola com os outros meninos da escola.

É verdade que era barrigudo e meio desajeitado, mas agora começava a achar que o mais importante não era a sua aparência e sim as coisas bonitas que estava aprendendo nesta caminhada pela estrada do acreditar..

Um arrepio percorreu-lhe o corpo, nesse instante abriu os olhos, e sentiu-se dolorido, a cabeça estava a doer, e não havia sombra de dúvida que estava bem acordado!

Olhou ao redor, e ficou meio atordoado, o sonho tinha acabado, aquele era o seu quarto, e tinha caído da cama, mas que grande trambolhão, tinha várias nódoas negras, mas onde estava aquela lua que lhe tinha contado histórias misteriosas e o tinha ensinado a gostar de si próprio.

- Olá Panda.

Que grande susto que o Panda apanhou, ali mesmo ao seu lado estava uma menina.

Olhou novamente pensando que tinha sido uma alucinação;

Sim, era mesmo uma menina que estava no seu quarto!

- Olá, mas o que faz uma menina por aqui sozinha?

A menina respondeu a medo e numa linguagem própria da sua idade:

- Queria conhecer o Grande herói!

- Mas que herói vem a ser esse, não estou a compreender?

- Como te chamas?

- Chamo-me Luana, tenho 3 anos e tu Panda, és o meu heroi !

- O Panda corou  de embaraço  e estremeceu de surpresa.

- Eu, um herói, deves estar enganada, eu apenas sei lavar pratos no restaurante do meu pai, não posso concerteza ser um herói.

- A menina estava quase a chorar, mas continuava a insistir, tu és o meu heroi!

- O Panda estava mesmo sem saber o que fazer, abriu a janela para apanhar um pouco de ar fresco e ainda não tinha amanhecido, a lua continuava no seu pedestal a brilhar no céu azul e parecia tão bela como aquela que tinha cativado o seu sonho. Tinha vontade de lhe pedir ajuda, mas não foi necessário, uma voz invadiu-lhe o quarto dizendo:

- Sim Panda, tu és o nosso herói!

Quando olhou ao redor a menina tinha desaparecido e da janela do seu quarto a Lua começava a afastar-se cada vez mais, ainda teve tempo de lhe acenar e murmurar em voz baixa, sim Lua eu sou o Panda!

Nesse instante ouviu umas batidas  na porta e a voz do pai a chamar:

- Panda, não demores, hoje temos um grande dia de trabalho pela frente.

- Sim pai, estou quase pronto.

Quando se encontrou com o pai na cozinha, este olhou para ele com uma expressão de zangado:

- Então Panda, ainda estás a dormir, vestiste a roupa do avesso.

- Sim Pai, hoje "sinto o medo do avesso".

- Ah! Ah! Ah!, e isso é bom ou mau perguntou o pai sufocado pelo riso.

- È muito bom Pai, significa que hoje vamos fazer as melhores soupas das redondezas e temperar as nossas sobremesas com um tempero muito especial.

- E que especialidade é essa?

- Vamo ter hoje na ementa, soupa de estrelinhas e sobremesas em forma de Lua.

- Ai Panda, tu hoje estás mesmo engraçado, mas vai lá mudar de roupa que já se faz tarde.

- Não Pai, eu hoje vou ficar assim.

- Com a roupa do avesso filho, que vergonha!

- Sim Pai, eu hoje virei "o medo do avesso"

 

 

 

 

 

 

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Um conto para crianças "grandes e pequenas"

Querer alimentar um sonho não é defeito nem falta de jeito.

O Panda era assim, barrigudo, comilão e sonhador.

Era divertido e engraçado, filho de cozinheiro aprendera desde cedo a trabalhar com o pai no restaurante da família, um pequeno recanto achegante e acolhedor, onde serviam as deliciosas soupas de tempero especial, que continuavam a encantar todos os que por ali passavam.

De vez em quando o Panda gostava de arreliar o seu sonho preferido, e nessas  alturas esquecia-se dos afazeres domésticos do restaurante e ficava de olhar perdido, a fantasiar com a sua imaginação.

