A nova Criptocracia
O cidadão treme. Treme porque tem um empréstimo com uma prestação galopante, treme porque tem uma família e isso significa despesas com a casa, alimentação, e criação dos filhos, no fundo, o cidadão treme porque o grau de incerteza sobre a sua solvência financeira é enorme. E quando o cidadão treme, não consome e como tal há um estado de letargia no comercio (veja-se as quedas nas vendas dos automóveis que rondam os 25%). Numa palavra é a recessão instalada.
Quem são os responsáveis por este estado de coisas que estão a asfixiar as famílias? Têm rosto? Têm nome? Respondem perante alguém? Os especialistas da economia, começaram por nos tentar convencer que “não havia almoços grátis”, depois, que seriam os Chineses e Indianos a aumentar o seu grau de consumo de determinados bens, e como tal, petróleo e cereais estariam a obedecer à “lei da oferta e da procura” (no entanto, agora já estão a metade do preço, sem que, ao que se saiba, tenha havido qualquer mortandade terrível nesses países).
A realidade, tal como a podemos perceber hoje, é que esta vaga de fundo neo-liberal, de “menos estado, melhor estado”, conduziu a duas constatações; A primeira, a de que os nossos economistas que escrevem e falam nos órgãos de comunicação social, venderam as “patranhas” neo-liberais com a mesma facilidade com que agora advogam a intervenção salvadora do Estado da economia, o que só por si, diz bastante sobre o valor de certas afirmações “cientificas”. A segunda constatação, é a de que os governos, mesmo que “Socialistas”, ao diminuir a capacidade de intervenção do Estado na economia e, consequentemente, o seu poder regulador e disciplinador, não tendo sido causadores, pactuaram com o actual estado caótico dos mercados e das finanças familiares.
No fundo o neo-liberalismo iniciado nos anos 80, com a administração Reagan nos EUA, criou as condições para que um conjunto mais ou menos anónimo de gestores, políticos (que muitas vezes se tornam em gestores), e ainda de académicos (que fizeram o seu papel de cobertura intelectual), fundasse uma nova “criptocracia”, onde é difícil apontar os culpados, os responsáveis, os autores e os coniventes com a actual situação desesperada. E, no entanto, é o dinheiro dos contribuintes que vai ser usado para “ajudar” a banca a sair do buraco. Irónico, ou talvez não…