O Sol começa a apertar e com as primeiras tardes de Verão os olhares viram-se para as nossas praias. Extensos areais dourados, abençoados por um mar que nos fez grandes, torneiam toda uma costa de prazeres e sabores impossíveis de esquecer. São parte da nossa história, alma da nossa identidade, locais de partidas e chegadas, de lágrimas e abraços, de emoções perdidas e sentimentos reencontrados, são pontões que entram dentro do mar e nos transportam até ao ínfimo de nós próprios. É nesta herança tão lusitana que alguns dos melhores espaços de lazer se apresentam.
Como o Verão ainda está no início e o tempo ainda não é muito, vou começar esta volta pelas nossas praias com uma ida aqui bem perto, à Caparica, mais concretamente a São João da Caparica. Numa praia massacrada por um Inverno rigoroso, um conjunto de bares dá-nos uma sensação de normalidade estranha para a ocasião. Num look renovado, o Bicho d’Água surge numa localização privilegiada. Ao fundo a Serra de Sintra e Cascais, mais perto a barra de Lisboa e o Tejo e do outro lado toda a costa que se estende até Sesimbra morrendo no Oceano. O espaço oferece-nos dois locais distintos, uma sala interior, aberta ao mundo por janelas que cobrem todo o bar, dando-nos uma sensação de espaço e liberdade e nos liga à praia sem termos a sensação de vento ou areia, e uma esplanada beijada pelo Sol e que nos transporta para paragens longínquas e paradisíacas.
Optei pela esplanada e tirei os sapatos enterrando, com um gozo de menino, os meus pés na quente e fina areia. Ainda antes de olhar para a ementa inclinei-me para trás e de olhos fechados deixo o Sol cumprimentar-me. O menu é diversificado e leve, como se exige num local de veraneio. Fresco, com propostas de mar suculentas e saladas para os mais variados gostos. Os pratos têm uma boa apresentação e são servidos de forma atenciosa. No entanto, e embora as outras mesas me façam subir o apetite, opto por um menu “leve”. Estamos na praia e o Verão requer algo de menos consistência. É-me sugerido então a tosta de frango. Aceito e enquanto espero peço um sumo de laranja. Encorajam-me a substituir a minha escolha pelo “especial” sumo de morango. Volto a aceitar.
Pouco tempo depois, a minha escolha é servida e na primeira dentada sinto que fiz a opção certa. A tosta é deliciosa e todo aquele mar como que inunda um momento único que só a “nossa” praia nos consegue dar. Viro-me depois, a medo, para o sumo. Apresenta-se num copo alto e largo com um tom avermelhado e composto por uma metade de morango espetado num dos lados do copo. Ao primeiro gole estou rendido. Confesso que não percebi qual o segredo mas aquele sumo tem alguma coisa de especial. É cremoso mas não é um batido, é morango mas doce, é fresco mas não apresenta gelo ou granizado. Numa palavra: perfeito. É indiscutivelmente o melhor sumo que já bebi no nosso cantinho lusitano. Como qualquer almoço de Verão, este dura até às 16h, altura em que os meus pés já criam raízes na esplanada onde com o mesmo sorriso do início os empregados continuam a cumprimentar quem os visita. Numa mistura de sabores e sensações despeço-me da praia e numa última puxada pela palhinha saboreio o doce do sumo, mas desta vez misturado com o sal daquele mar e o calor daquele Sol. Uma tarde fantástica, um local apaixonante, mas onde perfeito, perfeito…é o sumo de morango.
Bicho d’Água
Praia de São João da Caparica
Imaginemos o seguinte cenário: uma janela de 6 metros aberta para o mar. O céu estrelado morre numa falésia cor de terra que corta o horizonte até desaparecer numa praia ao longe. Pequenas luzes de barcos reflectem as estrelas que dormem por cima das nossas cabeças e o som das ondas quebra com gentileza as batidas de uma música de fundo sem letra ao sabor de Carmen Miranda. Agora imagine-se a jantar neste cenário, numa mesa virada para tudo isto e com a atenção de um serviço sempre presente e sorridente. Já imaginou? Pois bem, existe e é já ali.
O couvert não é original mas apresenta a inovação de um creme de queijo branco. Escolhi para entradas mexilhões fritos em azeite e alho, enquanto um Gordons acompanhava a música. Estava tão bom que estive quase tentado a largar os talheres e atirar-me ao molho bebendo pelas conchas dos mexilhões. Olhei duas vezes à volta ainda na esperança de o conseguir mas desisti da ideia, mas fica a mensagem, o molho é escandaloso. A seguir decidi pedir algo exótico. O restaurante pedia carne e eu acedi mas quis algo diferente. Acabei por decidir por um Bife à Moscovita, o que na prática significa um bife frito em vodka e servido com um molho de natas e caviar. Acompanha com legumes e arroz (não resisti e pedi uma dose de batatas fritas). O sabor ao vodka não é muito intenso e a mistura das natas com as duas variedades de caviar, tornam o sabor muito agradável ao paladar. Sem dúvida uma excelente escolha. Para quem gosta de peixe recomendo o Folhado de Salmão com molho verde. Excelente apresentação.
Depois de tudo isto foi-me apresentado a carta de sobremesas que confesso é demasiado extensa para mim, dificultando-me a escolha. Acabei por me inclinar para uma tarte de maça com canela e que boa escolha fiz. É indiscutivelmente a melhor tarte de maça que comi nos últimos anos. Com um pequeno mimo de chantilly, a tarte vem quente e envolvida num molho de canela que se derrete na boca com o creme de maça. Tudo combinado resulta numa explosão de prazer que temos pena que termine e quase nos faz evitar o café para não perder o sabor que teima em sair dos nossos lábios. Se tivesse de escolher uma palavra eu diria: divinal.
A noite já vai longa e da janela o mar funde-se agora com o céu, ambos já negros da hora. Fecho com o tradicional café e saio satisfeito com a escolha da noite. Superou as minhas expectativas pela envolvência, serviço, qualidade e acima de tudo pelo sabor dos pratos servidos, em especial daquela fantástica tarte de maça. Fica a recomendação para uma noite especial ou naqueles dias em que nos apetece fugir do mundo. Uma última nota para o preço, está enquadrado no local e na qualidade mas situando-se nos 35€ por pessoa.
Os Prazeres da Carne
Esplanada Grill
Quinta de São José da Guia
Estrada do Guincho – Cascais
21 484 33 34
www.prazeresdacarne.com
O dia da mãe é algo de maravilhoso. Este ano serviu de desculpa a uma visita a um novo espaço gastronómico numa zona que adoro, o Meco. A caminho da Praia do Moinho de Baixo, na Aldeia do Meco, numa elevação encontramos uma casa em madeira muito bem tratada, com acabamentos engraçados e que se abre por detrás de um portão pesado e de design. O parque de estacionamento poderia estar mais bem tratado mas é amplo e dá-nos uma sensação de praia. Entrando por uma porta enorme de vidro, deparamos com o primeiro espaço, uma sala espaçosa onde o espaço é virado para uma parede de vidro que abre o horizonte ao mar. Do lado direito a cozinha surge-nos discreta e a zona de serviço é funcional sem complicar quem frequenta o restaurante. Seguindo chegamos ao segundo espaço, já do lado de fora, virado para a praia, temos uma varanda de madeira onde uma esplanada de mesas descansa ao Sol. É maravilhoso. De lado, completamente exposto aos raios solares temos um banco confortável e enorme, onde podemos aguardar pela nossa mesa, enquanto bebemos algo fresco.
