
O crescente aumento de divórcios nas sociedades ocidentais leva muitos sociólogos a sustentar que os alicerces da instituição casamento são actualmente muito frágeis e que a monogamia, como base da união do homem e da mulher, já não constitui uma forma de vida que traz felicidade e bem-estar a cada um dos cônjuges. A vida a dois converte-se mais tarde ou mais cedo em monotonia e o conceito de fidelidade é algo que se torna obsoleto.
No seu livro " O mito da monogamia" os cientistas David Barash e Judith Eve Lipton utilizaram resultados de disciplinas científicas como a biologia, fisiologia e antropologia para demonstrar que a monogamia não é um comportamento natural mas sim social
O psiquiatra e sexólogo Willi Pasini , professor da faculdade de Medicina da Universidade de Genève, entende que a infidelidade é um fenómeno em evidente progressão que constitui um meio de escapar à rotina e às frustrações do quotidiano. Baseando-se nas descobertas de David Barash defende também que a monogamia será uma prescrição cultural em oposição com a parte animal do homem. Para o psicanalista Gérard Pommier todos os homens são psiquicamente bígamos.

No mundo muçulmano os defensores da poligamia acusam o Ocidente de estar impregnado de hipocrisia ao impor o sistema monogâmico pois é mais honesto ser casado com várias esposas do que ter uma amante. A hipocrisia do Ocidente em relação à poligamia manifesta-se igualmente no facto da lei não permitir ao homem casar com uma segunda mulher, mesmo com o consentimento da primeira, mas não considera crime esse mesmo homem enganar a mulher com quem casou mantendo relações extramatrimoniais.
Segundo Josef Ginat, professor de antropologia cultural e social, autor do artigo "Polygamous Families in Contemporary Society" , um terço da população mundial pertence a comunidades que permitem a poligamia.

A poligamia é tenazmente defendida por Hayam Dorbek, uma jornalista egípcia mãe de dois filhos, que se veste à maneira ocidental recusando-se a cobrir a cabeça com o véu islâmico. Muito presa pelo seu trabalho e pouco inclinada aos ritmos da vida familiar ela gostaria que o seu marido escolhesse uma segunda mulher. A poligamia permite às mulheres terem um espaço de liberdade explicou ela para justificar a criação de uma associação de defesa da poligamia que foi dada a conhecer através de artigos publicados em jornais árabes e em debates televisivos na Al Jazeera e Al Arabiya. Hayam Dorbek lançou mesmo uma campanha evocando as dificuldades que encontra uma mulher que trabalha e se ocupa da sua casa. Defende ainda que a poligamia é uma solução contra a imoralidade e o adultério que domina nas sociedades ocidentais e que além de resolver o problema das raparigas que não encontram marido constitui também uma maneira de repartir as tarefas domésticas. Um só mulher não chega é a divisa de Hayam Dorbek.

No Senegal, um país onde o homem é " rei" , a jornalista Siga Ndiour, uma jovem que coordena o serviço cultural da rádio municipal de Dakar e que é responsável por um programa feminino denominado " Truques e astúcias da mulher" , declarou que aceita por "amor" que o seu marido partilhe a sua vida entre duas casas e explica que esta forma de vida dá-lhe plena satisfação.
Segundo um estudo da universidade de Sheffield (Inglaterra) os homens com mais de 60 anos que vivem em 140 países onde se pratica a poligamia vivem em média mais tempo do que os dos países monogâmicos.
Penso que a explicação deste fenómeno consiste, provavelmente, no facto dos homens monogâmicos quando ficam viúvos, não terem facilmente à mão de semear qualquer outra mulher para os aturar e proteger e, por isso, vão prestar contas ao Criador muito mais cedo.
As diferentes culturas das sociedades antigas entendiam que o adultério era um acto pernicioso considerado como crime e castigado com pesada penas.O castigo era mais violento para as mulheres porque se exigia delas uma fidelidade mais rígida.Ainda hoje em determinadas comunidades islâmicas o adultério é severamente punido. Nas sociedades ocidentais o adultério, embora sendo ainda objecto de alguma reprovação social, não é um fenómeno tão censurável como outrora.

Segundo o sociólogo Gerard Mermet assiste-se há já alguns anos a um aumento do número de pessoas que levam uma vida sentimental dupla. Esta poligamia clandestina nasce do desejo e da necessidade de mudança e também da vontade de conciliar a estabilidade do casamento com a " pimenta" da vida extra-conjugal. Com a mudança de mentalidades e a libertação da sua sexualidade, as mulheres passaram a encarar o adultério feminino sem reservas e com uma certa desenvoltura aventurando-se em experiências extraconjugais. Carla Bruni, actual mulher de Sarkozy numa entrevista ao « Fígaro Madame » em Fevereiro de 2007, declarou a certa altura: « ....je m'ennuie follement dans la monogamie...je suis monogame de temps en temps mais je préfère la polygamie et la polyandrie. »
Há homens que são exímios artistas na arte de enganar a cara-metade. Conseguem levar durante muitos anos uma vida dupla chegando mesmo a ter filhos nascidos fora do casamento sem que a mulher se aperceba. Há cerca de dois anos passou-me pelas mãos um caso de adultério que só foi conhecido pela mulher depois da morte do marido ,quando um jovem desconhecido contactou a viúva apresentando-se como filho do falecido com direito à sua quota- parte na herança deixada por este. Os familiares e os amigos do casal nem queriam acreditar que o defunto, que sempre se tinha revelado um bom marido, com hábitos de vida muito simples, pudesse ter criado e mantido em segredo aquela vida extraconjugal durante tantos anos .A mulher também nunca supeitou que o marido aproveitasse as frequentes ausências do lar, por motivo de negócios, para ir namoriscar fora do leito matrimonial.

Na sociedade actual há quem seja a favor dos chamados casamentos abertos nos quais cada um dos cônjuges é livre de viver aventuras passageiras sem que isso possa beliscar a estabilidade da vida em comum. Os casais swinger são um exemplo disso .
E o amor? Será ele mais forte que o apelo da libido humana à diversidade sexual? Há quem sustente que a satisfação dessa predisposição biológica nada tem a ver com o amor e que uma relação extra-matrimonial poderá robustecer os laços afectivos que unem o casal.
As estatísticas sobre o divórcio e as relações adúlteras traduzem uma crise evidente da instituição casamento e a monogamia como símbolo de exclusividade sexual revela hoje o que sempre foi: um valor e uma aspiração mais do que uma realidade.

A série de esculturas eróticas de mesa, bengaleiro e cadeira criadas em 1969 por Allen Jones , artista britânico da pop art, provocou a ira das feministas por ter utilizado figuras de mulher a servirem de peças de mobiliário (fornifilia).Criticaram o artista por ele representar o corpo feminino como objetivação sexual dos olhares masculinos.

Esta cadeira está exposta numa das salas da pop art da Tate Modern e embora seja pequena sobressai entre as outras peças, atraindo de imediato os olhares dos visitantes.
A mensagem que o artista pretendeu transmitir com esta sua obra é ambígua. Poderá ,segundo alguns, constituir uma referência sarcástica ao sexo e ao erotismo e uma crítica irreverente às práticas sadomasoquistas.



Allen Jones nasceu em Southampton em 1937 e estudou pintura e litografia no Hornsey College of Art. As suas obras estão expostas em diversos museus e galerias da Europa , América e Ásia.Foi um dos membros mais importantes da pop art iniciada em Inglaterra nos anos sessenta.



Jones representa nas suas obras a fusão entre o masculino e o feminino evidenciada nos corpos dos homens e das mulheres que se juntam e se fundem numa dança colorida que revela a influência da filosofia de Nietzsch nos seus trabalhos.





Foi na obra de Allen Jones que Stanley Kubrick se inspirou para criar este cenário do Korova Milkbar do seu filme " Laranja Mecânica".


O útimo trabalho de Allen Jones concluído em 2008.
Será éticamente aceitável que uma mulher ,com ou sem a doação de um óvulo de outra, possa mediante retribuição alugar o seu útero para gerar um ser humano com a obrigação de o entregar a alguém após o seu nascimento?

Esta prática é permitida em certos estados norte americanos onde existem clínicas que disponibilizam, mães de substituição mediante o pagamento de quantias que oscilam entre os 60.000 e 135.000 dólares. Os responsáveis da Circle Surrogacy ,uma agência de maternidade de substituição sediada em Boston ,dizem que é um mercado que tem crescido rapidamente e que esperam duplicar o seu volume de negócios até 2010. A maioria da sua clientela são casais homossexusias (80% ) que recorrem a esta agência para serem pais biológicos de uma criança gerada no ventre de uma mãe de substituição . É aquilo que alguns já qualificam como "gay baby boom" que está em vias de revolucionar a família tradicional norte americana.
A clínica B Coming , que exerce a sua actividade em Los Angeles ,é procurada por muitos casais inférteis americanos e europeus incluindo alguns portugueses,O valor pago pelos seus clientes inclui a remuneração da mãe de substituição , a fertilização in vitro,as despesas de viagem e os honorários do advogado que redige o contrato.
Na Europa o recurso a barrigas de aluguer é tolerado na Bélgica e na Holanda mas sem enquadramento legal ao contrário do que sucede na Inglaterra e Grécia onde é autorizado sob determinadas condições. Esta prática não é permitida na França,Itália, Alemanha, Portugal, Espanha e Suiça.
Este método de procriação assistida vai ser discutido em França no corrente ano no quadro da revisão das leis da bioética. A comissão do senado constituída para estudar o assunto já se pronunciou favoravelmente quanto à sua autorização em território francês recomendando, no entanto que seja efectuado o enquadramento legal desta actividade.
Nos países mais pobres, o recurso a barrigas de aluguer está a converter-se e num negócio vantajoso para muitas mulheres que resolvem os seus problemas económicos mediante o aluguer do seu útero. Algumas delas ficam contentes por gerar uma criança para um casal estéril que lhes permite dar uma vida melhor aos seus filhos.

