Era uma vez um Muro e umas meninas gulosas
Era uma vez um muro chamado Berlin. Não sabia como tinha nascido, mas sentia-se assim, um paspalhão ali no meio a dividir não sabia muito bem o quê.
Do lado oriental vivia uma menina cinzenta que tinha tudo aquilo que pensava precisar. Mesmo assim queria saber o que estava para lá do muro. Os pais, uns senhores muito rigorosos, cuidavam que nada faltasse para manter a sua cor e não a deixavam trepar ao muro porque, por certo, se ia aleijar.
Além de lhe dizerem que do outro lado vivia o papão capitalista, que apesar de parecer ser muito sedutor corrompia as meninas e as transformava em bruxas, fazendo assim mal a todo o reino, tratavam também muito bem da sua segurança e impediam uma aproximação ao muro.

Do lado ocidental vivia uma menina muito colorida, mais traquina e mais exigente. Mesmo tendo muita coisa achava que lhe faltava muito. Por isso, também tentava saber o que estava para lá do muro, especialmente porque lha cantavam musicas muito bonitas.
Os pais diziam que do outro lado estava o papão comunista, que comia criancinhas. Temendo que não fosse o suficiente para a convencer, tais eram o capricho da menina, eles não deixavam de lhe dar quase todos os doces e outras guloseimas que ela exigia. O quarto da menina ia ficando cada vez mais cheio, enquanto que a dispensa dos pais ia ficando cada vez mais vazia porque para comprar as coisas para a menina iam deixando de comprar outras coisas. Para suprir este problema os pais iam tirando de outras dispensas de outros pais, que por sua vez tiravam também de outras dispensas, entrando-se assim num ciclo contínuo dentro do reino.
Um dia, ventos fortes sopraram sobre o muro. E de um momento para o outro ele caiu. Todos ficaram felizes, inclusive o muro.
A menina cinzenta correu para o outro lado e viu todo um reino colorido e cheio de coisas. Ficou tão deslumbrada com tantas cores e doces que quis ter tudo. Não conseguiu. Afinal não tinha despensa que permitisse chegar lá. Com o tempo começou a conseguir também algumas guloseimas, que trocava por outras coisas que já tinha anteriormente seguras. Hoje, não sabe afinal que coisas é que são os doces de verdade, mas é feliz porque gosta de um vento a que chama liberdade.
A menina colorida também correu para o outro lado do muro. Viu que a canção estava errada e que para além das cortinas, afinal, não eram palcos azuis. Depressa esqueceu o assunto e voltou para o seu quarto para saborear todos os doces que lhe davam. O problema é que agora os pais já não se sentiam obrigados a dar-lhe nada, e se ela queria ter alguma coisa tinha que trabalhar mais nas tarefas do Reino. Não gostou da ideia mas também não lhe adiantou ameaçar os pais que ia para o outro lado do muro, ele até já não existia.
Mas ainda não tinha acontecido tudo. Com o tempo, o sistema piramidal de alimentar as dispensas (quando uma não tinha o suficiente uma outra cobria a falta) foi ficando cada vez mais fraco e os doces para a menina colorida e cinzenta, que agora também já tinha cores, começaram a ser mais raros porque os pais além de não terem capacidade para alimentar tamanha gula tinham agora um outro problema que era a vinda de outras crianças, monocromáticas, de outros lugares, que sem exigência de guloseima alguma faziam o mesmo que as crianças do reino.
Assim um novo vento global voltou a mudar as coisas. Agora as crianças, se não querem ser substituídas por outras quaisquer de uma só cor, têm que não só prescindir dos doces, para que os seus pais possam ter uma dispensa segura, como também dedicar-se mais às tarefas do reino.
Moral da história: Nem sempre os ventos sopram caminhos abertos.
Uma historieta como reflexão dos Estados, especialmente do Estado Providência Social e Cultural que muita qualidade de vida nos deu, a nós Ocidentais, mas que começa a definhar aos poucos.