Sonhava ser um dia um heroi, daqueles  que encantavam as crianças nos contos de fadas, ou talvez uma espécie de homem aranha, quem lhe der saber fazer magia, mas isto tudo não era apenas por vaidade, ele queria poder ajudar os seus semelhantes a vencerem as injustiças, a combaterem o ódio e a ter uma vida saudável e merecedora.

O Panda tinha muitos conhecimentos teóricos sobre os "Grandes Herois" mas ...quando se olhava no espelho, sentia o seu sonho desfeito em mil pedaços. Achava-se barrigudo, sem nenhuma inclinação para desvendar mistérios, meio desajeitado para os desportos radicais, e nestas alturas sentia-se irremediavelmente triste e patético  nos seus pensamentos.

No entanto, guardava dentro de si uma convicção, ser patinho feio tinha as suas vantagens, viajar no tempo era uma qualidade que nem todos os seus conhecidos podiam ascender, conhecia muitas pessoas que não sabiam sonhar.

Seria uma qualidade ou um defeito,  pensava o Panda, enquanto servia abundamente mais uma das soupas deliciosas do restaurante da familia.

Concerteza que devia ser uma qualidade.

Nesse instante, sentiu-se acordado para a realidade:

- Então Panda, hoje temos muito trabalho, nada de andares a dormir acordado!

- Desculpa Pai, não volta acontecer.

O Pai do Panda andava sériamente preocupado, começava a pensar que o seu filho devia andar meio adoentado, ou talvez cansado, será que estava enganado?

-Pai, não estou doente, nem cansado, vou já trabalhar!

-Ora esta pensou o pai do Panda, ultimamente o seu filho andava muito perspicaz e contudo alunático como quem vivia no mundo da lua, estava começando a desconfiar que algo se passava, mas de momento não havia tempo para desbruçar-se sobre esse assunto, o restaurante estava cheio de clientes e o trabalho chamava por ele.

A cozinha estava um autêntico reboliço, louça espalhada por todo o lado, e o Panda estava se vendo aflito com os afazeres, estavam precisando urgentemente de comprar uma máquina de lavar louça.

Nessa tarde  depois do trabalho acalmar e dos clientes saírem satisfeitos com o atendimento personalizado e cativados com a delicosa refeição, o Panda resolveu propôr ao pai, que tudo seria mais fácil se comprassem uma máquina de lavar louça.

- Não pode ser disse o pai, temos de ser nós a continuar a lavar a louça, a tua mãe está em casa a cuidar do teu irmão mais novo, e eu tenho de reduzir as despezas.

O Panda ficoiu meio tristonho, já estava farto de lavar louça, mas tinha de continuar a ajudar a família.

Meio distraído nos seus pensamentos, deixou cair uma pilha de pratos no chão  que despedaçaram-se em mil pedacinhos !

Perante o estrondo o pai apareceu na cozinha:

- Onde andas com a cabeça filho?

O Panda não respondeu estava sentindo-se muito mal, logo agora que a família precisava reduzir as despezas ele tinha deixado escorregar a louça que trazia no regaço.

- Peço desculpa pai, vou esforçar-me por ter mais cuidado.

- Não faz mal Panda, deves andar cansado, e situações dessas acontecem a qualquer pessoa.

O restaurante já está limpo, agora vou ajudar.te a lavar a louça.

Enquanto esfregavam os talheres de gordura o Panda quebrou o silêncio e perguntou:

- Pai?

- Sim filho.

- Posso fazer-te uma pergunta?

- Claro que podes.

- Podes me contar qual é o segredo do tempero especial das tuas soupas?

- Não tem segredo nenhum.

- Mas eu sempre pensei que os cozinheiros como o pai guardavam um segredo especial sobre os temperos dos seus cozinhados.

- Há quem pense que sim, mas o meu segredo é apenas acreditar naquilo que eu faço.

- Acreditar?

- Sim acreditar-mos naquilo que gostamos de fazer.

(continua)

 

 

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Falo de Amor

Estamos a finalizar mais um ano.

Tendo em conta que quero ser optimista, não quero escrever hoje, sobre tristezas nem lamentações.