Depois desta recepção muito agradável, somos brindados por pão saloio e azeite virgem, uma entrada cada vez mais na moda, para satisfação das minhas raízes alentejanas. A ementa é toda virada para pratos de peixe e talvez por isso nem hesito. Decido experimentar uma entrada já muito vista mas que o empregado me recomenda como especial, uma frigideira de camarão frito em alho e azeite. Os camarões são de tamanho considerável e o sabor está realmente bom, num equilíbrio difícil entre a suavidade do azeite e a intensidade do alho. A dose é bem servida, na porção certa para satisfazer sem eliminar a fome que já se faz sentir. Para prato principal volto a ceder a um conselho e opto por um Cantaril. O peixe vem escalado para a mesa, acompanhado de legumes e batatas assadas com uma casca estaladiça e bastante aloirada. A escolha foi acertada, o peixe é muitíssimo saboroso e os legumes (algo que nem sou particularmente fã) estão no ponto. O prato vem bem apresentado e já regado de um fio de azeite que dá-lhe o gosto.
Após longos minutos de repasto e celebração do Sol e da vista, termino e olho de lado para a lista das sobremesas. Mais uma vez o atencioso empregado recomenda uma série de barbáries para o estômago e para o peso. Tudo soa deliciosamente e apetece-me experimentar tudo. Não deu para experimentar tudo mas quase. Para a mesa veio um strudel, um bolo de chocolate e um creme queimado. Não consigo eleger um. O strudel vêm com uma aparência imponente, coberto por fios encarnado fashion e acompanhado por uma bola de gelado de nata, derrete-se na boca a cada colher, provocando arrepios de prazer. O estaladiço da maça contrasta com a maça bem cozida e o derreter do gelado. Perfeito. O creme queimado é uma variação do leite-creme tradicional. No entanto, após a camada de açúcar queimado encontramos um creme que escorre pela colher e adoça a boca numa textura quase única. Finalmente o bolo de chocolate. Só me ocorre uma palavra: escandaloso. Muito bom e sem reparos. Uma última nota para um facto que destaco de grande importância: as sobremesas são servidas à temperatura ambiente, um ponto importante e que faz a diferença.
Após tudo isto resta-me fechar a tarde (e já se fez tarde) com um café. O tempo corre e passamos uma tarde fantástica observando o mar, aproveitando um bronze de Sol e saboreando um almoço muito bom. Em resumo, um espaço muito agradável, bem conseguido e inserido na paisagem, que junta a localização quase perfeita com uma comida bem apresentada, muito saborosa e servida com bastante qualidade.
Mar do Peixe
Rua Praia Moinho de Baixo
Aldeia do Meco
2970-074 Sesimbra
Telefone: 21 268 40 34
Website: www.mardopeixe.pt
e-mail: info@mardopeixe.pt
Após algumas semanas de ausência, mas onde não deixei de experimentar alguns restaurantes muito interessantes e que tenciono partilhar ainda esta semana, não posso deixar de começar este novo mês por enaltecer e divulgar aqui um dos mais apreciados momentos gastronómicos do povo português. Como sabem ontem foi dia de jogo grande e é nestes dias que os estádios ganham cor. Mas esta cor não vem só das bandeiras e cachecóis ao vento e dos cânticos sofridos em uníssono nas bancadas. É algo muito superior a isso, é algo mágico que envolve a multidão e a transforma numa massa humana com emoções colectivas.
Quando me preparava para o jogo um amigo convidou-me para o que ele chamou de dia do adepto. Perguntei-lhe o que isso significava e ele disse-me que o ponto de encontro era ao meio-dia no estádio. Fiquei admirado visto que o jogo se iniciava apenas às 20h15 e disse-lhe que estava a contar chegar muito perto dessa hora. No entanto, ele contrapôs e disse que assim iria perder momentos cruciais do jogo. Mas como, pensei eu, vou ao futebol desde de pequeno e sempre chego nos últimos 20 minutos. Foi então que ele me explicou.
O dia começa com a reunião do grupo em torno da estátua do grande Eusébio, prestada a devida vassalagem seguem aos abraços até à “roullote” (termo técnico dado pelo adepto) onde se encontram com mais uma dezena de colegas do “dia do adepto”. Nova sessão de abraços e o arranque dos festejos com a primeira mini (ou mine como se diz em linguagem de adepto) do dia. São neste momento doze horas e quinze minutos. Após alguns brindes faz-se a primeira encomenda gastronómica: “sai uma dose de coiratos! E com pelo se faz favor!!!”. Ora qualquer adepto sabe que o coirato é um petisco que pede mini e por isso sai também mais uma rodada. O coirato é servido com cuidados redobrados sobre uma fatia mal cortada de pão saloio daquele da Malveira e coberto por um molho acastanhado tipo iscas mas com ainda mais banha e refinado com um toque especial de gordura ainda do último jogo. A “degustação” demora algum tempo. Note-se que no dia do adepto o tempo não é controlado em minutos mas em mini’s pelo que um coirato equivale não a 30 minutos mas a 3 garrafinhas. Finda a primeira rodada, os adeptos reúnem-se agora para o primeiro momento sério do dia: a leitura de A Bola. Este é um momento mágico e que requer a máxima concentração e por isso impõem-se mais uma mini. As primeiras páginas a serem devoradas são obviamente as do Glorioso, com especial enfoque para as “tiradas” do Miccoli e do Simão. Discute-se a táctica e alguém lá do fundo atira “é pá, acho que hoje afinal joga o Derlei.”. Está desde logo aberta a discussão e a temperatura aquece. Esgrimem-se argumentos de alto nível sobre a capacidade organizacional do treinador e até sobre a profissão da sua mãe e do seu passado “lagarto”. Há mesmo um adepto que ainda se lembra que há 18 anos atrás ele chegou a comemorar um golo de um jogador do Sporting num jogo da Selecção. O fenómeno de discussão da táctica demora cerca de quatro a cinco mini’s e isso obviamente enfraquece o estômago, pelo que o líder do grupo (habitualmente o portador da maior barriga ou do fato de treino mais garrido) ordena mais um reforço gastronómico “saem uns pipi’s e com picante!!!”.
O resto da tarde é passada de volta de uns pratos de pica-pau e mais uma doses de coiratos acompanhados sempre por umas dúzias de mini’s. Lê-se mais duas ou três vezes A Bola e definem-se cinco tácticas diferentes, terminando todas em acalorada discussão seguida de abraços e brindes pelo Glorioso. Às 19h ordem de marcha para a porta da garagem para assobiarem a entrada do Porto. Os agentes da autoridade são nesta altura massacrados pela autêntica bomba química em forma de bafo de mini. Aliás se em vez de revista fosse feito o teste do balão estes adeptos davam com toda a certeza três pontos ao Glorioso, ou seja, o ecrã do balão marcaria três pontos em cada um deles.
