Não há vez como a primeira. Dizem, que eu nestas coisas nem confirmo nem desminto, só falo na presença do meu advogado. Ok, ele já está aqui, então digo que não há vez como a primeira, a segunda, a terceira, e por aí fora. O que interessa são vezes. o Mais uma vez tenho que ser sexista. Não por opção minha, mas porque cine oblige. Se olharmos com atenção podemos ver que mais uma vez são os homens que dão o corpo ao manifesto. Já repararam quanta vezes mostraram realmente uma cena de sexo que retratasse a 1ª vez de uma senhora/rapariga? Muito poucas. São mais raras do que… podia pôr aquela eterna piada do que politico honesto, mas confesso que está tão batida que até aborrece, não que eles tenham ficado mais honestos… digamos que são mais raras do que roupa vestível na Moda Lisboa. E mesmo quando há cena com uma donzela a deixar de o ser, é sempre tão subtil que o máximo que vemos é apenas uma carinha inocente soltar um grito e depois a imagem/plano lá vai para o riacho e vemos a florzinha a deslizar pelo rio abaixo. Lembro-me apenas do Amante, do Jean-Jacques Annaud's, baseado no livro da Marguerite Duras, em que a pequena não deixou nenhum ponto de vista sem ser visto até ao fim. o Agora, quando se trata dos muchachos, não faltam filmes para falar do assunto. O problema é que quando se trata da 1ª vez ficamos logo atolados numa enchente de filmes idiotas de adolescentes obcecados com o sexo (bom, parece que não são só eles, não é? Este quarentão não fala de outra coisa, os visitantes não param de cá vir ler e até a Comissão Europeia é com o doce falar dos corpos que faz promoção do cinema, lembram-se do Let’s come togheter). Raramente estes filmes conseguem ir mais além do que a alarvidade buçal da matéria. Eu sei que um adolescente pensa 7 vezes em sexo em cada 5 segundos que passam, mas daí a não sairmos do eterno espumar cada vez que se aproxima um pedaço de tornozelo feminino no raio de 5 km’s. Qualquer dia, com tanta excitação, metem os pés pelas mãos, para não dizer outras coisas, e ainda acabam no tal talho, tipo Hostel, será que estes miúdos não vão ao cinema? Para quem anda distraído apenas posso dizer que o American Pie merecia ser votado ao lado do Taj Mahal, quando comparado com as outras obras que andam por aí sobre a mesma temática. Será que tenho que vos relembrar de Porky’s again? o Mas nem sempre foi assim, o senhor cientologia, Tom Cruise, lui-même, protagonizou uma boa cena num filme minimamente inteligente sobre o assunto, especialmente porque a Rebecca De Mornay sabia muito bem o seu papel, oh se sabia! Chamava-se Negócio Arriscado, vem lá do ano 1983 (que quota que sou em ir buscar estes filmes). Já que falei do Tom, lembro-me de um outro filme dele, o All the Right Moves, de novo o ano 1983 (parece que o rapaz tirou esse ano para a brincadeira dos lençóis) em que também executava uma boa cena da 1ª vez, desta vez com dose dupla, a menina também estava a começar no despertar das florezinhas rio abaixo. O realizador é que foi um pouco distraído e não fez bem o trabalho de casa, deixando algumas coisas à mostra, especialmente algumas partes menos próprias do Tom, que apareceram a cumprimentar num plano muito rápido, de tal forma que uma amiga minha comprou na altura um leitor de vídeo de propósito para poder fazer pause e avanço em slowmotion para verificar bem a matéria em causa, nas velhinhas cassetes vídeo. o Não se podia falar da 1ª vez sem referir a famosa Mrs. Robinson no The Graduate – A 1ª Noite, do Mike Nichols, de 1967. Com aquele ar embasbacado, Dustin Hoffman lá foi cativando a srª Robinson, de tal forma que a mulher começou a fumar mais que o Marlboro man e vestir e despir collants por dar cá aquela palha – Are you Secducting me Mrs Robinson?. Claro que depois a cenita é meia chocha e quase que dá para dormir, acho que a Anne Bancroft também deve ter sentido a mesma coisa, tem uma cara de aborrecida. Mesmo assim fez furor na altura. Se compararmos com o que veio a seguir em Kids ou Ken Park, bem que hoje em dia o Dustin e a Anne podiam ir repetir a cena numa roda infantil que ninguém reparava. o Mas cenas aborrecidas da 1ª vez não é uma questão temporal, pois ainda há bem pouco tempo o filme Virgem aos 40 mostrou um bem digna de nos fazer querer pensar nos discursos de Jorge Sampaio para nos excitarmos um pouco. Foi eleita como uma das 10 piores cenas de sexo de sempre. Um