Na Índia o negócio das barrigas de aluguer, feito através de clínicas autorizadas,movimenta milhões de dólares por ano. Cada casal infértil paga 25.000 doláres e a mãe de substituição recebe entre 5.000 a 7.000 dólares.Segundo os últimos dados há cada vez mais mulheres na Índia a oferecerem-se como barrigas de aluguer. É uma indústria em pleno crescimento.
Esta técnica de reprodução humana a que recorrem muitos casais inférteis que, a todo o custo, querem ter um filho a quem sejam transmitidos os genes de, pelo menos, um dos seus progenitores poderá ser objecto de práticas fraudulentas por parte da mãe de substituição ,situações que muitas das vezes acabam em tribunal.
Um caso que suscitou grande polémica teve como protagonistas um casal belga e outro holandês. Em Abril de 2004 o casal belga concluiu um acordo com uma mulher sua compatriota que aceitou ser inseminada com o esperma do homem mediante o pagamento de 10.000 euros obrigando-se no caso de engravidar a entregar-lhes a criança.Confirmada a gravidez o pai biológico e a mãe adoptiva fizeram todos os preparativos para bem acolher o pequeno ser, uma menina, que iria nascer.
Entretanto a mãe de aluguer, apercebendo-se do valor que a filha tinha no mercado paralelo ,propôs a sua venda na Internet. O negócio foi concluído com um casal holandês que ofereceu 15.000 euros pela criança tendo iniciado imediatamente o processo de adopção que é muito fácil nos Países Baixos. Ainda o bebé não tinha saído do ventre materno e já tinha mudado de donos por duas vezes como se de uma mercadoria se tratasse. Quando a criança nasceu os holandeses levaram com eles o pequeno troféu para a Holanda antes que o casal belga pudesse reagir.
O caso foi levado a tribunal e, em 29 de Junho de 2005 a justiça belga ,invocando que a lei proibe o tráfico de menores, decidiu que a criança deveria regressar à Bélgica e ser confiada aos respectivos serviços de protecção de menores. Perante esta decisão os compradores holandeses recorreram ao tribunal de Utrecht para fazer valer os seus direitos.
Por decisão proferida em Outubro de 2007 este tribunal recusou entregar a criança ao belgas tendo, em Março de 2008, a questão sido resolvida definitivamente em última instância a favor do casal holandês. Para fundamentar a sua decisão o tribunal argumentou que a criança tinha necessidade de protecção afim de melhor se desenvolver e que para Donna (é este o nome da criança) a relação mais importante da sua vida é com aqueles que a criaram ou seja, os seus pais adoptivos. Ela nunca conheceu outros.
Os juízes não se pronunciaram sobre o direito de visita ao pai biológico, aceitando no entanto que os serviços de protecção das crianças pudessem organizar um eventual encontro.
Um outro caso de fraude de que foram vítimas dois casais dinamarqueses foi noticiado no programa 60 minutos transmitido há pouco tempo pela Sic Notícias.
Os dois casais negociaram com duas raparigas peruanas, através da Internet, a gestação de uma criança que lhes seria entregue após o seu nascimento. Concluídos os preliminares do negócio os dois casais deslocaram-se ao Perú e encontraram-se com as duas mães de substituição que, depois de receberem a quantia exigida, aceitaram ser inseminadas artificialmente.
Os candidatos a pais regressaram depois ao seu país na esperança de que em breve receberiam uma boa notícia. Dois meses depois as raparigas comunicaram que estavam grávidas. Mais tarde uma delas chegou mesmo a enviar uma imagem ecográfica do bebé. Tudo parecia correr pelo melhor. Ao fim de algum tempo um dos casais recebeu a notícia de que a criança, uma menina, já tinha nascido tendo-lhes sido enviada uma foto acompanhada de uma certidão de nascimento. Logo que recebeu esta notícia o referido casal enviou à mãe substituta a quantia necessária para pagar as despesas da sua deslocação à Dinamarca afim de entregar a criança, conforme tinha sido combinado. Mas a rapariga foi sempre adiando a viagem apresentando várias desculpas até que deixou de dar notícias.
Entretanto, a outra rapariga informou o casal que a tinha contratado que tinha abortado em consequência de um acidente mas que tinha recorrido ao esperma que tinha sido depositado numa clínica e que a inseminação tinha dado os seus frutos. Estava de novo grávida .Confiantes e cheios de esperança ficaram a aguardar que lhe fosse comunicado o nascimento da criança mas tal nunca aconteceu.
Pensando o pior os dois casais dinamarqueses deslocaram-se ao Perú e, acompanhados pela equipa que fez a reportagem, fizeram as necessárias diligências para encontrar as duas mães de aluguer. O resultado deixou-os profundamente chocados. A rapariga que disse ter dado à luz uma menina nunca foi encontrada e os próprios familiares há muito que não sabiam do seu paradeiro. Ficaram também a saber que a certidão de nascimento que lhes tinha sido enviada era falsa.
Depois de várias peripécias conseguiram contactar a outra rapariga e descobriram que ela tinha mentido. Nunca esteve grávida. Embora estes casos tivessem sido comunicados às autoridades policiais estas nada puderam fazer. Esclareceram que estas situações são frequentes e que muitas das vezes as mulheres engravidam mas acabam por vender o filho a outrem. À desilusão sofrida pelo dois casais juntou-se a angústia de um dos homens que ficou na dúvida se realmente não teria sido pai de uma filha cujo destino ignora.
Um problema que poderá surgir nestes casos de barrigas de aluguer é o da filiação, no caso da mãe de substituição se recusar a entregar a criança por a gravidez ter despertado nela instintos maternais até então adormecidos. Se ,além de ter alugado o seu útero, a mulher fez também a doação do óvulo que foi fecundado a situação complica-se porque ela poderá reivindicar a maternidade através de testes de ADN. Para evitar este conflito as clínicas e as associações dos Estados Unidos que se dedicam a estas práticas, aconselham, que a fertilização in vitro seja feita com um óvulo de outra dadora, sendo depois o embrião implantado no ventre da mãe de substituição.
Uma outra situação bastante melindrosa poderá surgir se o casal que encomendou a criança deixou de estar interessado nela por se terem separado antes do seu nascimento. Foi o caso que ocorreu com uma mãe de substituição indiana que em Julho de 2008 deu à luz uma criança encomendada por um casal de japoneses que se divorciaram antes do parto ter ocorrido. A mãe que gerou a criança não a quer e o pai biológico não pode recorrer à adopção devido à rigidez das leis indianas .
Na gravidez das barrigas de aluguer não existe qualquer interacção entre o corpo da mulher e o da criança que está a gerar. Esta aluga o seu ventre mediante um contrato para gerar um ser que sem qualquer dificuldade se dispôs a rejeitar depois do seu nascimento. É uma gestação sem qualquer ligação afectiva que se desenvolve na indiferença, numa perspectiva utilitária ou, melhor dizendo, mercantil. Há quem entenda que, nestes casos, a criança é tratada como uma simples mercadoria encomendada como se fosse um objecto ou um animal de estimação.
O aluguer do útero de uma mulher para gerar um ser humano mediante o pagamento de determinada quantia , não será uma forma de instrumentalizar o corpo feminino transformando-o numa máquina procriadora?
Foi com alguma pena que, há cerca de duas semanas, parti de Miami com destino a Lisboa via Nova Iorque. A temperatura amena (27 º C) convidava a um dolce far niente numa das praias da bonita cidade de todos os vícios, como alguém lhe chamou.
Downtown de Miami

Bayside Market Place , um centro comercial e de lazer cheio de animação
Ao fazer o check-in no aeroporto a funcionária da Continental Airlines informou-me que a minha mala tinha excesso de peso, um quilo a mais do que é permitido, e que por essa razão teria que pagar a a quantia de 50 dólares (cerca de 40 euros ) . Fiquei surpreendida porque nos outros aeroportos por onde passei não tinha tido qualquer problema com a bagagem . Ainda argumentei que o excesso de peso não era significativo mas a funcionária manteve-se inflexível. O facto da mala ter engordado era para mim um mistério que tentei desvendar enquanto aguardei pela hora de embarque.
Mas foi só quando abri a mala em casa que encontrei a explicação para o sucedido.Bem aconchegadas no meio da roupa estavam duas embalagens de café que tinha comprado na Colômbia as quais, até chegar a Miami, tinham sido transportadas numa pequena mochila. Embora a mala já estivesse bastante pesada não me passou pela cabeça que as ditas embalagens fossem a gota de água que fez transbordar a taça. Feitas as contas, acabei por concluir que o aromático café ficou bastante caro. Se calhar devia ter optado pelo nespresso publicitado com muito charme pelo Clooney.
O avião descolou com cerca de trinta minutos de atraso. Fiquei um pouco preocupada porque em Newark não dispunha de muito tempo para apanhar a ligação para Lisboa. Por isso logo que cheguei àquele aeroporto dirigi-me apressadamente para a outra porta de embarque situada, felizmente, no mesmo terminal. Mas Newark não é a Portela. Fartei-me de andar e quando ouvi, através dos altifalantes, que me estavam a chamar para embarcar desatei a correr. Ao ver-me naquela correria o condutor de um daqueles pequenos veículos que circulam nos terminais dos grandes aeroportos deu-me boleia.Poucos minutos depois entrei no avião completamente exausta. Arrumei a tralha na bagageira e foi com um suspiro de alívio que me sentei ,preparada para uma viagem que eu pensava decorrer normalmente.
A determinada altura do voo aparece o aviso luminoso para apertar os cintos.A turbulência que se avizinhava não me impediu de continuar tranquilamente a ver o filme que tinha escolhido para me entreter durante algum tempo .
Pouco depois comecei a sentir as trepidações que são normais nestas circunstâncias. Mas a certa altura a situação piorou. As sacudidelas tornaram-se mais fortes e tive a sensação de que a aeronave perdia altitude para de seguida a retomar.Um sobe e desce que provocava um certo mal-estar.Os relâmpagos no exterior deixavam adivinhar que o tempo lá fora não era o mais propício para se fazerem passeatas de avião. Tentei distrair a mente com pensamentos agradáveis e pela minha memória perpassaram algumas das imagens mais marcantes da viagem que tinha realizado antes de chegar a Miami. Mas foi sol de pouca dura. Comecei a sentir-me invadida por uma sensação de insegurança e deixei de pensar no que quer que fosse.
O silêncio sepulcral no interior do avião só foi quebrado por alguém que tocou para chamar uma assistente de bordo. Uma senhora que estava sentada ao meu lado rezava baixinho e a cada trepidação mais forte do aparelho agarrava-me o braço. Nunca senti qualquer receio durante uma turbulência mas jamais enfrentei alguma tão assustadora.Ao fim de alguns minutos terminou aquela espécie de dança nas cadeiras que ocorreu algures entre o céu e a terra. O comandante, por uma questão de cortesia, entendeu que devia pedir desculpa aos passageiros pelo incómodo causado. Logo a seguir as assistentes de bordo passearam-se pela cabine para, com a sua presença e o seu sorriso de circunstância, transmitir um pouco de serenidade e de confiança àqueles que estavam com o ânimo mais debilitado devido ao tal incómodo

Finalmente o romper do sol no horizonte acima das pesadas nuvens

Já no aeroporto de Lisboa, ao recolher a bagagem, verifiquei que a mala estava danificada.Noutras circunstâncias não deixaria de apresentar a respectiva reclamação mas, depois daquela desagradável experiência aérea,encarei o caso como uma pequena coisa sem importância.
No táxi a caminho de casa pensei com os meus botões como era bom voltar a ver a minha bonita cidade de Lisboa, com os pés bem assentes na terra.