O que passou... passou e as «tristezas não pagam dívidas».

È dificil não pensar no ano  que se adivinha, mas os bons momentos acontecem sempre, podem demorar, podem estar escondidos, mas acabam por se revelar, se soubermos esperar, olhar e acreditar.

O tempo na ilha está espectacular, a montanha vestiu-se de deusa, um manto branco salpicado de pérolas e diamantes a encantar a vista de qualquer sedutor.

A montanha sabe surpreender, possui o dom da magia, aquele  olhar profundo e emocionante embala a ilha ao ritmo das ondas do mar, que cantam uma canção profunda e bela.

Sente-se o cheiro do champanhe salpicado de maresia e o frio pincelado pela neve a espreitar pela janela da casa.

As gaivotas festejam a um ritmo estonteante, banham-se nas ondas do mar salgado e« vão beijar a terra», como se o momento fosse único e alucinante.

Tecem teias coloridas ao encontro do vento e abraçam o arco-íris como quem anuncia o amor, como quem quer estender a mão ao encontro de outro mão.

Sim, elas sabem alimentar o Amor.

 

http://www.youtube.com/watch?v=sBdeOuQM_gg

Bem Haja o Ano Novo!

«È isso aí

Como agente achou

que ía ser

a vida simples é boa

quase sempre

È isso aí

Os passos vão pelas ruas

nínguem reparou na lua

a vida sempre contínua.

Eu não sei parar de te olhar

Eu não sei parar de te olhar

Não vou parar de te olhar

Não me canso de te olhar

Não sei parar de te olhar.

È isso aí

Hà quem acredite

em milagres

Há quem não saiba dizer

a verdade.

È isso aí

Um vendedor de flores

a ensinar seus filhos

a escolher seus amores.

Eu não sei parar de te olhar

Eu não sei parar de te olhar

Não vou parar de de te olhar

Não me canso de te olhar

Não sei parar de te olhar»

 

 

 

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Estrela de Natal

Sente-se no ar um perfume diferente, um aroma que envolve o corpo e o espírito, uma voz murmura baixinho, é tempo de abrir as porta e a janelas, vamos deixar entrar nas  nossas casas o verdadeiro espírito de Natal.

Eu sei, o Natal foi banalizado, o dinheiro virou um bem essencial e a ganância tomou posse dos neurónios de algumas pessoas.

Apesar de tudo isso, precisamos continuar a tentar elevar este dia, as nossas crianças gostam do Natal, e eu, que sou uma criança grande, adoro ver os seus sorrisos brilhantes e espontâneos, aquela inocência de acreditar no sonho e na magia de um dia  diferente.

Ainda existem crianças que contentam-se apenas com um sorriso e com um pouco de atenção.

Ainda existem crianças que valorizam o lado humano da vida, e que continuam esperando por uma mãe ou um pai que nunca tiveram, alguém que lhes estenda a mão e as acarinhe.

Sim, existem muitas crianças a sofrer e toda a ajuda que podermos dar, será sempre bem vinda.

Precisamos de perder tempo,  o relógio da vida avança com uma rapidez impressionante, mas a pressa  que temos em chegar a algum lado é sempre superior ao tempo que nós dispomos, para parar e olhar para o lado.

As desculpas são sempre muitas, tudo serve para encobrir o que nos depara em frente do nosso olhar.

 «- Os homens da tua terra - disse o principezinho - plantam cinco mil rosas no mesmo jardim...E,  mesmo assim, não descobrem aquilo de que andam á procura...»

»Mas podiam descobrir aquilo do que andam á procura numa única rosa, ou num único gole de água.

- Pois era - respondi eu.

E o principezinho acrescentou:

- Mas os olhos são cegos. Deve-se procurar com o coração»

"Os olhos são cegos", e o Natal não deve ser a única razão para tirar a venda, mas as crianças estão mesmo ao nosso lado, e tal como o principezinho, muitas delas não são exigentes, contentam-se com coisas simples e pequenas, gestos  que transformem o mundo e que ajudem a brilhar o sol.