dia destes digo as outras (ok, não vale a pena irem já tomar valium 10 para não arrancarem os cabelos por tanto post sobre sexo, ainda por cima às fatias, tipo bolo para 40 convidados, pensem que há overdoses piores como as de novelas de criancinhas a fazerem-se de idiotas sob as ordens de idiotas a fazerem criancices). o Para falar sobre uma 1ª vez especial tenho que dar um salto a Itália e ir buscar o meu eterno Amacord, do Maestro Fellini. A cena da tabaqueira fica para a história, com o pobre rapaz a entrar para comprar um macito e a taberneira (ou tabaqueira) uma autêntica Mama Roma a fazê-lo aterrar no seu envolvente e eloquente (e ponham muita eloquência nisto) busto, que quase o sufoca... não sei se propriamente de prazer. Não chegou a ser uma 1ªvez completa, que a senhora não teve para muitas contemplações e o máximo que o rapaz sentiu foi um apêndice a ser esmagado, o seu nariz. Uma coisa é certa, depois de sair o rapaz ou ficou traumatizado, e sempre que vê umas mamocas tira o crucifico, uma estaca e um molho de alhos, ou então ficou de tal forma viciado nas dimensões lunares que quando vê a Pammela Anderson manda-a fazer uma operação e pôr mais uns kilitos de silicone, para ficar mais à sua medida. o Não saímos de Itália e podemos ver Malena, do Giuseppe Tornatore's, esse mesmo o do Cinema Paraíso, em que um jovem de 13 anos vai fantasiando ardentes cenas com uma viúva de guerra, vizinha, baseadas nos filmes favoritos dele. Só mesmo um italiano para por um rapazito nessas figuras. O filme nos EUA foi amputado para 92 minutos dos seus 106, ou sejam comeram os 14 minutos em que o miúdo realmente petiscava alguma coisa, ou pelos imaginava que manjava. Uma coisa constante neste tipo de cenas dos rapazes é que maioritariamente são feitas quase sempre com mulheres mais velhas. Porque será? Andarás Édipo por aqui a navegar, como quem não quer a coisa, meu malandreco? o Com um pé em Itália e outro em França, os Sonhadores do Bernardo Bertullici, também no traz uma perspectiva engraçada. O Bernardinho voltou em grande forma pois se por um lado fez um filme à moda antiga, daqueles em que as personagens vivem angustiados entre a discrepância existencialista e displicência sexualista (Quem existe no meu interior profundo? Onde está o nosso eu social? Bom, vamos despirmo-nos e metermo-nos na banheira, fazer umas brincadeira e talvez encontremos a resposta), por outro lado trouxe toda uma narrativa actual, dinâmica, não ficando mergulhado em técnicas passadas. Ele agarrou em 3 pombinhos burgueses e cruzou-os entre as utopias de um Maio de 68 e as fantasias íntimas e obscuras de cada um. Digamos que enquanto nas ruas havia toda uma rebeldia, os 2 rapazes e 1 rapariga faziam a rebaldaria em casa. No meio de toda essa desbunda, a menina, que nós pensávamos que aviava orgias como quem colecciona cromos de jogadores de futebol, acaba por ter um momento com o amigo americano em que ficamos a saber que só naquela altura poderia fazer par com a Simone e cantar a Desfolhada. Temos assim o 1º Twist sexual da história do cinema. Minto, na Amante do Tenente Francês (quem é suficientemente cota para se lembrar deste filme extraordinário), o Jeremy Irons também ficava de cara à banda, depois de ter sucumbindo à perdição de uma Merly Streep (magnifica no papel) que supostamente era a “galdéria” lá da terra por se ter metido com um oficial e pouco cavalheiro das terras da haut cousine, e verificar que afinal não havia outro e tinha sido ele a vaporizar o primeiro perfume de homem. o Voltando aos Sonhadores, e relativamente aos rapazes, não há nenhuma referência à sua virgindade, mas se virmos o seu comportamento, quer no campo das batalhas sociais, quer no campo dos seus próprios fantasmas, podemos dizer que experimentaram pela 1ª vez um conjunto de novas sensações, ainda que não se esteja a falar propriamente das que habitam normalmente da cintura para baixo. A sério, Sonhadores, é um grande filme, em que a utopia de um tempo é desconstruida pela vivência dos fantasmas de uma geração burguesa, que atira tijolos nas ruas mas edifica muros em casa, quando supostamente os quer deitar abaixo. Afinal as revoluções fazem-se primeiro nas cabeças. |