Le Violon d'Ingres
Foto de Man Ray, fotógrafo, pintor e realizador cinematográfico de origem americana, um dos fundadores do Dadaísmo nos Estados Unidos.Foi para Paris em 1921 onde se uniu aos surrealistas. Por influência de Jean Cocteau tornou-se o fotógrafo oficial das personalidades artísticas e intelectuais mais destacadas naquela época. Grande admirador do pintor clássico Jean-August Ingres inspirou-se na pintura dos nus femininos deste artista para fazer o Violon d' Ingres . Os "f-holes" no corpo da modelo foram desenhados pelo artista na própria foto.O turbante na cabeça dá o toque oriental que Ingres transmitiu nalguns dos seus trabalhos. Este pintor que adorava a música e tocava violino dizia que aceitava mais uma crítica às suas pinturas do que ao seu trabalho como violinista.

As lágrimas . Uma das minhas fotos favoritas de Man Ray

Entrou no meu gabinete com ar decidido. Era uma mulher elegante, bem vestida e cuidadosamente maquilhada. Sentou-se calmamente cruzou as pernas e disse o que pretendia. Queria divorciar-se. A voz subiu de tom contrastando com o seu ar aparentemente tranquilo. Explicou que o homem com quem casara há cerca de dez anos tinha saído de casa para ir viver com outra.
Sem que eu lhe tivesse perguntado nada argumentou, em jeito de desabafo, que se tratava de uma cabra, uma desavergonhada sem escrúpulos que, podendo escolher um homem livre, não hesitou em roubar-lhe o homem com quem casara.
Sugeri-lhe o divórcio por mútuo consentimento. Soltou uma gargalhada e com uma certa rudeza respondeu que nem queria pensar nisso. Era o que mais faltava.
A acção de divórcio litigioso foi contestada pelo marido que invocou em sua defesa que ,mesmo que não tivesse surgido uma outra pessoa na sua vida, a separação seria inevitável dado o mau carácter e o péssimo comportamento da mulher que na sua vida privada não era aquilo que publicamente tentava demonstrar aos outros.
No decurso do processo tive que falar com a mulher por diversas vezes e pouco a pouco fui-me apercebendo da sua verdadeira personalidade e da sua maneira de estar na vida. Era o protótipo da mulher fútil e vaidosa que gosta de dar nas vistas, e de ser admirada e adulada. Segundo me disse fazia telefonemas para o emprego da outra insultando-a. Não me competia censurar esse procedimento mas, no meu íntimo, pensei que se fosse homem e encontrasse no meu caminho uma mulher como aquela tinha razões de sobra para mudar de rumo.
Nestes casos de adultério masculino as mulheres fazem sempre um juízo depreciativo sobre o carácter da outra, que muitas vezes nem sequer conhecem. Para elas a outra é sempre a leviana, a desavergonhada que veio perturbar a sua vida conjugal apesar da relação matrimonial já estar, muitas das vezes, votada ao fracasso.
Apesar disso, tais mulheres são capazes de estremecer de emoção perante histórias de amor que envolvem casos de adultério. Todas são indulgentes para com a Ana Karenina e a Madame Bovary e sentem uma profunda ternura pela Lara do Dr. Jivago. Certamente ao verem o extraordinário filme "As pontes de Madinson County" ficam com os olhos húmidos de lágrimas perante a história de amor de uma pacata mulher casada (Meryl Streep) que se apaixona por um repórter fotográfico (Clint Eastwood) .Não criticam, não se enfurecem perante todos essas situações de adultério. É o amor pensam elas, é a vida.

Mas ,se o seu rico marido um dia lhes diz que está consumido pela chama de amor por outra mulher ,o caso é visto numa perspectiva diferente. Agora não são espectadoras de um filme de amor, mas vítimas de uma traição. Nessa qualidade de vítimas a primeira ideia que lhes vem à cabeça é pegar em armas para uma possível vingança. Nem sequer conseguem analisar profundamente a situação para eventualmente reconhecer a sua mea culpa. Cheias de rancor não são capazes de vislumbrar um traço de amor nessa relação extraconjugal mas somente um caso sórdido entre um exemplar chefe de família e uma prostituta sem escrúpulos.
No meio disto tudo a outra, embora possa continuar a ser aceite no seu núcleo de amigos e conhecidos é, em surdina, duramente censurada pelas outras mulheres sobretudo se são casadas.

No filme "Atracção Fatal" , Michael Douglas representa o papel de um marido e bom pai de família que tem uma relação amorosa extraconjugal com uma executiva (Glenn Glose ).Esta vive obcecada por essa paixão e toma atitudes que põem em risco a tranquilidade do lar conjugal e a relação familiar.
Claro que toda esta situação não poderia ter um happy end para a louca apaixonada que ousou intrometer-se na vida daquele casal. O realizador e o autor do argumento ,para satisfazer um certo conservadorismo de fachada que ainda existe na sociedade norte americana, decidiram terminar o filme de forma exemplar.
A esposa, vítima inocente daquela terrível situação, mata a tresloucada que indevidamente fez uso do homem que não lhe pertencia e o macho-galã que também deu causa àquele desvario sentimental fica impune podendo continuar a usufruir da tranquilidade do lar e da ternura da mulher com quem casou até lhe surgir de novo a vontade de "pular a cerca " para ir aconchegar-se na cama de outra.
Lembro-me que quando saí do cinema, depois de ver este filme, ouvi uma mulher dizer para o companheiro que quem devia ter sido castigado era o traidor do marido.Conclui que esta espectadora tinha ficado com pena da pobre mulher apaixonada.
Estava a dar os primeiros passos no meu blogue, já lá vão quase dois anos, quando publiquei um pequeno texto em que descrevi a minha visita a "La Sebastiana", a casa-museu de Pablo Neruda em Valparaíso. Encontrava-me em Santiago do Chile para seguir viagem com destino à Patagónia.
O Blue, no seu comentário, perguntou se eu pensava fazer um post sobre essa viagem e se seria possível colocar umas imagens. A Luana subscreveu o comentário do Blue. Face ao interesse demonstrado informei-os de que publicaria esse post logo que soubesse colocar as imagens. Não fazia a mínima ideia de como é que isso se fazia.
Esta minha "confissão" levou o simpático Blue a prestar o necessário auxílio à incipiente bloguista e, a partir daí, a colocação de imagens deixou de ser para mim um quebra-cabeças. Resolvido este problema só faltava consultar os meus apontamentos de viagem e escolher algumas fotos . Entretanto fui publicando outros posts que exigiam menos trabalho e o tempo foi passando. Até que agora decidi meter mãos à obra para cumprir a minha promessa e reviver uma maravilhosa aventura que recordo com imensa saudade.
Quando cheguei a Santiago do Chile no dia 29/1/06 ,após 13 horas de viagem, não pensei noutra coisa que não fosse tomar um duche e esticar as pernas. Por isso, não perdi tempo no aeroporto a trocar a roupa de inverno que vestia, por outra mais leve e fresca, adequada ao 38º C que se faziam sentir na capital chilena. Segui imeditamente para o hotel e quando lá cheguei parecia que tinha acabado de sair de um banho turco.
Santiago do Chile é uma cidade que não me despertou muito interesse. Não não tem a grandiosidade e o cosmopolitismo de Buenos Aires nem o encanto e a beleza natural do Rio de Janeiro.

O Palácio da La Moneda, palco dos últimos acontecimentos do golpe de estado que culminaram na queda do regime de Salvador Alllende e levaram Pinochet ao poder.

Da casa-museu de Pablo Neruda, erguida num dos morros de Valparaiso, vê-se este panorama da cidade e do mar que ele tanto gostava.
Estive dois dias em Santiago e depois segui para Punta Arenas uma pequena cidade com casa pintadas de cores garridas, situada na denominada "Região de Magalhães e Antárctica Chilena".
O motorista de táxi que me transportou do aeroporto até ao centro da cidade, verificando o meu interesse pela estátua de Fernão de Magalhães ,erguida na praça principal de Punta Arenas , explicou-me que se tratava de Hernando de Magalhanes um espanhol que descobriu o estreito a que foi dado o seu nome. Senti-me na obrigação de esclarecer o homem de que aquele navegador chamava -se Fernão de Magalhães e era português ,muito embora estivesse ao serviço da coroa espanhola quando descobriu o Estreito, uma passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
Nesse mesmo dia, segui viagem para Puerto Natales .O percurso é longo e na paisagem da imensa estepe patagónica, muito árida e com vegetação rasteira ,viam-se apenas alguns guanacos, animal da familia dos lamas, ovelhas e nandus, uma espécie de avestruz popularmente conhecida como ema.


