SOL

Só à bengalada

Cláudio César Henriques


Este cavalheiro, que não usa as regras ortográficas de acentuação no seu nome próprio, que diz que é bacharel em Letras, e que é mais um a mamar na teta do aborto gráfico, disse isto, muito sonso, ao jornal Ponto Final de Macau: Porque é que o português tinha duas ortografias? A gente que estuda a língua portuguesa sabe que a história da ortografia da língua portuguesa é sempre uma história de conflitos, de alguém que concorda com outro e depois, como dizemos no Brasil, rói a corda, rompe.
Pois a gente não precisa de estudar a língua portuguesa para saber quem na história dos conflitos sobre a grafia (orthographia é outra coisa) do Português concordou sempre primeiro e quem, de sempre, deu em roer a corda; justamente por voracidade sobre o idioma, sintoma aliás duma psicose mal resolvida do Brasil com a sua identidade portuguesa e que sai de jorro naquela (in)subordinada como dizemos no Brasil que irónica e expressivamente faz servir a carapuça a quem rói a corda.
Este freguês não é um bacharel em Letras. É um doutor em tretas.

(Imagem in Ponto Final, 21/9/2010.)

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Um conto surpresa

Burrinho como era, o príncipe foi em busca da tal princesa, mas bolou um plano infeliz já que tinha certeza de que não conseguiria cumprir [...]

O estado a que esta miséria de país chegou já dá para tudo, até para professores preguiçosos e escolas verdadeiramente desqualificadas como a do 2º e 3º ciclos de Paredes darem exercícios em português dos trópicos aos alunos. Será que os meninos de Paredes não merecem melhor aprendizado em Português do que um copy/paste a partir duma infeliz professora (?) brasileira? A senhora pode ser bem intencionada mas ler o destrambelho que ela redige dá dó, com os tropeções nos pronomes e o desatino com os verbos. É isto Português? É este o nosso fado agora?
É o que continuo a dizer: o exercício das letras pode ser para todos (em tese), mas nem todos são para o exercício das letras. O benévolo leitor que tenha paciência veja o conto até ao fim na página da iniciativa contra o aborto gráfico.

Um Conto Surpresa (Janaina, Spolodorio)

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Os burros de Samatra

Tomemos o topónimo Barroso. É uma terra transmontana. Se o ensinarmos a um inglês é natural que ele o aprenda e depois o repita com a sua característica pronúncia britânica Barroso (bʌr.oʊzo). Se o vier a transmitir oralmente a conterrâneos seus — Barroso (bʌr.oʊzo) — e algum deles precisar de escrevê-lo, para não se esquecer p. ex., há muita possibilidade que essoutro venha a escrever Burroso (bʌr.oʊzo, tal e qual), que é coisa assaz conforme à fonética do idioma inglês. Ora perante um escrito desses — Burroso — só um indígena de cá em sendo burro não emendará: Barroso.
Ficam, pois, explicadas todas as Sumatras de toda imprensa do país do Barroso.

 

Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Pedro Crasbeeck, 1614, f. 1
Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto... / escrita pelo mesmo Fernão Mendez Pinto.
- Em Lisboa : por Pedro Crasbeeck: a custa de Belchior de Faria Cavaleyro da casa del Rey nosso Senhor,
& seu Livreyro, 1614, fl. 1.

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Da redacção única

 O saco de plástico deu agora em grafar à brasileira. ‘O passado é um lugar que definitivamente já abandonámos’, justificam-se. Prenhes de futuro, ignoram donde vêm e arribam, quais novos-ricos deslumbrados, ao kitsch da moda. Institucionalões (auto-proclamam-se uma instituição), nem o instituto jurídico em vigor parecem conhecer.
 A ortografia portuguesa rege-se pelo decreto n.º 35.228, publicado no Diário do Governo de 8 de Dezembro de 1945; foi revista pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro, que aboliu acentos graves e circunflexos nos diminutivos e nos advérbios de modo. Que me dê conta, as leis portuguesas só não vigoram no estrangeiro.
 Mas tudo indica que Portugal acabou e isto cá é outra coisa que nem ouso dizer o nome.

Orthographia ou modo para escrever certo na lingua portuguesa / Alvaro Ferreira de Véra. - Lisboa : Mathias Rodriguez, 1631.

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Lisboa em projecto



 Projecto do jardim para o Bairro dos Actores na confluência das Ruas Eduardo Brazão (SO), Carlos Mardel (S-N), Ferreira da Silva (NO), Rosa Damasceno (N), Lucinda Simões (NE) e José Ricardo (SE) com a Rua Ângela Pinto (circular). No seu lugar veio a ser construído o mercado do Bairro dos Actores cuja empreitada de terraplanagens e fundações foi dada a António Veiga por escritura de 29 de Junho de 1939. O contrato de empreitada da superestrutura e rede de abastecimento água e luz foi firmado com a Sociedade Amadeu Gaudêncio em 11 de Maio de 40.
 O mercado do Bairro dos Actores tem vários nomes: é também designado por Mercado de Arroios e mais vulgarmente dito praça do Chile.
 

Planta s/ menção de autor, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.; fotografia de Eduardo Portugal.
Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa.
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Duas da Rua Carlos Mardel, Lisboa

Rua Carlos Mardel, Lisboa (A Goulart, 1966)
Rua Carlos Mardel, Lisboa, 1966.
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 

Rua Carlos Mardel, Lisboa (P. Letria, 1999)
Rua Carlos Mardel, Lisboa, 1999.
Pedro Letria, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

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Dó ré mi fá...

 O jornaleiro do quiosque às 9h30 da manhã tinha o Sol esgotado.
 – Está tudo esgotado, já não arranja. Tive um senhor que com este fazia oito quiosques. Não há nada!