E é nesta fase que o dia do adepto entra na sua fase final com a entrada dentro do estádio. Este momento faz-se o mais tarde possível visto que as mini’s lá dentro não têm álcool. A cinco minutos do inicio da partida o adepto senta-se na sua cadeira, penteia o bigode ainda com o sabor do molho dos pipi’s e grita bem alto o nome da mãe do árbitro que, coitado, apenas acabou de entrar. Finalmente o jogo começa, para trás fica mais um grande dia de domingo, passado na companhia dos amigos, a debater assuntos importantes para a nação, como por exemplo a colocação do Simão no meio em vez de na esquerda, e a potenciar a moda Primavera / Verão dos fatos de treino de cor garrida e acompanhados pelo bom sapato de pala. O balanço: 23 mini’s e dois bagaços, 3 coiratos, 4 pratos de pipi’s e 5 pica-paus. Viva o dia do adepto, e ainda há desgraçados como eu que pensam que aquilo é apenas um jogo de futebol…
Um abraço
Bruno
Hoje faço uma pausa sentida e abro uma excepção para falar de algo que não restaurantes e viagens. Quando criei este espaço prometi a mim mesmo que não iria colocar aqui nada fora do âmbito do mesmo e por muitas vezes tive a tentação de opinar sobre vários assuntos e consegui resistir. Hoje entendo que o devo fazer.
Quando abri o meu pc hoje de manhã, li as notícias e fui como habitualmente ver na diagonal os blogs que acompanho. Num desses blogs encontrei um adeus à Sónia. Cliquei no link para o seu blog e li a noticia que menos queria ler. Durante meses acompanhei à distância a sua coragem e a sua luta. Emocionei-me muitas vezes com os seus textos. Hoje sinto um pesar enorme e não consigo conter uma lágrima. Nestes momentos faltam sempre as palavras, mesmo a quem faz delas a sua profissão, mas não queria deixar de usar este espaço para deixar uma mensagem de carinho para a Sónia. Ninguém consegue apagar a dor da sua partida mas que ninguém apague a imortalidade das suas palavras. Que o seu nome e a sua história façam para sempre parte desta comunidade.
A toda a família as minhas sinceras condolências.
Para ti Sónia?
Ao fim de tanto tempo foi bom regressar. A necessidade de descansar de um mês de Janeiro infernal levou-me até ao Algarve, mais concretamente a Porches, uma pequena vila colada a Armação de Pêra. Depois de passar por avenidas cheias de prédios altos e cerca de uma dezena de rotundas, Porches surge-nos como uma lufada de ar no meio de tanta construção desenfreada. Um muro alto rodeia todo o complexo apenas visível parcialmente por um enorme portão de ferro preto que fecha a entrada. Ao aproximar a parte da frente do carro o negro portão começa a recuar muito lentamente como que me convidando a entrar dentro do seu mundo. Avanço em primeira, deixando deslizar o carro no empedrado bem tratado do chão. Ao fim de poucos metros descubro uma fonte com golfinhos e uma entrada discreta para um ainda mais discreto edifício. Ao passarem a porta rotativa deparam-se com a recepção, uma sala ampla em madeira, com pouca luz mas com carisma. Avançando entramos no bar. Ainda com menos luz, esta adaptação de pub irlandês com o estilo hoteleiro tem na sua varanda virada para o mar o seu melhor local. Mas não foi pelo hotel que vos escrevo este texto, embora este também valha bastante uma extensíssima referência, mas sim pelo jantar. Na minha busca incessante de novos paladares, busquei na oferta gastronómica do local o melhor sítio para passar a noite. Estive muito indeciso entre dois espaços mas acabei por optar por um que anunciava comida tradicional portuguesa, numa fusão de paladares, estilos e condimentos. O seu nome: A Adega. A Adega é um edifício térreo, virado para um pequeno lago onde patos e cisnes nadam livremente e com um acesso através de duas pontes brancas que ladeiam os jardins. A sua sala, sóbria, é despida de fotos, reservando apenas pequenos pormenores como os suportes de velas nas paredes que não são mais que os utensílios utilizados para a recolha da resina. Após a escolha da mesa, sempre na zona dos não fumadores, sou presenteado com o menu, que vem acompanhado por uma atenção redobrada pelo chefe de sala, pessoa muito simpática e sempre atenta e que cobre todas as mesas com um olhar de ave de rapina, alerta para o mínimo desejo de um cliente. Leio na diagonal a oferta e concluo que tudo me agrada pelo que peço ao chefe de sala que me recomende algo e que me surpreenda. Os couverts são normais, com talvez um pequeno destaque para o magnifico presunto pata negra servido, com um equilíbrio fantástico entre o sal e o sabor. Como entrada sou presenteado com uns camarões da costa grelhados em alho e servidos sobre um leve molho azeiteiro. Estão ligeiramente rijos, bem como eu gosto, e de um sabor indescritível. Naquele momento tenho vontade molhar o pão, cuidadosamente cortado, naquele molho de encher o olho. Impede-me a solenidade da sala e do ambiente mas não evito um passar dos camarões por lá antes de cada garfada. Em poucos minutos o prato ficou vazio e logo me é servido uma paelha de frango, camarões e amêijoas. Assim que meto o garfo à boca confesso que quase que gemo de prazer. Que fantasia de sabores. As cores, o cheiro e o quente, tudo aquilo era especial e até os pimentos, que não fazem parte dos meus sabores preferidos, estavam fantásticos naquele momento. Os meus olhos não conseguiam acompanhar o garfo e o prato voltou a esvaziar-se num ápice. Para fechar veio um Dom Rodrigo e um café. Quanto à garrafa deixo-vos o nome, Murganheira.
Para uma noite especial ou um fim-de-semana único, este é um local do Algarve que não merece ficar escondido.
Hotel Vila Vita Parc Spa & Resort
Restaurante A Adega
Porches – Armação de Pêra
Algarve
Na época natalícia resolvi fazer uma consoada um pouco diferente e embora tenha sido apenas um ensaio, e não a noite oficial, avancei para uma ementa pouco tradicional para o espírito lusitano. Escolhi um restaurante moderno, com uma cozinha italiana moderna, onde o sabor das massas e dos queijos é combinado com o requinte da cozinha francesa. Outra atracção da escolha da noite era o espaço. Totalmente remodelado, teve como objectivo criar duas atmosferas distintas, um lounge inovador e descontraído e, no andar de cima, um restaurante fashion e requintado. Na zona costeira de Lisboa, onde anteriormente podíamos apreciar o Indochina, diga-se, num toque de pormenor, uma discoteca de deixar saudades, temos agora o Zocco, num potencial lançamento da marca Z.