É uma região pouco povoada onde existem "Haciendas" para criação de gado lanígero. O cavalo é o meio de transporte utilizado pelos trabalhadores dessas quintas.
Durante o percurso fizemos uma breve paragem para visitar uma colónia de pinguins ( pinguinera).Ao sair do veículo fui recebida por enormes rajadas do famoso vento patagónico que chega a atingir 130 Km por hora.O frio era intenso e o lugar inóspito ,de uma beleza selvagem. Mas nada me demoveu de fazer uma penosa caminhada até ao habitat dos pequenos pinguins magalhânicos. Quando me despedi deles estava enregelada. Algumas horas depois, já em Puerto Natales,ao sair do hotel para ir jantar tive que lutar desesperadamente contra aquela ventania para poder chegar ao restaurante.No dia seguinte o vento tinha amainado e a temperatura estava amena.

Estive dois dias em Puerto Natales para visitar o Parque Nacional das Torres del Paine e o lago Grey . O Parque é um estonteante desfilar de lagos, rios, montanhas e bosques milenários com uma flora e fauna muito diversificadas. Os seus penhascos são também conhecidos como Cuernos del Paine por causa da sua configuração.O lago Grey e os pequenos icebergs do seu glaciar combinam-se a com a majestosidade dos cumes das Torres .


Regressei a Punta Arenas para embarcar no Mar Australis , um pequeno barco de expedição , para uma viagem de 5 dias até Ushuaia , na Argentina, navegando pelo Estreito de Magalhães e pelos canais patagónicos.

Nessa noite, antes do jantar, o capitão deu-nos as boas vindas e apresentou a tripulação informando ainda qual era a nacionalidade de cada um dos 129 passageiros. Quando chegou a minha vez sorriu e convidou-me a cantar um fado depois do jantar. Pensei para comigo que o charmoso capitão tinha batido na porta errada. Não gosto de fado e só canto quando estou sozinha para não ferir os tímpanos dos outros.Logo que terminou a refeição sai muito discretamente não fosse alguém lembrar-se de pedir uma sessão fadista.


A navegação pelos canais patagónicos, entre majestosas montanhas, cascatas e pequenos glaciares foi um deslumbramento. Ao passarmos pela cordilheira Darwin recordei o autor da teoria da evolução das espécies que, na sua missão, andou por estas paragens a bordo do navio britânico Beagle que deu o nome a um dos canais.

Depois de Magalhães ter descoberto o Estreito foram muitos os navegantes que se aventuraram por estas paragens.Vinham de países longínquos e alguns deles não regressaram à sua terra natal, vítimas não só da inclemência do tempo mas da sua inexperiência de navegantes que desconheciam a intrincada estrutura das ilhas, ilhéus e rochedos que fazem do Estreito uma traiçoeira e sinuosa serpente de águas entre os dois oceanos.

As ilhas por onde passávamos não são habitadas e muitas estão ainda por explorar. Visitámos algumas delas em barcos de borracha. O Mar Australis ficava ao largo. Os passageiros iam devidamente equipados com fatos impermeáveis, sapatos ou botas de trekking e coletes salva-vidas.Deviamos entrar nas pequenas embarcações com muito cuidado ,com o auxilio do pessoal de bordo, e seguindo as instruções que nos eram dadas. É que se um passageiro tivesse a pouco sorte de cair ao mar morreria em poucos segundos por hipotermia. Os barcos eram conduzidos por homens experientes que, para descontrair alguns passageiros mais receosos, faziam pequenas brincadeiras dando a entender que o motor tinha avariado e que por isso a embarcação ficava à deriva. Fiquei encantada ao ver os golfinhos a seguirem-nos muito entusiasmados e divertidos com as habilidades que o homem que conduzia o barco fazia para os provocar.

Nesses pequenas embarcações seguiam também os biólogos de bordo para nos explicarem e a fauna e a flora dos locais que íamos visitar. Os passageiros mais afoitos e com mais capacidade física aventuravam-se numa caminhada por caminhos tortuosos que lhes permitia admirar melhor a beleza da paisagem envolvente. Antes de regressarmos ao barco, era servido chocolate quente ou whisky que o pessoal de bordo tinha transportado para o local. Uma boa ideia porque o frio era intenso.

Desembarcamos na baia de Ainsworth para observar o glaciar Marinelli e uma colónia de elefantes marinhos, animais corpulentos que chegam a pesar até três toneladas Chamam-se assim porque o nariz dos machos alonga-se numa espécie de tromba.

O biólogo que nos acompanhava avisou-nos para não nos aproximarmos muito desses animais que são normalmente pacíficos mas, quando estão com as fêmeas, como era o caso, não gostam da aproximação de estranhos. Ignorei a advertência e aproximei-me demasiado do grupo de animais para tirar esta foto mas ,quando um deles soltou num rugido ,acabei por fugir apressadamente do local.
No salão do barco estava exposto um mapa que indicava diariamente o percurso do Mare Australis, sempre em direcção ao sul , com a indicação da latitude a que estávamos.

Na véspera das visitas realizavam-se palestras a bordo com pessoal habilitado que davam as necessárias explicações sobre a história do local que íriamos visitar, da sua fauna e flora. Eram também exibidos alguns vídeos. Foi a bordo do Mar Australis que, pela primeira vez vi " A Marcha dos Pinguins" que em 2006 ganhou o Oscar do melhor documentário.
Antes de atingirmos o mítico Cabo Horn, local onde confluem os oceanos Pacífico e Atlântico, o capitão informou-nos que o desembarque dependia das condições climáticas ,que são sempre más naquela zona. O mar é bastantes tumultuoso e as ondas chegam a atingir 15 metros de altura. Devido ao clima inclemente que açoita a região, ocorreram muitos naufrágios de navios de passageiros e de mercadorias causando a morte àqueles que ousaram enfrentar o tenebroso Cabo Horn. Na véspera de chegarmos o capitão avisou-nos, por brincadeira, que durante a noite tivéssemos cuidado com os fantasmas dos que ali perderam a vida. Costumavam aparecer para afugentar aqueles que lhes estavam a perturbar o sono eterno.


Mas felizmente conseguimos desembarcar. O Cabo Horn é um promontório rochoso quase vertical com cerca de 425 metros de altura. Para atingir o topo do rochedo há que fazer uma boa caminhada e subir cerca de 100 degraus. O céu estava cinzento e sombrio e a chuva miudinha e gélida que caía tornava o cenário mais desolador. Apesar da beleza agreste e inóspita senti-me invadida pela paz que o silêncio e a imensidão da paisagem me proporcionavam. Estávamos às portas da fascinante Antárctica ( 55º 58' 52'' latitude sul) . No final da viagem foi entregue a cada um dos passageiros um certificado da sua passagem pelo Cabo Horn.

No ponto mais alto do Cabo Horn foi erguido um pequeno monumento em memória dos que pereceram nos inúmeros naufrágios. Os triângulos representam a união dos dois oceanos. Nesta foto está a Pilar, uma espanhola alegre e divertida que viajava com o marido em lua-de-mel.
Continuámos a viagem para Puerto Williams, um pequeno povoado sob administração chilena. No dia seguinte desembarcamos em Ushuai na Argentina, a cidade mais austral do mundo. A viagem no Mar Australis tinha terminado.

Usuhaia, denominada a capital da província da Terra del Fuego, da Antárctica e das Ilhas do Atlântico Sul, é uma pequena cidade da patagónia argentina rodeada de montanhas (ultimo sector da cordilheira dos Andes) que no Inverno estão cobertas de neve. A terra do fogo é um vastíssimo arquipélago separado do continente pelo Estreito de Magalhães. Foi baptizado como terra do fogo por Magalhães por este ter avistado fumo e fogo a sul quando viajava pelo Estreito. Tratava-se de fogueiras ateadas por tribos de índios, que estavam sempre acesas, para se resguardarem do frio e para cozinhar os alimentos.
Durante o verão austral os dias são longos.Em Dezembro anoitece às 23 horas e às 4 da manhã já é de dia. A temperatura no verão oscila entre os 6º e os 17º graus centígrados.
Ushuaia é famosa pelo seu antigo presídio que foi construído para encarcerar os delinquentes reincidentes mas que depois acabou por receber perigosos criminosos, ladrões famosos e até presos políticos. A partir de 1947 deixou de ser uma prisão e hoje é um museu denominado "Museu Marítimo e do Presídio" que ainda mantém as celas de prisioneiros que lá estiveram encarcerados. No museu marítimo estão as réplicas de embarcações de grandes navegadores entre as quais a caravela Trinidad de Fernão de Magalhães. Um outro museu denominado "Museu del Fin del Mundo"é dedicado à história e à cultura da região.

Durante a permanência de dois dias em Ushuaia , fiz uma viagem no pequeno comboio denominado "Tren del Fin del Mundo" cuja linha foi construida pelos prisioneiros. Durante o percurso visitei o Parque Nacional da Terra do Fogo com os seu lagos, montanhas, ribeiros e bosques. Estas terras austrais são um enorme viveiro de aves desde o elegante flamingo ao minúsculo colibri.

Um abrigo de castores no Parque Nacional
No dia seguinte, não obstante estar a chover com intensidade, fiz um pequeno passeio de barco pelo canal Beagle para visitar as ilhas dos pássaros, dos lobos e dos pinguins. Quando o barco estava próximo de cada uma delas silenciavam-se os motores e o casco da embarcação quase tocava as rochas para melhor admirarmos os habitantes destas ilhas.



De Ushuaia parti para El Calafate uma pequena cidade situada na margem sul do Lago Argentino. Era há pouco tempo um centro de abastecimento para criadores de ovelhas e produtores de lã. Hoje é um centro turístico muito procurado devido à sua proximidade com o Parque Nacional dos Glaciares .As casas de estilo pré-fabricado emprestam à cidade um cunho de originalidade.


A paragem em El Calafate durante dois dias teve apenas como único objectivo visitar os magníficos glaciares Perito Moreno e Upsala que se encontram no parque Los Glaciares, a cerca de 80 km de distância. O Perito Moreno ,que tem uma frente de cerca de 60 metros de altura e 5km de extensão , permite ao visitante desfrutar de um dos espectáculos mais incríveis da natureza quando enormes blocos de gelo se desprendem do glaciar, com enorme estrondo, caindo nas águas cor de esmeralda do Lago Argentino. Segundo dizem alguns cientistas , é o único glaciar no planeta que não está a recuar devido ao aquecimento global. Na sua retaguarda vão-se formando enormes camadas de gelo que impedem a sua retracção.