As coisas polidas e caras muitas das vezes gastam-se rápido, passam de moda, perdem-se no sotão da memória.

Quem me dera poder comprar um enorme baú de sonhos , com as cores do arco-íris e distribuir por todas as crianças do mundo.

Ouvem-se ao longe canções de Natal, o céu mantem-se intacto ao impulso da ganância, as estrelas sorriem por entre o brilho da cumplicidade e a lua mantem-se vaidosa e misteriosa no seu pedestal.

Nasceu o Deus Menino, cantam as crianças um hino de louvor, o céu está em festa e não pagamos bilhete para poder olhar e ver, a noite é bela e real, um conforto ao espírito de quem  souber perder tempo.

Na terra sente-se a correria das pessoas, as imensas prendas a amontoar, os sacos das compras a florir, o jantar para preparar e tu onde estás?

Pois, estas aí, na sombra da estrada, sentado na calçada olhando o movimento como uma criança que revê um sonho, as pernas a fraquejar, o espírito despido de alimento, e a saudade a aquecer a alma, entras no palco da vida, e és uma personagem de um conto de Natal.

Uma personagem importante, mas ninguem deu por isso, as tuas vestes não cativam, o teu corpo não envaidece, as tuas mãos estão vazias e o teu olhar sofredor perde-se por entre a multidão, és demasiado insignificante para chamar atenção, e a tua opção é continuar a ser a personagem de um conto de Natal, até que alguém tenha a coragem de parar, para te olhar e estender a mão de igual para igual.

As emoções são variadas, e os  que por aí andam, habitam uma solidão igual á tua e á minha, os nossos disfarces são poderosos, as vestes revestem as emoções, enganam o poder, mas os "mendigos" são reais, existem tal como são, eles próprios sem colarim nem fato de gala, despidos de luzes artificiais, sem pintura encantando a paisagem, eu acho que eles são uns verdadeiros heróis.

No fundo da nossa alma  temos todos um pouco de "mendigos," não temos provávelmente a  consciência de o sermos nem a coragem de o admitir, temos pavor da pobreza, medo da miséria,  de ver reflectido em nós, a imagem nua de o mundo desencantado. 

Perder tempo, será concerteza um desejo que o Deus menino gostaria que perdurasse nos dias de hoje.

Gostei de perder tempo a escrever este texto, senti a benção das estrelas a iluminar-me a alma e um abraço de esperânça a rodear as nossas crianças, elas que encantam a vida com sorrisos de mil sois.

Abri a porta e a janela da minha alma e vislumbrei a estrela de Natal.

Uma estrela brilhante que iluminou a minha estrada.

Bem Haja o Natal!

 

 

 

 

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Ser do Mar

Ter um pai presente é uma dádiva que não posso esquecer nunca.

Desde garoto que afeiçoou-se ao mar, fez a sua própria cana de pesca e partiu  ao  encontro do seu ganha pão.

Era preciso sobreviver, ajudar a família, e os tempos eram difíceis.

Não pôde dedicar-se aos estudos primários porque havia outras prioridades, teve de abandonar a escola, as necessidades nessa altura eram reais, era urgente procurar um meio de subsistência.

Filho de pescador,  vestiu-se de ilhéu e aprendeu desde cedo a arte de pescar,  alimentou uma intensa paixão que ainda hoje permanece viva e ardente dentro do seu peito.

Sempre me lembra de o meu pai ser apaixonado pelo mar, e após um dia de labuta voltar para casa com o peixe para vender,  nos  seus olhos cansados havia sempre um clarão de luz misturado com o prazer que sentia em" ser do mar".

Uma garra de desbraver ventos e marés, estudar os segredos das luas e acariciar o peixe como se despedisse ternamente de um amigo, um amigo que o ajudava a alimentar o corpo e o espírito.

Tenho de admitir que sinto orgulho da sua energia, do seu corpo saltitante que rodopia de rocha em rocha escavando no mar que o viu nascer, crescer e envelhecer.

Sim, o meu pai tem 79 anos, e um corpo franzino, ágil como um jovem e umas pernas acostumadas a rodopiarem por entre as pedras do mar salgado.

