Extra, Extra: Terramoto em Lisboa
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A multiplicação de blogues com supostos Mensageiros era uma constante. Agora todos queriam vir denunciar algo, abrir a boca e falar de conspirações governamentais, de grandes fraudes que se escondiam, de segredos de pé de chinelo de gente conhecida. No entanto, a sua falsidade era relativamente fácil de ser detectada, pois além de não corresponder às características habituais das denúncias do Mensageiro, tudo acabava por cair por terra pela sua inconsistência e falta de provas. Tudo ficava no reino do boato. Mesmo assim a comunicação social, na ânsia de trazer sempre factos novos, ia dando algum relevo, pelo que se ia instalando uma certa onda de sobressalto e de agitação a nível nacional.
Ontem tinha surgido mais um blogue da série Fúria de Deus, com o número 66. A linguagem utilizada e a forma como se apresentou tudo parecia crer que fosse mais um intervenção do dito Mensageiro, que criava blogues sucessivos com sequências numéricas no fim do nome, e que era já uma referência, pois tinha publicado 5 grandes denúncias, todas verdadeiras e que tinham posto o país a seus pés. O problema é que desta vez não vinha revelar mais um crime público, mas sim fazer um aviso. Preconizava um grande terramoto para hoje, em Lisboa e arredores.
São 08.00 H, as televisões passam imagens do início do dia nas diversas cidades do país, em especiais de informação. Há uma nota dominante, as ruas apesar de não estarem desertas apresentam muito menos trânsito. Apesar de ser Junho parece um dia do mês de Agosto. Algumas pessoas são entrevistadas. Todas, aparentemente, parecem rejeitar as previsões do falso Mensageiro, no entanto não deixam de transparecer alguma reserva. Nos estúdios dos diversos canais, analistas de todos os géneros falam do fenómeno. Uma especialista em linguagem fala do conteúdo da mensagem do blogue e sugere que o post do Terramoto foi escrito pela mesma pessoa, ou seja pelo verdadeiro Mensageiro. De repente o mundo parece estar um pouco louco, já se atesta a veracidade de quem não sabe quem é.
A partir das nove muitas lojas permanecem fechadas. Em contrapartida as igrejas apresentam uma afluência extraordinária de pessoas. Desde o início da noite de ontem que se tinha vindo a notar uma concentração de pessoas nos espaços abertos, como jardins e parques. Com o evoluir da madrugada e princípio da manhã o bloco de pessoas foi aumentando. Trazem velas, fazem vigílias.
- É um sinal do fim do mundo – grita freneticamente uma senhora quando vê a câmara de televisão voltada para ela.
Júlio Sarmento não dormiu muito bem, não porque a histeria com o terramoto o tivesse perturbado muito, mas porque o jantar da noite passado não lhe tinha assentado bem. Comer qualquer coisa a despachar, já tarde, numa praça da alimentação de um centro comercial normalmente não dá bom resultado. Estranhou chegar à cozinha e não ver já o café feito. A sua empregada costumava chegar mais cedo e preparar-lhe o pequeno-almoço. Por certo tinha ficado com medo da catástrofe anunciada. Com esta confusão toda ainda ia chegar tarde ao Ministério. Não é que um assessor de um ministro tivesse horas para chegar, mas como tinha marcado um encontro com uns jornalistas para passar umas informações havia que dar boa imagem.
- Sr. Doutor? – ouviu Júlio no outro lado do telemóvel quando pegou nele, depois ter feito uma pequena busca pela casa ao ouvir o seu som. Era a sua empregada.
- Sim, Emília, bom dia.
- Bom dia. Sr. Doutor, peço desculpa mas não tive coragem para ir trabalhar. Ainda por cima o sr. Doutor mora aí numa zona cheia de prédios e logo num 8º andar. Não arrisquei.
- Não me diga que acreditou nessa balela?
- Eu cá não sei, mas pela via das dúvidas fiquei, tenho muito medo destas coisas. O homem não se enganou em nada até agora. Olhe, depois pode descontar-me o dia.
- Mas na sua casa não lhe vai acontecer nada?
- E eu lá fiquei em casa! Viemos todos aqui para um descampado que tenho em frente à casa. Olhe parece um acampamento, veio tanta gente. Estamos aqui desde ontem è noite, trouxemos uns cobertores, uns fogareiros, uns frangos e aqui estamos à espera.
- Mas já viu que ainda não aconteceu nada?
- Ainda é cedo. Só depois da meia-noite é que descanso.
- Pronto Emília, tenha um bom dia de piquenique. Amanhã falamos.
- Senhor doutor saia daí, não fique nessa casa. Olhe quem o avisa…
- Está bem Emília, estou avisado. Até amanhã.
O melhor seria tomar qualquer coisa no café por baixo do prédio. Ideia não muito brilhante. Chegou lá e estava fechado.
- Eu não acredito, estes broncos também ficaram com medo da treta do terramoto.
Andou mais um pouco e encontrou uma pequena pastelaria. Não tinha muita gente e os poucos que estavam não tiravam os olhos da televisão. Passavam imagens junto à beira-mar, pois alguém tinha falado que se via uma onda gigante ao longe. Os técnicos de imagem bem tentavam fazer zoom mas não se vislumbrava nada.
- O quê? Já vamos num tsunami? – perguntou Júlio a rir, enquanto dava a primeira trinca num croissant.
- Sim, agora estão a dizer que se avista uma onda gigante – respondeu o homem que estava por detrás do balcão, enquanto limpava o mesmo sempre com os olhos postos no televisor.