O passeio de barco a caminho do glaciar Upsala, o segundo mais importante da região, deixou-me extasiada. Durante o percurso observam-se os enormes blocos de gelo que se desprendem dos glaciares os quais, esculpidos pelo vento, assumem as mais diversos formas. Os tons de azul conferem uma rara beleza a estas verdadeiras obras de arte da natureza.









Nesta região, além dos glaciares Perito Moreno e Upsala existem outros glaciares.
Parti para Buenos Aires levando na minha mente a beleza das maravilhosas paisagens, os agradáveis momentos a bordo do Mar Australis e o profundo contacto com a natureza, bela, agreste e selvagem ainda não conspurcada pela acção do homem.
Buenos Aires é uma interessante cidade com características semelhantes às das grandes metrópoles europeias. Nas suas longas e largas avenidas vive-se uma atmosfera de dinamismo e de modernidade. A capital da Argentina tem cerca de 12 milhões de habitantes incluindo os que vivem na área metropolitana. Fiquei contagiada pela alegria exuberante dos argentinos. O tango está presente nos espectáculos de rua para os turistas, nos cafés e nos locais onde se dança (milongas) .

A Casa Rosada, sede da Presidência da República .Era de uma das varandas deste edíficio que Evita falava aos "descamisados" que a ouviam na Plaza de Mayo.

La Boca é um bairro pitoresco com pinturas murais, lojas de souvenirs, restaurantes, exposições de artesanato e bailarinas de tango que ,na rua , ensinam os turistas a dançar . É também neste bairro que está o estádio de futebol Boca Juniors.
Como não podia deixar de ser visitei também o famoso cemitério La Recoleta situado num dos bairros mais nobres de Buenos Aires. É lá que se encontra sepultado o corpo de Eva Perón .
Regressei a Lisboa com uma bagagem cheia de emoções que vão perdurar para sempre na minha memória. Muitas coisas ficaram por dizer neste post a respeito da história e das lendas da Patagónia e do Cabo Horn. Também omiti alguns pormenores dos locais visitados e os episódios pitorescos que ocorreram durante a viagem porque não era possível relatar tudo isso num post que mesmo assim já é bastante extenso.
De todas as viagens que já fiz fora do continente europeu, a da Patagónia é uma daquelas que tenciono repetir. Mas quero ir mais longe para concretizar o meu sonho de visitar a Antárctica e cumprimentar os pinguins imperadores.
Nunca é demais falar do cancro da mama, um problema de saúde que afecta milhões de mulheres em todo o mundo. Todos os anos aparecem novos casos aumentando assustadoramente o número de mulheres vítimas desta doença .

Os estilos de vida em que se enquadram o consumo de tabaco ou o sedentarismo e a toma da pílula vida são algumas razões que estão a justificar o aumento da incidência do cancro da mama entre as portuguesas.Um aumento que os especialistas em oncologia afirmam rondar os 20% nos últimos dez anos (mais 600 casos por cada ano) .Segundo o relatório Global Câncer Facts & Figures, foram diagnosticados 1,3 milhões de novos casos de doença em 2007.O cancro acabou por ser fatal para 464 854 mulheres. Em Portugal não há dados consistentes mas Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro calcula que haja 4.000 novos casos por ano e 1700 mortes anuais. ( in Diário de Notícias de 30/04/08)
As células neoplásicas podem atingir os gânglios linfáticos e disseminar-se para outros orgãos do corpo.

O rastreio e a detecção precoce são importantes na luta contra a doença que aparece em mulheres cada vez mais jovens. Todas devem fazer mensalmente a auto-apalpação da mama (há vídeos no You Tube que demonstram como se faz este auto-exame) e ir imediatamente ao médico se surgir algum destes sinais de alerta:
- Aparecimento de nódulo /endurecimento na mama ou nas axilas
- Mudança no tamanho ou no formato da mama
- Retracção da pele da mama ou do mamilo
- Alteração na coloração da mama ou da aréola
- Corrimento pelo mamilo com ou sem sangue.

Mesmo que não existam estes sinais deve fazer-se uma consulta de rotina sobretudo nos casos de risco, entre os quais a existência de antecedentes familiares deste tipo de cancro.
O sedentarismo e a alimentação são também um dos factores de risco pelo que é importante que as mulheres pratiquem exercício físico regularmente, de harmonia com a sua capacidade , e que a alimentação seja rica em verduras e fruta e pobre em gorduras e açúcares. O excesso de peso é também um factor a ter em conta. Quanto ao tabagismo toda a gente já sabe os malefícios que a nicotina provoca na nossa saúde.

Tal como nos anos anteriores participei este ano na corrida da mulher realizada no dia 25 de Maio, uma interessante iniciativa organizada pelo Maratona Clube de Portual, com o patrocínio de diversas entidades , que tem por objectivo angariar fundos para a luta contra o cancro da mama. O número de mulheres que participa neste evento tem aumentado de ano para ano.
Foi com a maior satisfação que fiz parte das 12.929 mulheres (mais 3.000 que em 2007) que este ano responderam à chamada. Todas nós contribuímos para que fosse entregue à Liga Portuguesa Contra o Cancro um cheque no valor de 105.438,00 euros. Foi uma verdadeira festa das mulheres que manifestaram a sua solidariedade participando com alegria e entusiasmo neste evento. No próximo ano estou a contar com a participação de uma amiga bloguer que certamente já começou a treinar. São só 5 km e o percurso junto ao rio é muito agradável e revigorante.

Aguardando o sinal de partida
Aí vão elas

A maioria optou por caminhar

As "lebres"

As primeiras a cortar a meta .


Os necessários alongamentos para descontrair os músculos

Para mais tarde recordar .
As músicas dos Modern Talking animavam as pistas de dança há uns anos atrás.Esta tem para mim um significado muito especial. É maravilhoso recordar.
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Quando em 1967 a Tate Galery organizou uma exposição sobre Balthus , pediram ao artista elementos para uma biografia destinada ao catálogo. A resposta do pintor chegou categórica "A melhor maneira de começar é dizer que Balthus é um pintor de quem nada se sabe. E agora vamos ver os quadros".

A lição de Guitarra (1934)
A obra mais polémica de Balthus. Foi apresentada em 1934 numa exposição da Galeria Pierre Loeb em Paris,mas numa sala à parte, um pouco afastada do percurso da galeria. Só reapareceu em público em 1977 na Galeria Pierre Matisse em Nova Iorque. O puritanismo anglo-saxão obrigou o jornalista Tom Hesse a desculpar-se por não poder reproduzi-la , devido à intensidade da sua imagem, para ilustrar o artigo que sobre esta obra escreveu na revista New York. Mais tarde ao rever a obra o jornalista declarou que a Lição de Guitarra, sustentada por um excepcional domínio pictórico, era, sem sombra de dúvida, um dos grandes clássicos do século XX mas teremos de esperar outros tempos mais tolerantes para que volte a aparecer. Em 1984, meio século depois de ter sido exposta pela primeira vez, a obra foi proibida de fazer parte da restrospectiva Balthus no Centre Georges Pompidou e no Museum of Modern Art de Nova Iorque. O organizador da exposição explicou no catálogo a ausência da Lição de Guitarra por motivos que não partilhava inteiramente mas que mostravam até que ponto, cinquenta anos depois de ser pintada, a obra ainda incomodava e perturbava. Felizmente a Lição de Guitarra acabou por reaparecer em 2001 na retrospectiva Balthus no Pallazo Grassi de Veneza.

A sala de estar (1942)
Dizia Balthus: "A melhor maneira de não cair numa segunda infância é nunca ter saido da primeira". Quando tinha catorze anos confessou a um amigo que gostava de ficar sempre criança. O artista via as adolescentes como um simbolo "A beleza da adolescência é mais interessante, encarna o futuro, o ser antes de se tornar em beleza perfeita. Uma mulher já encontrou o seu lugar no mundo, uma adolescente não. O corpo de uma mulher está já completo .O mistério desapareceu".

Teresa a sonhar(1938)

Dias Felizes (1945-46)

Nu com gato (1948-50)

A saída do banho (1957)
Quando se realizou a primeira exposição de Balthus em 1934 estava na moda o surrealismo e o abstraccionismo.Os perturbadores temas do jovem artista , de um erotismo provocador, vieram recriar a pintura , segundo alguns críticos. Segundo Marcel Duchamp um quadro que não choca não vale o esforço. Para este pintor o erotismo era uma coisa muito generalizada em todo o mundo , uma coisa que as pessoas compreendem.

Nu deitado (1945)

Nu a dormir(1980)
Jovens adolescentes sonhadoras exiladas em quartos fechados e nas posturas mais íntimas. O escritor Paul Valéry disse que o amor foi para os escritores e poetas o que o nu foi para Balthus

A saia branca (1937)
A modelo é Antoinette de Waterville, a sua primeira mulher, que recusou tirar o soutien por não querer que os seus seios estivessem expostos num museu. Balthus pintou-a com soutien mas fê-lo tão transparente que se tornou mais sugestivo.

Nu a descansar(1957)
Os mais eminentes escritores da época, de André Gide a Albert Camus debruçaram-se sobre a obra de Balthus e foram unânimes em lhe reconhecer um génio próprio.Quanto Balthus em 1948 produzia o guarda roupa e os cenários para a peça L 'État de Siège , de Camus, nunca era visto sem a companhia das suas jovens modelos que eram o tema fundamental da sua obra.É a sua obsessão pelos mundo da adolescência , feito de momentos de perturbação, de hesitação e de delírio que qualquer adolescente conheceu perante um mundo a conquistar.

Rapariga com espelho (1948)
Quando o acusavam de intenções eróticas e perversas e lhe diziam que as meninas que o tinham tornado célebre não eram apenas as companheiras de Alice no País das Maravilhas mas também Lolitas ordinárias, Balthus, zangado dizia: "Nunca pintei senão anjos, pequenos seres puros e sem idade. Aliás toda a minha pintura é religiosa. " Uma das suas modelos ,Michelina, declarou mais tarde quando já era adulta que Balthus era alguém que conseguia representar o momento da passagem importante da infância para a idade adulta.