Não é pescador de mar alto, escalou altos pesqueiros, e fez-se ao trabalho, vendeu muito peixe, lapas, búzios, polvos e caranguejos e voltou para casa feliz por mais um dia de trabalho.

Hoje passados alguns anos continua a fazer da pesca não um "ganha pão", mas sim um prazer e uma paixão que o mantém ternamente perspicaz e atento a esta arte de lobo do mar.

Faz um caldo de peixe de sarar qualquer maleita da vida, este é o meu Pai, com defeitos e qualidades que merecem ser acarinhados com estas palavras que lhe dedico.

 pai.

A ilha sempre foi o seu aconchego e o mar o espelho da sua alma.

Sofreu de algumas doenças difíceis e continua a frequentar de vez em quando o IPO de lisboa, sou sempre a sua acompanhante, e admiro a sua força de vontade que continua a prevalecer e que o leva no dia a dia a subir altos penhascos,  a carregar o seu cesto de vimes com peixe fresco para alimentar a família, está-lhe no sangue o cheiro do mar, e confessa entusiasmado que a maresia é o seu agasalho, uma ponte para o paraíso onde se mantem vivo e lúcido, desfrutando das maravilhas que a natureza lhe ofereçe.

Ser ilhéu é um previlégio que o mantem jovem e bonito.

Gosto de ti Pai, pelo que és e sempre foste na minha vida, um homem alegre que sabe amar.

Ser do mar!

 

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Gosto de ti, Mãe

Hoje vou escrever sobre a minha mãe, uma mulher muito especial.

Sinto-me feliz por ter ao meu lado uma pessoa com um interior tão bonito.

Sim, estou a falar da minha mãe, acima de tudo uma pessoa trabalhadora e muito sensível.

Uma mãe que não teve a sorte e a alegria de poder crescer com a sua mãe, porque infelizmente ela morreu muito cedo.

Somos muito unidas, muito parecidas, muito diferentes, muito iguais.

Relembro que ela adorava escrever e ler,  sonhava ser professora primária, mas no entanto não houve possibilidades e teve de deixar voar o sonho. 

Foi contigo mãe, que aprendi a ter hábitos de leitura, que aprendi a folhear um livro e a interpertar o seu conteúdo de uma forma tão simples e complexa, foste tu mãe que me transmitiste a magia da escrita e me essinaste a ser o que hoje sou, nada de especial, nada demais, apenas a ser eu própria sem máscaras nem enganos.

Dentro das suas possibilidades escolheu a profissão de doméstica, uma tarefa que sempre soube desempenhar com muito carinho e empenho.

Trabalhou no campo, escavou na terra e semeou o pão de cada dia. Ceifou ventos e marés e alimentou a ternura de uma família.

Nunca viveu com muitos luxos, sempre soube ser igual a si própria, uma mulher que colhe "diamantes" na terra seca e frágil, um corpo cansado do trabalho, mas um coração precioso, um pequeno tesouro que guarda dentro de si.

Gosto de olhar as suas rugas que parecem que nos transmitem força e segurança, segmentos lineares que iluminam um rosto, não, não ficas feia nem envelhecida com as tuas rugas, elas são o caminho que cinzela a tua integridade,  um aconchego único de amor.

Sei que algumas mães esperam uma vida para ouvir, uma frase tão simples e tão essencial, mãe, eu gosto de ti.

Mãe eu gosto de ti, nunca serão demais as.vezes que o poderei dizer.

Quando somos crianças é sempre mais fácil transmitirmos amor, por vezes esquecemos do bem essencial que é, a presença de uma mãe na nossa vida.

Existe uma tendência geral para se fazer "grandes" homenagens depois do falecimento de algumas pessoas, porque não fazemos isso quando essas pessoas estão vivas, porque não lhe dizemos olhos nos olhos, o quanto são importantes, o valor primorial que tiveram ao longo da vida.

Continuo a achar que depois de estarmos mortos, somos sempre mais importantes para algumas pessoas do que quando estávamos presentes.

É sempre mais fácil apontar os defeitos e passar por cima das qualidades, é dificil dizer bem, porquê?