Se quando falei das cenas do cinema erótico e as tipifiquei como “Quando for grande quero ser Porno”, a deste género, sexo real, quase que podia ser “Sou grande, sou porno mas sou intelectual”. A rapaziada querendo surpreender e ser cada vez mais ousada - não é todos os dias que uma cena com margarina consegue uma hecatombe, (Alô, Alô, Último Tango, aquele abraço! ) - teve que lançar mãos, e outras partes, a novos métodos, começando a mostrar o que só o hardcore fazia, claro que sempre com uma áurea de dúvida metódica para depois ser discutida em tertúlias e suplementos culturais. Compreende-se, hoje em dia qualquer puto em 10 minutos de web vê mais coisas que o seu pai em 35 minutos de Internet no trabalho. Assim, há que apimentar bem as coisas, mostrar tudo para que não fique a dúvida, de forma a que pelo menos o pai vá ao cinema com a senhora sua esposa ver o filme e, além de poder discutir os contornos depressivos agrários do protagonista, passar, assim a precisar, na semana seguinte, de gastar somente 30 horas a navegar, até porque há uns despachos para dar, que o papéis amontoam-se na secretária. Claro que antes do pai ir ver, já o puto fez o download do filme, criou uma montagem com a cara dos professores e pôs a circular net (engraçado acho que vi o filme mas não me lembro dessas caras, comentará mais tarde o pai quando vir o filme no youtube). . Tecnicamente cenas de sexo explícito são aquelas em que mostram cenas com sexo real. Sexo real!!! Tretas! Para mim, e analisando todas as cenas que foram consideradas de sexo explicito (com excepção do filmes porno, que são doutro campeonato) o que se pode concluir é que elas são assim tipificadas quando o Sr. Pirilau entra em cena vestido a rigor, ou seja, quando ele assume a sua verdadeira dimensão de um The Hulk - para quem não viu o filme, o Eric Bana, perante uma excitação forte fica com as hormonas aos saltos, muda de cor, verde (vamos considerar o verde apenas como uma eco maneira de ver o vermelho), começa a crescer, a crescer, não cabendo assim na roupa, e a ficar muito mauzinho, mesmo muito mauzinho de tanta força (espero que esta metáfora cinematográfica tenha saído mais levezinha do que uma descrição brejeira de um certo priapismo) - assim, tenho mais uma teoria macaca a juntar às outras: - para a classificação de sexo explícito no cinema é necessário um medidor chamado Pilómetro. Assim teríamos as Cenas de Sexo Explícito (CSE) divididas na seguinte escala: - 0 - Nada (tudo escondidinho para não ferir audiências);
- 1/20 – Baixa (aparece alguma coisa mas é mais do “Querida encolhi os miúdos” do que propriamente do Hulk);
- 21/50 - Mediana (o Hulk já dar um ar da sua graça mas sempre disfarçado pela iluminação ténue);
- 51/90 – Elevada ( o Hulk em toda a sua fúria e dimensão);
- 90/100 – Explosiva (o Hulk a terminar com a sua explosão de raiva final)
. Querem ver como tenho razão? Vejamos a seguinte cena: . Estão 2 actrizes envolvidas numa cena tórrida, tipo Mulholland Drive, do David Lynch, mas com muito mais acção e menos deambulações cognitivas. Então, se as senhoras no meio de tanto rigor técnico se envolvessem mesmo e passassem para o domínio do real, o que é que iriam dizer quando vissem a cena? Que grandes actrizes, que capacidade técnica! Agora imaginem que chega o actor e entra também na brincadeira (ok, vamos lá pôr uma das actrizes fora para isto não virar um deboche total). Se no meio da brincadeira, o senhor deixar que o seu Mr. Hulk comece a emergir, e se o realizador não for pudico e o deixar também dar um ar da sua graça num plano, o que é que se diz? Que o filme tem uma cena de sexo explicito. Aquilo até eu fazia, que não represento nada, embora, com o nada que sei, se entrasse no Morangos com Açúcar ficaria logo ao nível de um Laurence Olivier. Estão a ver, na cena anterior era excelência técnica, nesta é apenas sexo explícito. . Qual grande actor, qual grande desempenho. Grande o quê? O homem só fez a obrigação dele. Pois é, não imaginam as horas de treino, os anos de conservatório, o estado de concentração, que são preciso para que um verdadeiro actor compartilhe a cena com o seu Hulk mais intimo, no meio de um amontoado de gente de olhos esbugalhados a segurar projectores, cabos e microfones, e ainda por cima com um gajo a gritar Corta! Qualquer um em lugar de pôr cá para fora o Hulk ficava logo como um anjinho barroco a sair duma praia na Antártida. Qual método, qual Shakespeare, qual Beckett! Fazer uma cena com o seu hulkzinho de estimação devia no mínimo ter nomeação para Óscar em 5 anos