A Janela (1933)

Rapariga com gato (1937)

O Sonho (1955)

O quarto (1952-54)
O quarto é um dos quadros mais célebres do pintor. Inspirando-se no Pesadelo de Henry Fuseli (1781) Balthus apresentou nesta obra uma das cenas mais eróticas pintadas pelo artista. O quadro representa uma daqueles adolescentes narcisistas de que ele tanto gostava e que totalmente nua, afasta as pernas para expor o sexo à carícia do sol. Um gnomo afasta a cortina para deixar passar os raios solares. Balthus, citando o seu amigo Picasso dizia que, tal como este pintor, toda a vida se inspirou em obras primas do passado para fazer diferente.

A espera(1995-2001). O último quadro de Balthus
Balthus era católico e acreditava profundamente na oração. Rezar era para ele um modo de sairmos de nós próprios. "Eu não sou Deus mas sou provavelmente uma parte dele e quando rezo tento alcançar a luz, elevar-me. Quando pinto é como uma oração". Pouco antes da sua morte quando o actor Richard Gere, adepto do budismo,o visitou no seu chalet em Rossinière na Suiça perguntou-lhe: "Quem é aquele que pinta as suas orações e tenta alcançar a luz? Balthus então com 92 anos de idade respondeu sem hesitar: "Deus, O homem não pode criar pode apenas inventar. O pintor reza àquele que cria mas eles são parecidos. Talvez o criador pinte aquele que reza. Em definitvo todo o problema consiste em saber quem cria o criador. É uma regressão sem fim. O pintor tenta sair de si mesmo e assim aproximar-se do seu criador. Quando pintamos tentamos esquecer o nosso ego e é nesse momento que sinto a luz que é Deus , e o meu espírito e as minhas mãos são apenas máquinas que escutam. Ouvimos o que temos de fazer."

Auto-retrato de Balthus
A portrait of the King of Cats painted by himself conforme ele próprio escreveu. Balthus tinha uma especial admiração pelos gatos. Os primeiros desenhos que publicou, quando tinha apenas doze anos, foram quarenta imagens destes felinos em memória do seu gato Mitsou que tinha morrido. Como disse, com um certo humor, um amigo do artista, os gatos são autodidactas não se inscrevem na escola de bela -artes. Estudam , obervam e aprendem tudo sozinhos. Balthus mostra bem que pertenceu à família dos gatos. Era um autodidacta. Os pais recusaram-se a mandá-lo para uma escola de pintura. Ele vangloriava-se disso e dizia que era gato desde a infância.

Balthus aos 25 anos de idade

Balthus com Frederico Fellini no seu chalet em Rossinière
O conde Baltasar Michel Klossoviski de Rola, conhecido como Balthus, filho de um historiador de arte e de uma pintora, nasceu em Paris a 29 de Fevereiro de 1908. Casou duas vezers e teve três filhos. Além de pintor, criou cenários, ilustrações e guarda roupa para diversas peças teatrais. Em 1961 André Malraux , ministro da cultura no Governo do General de Gaulle, nomeou Balthus para director da Academia de França em Roma. Apresentado por Jacques Chirac, Balthus recebeu em 1991 o Praemium Imperial atribuido pela Japan Art Association e em 1998 é nomeador Doutor Honoris Causa pelo Universidade de Vroclac. Faleceu na sua casa em Rossinière em 18 de Fevereiro de 2001.
Aprecio muito a obra do artista Balthus o homem que gostaria de ficar sempre criança.
Fonte: Balthus de Giles Lerét (adaptado)
Na revista italiana" Focus-Scoprire e capire il mondo" li este pequeno artigo.
Os homens sacrificados nos ritos dos Aztecas eram depois cozinhados para serem devorados pelos sacerdotes e pelas classes nobres. Bernardino de Sahagùn , no seculo XVI , falou de uma iguaria feita com carne humana chamada " tlacatlaolli" dizendo que a carne tinha um sabor adocicado.
Entre os antropófagos modernos figuram alguns guerrilheiros do Congo que teriam comido carne dos pigmeus para se tornarem "mais fortes" .Disseram também que tinha um sabor adocicado.Um dos dezasseis sobreviventes de acidente aéreo em 1972 nos Andes, o cidadão uruguaio Carlos Parez , que para sobreviver comeu carne de companheiros mortos , disse tê-la consumido em pequenos pedaços finissimos, congelada, sem sabor devido à baixa temperatura
O louco japonês Issei Sagawa, comedor de mulheres nos anos setenta, referindo-se ao seio feminino, escreveu na sua biografia."Desfazia-se na boca como atum cru num restaurante de sushi. Não há nada mais delicioso..." Um outro canibal louco , com preferência pelas coxas , foi o americano Albert Fisch , condenado à cadeira eléctrica em 1936. Escreveu: "Parece carne de vitela, mas a das raparigas é mais saborosa que a dos rapazes".

A propósito deste tema veio-me à ideia que ainda existem por aí alguns canibais que apreciam comer mulheres desprevenidas enquanto que outros preferem ferrar o dente num exemplar masculino gordo ou magro, tanto faz. Não me preocupo com isso pois entendo que cada um um come do que gosta.
Eu quando pressinto algum predador por perto preparo-me para jogar à defesa. Tento controlar-me . Mas se não conseguir procuro sair airosamente da situação, de cabeça levantada. Hoje à noite há "Saturday Night Fever " mesmo sem a presença do Travolta. Não vai ser necessário self control para predadores. Trata-se do habitual encontro com os amigos, para pôr a conversa em dia e dar um pezinho de dança.Movimentar o corpo faz bem á saude física e mental.Quanto a drinks , talvez ninguém acredite, mas só bebo água pagando por uma pequena garrafa o consumo minimo como se fosse qualquer outra bebida. Hoje o regresso a casa é muito mais cedo do que é habitual porque amanhã vou participar na mini maratona e portanto não posso cansar as minhas ricas perninhas no bailarico.
Contrariedades,problemas e inquietações também tenho.Mas não perco tempo a entoar lamúrias para ouvir o eco das minhas palavras. Quando se torna necessário desabafo com os verdadeiros amigos que sabem ouvir e que me compreendem.Não é preciso dizer muito. Os olhos também falam. Os altos e baixos da nossa existência fazem parte da maravilhosa aventura que é a própria Vida que permite ao meu coração continuar a pulsar no meu peito .Deixo-me envolver pela liberdade que tenho de poder ser autêntica, sem hipocrisias, disfarces ou mentiras e sinto-me satisfeita por ter uma vida recheada de experiências fantásticas a nível pessoal e profissional,embora tenha ficado com algumas cicatrizes das lutas que travei mas que fortaleceram a minha mente e o meu espírito para enfrentar novos desafios .
É altura de terminar este paleio. Fiquem com a Laura Branigan em " Self Control",a canção que a tornou famosa.Depois para dar as boas vindas antecipadas à Primavera e aos dias de sol que finalmente vão chegar (penso eu de que) nada melhor do que ouvir parte da composição de Stravinsky "A Sagração da Primavera " com coreografia do saudoso Maurice Béjart.
Bom fim de semana
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Sempre que deixo o país onde nasci, em busca de novos horizontes, levo no coração as minhas raízes mas descolonizo a mente e assumo a minha verdadeira natureza de cidadã do mundo.
Quando cheguei a Kuala Lumpur a luz cintilante do amanhecer oriental arrancou-me do torpor da longa viagem. Fiquei dois dias na capital da Malásia e depois segui viagem para Malaca. Estava desejosa de ir ao encontro da história e descobrir os vestígios da passagem dos portugueses por esta cidade, que conquistaram, e que foi terra lusa durante 130 anos. O percurso de cerca de 150 Km foi feito em autocarro,um meio de transporte bem mais rápido e cómodo do que as naus de Afonso de Albuquerque que chegaram a Malaca em 1511.
Conheci a Rosa Maria nesse dia. Uma rapariga malaia, de beleza exótica, que sorriu quando se levantou para eu poder ocupar o meu lugar no autocarro , ao seu lado. Já não me recordo o que me levou a dirigir a palavra à minha companheira de viagem. Apenas sei que foi o início de uma animada e interessante conversa que se prolongou até chegarmos ao nosso destino. As primeiras palavras que trocámos foram proferidas em inglês mas quando soube qual era a minha nacionalidade sugeriu que falássemos em português. Fique supreendida, mas ao mesmo tempo satisfeita ,por encontrar alguém com quem podia tagarelar na língua de Camões, a milhares de quilómetros de distância do meu país.
A Rosa revelou-se muito loquaz e exuberante na sua forma de comunicar, o que não é normal nas mulheres asiáticas.
Contou-me que era professora de sociologia numa escola em Malaca. O pai, luso-descendente, tinha estudado em Macau onde conhecera a mãe filha de portugueses.Foi esta que lhe despertou o interesse pela cultura lusófona e lhe ensinou as primeiras letras em português. Leu Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, além de outros escritores lusos.Muito entusiasmada disse-me que estava a escrever um livro sobre a expansão marítima portuguesa .Não escondeu a sua admiração pelos heróicos homens do mar que, no período áureo dos descobrimentos, prestigiaram Portugal e confessou-me que um dos seus sonhos era conhecer a pátria dos seus antepassados.
Eu ouvia com muito interesse o que me dizia aquela rapariga malaia que me recordava o cantinho onde nasci. Depois falámos de tudo um pouco.O tempo passou velozmente e quando chegámos a Malaca tinha nascido entre nós uma certa empatia.Mas, ao contrário do que eu supunha, o meu relacionamento com a Rosa Maria não terminou no final daquela viagem. Antes de nos despedirmos disse-me, um pouco timidamente, que gostaria de me acompanhar na visita à cidade a efectuar no dia seguinte. Claro que aceitei de bom grado a sua companhia.

Malaca é a cidade da Malásia com maior diversidade histórica e cultural. A maioria dos seus habitantes são malaios, chineses e indianos. Existem também minorias étnicas como os Babas Nyonnyas conhecidos como os Peranakans , descendentes dos primitivos chineses que no século XVI chegaram a Malaca e que assimilaram a cultura e os costumes malaios, a comunidade luso- descendente e os Chittys , descendentes dos antigos mercadores do sul da India. Apesar das suas diferenças étnicas, culturais e religiosas, vivem uma coexistência pacífica num clima de tolerância e de respeito mútuo.