Conheço algumas pessoas que no dia que forem capazes de tecer uma qualidade ou um elogio, perdem concerteza, um dente molar, digo isto sem querer ofender nínguem, apenas um respingo de humor para temperar esta homenagem.

Acho que deviamos começar a pensar em fazer mais homenagens em vida das pessoas, como seria emocionante e belo olhar para um rosto, que está sentindo a emoção e a beleza do momento.

Vale sempre a pena.

A minha mãe tem uma licenciatura de maternidade, soube ser  "Mãe,"não tem nenhum papel que o justifique, não andou na faculdade, mas tem os conhecimentos necessários para isso e muito mais, não é uma pessoa conhecida nem notada, é apenas a minha mãe, digna de uma inteligência peculiar.

Mãe, sei que não vais poder ler estas palavras que te dedico com muito carinho, ultimamente os teus  enfraqueceram, mas eu vou contar-te esta história  real de amor, e olhos nos olhos vamos poder sorrir e abraçar o gesto onde te revejo todos os dias.

Mãe!

Que bom que tu existes,  continuas a ser o meu aconchego, o meu porto de abrigo, uma chama quente onde deposito os meus medos e as minhas ansiedades, abençoado seja o dia em que tu nasçeste.

 

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Doida

Não gosto de grandesas, gosto do que está para além do olhar e da imaginação.

Claro que as coisas pequeninas são muito valiosas, mas geralmente não estão ao virar da esquina, nem se encontram á venda nos centros comerciais.

Coisas pequenas e singelas, ficam invisiveis ao olhar e o véu que nos entorpece os sentidos e resgata a alma, deixa-se levar pelo que os olhos cativam,

Sinto-me cativa.

Sim cativa das manhãs que embalam a minha mão, aquela mão que limpa o vidro da janela, num dia de humidade, um dia de Inverno.

A ilha fala por si, vaidosa e caprichosa, mas o mais importante e real é que a ilha possui segredos e belezas que apenas o coração sente.

Hoje encontrei algo de valioso, era tão pequenino como um grão de areia, quase impossivel de ser visto ao olhar mas tão grande e especial.

Não pediu para ser notado, e aparentemente nada se via, a não ser a escuridão negra da terra onde cavo e desbravo as palavras que escrevo.

Doida gritou a minha "menina dos olhos d´água.

Doidas dissemos nós, num coro convencional.

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Paralelos de amor

Uma janela aberta e um rasgo de vento entrando de mansinho.

Amizade será concerteza, uma palavra que todos nós gostamos de alimentar e saborear, para ser ingerido devagarinho e revestir o nosso corpo sedento de ternura, preencher o vazio que nos gela a alma e afogenta a ansiedade,  uma ponte por entre o medo da solidão.

A solidão, um túnel com brechas de luz e escuridão, uma dor que geme baixinho embalando a saudade que se desgasta e nos prende as mãos, toldadas pelo cansaço.

Uma ilha escondida na multidão, o barco partiu e o mar incendiou.

As cinzas caiem pelo chão embaladas pelas ondas do mar e o gesto nasce de madrugada.

O gesto que nos cativa o sorriso, uma melodia que nos abraça os sentidos e leva-nos a habitar um céu azul povoado de flores perfumada de jasmim, neste jardim onde espero por ti, e a amizade guarda segredos de mil sois.

A amizade tem um sabor estranho, doce e quente, um caminho acolhedor, um alicerce onde construo o meu abrigo e ressuscito numa noite de tempestade.

A amizade tem um sabor amargo, fere-nos as emoções, castiga-nos a memória, queremos alcançar o céu e a lua, mas o sol tece teias confusas de fantasia, resguardamos o sofrimento, congelamos o alimento e a vida remenda -nos os sentidos.

Os muros de pedra caiem no chão, ainda se nota as marcas dos teus passos encobertos pela vida que envolve o tempo, o tempo que passou , "a vida não pára."

O mundo gira como uma roda gigante, onde as crianças pulam de alegria e a amizade continua a levitar sobre nós como nuvens de esperânça.