Após a entrada, subimos umas escadas em caracol, não recomendáveis para níveis de álcool acima dos níveis legais, e chegamos a um apertado lobby onde aguardamos a nossa mesa. À esquerda um forno espreita mostrando com orgulho algumas pizzas já meio feitas. É nesta altura que começa a notar-se o magnifico serviço deste espaço. Ao longo de toda a noite os empregados são atenciosos e atentos, presentes e conhecedores e a simpatia é uma constante. Uma nota muito positiva e que faz toda a diferença quando olhamos para um local deste nível. Neste particular deixem-me salientar o facto de o empregado que me calhou ser efectivamente italiano, uma raridade e ao mesmo tempo uma preciosidade apreciável.
Passando ao que realmente nos interessa, a comida, optei por uma entrada marcante e personalizada: um carpaccio di carne al fungi (cogumelos), aipo, azeite e molho de queijos. O prato é-nos apresentado com uma elegância, onde pequenos fios de azeite deslizam suavemente por entre as ?folhas? de carne, saborosamente cobertas por um molho espesso branco com um intenso e apelativo odor a queijo. É pecado apenas ao olhar mas definitivamente irresistível ao paladar. Após este autêntico desmaio de sabor, pedi para me servirem um Filetto al Gorgonzola. Em poucos minutos suspirava à minha frente um tenro bife, dobrado ao meio, coberto de queijo e salpicado de algumas ervas aromáticas. Como acompanhamento inclinei-me para o esparregado, não tão típico nas colinas romanas, mas em boa altura o fiz. Que textura e que sabor me foi dado a provar. Definitivamente imperdivel.
Nesta altura a fome já não existia mas mesmo assim não resisti a tentar-me em dois doces, um Panna Cotta e um Dolce di Zocco, uma delicia de chocolate com, provavelmente, alguns ?milhares? de calorias. Devorei-os até já nada cobrir o meu prato e suspirei com o sabor cremoso de um verdadeiro expresso, Prolonguei o tempo do meu café até ao limite do possível e não fosse o facto de o achar um acto de profunda intimidade teria fumado um puro.
Resta apenas salientar que a refeição foi acompanhada por uma reserva de Cartuxa, servida a uma temperatura exemplar, e ainda por uma sangria de champanhe e frutos silvestres que considero, sem grandes dúvidas a melhor que já bebi em Portugal. Fresca, solta, de trago fácil e libertadora, tudo num copo de perfeita harmonia. Para uma noite especial entre amigos, em que a extravagância e o bom gosto imperam. Para quem ainda tiver forças, confesso que já não tive, uma descida ao piso de baixo para um copo é muito aliciante.
Restaurante Zocco
Lisboa
Quero começar por desejar um bom ano de 2007 para todos visto este ser o meu primeiro post deste novo ano. Tinha um excelente restaurante para vos falar neste início de ano, um que fui experimentar no passado dia 23 mas após umas merecidas férias, das quais regresso hoje, mas decidi escrever não sobre restaurantes ou locais mas sim sobre a nossa cozinha. Tenho um orgulho enorme em ser português. Sou daqueles que acha que ser português não é só ser alguém que nasceu dentro das fronteiras que define esta nação chamada Portugal. Ser português é algo único, é pertencer a um povo de fado e saudade, de cultura e tradição, de coragem e sangue, de um sorriso sincero, de um bem acolher que causa inveja e de um sabor inigualável. Ao ver hoje de cima o Palácio de Sintra, Cascais e depois toda a Lisboa, não foi só saudade que senti, foi uma vontade imensa de me perder em tudo isto.
Bom, nesta altura devem estar a pensar o porque de toda esta introdução. Não tenciono transformar este blog em nenhum local de orgulho lusitano, embora o tenha, mas ao fim de tantos dias fora, das coisas que mais falta senti foi da nossa cozinha e não podia deixar de escrever sobre isso. Que saudades tenho de um bacalhau com broa, ou à Brás, de umas migas, que poderiam vir com entrecosto frito, de uns rojões que por serem do norte são com louro e vinho tinto maduro e para fechar tragam os doces conventuais que só nós sabemos fazer. Papos de anjo, barrigas de freira, toucinho do céu, leite creme queimado, trouxas de ovos ou mesmos os ovos moles, venham todos com um cálice do velho Porto que por ser vinho é tão especial. E não nos esqueçamos das entradas. Que outro povo no mundo nos dá os ovos mexidos com farinheira, os enchidos e os queijos. Para acompanhar temos o melhor vinho do mundo, o nosso e no final mandem vir o café. Tirando os italianos ninguém saca “bicas” como os lusitanos. É toda uma herança tão nossa e por vezes tão esquecida e banalizada no consumismo rápido que prefere um hamburguer a peito de pato com um molho suave de laranja e acompanhado de castanhas. A cozinha francesa é linda esteticamente mas a nossa é deliciosa no paladar e arrojada no sentir e acima de tudo é nossa.
E assim termino o meu primeiro texto do ano, não com um restaurante ou local mas com aquilo que eu acho que melhor temos. Existe o mito lusitano de que tudo o que é estrangeiro é melhor. Peço um desejo de ano novo: vão ao Geres, percam-se no Minho, namorem no Douro, molhem os pés em Aveiro, subam ao céu na Estrela, cavalguem nas lezírias e apaixonem-se pelo Alentejo. Tornem-se príncipes nos Açores e carnavalescos na Madeira e em todos esses momentos provem os sabores de uma terra que é só nossa.
Bom ano, bons passeios e bom apetite
Numa das avenidas mais movimentadas de Lisboa, recheada de hotéis, bancos, pequenos cafés e trânsito, aliás muito trânsito, fica a minha escolha gastronómica de hoje. Bom para ser verdadeiro a escolha foi ontem visto que foi ontem que decidi lá ir jantar. Fica perto de um dos meus japoneses preferidos mas esse ficará para uma próxima oportunidade. Sempre olhei para este restaurante como um local ideal para jantares de trabalho ou de grupos. O ambiente é meio restaurante, meio marisqueira e tem uma esplanada fechada a vidro que nos transporta para o meio do passeio, expostos à confusão de luzes e pessoas. Embora sejam dois espaços praticamente colados recomendo as mesas da esplanada. Embora fechada e com uma vista não muito interessante, sempre dão algum ar de liberdade e espaço. O interior é marcado pelo enorme aquário onde as lagostas nadam aguardando a escolha de um qualquer cliente.
Sempre tive algum preconceito com marisqueiras, são um espaço agradável para um convívio mas tinha as minhas dúvidas sobre a qualidade gastronómica dos restantes pratos. O Sete Mares quebra com esse preconceito proporcionando um leque variado de pratos, todos eles com uma muito cuidada confecção. Neste capítulo recomendo a oferta de peixes, sempre frescos e com tratamento especial por parte da casa.