A Dutch Square. O edifício à direita é o Stadhuys , a residência dos governadores holandeses na época da colonização. No seu interior está instalado o museu de história.A Igreja de Cristo, ao fundo, foi construída pelos holandeses e é a mais antiga igreja protestante de toda a Malásia.A Torre do Relógio foi mandada construir por um homem de negócios chinês.

A Igreja de São Francisco. Foi reconstruida em 1859 no mesmo local onde em 1553 os portugueses tinham erguido a primitiva igreja que veio a ser destruida pelos holandeses.


Igreja de São Paulo. Originalmente era a Igreja de Nossa Senhora do Monte, mandada construir pelo capitão português Duarte Coelho em 1512.Foi aqui que estiveram sepultados os restos mortais de São Francisco Xavier antes de serem trasladados para Goa.Posteriormente os holandeses ergueram uma torre em frente da igreja que passou a chamar-se Igreja de São Paulo. No interior das ruínas podem ver-se lápides dos túmulos de soldados portugueses e holandeses com inscrições em latim e em português. A igreja foi utilizada como armazém de pólvora pelos ingleses quando estes ocuparam a cidade.Em frente à torre está a imagem de São Francisco Xavier.

Porta de Santiago. Após ter conquistado Malaca , Afonso de Albuquerque mandou construir uma fortaleza que, pela sua beleza arquitectónica , ficou conhecida como "A Famosa" . Em 1641 os holandeses , após prolongado cerco, conquistaram o forte que tanto ambicionavam e que veio a ser destruido pelos britânicos em 1805 quando expulsaram os holandeses da cidade. A única estrutura que se mantém de pé é a Porta de Santiago, a entrada principal da antiga fortaleza . O governo malaio vai investir 12,8 milhões de ringgts (cerca de 2,8 milhões de euros) na reconstrução da fortaleza para que esta recupere o seu antigo esplendor.À frente deste projecto está o português Rui Loureiro, especialista na história da presença portuguesa na Ásia.

Neste pequeno "monumento " vê-se um brasão em pedra com as armas nacionais e uma pequena lápide alusiva a D. Afonso Henriques e à dinastia de Borgonha. Foram encontradas nas ruínas da fortaleza.

Um réplica da nau portuguesa Flora de la Mar do século XVI que se afundou no norte de Maláca.No seu interior está instalado o museu marítimo.

Igreja de São Pedro. A mais velha igreja católica da Malásia cujo estilo arquitéctonico é semelhante à arquitectura portuguesa de Goa. Foi mandada construir em 1710 pelos luso-descendentes.O sino, feito em Goa, foi retirado de um das igrejas que os holandeses mandaram queimar na sua sanha persecutória contra o catolicismo.Foi durante alguns anos a sede da missão portuguesa em Malaca.




As casas na China Town. A Jalan Hang Jebat , mais conhecida como Jonker Stret ,é uma das ruas mais populares do bairro chinês. Em vez das aromáticas especiarias, do ouro e do chá, encontramos lojas de antiguidades que vendem porcelanas chinesas, armas antigas, mobiliário colonial e diversos artefactos.Existem lojas de souvenirs, restaurantes , cafés e locais de diversão. O movimento noturno é intenso e muito animado.


Os típicos trishaws e o bullock cart para os turistas passearem. O bullock cart era o antigo transporte rural utilizado pelas classes mais abastadas de Malaca.

Cheg Hoon Teg's Temple. Construido em 1646 é o templo chinês mais antigo da Malásia. As religiões tauista, budista e confucionista estão aqui reunidas debaixo do mesmo tecto.

Pormenor do telhado do templo.

Kampung Kling's Mosque. Construida durante a ocupação holandesa é a mais velha mesquita da Malásia.

Sri Poyyatha Vinayagar Temple, um dos mais antigos templos hindus.

Masjid Selat Melaka. Pela sua localização é conhecida como a Mesquita do Estreito de Malaca.

Réplica do sultanato do século XV. No interior está instalado um museu.


Casas tipicamente malaias.


A arquitectura colonial das casas da velha Malaca.
A visita terminou no Bairro português (Kampung Portugis em malaio) . O bairro foi construido em 1935 pelos padres Pierre François (francês) e Álvaro Coroado (português) com o objectivo de preservar a cultura, os costumes a língua e a religião dos descendentes dos portugueses.Após a conquista de Malaca, Afonso de Albuquerque e os seus sucessores , encorajaram os soldados e marinheiros portugueses a casarem com mulheres nativas, uma política de miscegenação que na época provocou uma verdadeira revolução no campo social.À entrada do bairro, onde vivem cerca de 1.500 luso-descendentes, o governo malaio, procurando recriar os antigos pátios lisboetas, mandou construir em 1985 uma praça conhecida como a "Medan Portugis" . No local existem alguns restaurantes que anunciam comida portuguesa.Os habitantes do bairro falam o Papiá Kristang , um crioulo que é uma mistura do português arcaico com a gramática malaia. As ruas têm nomes portugueses como Albuquerque, Sequeira e Teixeira.

Esta comunidade procura manter viva a sua especificidade baseada na sua fé católica, na sua linguagem materna e nos costumes e tradições herdados dos seus antepassados. O Natal é festejado conforme manda a tradição cristã. Em Fevereiro a população do bairro diverte-se com as brincadeiras de Carnaval "O Intrudo" . Em Junho, nos dias de São João e de São Pedro, os arraias animam o bairro e as ruas são engalanadas com ornamentos e feéricas iluminações. Não faltam os comes e bebes e a música típica que também se ouve neste género de festejos em Portugal.
A Rosa Maria quiz apresentar-me aos seus pais. Residiam numa pequena vivenda rodeada de um bonito jardim .O interior da habitação era simples mas confortável. Não deixei de reparar numa imagem da Senhora de Fátima e num pequeno painel de azulejos representando a Universidade de Coimbra , a Torre de Belém e um bairro antigo de Lisboa. Conversámos durante algum tempo e fiquei a saber mais pormenores sobre esta comunidade de luso-descendentes que lamentam que os sucessivos governos de Portugal nunca tenham feito algo para os ajudar a preservar as suas raízes culturais tão ligadas a um país que não conhecem mas que respeitam e acarinham. A conversa decorreu numa atmosfera de simpatia e de cordialidade. Eu sentia-me perfeitamente à vontade como se conhecesse os meus anfitriões já já bastante tempo.

Depois assisti na Medan Portugis à exibição de um grupo folclórico de que a Rosa fazia parte.Fiquei comovida ao ver aqueles rapazes e raparigas a dançar com muito entusiasmo um vira minhoto. Logo a seguir a Rosa veio convidar-me para participar no bailarico tipicamente português. De início recusei-me mas, perante a sua insistência,acabei por subir ao palco e por lá andei a rodopiar muito desajeitadamente tentando acertar o meu passo com o do meu par.
Regressei ao hotel com o coração inundado de ternura por aquela gente que se orgulha dos seus antepassados portugueses.As emoções vividas ao longo do dia agitaram-me o espírito e o sono tardava em chegar.Decidi dar um passeio para que, no silêncio apaziguador da noite cálida, pudesse embalar a mente para o necessário repouso. O histórico estreito de Malaca, tantas vezes navegado ,estava calmo.O mar, a serenidade do local e o suave marulhar das ondas despertou-me a nostalgia do meu país distante e pareceu-me ouvir o som longínquo de uma guitarra dedilhada por alguém na Ocidental praia Lusitana de que fala Camões nos Lusíadas.Nesse momento senti na alma o sabor amargo da palavra saudade.Recordei os valentes homens do mar que a Rosa tanto admira cujos feitos nunca serão esquecidos se soubermos preservar e enriquecer a nossa memória colectiva.
No dia seguinte parti para Singapura.A Rosa Maria veio despedir-se de mim e prometeu que ,um dia, nos encontrariamos em Lisboa. Em Novembro do ano passado realizou o seu sonho. Veio a Portugal acompanhada pelo marido .Recebi-a de braços abertos e tive a oportunidade de retribuir a sua hospitalidade.Passámos dias magníficos em passeios e visitas.
Depois foi com alguma tristeza que me despedi daquela rapariga , de sorriso fácil, que nasceu num país distante, no outro lado do mundo, mas que sente no coração o pulsar da alma lusitana.
Dedico este poema de Fernando Pessoa à minha amiga Rosa Maria.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra fosse uma.
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo,até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal,
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Boogie
Não podia perder a oportunidade de ver a colecção das obras de Van Gogh que o artista produziu nos dois últimos meses da sua vida em Auvers. Esta exposição esteve patente no museu Tyssen-Bornemisza desde Junho até ao dia dezasseis do corrente mês. Meti-me no avião e cerca de cinquenta minutos depois estava em Madrid.O futuro TGV não conseguirá fazer melhor.
O museu Tyssen está instalado no Palácio Villahermosa um bonito edíficio que é um exemplo típico da arquitectura neoclássica madrilena.
Auto-retrato de Van Gogh
A doença mental incurável de que Van Gogh sofria começou a manifestar-se mais intensamente em Arles para onde o artista foi viver depois de alguns anos de aprendizagem em Paris e noutras cidades. Começou a trabalhar intensamente descrevendo-se a ele próprio como "um motor que pinta".Foi nesta pequena cidade do sul da França que Van Gogh se auto-mutilou cortando o lóbulo da orelha. Depois de estancar a hemorragia com um pano Van Gogh envolveu o pedaço da orelha num jornal e dirigiu-se ao bordel mais próximo que ele e Gaugin frequentavam. Perguntou por uma rapariga chamada Raquel e entregou-lhe o pedaço da orelha dizendo :"guarda este objecto como um tesouro".Depois desapareceu. Este episódio foi noticiado no Jornal de Arles.Mais tarde Van Gogh aceitou submeter-se a um tratamento no manicómio de Saint-Rémy onde foi internado em 8 de Maio de 1889.