Como eu gostava de semear a amizade  e regar o amor que nos voa na alma.

Como eu gostava de parar o momento e "saltar o vazio"

Gosto de olhar o céu, numa noite viva de emoção e esperar que as estrelas iluminem as amizades que partiram, aquelas que se escondem na sombra do medo, e aquelas que permanecem entorpecidas na estrada.

Gosto de olhar o céu, e esperar que as estrelas perdurem no meu coração.

A amizade será concerteza um punhado de estrelas cintilando nas tuas mãos.

Cintilam nas tuas mãos

fragmentos de verdade

gestos entorpecidos

de amor e saudade

Cintilam no teu olhar

lágrimas de solidão

mágoas de esperança

emergem na multidão.

 

 

 

 

 

 

 

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A Cor da tua pele

As palavras soltam-se por entre o branco do papel, escrevo com vontade de escrever...

Pinto o céu de cores douradas e a cor da tua pele brilha suavemente por entre o tamanho da tua alma.

Sim, continuo a escrever para ti, menina dos olhos de água.

Quando nasceste houve uma "grande" curiosidade entre os familiares e amigos, de que cor seria a tua pele?

Os telefonemas que recebi foram muitos e alguns deles directos e claros, e foi nesse instante que tive a certeza que para algumas pessoas a cor da pele pode ser muito importante.

  Disfarçadamente fui apanhando alguns comentários pronunciados a meio tom, se a bebé seria branca ou "pretinha", pois...nada mais natural, se o pai é negro e a mãe é branca, provávelmente vai ser mulatinha.

Por acasso nasceste de pele branca e olhos verdes, que surpresa para alguns, que decepção para outros, eu aceitei-te como és, a minha menina dos olhos de água.

 Ainda hoje passados dois anos, continuo a ouvir que provávelmente ainda podes escurecer...como se esse facto pudesse ter alguma importância na nossa vida.

Não, não tem nenhuma importância, acho triste e ridiculo que se perca tempo com estes factos, mas a verdade é que eles continuam a perdurar nos nossos dias.

O que está visivel ao nosso olhar, nunca deveria constar duma folha de registo consciente ou inconsciente, de que serve uma imagem sem sumo, seca e podre colorida de tons cativantes?

Avaliar uma pessoa pela cor da pele ou pela imagem, é concerteza uma forma injusta e cruel de estar na vida!

Desprezo e ódio existem por todo o lado, perdemos tempo com entretantos e factos tão mesquinhos e segundários que acabamos por não ver o lado bom e saudável da vida, a inteligencia não se mede aos palmos, a nossa alma e o nosso eu, não tem cor, seremos concerteza" grandes pessoas "por aquilo que somos e não por aquilo que parecemos.

 Aprendi a não ser preconceituosa e a não me deixar levar pelas aparências, que por vezes iludem e cegam.

O racismo existe, e a cor da pele pode ser um registo de identificação para algumas pessoas, tal como a aparência, ou o facto de pertencer a determinada classe social, não vou comentar, apenas limito-me a a sentir-me orgulhosa por não possuir dentro de mim esse sentimento mísero que reveste as partículas do ser.

As crianças são a luz de um novo dia, elas vislumbram o mundo no olhar, tecem sonhos de esperança e magia, que culpa poderá ter uma criança dos ódios entre raças e das guerras que despontam ainda dentro dos homens?

As crianças merecem um mundo melhor, onde os preconceitos e as injustiças sejam apenas um jardim de flores perfumadas, uma amálgama de alegria pintada de todas as cores, um sorriso aberto alimentado de afecto, e uma mão que espera por ti...

Deixem as crianças pularem de alegria, sem "medos e fragilidades"!

As crianças grandes gostam de abraçar o sol e lavar as mãos num mar luminoso,  brincar ás escondidas e soltar as amarras que escurecem a madrugada.

Vamos colorir o teu sorriso de todas as cores possiveis e imaginárias!

Eu sou uma "criança grande" e continuo a escrever para ti, Lua.