As entradas são as habituais num espaço destes, desde o famoso pão torrado com manteiga, até ao presunto pata negra. Apenas uma ressalva para os mais distraídos, um prato deste presunto é mais caro que a maioria das doses dos pratos principais. Infelizmente o sabor é de tal maneira magnifico que não se resiste e a bolsa sofre no final. Nesta fase, e para quem procura usufruir em pleno do restaurante, recomendo um de dois pratos. A famosa sapateira, com uma apresentação magnifica e sabor de inolvidável paladar, ou em alternativa o prato de lagosta, servido com pequenos camarões que adoçam a boca. Sem dúvida duas boas escolhas que elevarão a noite a um patamar digno de um reparo no calendário. Findo esta parte e caso se pretenda avançar para um prato principal recomendo, como já disse, os pratos de peixe. A minha escolha ontem recaiu no Bacalhau à Brás. Com uma excelente apresentação, cremoso, com uma dose certa de ovo e com o bacalhau muitíssimo bem desfiado e bem cozido, a travessa encanta a partir do momento em que pousa na mesa. O único ponto menos bom foi um excesso de cebola que infelizmente se apresentava ligeiramente mal cozida. No entanto, este factor não retira em nada a qualidade do prato e o prazer na sua degustação. À semelhança dos mariscos, recomendo um vinho suave, possivelmente branco e, embora o clima não o aconselhe, ligeiramente frio. As doses são na quantidade certa, dando uma sensação de conforto sem exagerarmos, o que possibilita uma aventura pela zona dos doces. Mais uma vez aqui a oferta é vasta e não se deve deixar de olhar para as opções na fruta. Um prato de manga por exemplo é uma excelente opção, doce e madura qb. Nos doces, o meu olhar fugiu para o arroz doce e não me arrependi. Cremoso e no ponto apenas com falta de um pouco mais de canela, que é algo que eu adoro. De resto, nada a dizer.
Em resumo, um local a visitar pela oferta gastronómica, pela qualidade dos seus mariscos, ou simplesmente para uma noite de convívio. Não é definitivamente o sítio para um jantar a dois, mas encaixa perfeitamente numa noite em família. Quanto ao preço, depende das escolhas que se fazem mas pode começar nos 20€ por pessoa.
Bons jantares e Bom Natal
Restaurante / Marisqueira Sete Mares
Av. Columbano Bordalo Pinheiro, 108 A
1070-067 Lisboa (Sete Rios)
Tel. 21 727 2385
Fax. 21 727 6895
Há duas semanas atrás prometi aqui que falaria de um espaço na zona de Cascais. Pois hoje vou cumprir essa promessa e, na minha opinião, da melhor maneira possível, apresentando dois espaços, um mais recente e outro um renascimento muito comemorado, que dão um toque de classe e qualidade aquela zona. Vou começar pela novidade. Quem conhece Cascais não pode ignorar a beleza natural impressionante da cintura entre a vila, o Guincho e mais adiante Sintra, por uma estrada que se cruza com dunas, serra, paisagens deslumbrantes com o mar e as falésias como amantes e de um verde romântico e envolvente. É um local de paixões, de emoções fortes e de um encantamento ao qual ninguém fica indiferente. A zona é também abençoada por locais de grande culto gastronómico, não só pela qualidade apresentada mas pela forma como esses espaços se abrem à paisagem que os rodeia. São famosos nomes como o Faroleiro, o Porto de Santa Maria, o Hotel do Guincho (que tem um dos melhores chefes a trabalhar em Portugal), o João Padeiro, ou ainda todos aqueles pequenos tesouros que se conseguem descobrir a caminho de Sintra, de onde destaco dois pela sua beleza, praia da Adraga e Azenhas do Mar.
É neste corredor absolutamente único no nosso país que encontramos o Verbasco. Situado no Golfe da Quinta da Marinha, é um espaço moderno, de linhas direitas e espaços amplos. Após subirmos um pequeno lance de escadas somos recebidos por um bem tratado deck de madeira onde sofás espaçosos e confortáveis convidam a sentar. A sala de jantar está separada do exterior por paredes totalmente em vidro o que dá ao visitante um “quase” contacto com a natureza. Ao fundo o mar do Guincho, bravio e deslumbrante fascina qualquer um, e o Sol, esse companheiro indispensável, impressiona reflectindo os seus raios nas dunas. Num dos topos descobre-se o green, apelativo mesmo para quem não tem a arte do jogo. O ambiente é descontraído e contrasta com os almoços de negócios e apaixonados de golf durante a semana com os encontros de famílias e amigos que se juntam para um início de tarde de um qualquer sábado ou domingo. Em qualquer dos casos a qualidade do atendimento não oscila e a forma atenciosa e simpática como o serviço é prestado é digna de registo. Embora a localização pudesse ao inicio, e apenas de quem visse do parque de estacionamento, dar a sensação de se tratar de mais um club house, não se deve cair nesse engano porque o Verbasco tem a personalidade de um grande restaurante. O leque de entradas é variado e de escolha difícil mas seja qual for a opção a tentação é garantida. A minha fome não era muito pelo que deixei-me seduzir por apenas um prato de pata negra. De seguida parti à descoberta de um bife regado com natas e acompanhado por um esparregado e batatas. Suculento, macio e saboroso, com um pequeno toque daquele aroma cremoso que qualquer apreciador das natas não resiste. O molho não era espesso em demasia mas assentava de forma consistente na carne. Nota ainda de destaque para o esparregado que se apresentava apelativo tanto à vista como ao olhar. Para acompanhar recomendo um vinho tinto robusto. A escolha poderá recair num Perâ Manca, um vinho generoso e de uma enorme qualidade da zona de Estremoz. É sem a mais pequena dúvida um excelente representante do Alentejo e uma companhia muito agradável para qualquer refeição.
Devido ao parágrafo seguinte decidi abdicar da sobremesa e do café. Dois apontamentos apenas antes de finalizar a visita ao Verbasco. Para quem o procura numa tarde de sol apenas para descansar nos seus confortáveis sofás e apreciar a vista, o seu sumo de laranja natural é provavelmente o melhor da linha de Cascais. E finalmente quanto ao preço, não sendo um espaço barato, o preço está enquadrado na qualidade e no local em que se insere, sendo uma opção especial dentro de uma média razoável.
Saí do Verbasco e apontei ao Estoril, sede do segundo espaço deste post Na zona nobre da capital do jogo na linha, na paralela ao jardim do casino, num passeio discreto renasceu um dos espaços de culto das pastelarias da grande Lisboa. A Garrett reabriu e ainda bem, com uma esplanada generosa e aberta de esquina para o Tamariz tem no seu interior o ponto alto. Dividida em dois espaços, um com a montra dos bolos (irresistíveis ao olhar) e outra onde as mesas e os sofás reinam. Uma nota muito especial para os sofás em tons acastanhado suave e brilhante, cheios de glamour e de um conforto impar e que transportam o visitante para os anos de ouro da monarquia. Com um atendimento excepcional peço um café e um russo, um bolo de chantilly e canela, absolutamente inanarrável. Os bolos com creme são uma especialidade num local onde tudo é absolutamente delicioso. Das bolas de berlim aos bolos à fatia tudo engorda e apela de uma forma vigorosa. Seja um lanche em família, um late coffee, uma pausa num dia de praia ou simplesmente um café para terminar um almoço (como era o meu caso), qualquer desculpa é válida para esta experiência de paladar elevado. Sem dúvida um espaço a não perder numa zona nobre em dia de Sol.