Vendedor de jornais e revista, Lisboa (S. Kerner, 1967)
Vendedor de jornais e revistas, Rua do Regedor, 1967.
Sid Kerner, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
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Dos compromissos publicitários

 O jornalista Nicolau respondia esta manhã ao locutor do Rádio Clube Português sobre se há ou não liberdade de expressão em Portugal. Dizia empolgado que há: que em Portugal toda a gente diz o que quer; que ainda ontem o dr. Pires de Lima afirmara na televisão que o primeiro ministro não passa dum vulgar aldrabão de feira. Ora alguém dizer uma coisa assim quando havia censura é certo e sabido que à saída do estúdio estaria preso. Pois ontem à noite nada aconteceu. O que aconteceu, sim, foi que no instante em que dizia isto na telefonia, este jornalista Nicolau foi de súbito abafado por um jingle publicitário, sendo bruscamente retirado do ar, isto enquanto se ouvia de raspão ainda o locutor: – "Não é censura, Nicolau, mas temos de acabar. Compromissos publicitários" – e entrou um anúncio.
 Isto que sucedeu não passa duma trivial grosseria mercantileira que nem desmente o abafado jornalista Nicolau. De feito, salvo o fascismo e o tabaco, em Portugal qualquer um pode grasnar o que panfletariamente queira: Desde que se deva ouvir - o que se deve poder ouvir, porém, é que é já outra história...
 O anúncio (compromisso publicitário, digo) que cortou o pio ao jornalista Nicolau nem prestei atenção; pode ter sido ao sabão macaco ou a qualquer artigo de feira, mas o anúncio que veio em segundo lembro-me: foi aos cem anos da República...

Visado (in Troll Urbano)
Visado por Troll  Urbano.
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Desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha



Almeida Garrett
, Viagens na Minha Terra, [1ª ed.], vol. I, Lisboa, Typographia da Gazeta dos Tribunaes, 1846, p. 16.
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Paradoxos

C.C. Colombo  (c) 2004
C.C. Colombo, Lisboa, 2004.


 Uma civilização com uma dinâmica tão poderosa que permite subir e descer escadas estando parado, é só natural que produza também planos de... estabilidade e crescimento.
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Terreirinho das Farinhas (adenda)

  Terreirinho das farinhas – Freguesia da Sé – Aparece assim denominando, mas no singular, em 1781 [Liv. XVII de baptismos, fl. 94 – Sé]. Também o vemos designar por larguinho da Farinha na Ribeira (1782/83) [Liv. XIII dos óbitos, fl. 95 – idem].
  Veja-se o que desta serventia pública dissemos no 1º volume deste trabalho [ver].

Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. V, 3ª ed., C.M.L., 1968, p. 42.


Terreirinho das Farinhas, Lisboa (E. Portugal, s.d.)
Terrreirinho das Farinhas, Ribeira Velha de Lisboa, [s.d].
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

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Terreirinho das Farinhas

 O Terreirinho das Farinhas nem se vê. Parece-me que foi onde se vê uma janelinha de gaveto espreitando, nesse velho quarteirão entre as ruas da Alfândega (esq.) e a dos Bacalhoeiros (dir.). O Campo das Cebolas ampliou-se para poente e Sul (onde se vê o edifício com gradeamento) com a demolição de todas as casas que se vêem para cá da Rua dos Arameiros.

« Todas aquelas cazinhas, as Cazinhas do Senado da Câmara, que desde a Rua dos Arameiros até ao Campo das Cebolas se estendem ao longo das ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros, estão a ser demolidas para desafogo do sítio, e assim, lá se vão os antigos boqueirões, o pitoresco e miniatural terreirinho das Farinhas e o edificiozinho da antiga estalagem dos Bicos, onde há mais de 120 anos se explora a indústria hoteleira.
  Mais uma relíquia de Lisboa, a sua antiga e popular Ribeira Velha, que desaparece perante as imposições, aliás naturais, da vida actual... Paciência.»

Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. 1, 3ª ed., C.M.L, Lisboa, 1981, p.62.


Terreirinho das Farinhas, Lisboa,
Terreirinho das Farinhas, Lisboa, [s.d.].
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
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Restos de feira

 A feira começou por ser dos porcos mas cedo lhe mudaram o rótulo – marketing oblige. Houve muitos pregões, foi grande o arraial e a fanfarra, gente importante quis aparecer. Nem assim acorreu grande freguesia – a roda gigante bem girava, mas ia quase vazia. Então foram calando o realejo; aos poucos que muitos vinham desmontando a tenda. Alguns – talvez pelo disfarçar – deram eco a que esta fora, afinal, uma feira de burros. Acabou o que sobrava dela. A barraca das farturas cancelou hoje o resto das encomendas – ainda agora parece que tem a roulote atulhada de mercadoria...

Feira do Relógio (c) 2007

Almeidas da Câmara, Feira do Relógio, 2007.
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As grandezas do sr. ministro

 Ao almoço ouvi na rádio o sr. ministro das Finanças referir-se a uma parcela do deficit de 2009: dívida da antiga J.A.E., parece-me, prevista em "0,2 pontos do P.I.B." que foi afinal (e literalmente debitada pelo sr. ministro) de "0,4 do P.I.B.". Este linguajar mais-ou-menos sobre contas, eu e o benévolo leitor entendemo-lo. O que o sr. Ministro quereria dizer é que aquela parcela não foi 2‰ mas antes 4‰ do Produto Interno Bruto.
 Na escola primária (na do meu tempo) esta barafunda de grandezas era caso para palmatoada, quando não para merecida raposa. No falar do sr. ministro das Finanças, agora, já tanto faz.


[Escola primária de] Mesão Frio, Vila Real, 1988.
Alfredo Cunha, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
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