consecutivos - se o gajo fala disto assim é porque sabe, cá para mim é um actor de filmes porno disfarçado de bloguer. Pois, então tirem o cavalinho da chuva que a minha maior aproximação do sexo com uma câmara foi quando me tiraram uma foto nuzinho no meio de um cobertor, tinha 5 meses acho eu. . Os calhamaços mandam que Calígula, de 1979, seja um dos primeiros filmes com esta classificação de CSE, há outros anteriores mas são filmes mais marginais. Do que eu me lembro, mais tarde quando o vi (sim, porque eu não andei a enganar porteiros de cinema com a idade) e segundo o Pilómetro não havia por lá nada que se pudesse dizer que o pessoal estava animado. E por falar em animação, foi coisa que faltou a Robert de Niro e a Gerard Depardieu na célebre cena com a prostituta no filme 1900, do Bernardo Bertoluci. A rapariga bem que tem tentou esticar a “animação” dos rapazes, mas nada os Hulkalizou. Bom, se o tivessem conseguido, teríamos então a primeira e a única cena de sexo explícito de 2 grandes stars, pois o Nardinho não cortou o plano e pôs tudo a nu, pelo menos cá na Europa, que nos States foi à tesoura. . Um que não costuma vir nas referências do SE (Sexo Explícito) é o Império dos Sentidos, de 1976. É certo que o Pilómetro apresenta sempre uma temperatura baixa, mas penso que será mais por uma questão de dimensão cultural (cultural, estão a ver? Outra metáfora) do oriente, do que não ter força para obter um Hulk, ainda que júnior. Bem vistas as coisas, este filme até contraria a minha tese, dado que uma das cenas mais explícitas é aquela em que a senhora brinca com uma espécie de ovos que não vão à cozinha. Depois admiram-se que o bispo de Braga tenha dito, quando passou na RTP2, que aprendeu mais em 15 minutos de filme do que em toda a sua vida. Cada um sabe de si. Mas acho que estava enganado, com o que aprendeu nem se quer dava para ir à oral. Claro que isto se passou há cerca de 15 anos. Hoje bastava referir 10 minutos de net e já estava passado com distinção. o Mas deixemo-nos de coisas, foi em 1986, com o Diabo no Corpo, do Marco Bellocchio, que a Maruschka Detmers inaugurou aquilo que é o ex libris de qualquer filme que se quer moderno sobre o sexo. Fazer um fellatio e já está. Ai, vou fazer um filme niilista sobre o espectro sexual. E tem bro... perdão fellatio? Claro, sou um realizador moderno. Ok, então temos filme, temos festival, temos palmarés. Faz, mas faz assim um plano bem longo, não é que seja para fazer uma exploração sexual da cena, não, é apenas para homenagear esse grande mestre Manoel de Oliveira. o Meus amigos, a partir daqui foi um ver se te avias. The Piano Teacher, Intimidade, Lie With Me, Pola X, Romance e The Pornographer, são alguns dos exemplos em que o cinema Olímpia aparecia vestido de Cahiers do Cinema. E como isto do sexo no cinema é como o trapezista no circo, mais difícil ainda, esticou-se a corda, neste caso o desgraçado do Hulk até à raiva final, ou seja… como irei encontrar uma metáfora?... o Hulk depois da sua transformação XXL acaba por exaurir-se num tamanho S, depois de uma certa explosão líquida de lava albina (espero que ninguém tenha já fechado o post e apresentado uma queixa ao provedor da Comunidade). o Assim 9 Canções, Ken Park e Shortbus não deixaram mesmo nada para imaginar e não só provaram que a minha teoria do Pilómetro está certa, como rebentaram com a escala, fazendo o mercúrio transbordar. No Ken Park até parecia que a numa primeira fase tínhamos apenas o hulkzinho debaixo da roupa interior, mas para o fim foi tudo às ortigas e toca o pessoal todo a ir fazer uma cura para o Meco, que tem muito bons ares. Então no Shortbus nem se fala, acho que a Linda Lovelace (para a malta mais nova, e que não quer ir já ao Google, é actriz do Garganta Funda, filme porno de culto do ano 1972) se o visse, achava que as fitas que tinha andado a fazer durante anos eram apenas remakes do Música no Coração. o Com esta história do Pilómetro mais uma vez é o homem que dá o corpo ao manifesto. Já viram as vezes que já repeti isto ao longo da série? Afinal nós é que somos o objecto sexual do cinema. Andaram a feministas a queimar soutiens para quê? Se cá os zézinhos é que pagam sempre o pato. Para a próxima vamos nós para a rua e queimamos umas gravatas, de preferência da colecção de Maximiano Rodrigues, que sempre se contribui para a limpeza ambiental do bom gosto. |