Desejos de um bom almoço e de um excelente café.
Quem visita, vive ou trabalha em Lisboa tem, habitualmente, um carinho especial pela Av. da Liberdade. É um local esplendoroso, digno herdeiro das grandes avenidas europeias e traçada com régua de classe no mapa do centro da capital. Podia estar melhor aproveitada, é um facto, mas algo tem sido feito. Lojas novas, modernas, de marcas apelativas e que enchem as suas montras com glamour e bom gosto. Uma maior azafama no seu fim pelos teatros que teimam (felizmente) em encher numa rua do Coliseu que La Feria voltou a fazer brilhar. São musicais e espectáculos que enchem de luz e som um espaço privilegiado da Avenida. Faltam-lhe talvez os cafés e esplanadas, um Parque Mayer novo e um horário diferenciado das lojas, a fecharem até mais tarde trazendo movimento e atractividade à Avenida. É neste espaço de luxo e prazer que descobrimos o La Caffé, um local bem aproveitado e desenhado no andar superior de uma conhecida loja de roupa. Os “Lanidor design restaurants” são espaços bem decorados, ousados, num moderno traçado a linhas rectas e cores marcantes. Espaços abertos e que envolvem o cliente numa áurea fashion e de bom gosto. Tem a particularidade de se adaptar aos vários momentos do dia desde o pequeno-almoço ao jantar, tendo ainda uma pequena zona de lounge onde o visitante pode descontrair ao som de uma música agradável e saboreando uma das variadas bebidas disponíveis para consumo.
O motivo da minha visita foi o almoço, desculpa tão boa como outra qualquer mas infelizmente mais limitada pelo tempo. A mesa encostada à janela permite-me saborear a rua lá fora, com as suas decorações de natal (este ano um pouco sem sabor) e as pessoas que no passeio central passeiam descontraídas. As entradas são servidas com elegância. Um couvert simples, com três variedades de pão, azeitonas e um paté de atum de sabor interessante. A ementa é maioritariamente composta por uma base italiana combinada com novos condimentos e sabores da nova cozinha europeia, uma espécie de italian fashion flavour relativamente apreciada nalgumas faixas dos nossos intelectuais. Pessoalmente, e como amante da cozinha italiana, prefiro o virtuosismo de um prato tradicional, servido ainda com a pronúncia do Império (refiro-me ao romano obviamente). A minha escolha recaiu sobre um Duo de Fusilli com molho de Camarão e Frango. Estava curioso para ver o toque do camarão no Fusilli, e como este se completava com o seco do frango. Agradável surpresa, embora indiferente ao olhar, o prato apresenta-se normal sem grandes traços de originalidade, o sabor é apelativo e faz crescer a vontade a cada grafada. O molho é suave, não tão carregado como natas ou queijo mas bastante presente não deixando indiferente a quem o prova. O camarão está bem apurado e o frango, cortado em pedaços pequenos e disfarçado na pasta, tem um travo saboroso. No fundo uma combinação curiosa mas que resulta ao paladar e faz-se concluir num prato muito interessante e de escolha prioritária.
Devido à falta de tempo abdiquei das sobremesas mas ainda ressalvo o refrescante sorvete de limão servido com o café e oferecido pela casa. Um gesto simpático no fechar da refeição. Só lamento o facto do café estar queimado, mas é pormenor de pouca importância. Pelas características do espaço é um local muito agradável para um almoço de trabalho, de amigos ou um jantar mais descontraído e para fugir à rotina. A forma intimista como as velas são acesas no período nocturno dá-lhe um toque romântico q.b. para os mais apaixonados. O preço não foge ao habitual e pode contar com um valor na casa dos 18€ por pessoa. Uma boa escolha para uma pausa nas compras da Avenida, seja para um almoço, um jantar, um late snack ou simplesmente um café.
LA Caffé
Av. da Liberdade 129 B Lisboa
Tel. 213256736
Quem chega pela primeira vez a Alcochete não pode ficar indiferente a duas coisas, a paixão pelos touros e a ligação ao rio. A sua praça já antiga é uma arena pisada com orgulho, um orgulho genuíno e que se espelha na estátua ao forcado, em destaque numa das pequenas praças do centro da vila. Alcochete tem crescido muito, beneficiando da nova ponte, de uma zona comercial forte e de uma construção com qualidade e acessível. Talvez por isso se tenha tornado moda nalguns círculos. A vila, embora pequena, apresenta com orgulho vários espaços onde os pratos de peixe são realeza. Simplicidade, qualidade e simpatia são os argumentos apresentados numa bandeja variada ao visitante.
Situada na marginal, logo após o jardim que serve de casa à estátua de D. Manuel I, digno filho desta terra, situa-se o nosso destino. Mais que um restaurante é um complexo turístico dividido em Hotel, Discoteca, Restaurante e Bar. Um conjunto de três edifícios que acolhem o visitante com um charme natural. A visita de hoje foi apenas ao restaurante, um espaço que impressiona ao olhar numa decoração ao melhor estilo marítimo de cabos (cordas em linguagem de leigo) e lemes. O castanho impera e os sofás que ocupam o bar de apoio ao restaurante dão ao local um toque de calma e tranquilidade. A magia do espaço deve muito à imponente janela que viaja de um lado ao outro do restaurante, abrindo as mesas a um Tejo que se banha apenas dois metros abaixo. Em formato oval, a sala nasce e morre naquela janela que domina todo o espaço e nos conquista em segundos. Do outro lado do vidro brilha o Mar da Palha, a Ponte Vasco da Gama e ao fundo a outra margem com Lisboa a sorrir debaixo de um sol de Inverno. É absolutamente relaxante e apaixonante e faz-nos ter vontade de sonhar. Recomendo por isso uma mesa junto à janela para uma ocasião especial, para uma pessoa especial ou simplesmente para um momento especial de união com o mais íntimo de cada um.
Depois de uma apresentação muito agradável e surpreendente surge-nos a ementa. Variada e com preços não muito indesejados, recomendo os peixes, sempre frescos e muito bem confeccionados. A minha escolha recaiu no simpático linguado que coberto por um molho de manteiga foi preparado à minha frente e servido com todo o cuidado. Completado por batatas e legumes o prato ganhou forma e cor, numa mesa redonda e branca. Para companhia recomendo um apreciável vinho branco que é uma raridade vinícola e ao qual provavelmente irei dedicar um post num futuro próximo. Trata-se de uma reserva de Esporão marcado na garrafa apenas com as iniciais H. E. e de colheita muito limitada. Servido ligeiramente fresco não perde as qualidades e com um paladar ligeiramente adocicado é um toque de suavidade que reforça a qualidade da refeição.