Camponeses dormindo a sesta (Saint-Rémy)
No manicómio de Sain-Rémy a sua actividade artística estava muito limitada. Sempre que queria pintar tinha de obter a prévia autorização do director da instituição .Por isso pediu ao seu irmão Theo ,de quem era muito amigo ,para lhe procurar um lugar tranquilo no campo , não muito longe de Paris, onde pudesse levar uma vida independente. Theo sabia que ,devido à doença de Van Gogh, este teria de estar submetido à vigilância de alguém de confiança. Foi Camilo Pissaro quem lhe sugeriu o nome de Paul Gachet, que vivia em Auvers ,médico e também ele artista , amigo de alguns pintores impressionistas entre os quais o próprio Pissaro e Cézanne.

Retrato do Dr.Paul Gachet
Em 20/5/1890 Van Gogh saiu do manicómio de Saint-Rémy e dirigiu-se a Auvers-sur-Oise, uma povoação situada a 35 Km de Paris, na esperança de melhorar a sua saúde e adquirir a calma necessária que lhe permitisse começar uma nova vida e um novo ciclo na sua actividade artística
.

Casas e Igreja de Auvers
A estada de Van Gogh em Auvers foi curta mas extraordinariamente fecunda. Foi a sua última explosão de energia criativa. Em apenas 70 dias produziu mais de setenta quadros e trinta esboços. A maturidade do seu estilo tornou-se mais livre e a sua lucidez artística atingiu o seu ponto mais alto. As suas últimas telas são luminosas, de linhas fluidas e expressivas que causam uma impressão viva e comovente. Este ritmo frenético leva a concluir que Van Gogh travava um combate furioso contra o tempo como se pressentisse que tinha os dias contados. Dedicou-se especialmente a pintar as casas de Auvers, os campos de trigo e toda a paisagem envolvente.

Estrada com ciprestres

Planice
Durante a sua estada em Auvers ,Van Gogh escrevia frequentemente ao irmão Theo a quem contava as suas angústias e emoções. Numa desssa cartas Van Gogh disse" estou concentrado na imensa planice , com campos de trigo contra as colinas , ilimitada como o mar. São imensas extensões de trigais debaixo de céus turbulentos e não fiz esforço algum para expressar na tela a minha tristeza e extrema solidão".

Nas margens do Oise

Quintas em Cordoville

Les "Vessenots"
Em 27 de Julho de 1890 Van Gogh dirigiu-se ao campo, a um local perto do castelo de Léry, e disparou un tiro de revólver no peito. Regressou à pensão onde estava instalado e subiu ao quarto sem avisar ninguém. Mais tarde o proprietário encontrou-o ferido e chamou o Dr. Gachet que decidiu não lhe extrair a bala.Van Gogh queria morrer.
Depois de uma longa agonia expirou na madrugada do dia seguinte. Tinha apenas 37 anos de idade.As suas últimas palavras ditas na sua língua materna foram: "Eu agora gostaria de poder regressar a casa".
O seu irmão Theo , que esteve sempre ao lado do pintor nos momentos mais difíceis da sua vida não resistiu ao desgosto provocado pela morte do irmão e faleceu cerca de seis meses depois. Estão ambos sepultados lado a lado em Auvers. As suas campas estão sempre cobertas de flores amarelas de que Van Gogh tanto gostava. O amarelo era a sua cor favorita símbolo da luz que ele sonhava ver no coração dos homens e nas obras de arte.

Boogie
Adoramos fazer bodyboard.
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Depois tive que regressar .Time to Say Goodbye
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Boogie
Depois de ter estado "desterrada" durante duas semanas em Bruxelas ,onde me desloquei para tratar de assuntos relacionados com a minha actividade profissional, decidi ir até Londres para matar saudades, distrair o espírito e confortar a alma.
Londres é uma fascinante metrópole mas acima de tudo é uma importante cidade cultural. Para quem a visita pela primeira vez revela-se surpreendente. Para quem volta a visitá-la é uma cidade a redescobrir porque se renova frequentemente.Como apenas dispunha de seis dias estabeleci um programa de visitas que incluia tudo o que pretendia ver.
Comecei por visitar o Courtauld Institute of Art Gallery instalado na Somerset House , um imponente e bonito edifício do século XVIII que tem um enorme espaço ao ar livre onde se realizam grandes concertos no verão.
Esta galeria possui muitas obras de coleccionadores particulares (Samuel Courtauld e outros) , que nos séculos XIX e XX adquiriram este espaço para expor toda a sua colecção, que inclue pinturas de artistas do renascimento e de outros movimentos artistícos que surgiram posteriormente até ao século XX.
A exposição temporária denominada Temptation in Eden é dedicada a Lucas Cranach's um dos grandes artistas do movimento renascentista germânico.

Esta tela que representa Adão e Eva foi pintada em 1562 quando Cranac's estava no auge da sua fama. Revelando o momento de Eva a tentar Adão , Cranac's ao retratar o Paraíso combina a sedução da mulher nua com a beleza dos animais em plena natureza.
Na Royal Academy of Arts a exposição temporária é dedicada às obras de grandes pintores do movimento impressionista como Monet, Renoir, Manet e Boudin. Os temas das obras expostas são o mar, as rochas e as montanhas das praias do norte de França ,designadamente da Normandia. Estes artistas conseguem transmitir para a tela os efeitos luminosos do sol, do mar e da paisagem.Algumas pinturas retratam o quotidiano dos veraneantes da época .

Crianças à beira mar de Renoir
Na praia. Manet e Susanne
Na Tate Britain existem muitas salas com obras de conhecidos pintores britânicos de diferentes épocas. Mas as salas que prenderam mais a minha atenção foram aquelas onde estão expostas as obras de alguns mestres do surrealismo como Francis Bacon, René Magritte, Max Ernst , Giorgio Chirico , Juan Miró e outros.
L'usage de la parole de René Magritte 
Num dos corredores da Tate deparei com uma original manifestação de protesto contra a guerra no Iraque e uma chamada de atenção para a violência e para os maus tratos de que as crianças são vítimas.As imagens expostas são tremendamente chocantes.

Na Tate Modern a exibição temporária de obras de Dali foi a cereja em cima do bolo.Embora conhecido como um grande pintor Dali deixou-se absorver pela magia do cinema e colaborou em numerosos projectos cinematográficos com os seus desenhos e pinturas. A sua amizade com Luis Buñuel levou-o a colaborar nos extraordinários filme Le Chien Andalou e L'Age d' Or.





A exposição temporária "Sacred" na British Library revelou-me o mundo dos textos sagrados e uma grande surpresa. Logo á entrada da exposição encontram-se em destaque ,dentro de uma redoma, um exemplar da Lisbon Bible (antigo testamento), do New Testament e do Royal Qur'an.
A Lisbon Bible completada em 1482 é um dos mais belos manuscritos hebraicos com iluminuras, existente na Peninsula Ibérica na idade média, e testemunha a riqueza da vida cultural dos judeus portugueses . A Lisbon Scool medieval era um dos maiores centros de manuscritos hebreus que esteve activa até à expulsão dos judeus.As margens das páginas deste manuscrito estão ricamente ilustradas com diferentes desenhos e grande variedade de cores.

A primeira imagem é a da Lisboa Bible a segunda da Novo Testamente e a terceira é do Corão.Gostava de ter tirado uma foto mas não era permitido.
Estavam também expostos outros exemplares de textos sagrados bastante antigos, alguns do século VIII escritos em latim, árabe , hebraico e outros idiomas. Numa das vitrinas deparei com o "The Faro Pentateuch" uma edição hebraica do antigo testamento que foi manuscrita em Faro por Samuel Jacon em 30/6/1487.Noutro departamento desta instituição tive portunidade de ver textos , cartas e desenhos muito antigos de grandes escritores , poetas e cientistas.
Não tinha incluido no meu programa de visitas a Nacional Gallery,os museus Britânico e Victoria e Alberto porque já os tinha visitado em anteriores estadias em Londres.

O ritmo da vida em Londres é alucinante . Com uma área geográfica enorme e com os seus 7,5 milhões de habitantes é um mundo intenso que, por vezes, baralha os turistas. Estes vão a Londres atraídos pela história, arte e cultura da grande metrópole e também pelos seu dinamismo. Para os cidadãos oriundos do continente o estilo de vida dos britânicos é também um motivo de atracção.
Os transporte públicos em Londres são excelentes embora o seu custo seja bastante elevado para o nosso poder de compra. O bilhete de metro ou de autocarro mais barato , válido apenas para duas zonas e para um dia, custa 3 pounds ou seja cerca de 4.50 euros.Optei por comprar um travel card válido para sete dias e para todas as zonas que me permitiu utilizar o metro e o autocarro nas minhas deslocações por toda a cidade.
Estando em Londres não podia perder a oportunidade de ir ao teatro.Fui ver os musicais "O Senhor do Anéis " e "Mamma Mia",. O primeiro foi estreado há poucas semanas e é muito original mas gostei mais do Mamma Mia. A música dos Abba e a excelente coreografia constituem a principal atracção deste espectáculo.Aproveitei estas duas sessões para descansar as pernas que à noite já se recusavam a andar depois de terem sido castigadas todo o dia em longas caminhadas
Ainda tive tempo e energia par visitar os mercados de rua de Camden,Portobello Road e Covent Garden. Não usufrui os maravilhosos espaços verdes de Londres .Passei apressadamente pelos famosos parques e jardins resistindo á tentação de me deitar na relva para o merecido repouso que o meu corpo reclamava.
A temperatura estava amena e por isso os clientes dos pubs permaneciam na rua com o copo de cerveja na mão mantendo uma animada e barulhenta cavaqueira.Acho que ,de um modo geral, os ingleses são simpáticos e têm sentido de humor mas os homens não possuem o encanto dos latinos.À noite a zona de Picadilly, Leicester Square e China Town , com os seus pubs, restaurantes, teatros e outros locais de diversão noturna é invadida por um magote de gente de todas as idades que passeia e se diverte descontraidamente respeitando as opções e a liberdade de cada um.

Foi com alguma nostalgia dos maravilhosos dias que passei em Londres que embarquei no avião para regressar a Lisboa.
Boogie