«...perguntei aqueles miúdos o que é que eles fariam se lhes fosse dada uma completa liberdade para modificarem o comportamento dos adultos como eles quisessem, o Pedro respondeu: «Se fosse eu, eu dava-lhes os conhecimentos que têm as crianças agora porque eu acho que assim os adultos iam-nos compreender melhor.» Quer dizer, no fundo, fazia reviver nos adultos as crianças que existem dentro deles.»

João dos Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Lua

O meu" presentinho dos céus".

Sim, é para ti que continuo a escrever, a compor uma melodia de amor e emoção, para ti, Lua.

A pauta acaricia-me a leveza do sonho e as notas músicais elevam-se pela subtileza do teclado.

Olho para o piano e sinto o momento de cumplicidade, impossível resestir ao seu charme, acho que nos conhecemos numa outra época distante...uma espécie de amor não conrrespondido guardado no fundo da meu ser.

Sim, talvez tenha sido um "Amor" platónico,  parecias intocável no alto do teu pedestal, e eu uma criança tímida olhava-te, olhos nos olhos  e corava intensamente, como quem espera que um dia seja finalmente notada.

Passados muitos anos tive oportunidade de te conhecer, e o meu fascínio aumentou, não eras apenas uma aparência bonita, tinhas conteúdo, magia e verdade.

Lembro-me que nessa altura, alguém perguntou-me  friamente, para que queres tu, um piano, que vais fazer com ele, não sabes tocar, não conheces as notas músicais, que desperdício!

Ainda hoje, não ligo muito ás pautas músicais, gosto de deixar-me levar pela sensibilidade do ouvido, gosto de esvoaçar pelos segredos dos sons e tecer uma melodia de sonho,  para ti, Lua.

Por entre a distância do tempo, nínguem percebeu...a ligação íntima que eu tinha com o piano, a emoção contida quando o olhava, e a sensação de prazer que nós sentíamos quando soltávamos a inspiração das palavras e o sorriso do sol e habitávamos o paraíso.

Seria loucura?

Continua a ser fascínio, sinto a mesma emoção e ele será sempre o espelho da minha alma.

Alguém me segredou neste instante ao ouvido, ah...não sabia!

Quando é que aprendeste a tocar?

Respondo simplesmente, não aprendi, quando em criança nos olhávamos, senti que já nos conheciamos de algum lado, mas ainda não consegui descobrir.

Será patético dizer que ainda hoje sinto uma emoção forte quando acarício um teclado, sim é verdade!

Será ridiculo afirmar que ainda hoje espreito de uma forma fugaz e timida os pianos nos seus pedestais, sim é mesmo verdade.

Mais verdade é ainda revelar que esforço-me por não soltar as lágrimas, quando ouço um piano a tocar...

Perguntam-me novamente, porque estás neste momento a perder o teu tempo a falar duma paixão do passado, não conrrespondida?

Hoje tu não compreendes Lua, és ainda uma bebé, mas estamos sempre a tempo de nos revelar-mos para nós mesmos, de não  escondermos o nosso verdadeiro eu das pessoas mais importantes da nossa vida.

Quando souberes ler, vais concerteza apreciar o meu depoimento, o teu sorriso diz-me que concordas comigo, e eu digo-te que acabei de compor esta canção para ti, menina dos olhos de água.

 

Gosto de andar

de mãos dadas

contigo

amor

 

Não interessa a idade

Não interessa o tempo

Há sempre um momento

Para quem sabe apreciar

 

Gosto de andar

de mãos dadas

contigo

amor

 

O céu sorri de bondade

A terra aplaude a sensação

A natureza é conselheira

Não enganes o coração.

 

Gosto de andar

de mãos dadas

contigo

amor

sim contigo

Lua.

 

Novamente alguem me questiona, não se ouve a música, apenas o som do vento e as palavras soltas em movimento......

A música da canção ficou guardada na memória deste intante, apenas a Lua a está ouvir e está a gostar, porque as suas mãos entrelaçam nas minhas e diz-me baixinho:numa prenúncia muito própria:

Gosto de andar

de mãos dadas

contigo

Mãe.

 

 

 

 Lua.

 

 

Publicado por berta | 31 Comentário(s)
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