Após o prato principal não nos devemos deixar de nos aventurar no carrinho dos doces. Com um excesso de calorias evidentes a oferta é vasta e tentadora ao olhar. Provei o leite-creme, ligeiramente queimado como eu gosto e à temperatura ambiente, sem dúvida a melhor opção. Confesso que a forma quase gelada como alguns restaurantes servem este doce me transtorna profundamente. No final do doce o café é indispensável e para quem gosta o restaurante tem uma garrafeira bastante interessante, de onde talvez destaque um Black Label com 15 anos, reserva guardada com bastante rigor. Um último olhar para o mar imenso que do lado de fora nos guarda é obrigatório, fazendo com que a nossa refeição termine com um sublime final. Uma excelente razão para passar a ponte e conhecer esta simpática vila, terra de touros e navegantes.
Restaurante Alfoz
Av. D. Manuel I, 2890-014, Alcochete
Tel. 212341179
Descontraído, solto, sonhador ou simplesmente reconfortante, estes são alguns dos adjectivos que me ocorrem quando tento descrever o espaço que redescobri este fim-de-semana. Imaginem um teatro, cansado de anos de exibições, peças, concertos, horas e horas de cultura e serviço público. Um espaço já gasto e que reduzia o seu público a um grupo restrito de resistentes que talvez por carolice mantinha uma fé imensa na aposta cultural da nossa capital. Agora imaginem o bar desse mesmo teatro, um espaço simples, de linhas soltas e onde a estética artística de quem o construiu combina com a traça antiga das paredes. Assim surge-nos o MM Café, situado no primeiro andar do Maria Matos em pleno centro de Lisboa. Com a nova direcção de Diogo Infante, este espaço ganhou fôlego e vida e a aposta na atribuição da concessão do espaço gastronómico revelou-se acertada e um exemplo claro de rentabilização de um espaço público não descurando a sua função social. Com meia dúzias de mesas, dois sofás de aparência confortável e um balcão prostrado numa enorme janela, que desenhado com design é-nos servido numas originais cadeiras de pé alto, a pequena sala é esculpida ao comprido desembocando num simbólico palco onde um quinteto assenta os seus instrumentos.
No palco uma banda afina os instrumentos e abre a noite com uma adaptação para jazz de uma música de Sting. Grande som, grande voz e um solo de saxofone de fazer parar a respiração na sala. A qualidade é realmente muito boa e a música como que dança por entre as mesas, dando uma sensação de tranquilidade e sensualidade ao ambiente. Falta talvez um pouco de escuro e fumo para termos uma sala intimista de jazz ao melhor estilo dos espirituais negros. O toque do contrabaixo marca o ritmo, balanceando a audiência, que neste momento já se encontra totalmente envolvida no misticismo da letra, que num tom arrastado se impõem no silêncio dos pratos. Completam a trupe uma bateria e uma viola que solando à vez como que se desafiam num duelo medieval em que os cavalos são substituídos por notas e as armas por arte. Um toque de pureza no mais profundo da sala. Sem dúvida um complemento perfeito para um local de espectáculo como aquele em que se insere.
Quanto à comida não podemos esperar grandes luxos. O espaço tenciona ser um café de um teatro e por isso a elaboração gastronómica não é elevada. No entanto, e embora a diversidade não seja muita, a qualidade existe. A ementa divide-se entre saladas, tostas e sushi (um toque curioso e apetecível). Há saladas para todos os gostos, incluindo pratos para vegetarianos. Quanto ao sushi, bastante bem apresentado e com uma oferta bem agradável. Não sendo um restaurante puro acaba por se revelar uma opção interessante para um final de tarde mais intimista e cultural. Um espaço ideal para partilhar um copo com amigos enquanto se ouve boa música e se aconchega o estômago. Embora aberto todos os dias à excepção de segundas-feiras, a oferta musical apenas existe ao domingo das 19h às 23h.
MM Café
Maria Matos Teatro Municipal
Av. Frei Miguel Contreiras, 52
1700 – 213 Lisboa
Tel. 21 8409296
Conjunto Musical: Bárbara Ligito Quinteto
Cantora – Bárbara Ligito (Na noite em que lá fui era Maria Mormay)
Guitarra – Zé Soares
Saxo e Flauta – Flapi
Contrabaixo – Gustavo Roriz
Bateria – Alexandre Alves
O início da viagem a partir de Braga faz-se por uma pequena estrada entre vilas e montes, ladeada por verde e por riachos que se cruzam no caminho calcorreando pontes e margens. Os quilómetros não são muitos mas a beleza que nos envolve quase que nos obriga a rodar mais devagar para apreciar paisagens tão únicas. É um profundo envolver com a natureza naquilo que ela tem de melhor. Em torno de uma estrada peculiar e atraente, montanhas imponentes mostram a sua força através do cinzento das suas rochas. Pedras enormes, impressionantes ao olhar, que dominam toda a paisagem dando ao viajante a sensação de tranquilidade, paz e pequenez que habitualmente as montanhas e os vales oferecem a quem os percorre.
Ao fim de quase trinta minutos deparamo-nos com um grupo de senhoras, não teriam mais de 70 anos o que as colocava nas mais novas da aldeia, uma espécie de elite juvenil de tão distantes paragens. Questionamos sobre a distância para o nosso objectivo e a resposta foi arrasadora: “Vêem ao fundo aquele monte, sim esse o último monte, é esse!”. Continuamos entusiasmados com a ideia de termos de subir todos aqueles montes até chegarmos ao nosso e com atenção aos telemóveis para ver quando é que a rede passava a falar castelhano. Finalmente, na saída de uma pequena mas apertada curva surge no lado direito da estrada, sobre todo o vale e olhando de alto o Portugal que a sul se estende, o restaurante que nos haveria de receber como convidados.
Era um edifício perfeitamente enquadrado com o cenário de madeira escura e pedra granítica, cortada por mãos experientes e colocada ali com total cuidado e dedicação. A entrada era moderna personalizada numa porta de vidro protegida apenas por uma pequena peça metálica que servia de maçaneta. A sala estendia-se ao comprido numa parede de vidro que deixava entrar aquilo que os nossos olhos mais queriam ver, a paisagem. Era magnânime, todo aquele cenário era de tirar a respiração e mesmo que a comida não fosse aquilo que os nossos estômagos, já cansados precisavam, já tinha valido a pena.
Pouco depois de nos sentarmos, um empregado aproximou-se e começou por servir as bebidas. As curvas do caminho tinham aberto a sede e a região tinha muito para oferecer. Ainda esse não tinha terminado e já outro fazia as honras da casa servindo as leves entradas que a casa se orgulhava de apresentar. Após o tradicional pão e broa e as famosas azeitonas pretas, levemente calcadas, surge-nos aos olhos dois pratos com um aspecto perfeitamente delicioso. De um lado umas pataniscas típicas lusitanas, feitas do nosso melhor bacalhau e que luziam sobre a fina toalha branca num tom dourado e apelativo. Do outro lado, num pequeno prato alto um conjunto de cubos de rojões, acompanhados por um molho de azeite e especiarias que lançava no ar um odor a tentação. Escusado será dizer que nos atirámos como leões a tão especiais iguarias e apenas descansamos quando apenas restavam os caroços das azeitonas. Nunca tinha comido rojões como entradas, talvez nem tivesse, até aquele dia, concebido a ideia, mas o que é certo é que me lambi até à última gota de molho.
Já de estômago bem composto e a necessitar de algum descanso, somos presenteados pelos pratos principais, no meu caso a famosa posta barrosã.
Olhei para o prato e os meus olhos ficaram inundados pela aquela visão. Um naco de carne que ocupava todo o prato de uma altura assombrosa e de aspecto delicioso. Lancei-lhe a faca e qual manteiga cortou de um lado ao outro sem o menor esforço, fazendo os meus lábios molharem-se de gula. Nesse momento pequei, confesso que sim, mas era inevitável, todo aquele cenário, o serviço e o ambiente, tudo aquilo se tinha fundido naquela garfada de carne.
Coloquei-a na boca e deixei-a derreter sobre a língua, saboreando de forma suave o molho suculento que a leve pressão dos dentes libertava. Fechei os olhos e consegui efectivamente imaginar-me longe dali, num qualquer lugar distante com o sol na minha face e um toque quente e reconfortante que percorria todo o meu corpo. Limpei o prato sem grandes hesitações, a cada garfada, os meus olhos reluziam com mais força, num azul como eu até aí não tinha visto.
No final de tão fantástica batalha encostei-me para trás, rodei a cabeça para o vale e sonhei. Toda aquela paisagem a meus pés após aquele repasto deixara-me rendido. Ainda eu não tinha recuperado da batalha e já outro empregado, de uma delicadeza extrema, se aproximou e convidou-nos a provar as sobremesas. Quase por instinto aceitei, um buffet de sobremesas, que melhor final poderia haver para toda aquela aventura gastronómica. Deixei-me surpreender pela escolha do restaurante e fui presenteado por quatro ofertas calóricas de elevado grau de satisfação. A que mais gostei era uma mistura entre bolo de bolacha e molho de ovos e natas. Não consegui identificar o doce mas lambi-me até à última colherada. De estômago cheio e já com o corpo a pedir uma pausa e até um repouso pousamos as mãos e os olhos no café entretanto servido. O silêncio era agora rei na mesa, como se o simples acto de contemplação fosse o ponto de união de todo aquele momento. Foram segundos de união entre a alma e a montanha, entre o mais intimo de mim e o mais profundo de Portugal.
Nesta história a conta é o que interessa menos mas para os mais curiosos garanto que é uma agradável surpresa, sendo perfeitamente aceitável perante o fantástico servido, a magnifica comida e a exclusividade da paisagem.
Efectivamente não se podia pedir mais. Recomendo apenas um último gesto, um pequeno passeio pelo bem cuidado deck de madeira que se entende desde o vidro do restaurante até ao início da montanha. O caminho de regresso sugiro que o façam pela continuação da estrada passando por cima da barragem, uma obra do tempo do Estado Novo e que provoca na paisagem imagens únicas e onde podemos deliciarmo-nos com o magnifico lago que origina, numa intervenção em que o Homem teve em atenção a natureza, enquanto perseguia os seus interesses. O resto do caminho serpenteei-a entre vilas e montanha, sempre acompanhado pelo verde das árvores e por pequenos parques que nascem no caminho dando ao viajante momentos de descanso e reflexão.
Às vezes temos tendência em elogiar tudo o que vemos lá fora, e ignoramos toda a beleza que a Graça de Deus nos concedeu. O Geres, as suas estradas, as suas montanhas e as suas gentes, são motivo de orgulho nacional, são motivo para uma visita e acima de tudo motivo para deixarmo-nos perder pelo o interior de nós próprios. Depois de tudo o que vi acho que O Abocanhado é uma excelente desculpa para tudo isto e não fosse a distância que separa Lisboa de todo aquele paraíso natural, tenho a certeza que teriam a minha visita mais vezes. Fica o convite, cheio de orgulho lusitano, de peito inchado por tudo o que é nosso e de estômago reconfortado pela magnífica comida do norte.
Restaurante O Abocanhado – Lugar de Brufe, 4840-020 Terras de Bouro Telefone – 253 352 944 http://www.abocanhado.com
É sempre um prazer conhecer novos locais onde o nosso paladar se possa perder por entre sonhos de sabores e cheiros. Foi com este sentimento que com alguma surpresa à mistura me foi apresentado o Salt & Pepper. Numa rua discreta do Bairro de Campo de Ourique surge-nos uma montra bem ao estilo do centro da Europa com uma porta pequena que entreaberta permite espreitar para a única sala do espaço. Ao entrar deparamos com um ambiente familiar, de quem se conhece há anos e aproveita aquela noite da semana para partilhar um jantar ao som das conversas do dia a dia. Ao fundo um comprido balcão separa a zona da degustação da zona de serviço e por detrás um homem de aparência simpática e de porte carregado lança um sorriso a quem entra. Tudo é simples mas nota-se no ar um toque de requinte dado por algo que a vista ainda não conseguiu alcançar. O couvert é servido com uma pequena surpresa, um paté caseiro que deixa a língua a salivar e as papilas gustativas aos pulos pela emoção que sente ao toque daquela fragrância. Enquanto aguardo pelo prato principal observo que quem chega conhece quem já cá está. É um estilo uper class com um toque de Ralph Laurent e um estilo conservador ladeado por um ar descontraído e solto no toque de cada conversa. As mesas vão-se compondo e quando o empregado, sempre atento e solícito, se aproxima com a minha escolha, a sala já está cheia. À primeira garfada gemo de prazer. Decidi por um magret com molho de laranja acompanhado por umas batatas envoltas em molho benchamel. O conjunto é simplesmente delicioso. A carne macia desfaz-se na boca soltando pequenas gotas de sumo de laranja que me arrepia ao descer pela garganta. As batatas praticamente se derretem na boca e nos cantos do prato, junto a um requintado ladear de canela pousam pequenos pedaços de laranja, cuidadosamente cortados e prontos a consumir.
Um prato destes requer um vinho quente e robusto, com personalidade e atento aos pormenores. A minha costela alentejana puxa-me o pensamento para uma reserva de Reguengos mas a escolha é variada e ao gosto de cada um. Após largos minutos de deleite passo para a sobremesa e reservo-me com um abacaxi e uma tarte de limão. Se o fruto estava no seu habitual já a tarte mais uma vez me tirou os pés do chão. Que delicia e que sabor, quase que dá vontade de perder a compostura e pedir uma segunda fatia, mas o bom senso fala mais alto e passo ao café. O quente daquele creme preto e forte compõe a refeição e faz-me sonhar com um charuto. A conta? Perfeitamente acessível e surpreendente para a qualidade da comida. Despeço-me do local com um sorriso e com vontade de regressar, há muitos pratos para experimentar e aquela tarte tem uma segunda ronda marcada comigo. Espero que possam passar por lá.
Bons Jantares
Restaurante: Salt & Pepper
Morada: Rua Correia Teles, 23 A 1350-092
Tel. 21 381 34 44