Júlio começou também a prestar alguma atenção às imagens que passavam. Estranhou que as pessoas tivessem ido em massa para junto da praia à espera da onda gigante, com máquinas fotográficas e telemóveis em punho, como se esperassem o regresso duma caravela quinhentista depois de ter descoberto novos mundos. Realmente as autoridades não deviam estar a dar muita importância, senão não permitiam aquele reboliço todo junto ao mar, achava ele.
- Olha! – gritou um homem bem alvoraçado, de umas mesas do meio da sala, pondo-se de pé como se a sua equipa do coração tivesse marcado um golo no último minuto.
Todos ficaram presos à imagem que era transmitida na televisão. Ao longe, junto à linha de horizonte marítima, uma outra linha mais grossa e irregular aparentava surgir também.
- Parece mesmo aquilo, só pode ser a onda – garantia o mesmo homem que se tinha empolgado há pouco.
- Tenham cuidado, que esses fenómenos são normais – disse Júlio, mas ninguém lhe deu muita importância. – O calor cria esse efeito no mar.
Júlio deixou o pequeno grupo colado ao televisor e saiu da pastelaria. Ia apanhar o metro, mas pensou melhor, talvez um táxi não fosse nada mau, andar por debaixo de chão naquele dia não devia ser uma boa escolha. Afinal, se todos os dias há um pequena probabilidade de haver um terramoto, porque não haveria de haver hoje? Até, digamos, com uma probabilidade um pouquinho maior. Falar das coisas, atrai.
Extracto de um Serviço Noticioso num Canal de TV
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Plano médio do jornalista pivot, com um slide de um terramoto como fundo.
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Pivot: Ainda que ninguém o queira admitir é certo que as pessoas acabaram por ser influenciadas pelo anúncio na Internet do terramoto por um suposto Mensageiro. Mesmo depois das autoridades terem afirmado que não há nenhum indício técnico que vá ocorrer qualquer catástrofe natural, mesmo depois de peritos terem dito que o blogue era falso, as pessoas sentiram-se intranquilas com a tragédia anunciada. (mostra avenidas quase vazias, locução segue em off). As cidades acordaram com menos trânsito, menos pessoas, menos estabelecimentos abertos. Por um motivo ou outro, o que é certo, é que há menos pessoas a comparecer ao emprego. Este ambiente mais tranquilo contrasta com uma certa confusão que se foi instalando nalguns lugares. (mostra imagens de pessoas a querem entrar num estádio) Em várias localidades populares forçaram a entrada em campos de futebol por no relvado se sentirem seguros.
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Imagem de um popular no campo de futebol.
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Popular 1: Eu não acredito muito nestas coisas, mas convém tomar precauções. Isto aqui parece seguro, quanto muito caiem as bancadas, mas no relvado não há problemas. Há pessoas que foram para as igrejas rezar. Olhe, ainda levam com um santo na cabeça se aquilo desabar. No campo de futebol é que se está bem.
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Começa a passar imagens de populares junto à praia.
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Pivot (em off, mostra imagem de pessoas num parque): Desde o inicio da noite de ontem que várias pessoas se juntaram em parques e jardins e aí foram ficando em vigília. Nalguns casos chegou a ser um motivo para confraternização. (mostra imagens de pessoas à beira-mar) Para piorar a confusão, o facto de ter aparecido uma mancha sobre a linha de horizonte do mar levou a que se levantasse a suspeita de um tsunami, e em lugar das pessoas se colocarem em pontos altos, correram para junto da praia. Temos neste momento a nossa colega Mariana Pinto em directo. Mariana como é o ambiente aí? Já está aí alguma autoridade?
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A emissão passa para um directo na praia.
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Mariana: Não Gabriel, ainda não chegou por aqui nenhuma autoridade. Nem que seja para afastar esta pequena multidão que ocorreu até aqui para ver a onda gigante. As pessoas estão um pouco divididas entre o acreditar que realmente se vai passar qualquer coisa e apenas assistir a todo este acontecimento. Há pouco falei com antigo pescador que me garantiu que se trata mesmo de uma onda mas que se vai desfazer até chegar à praia. Para conhecer melhor o que está acontecer vamos ouvir alguns do presentes… O senhor por favor… (aproxima-se de um popular que está de telemóvel na mão) Porque está aqui?
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Popular 2: Vim ver. Ouvi dizer que vinha aí uma onda gigante e vim ver.
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Mariana: Mas não tem medo? Não seria melhor ir para um sítio mais alto?
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Popular 2: Quando ela tiver perto, fujo. Corro bem, mas antes ainda quero tirar umas fotografias. Este meu telemóvel tem uma câmara muito boa.
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Mariana: Mas pode não ter tempo para fugir.
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Popular 2: Tenho, aliás se não tivesse a menina também não estava aqui, pois não? Ainda vai ter mais dificuldade em correr do que eu, com esses fios todos.
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Mariana: Não acha estranho que há mais de meia hora que se avistou a mancha e ainda não se passou nada?
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Popular 2: Isto demora, parece que está perto mas não está. Cá para mim ainda se esborracha toda antes de chegar aqui, apenas vai dar uma maré-cheia instantânea.
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Mariana: Como podem ver, é com este espírito com que se espera a dita onda gigante. Até ao momento nenhuma autoridade confirmou o fenómeno mas os populares não arredam pé. Uma grande parte deles faltou ao trabalho por causa do terramoto mas agora não querem perder um Tsunami, que normalmente só estão habituados a ver nas notícias lá de fora ou em efeitos especiais no cinema. É tudo por aqui, Gabriel.
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Emissão para o estúdio.
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Pivot: Obrigado Mariana. Chegou neste momento à redacção, agora que são onze horas em ponto, um mail do Mensageiro, supostamente do verdadeiro, e em que desmente o blogue e o aviso de terramoto. Fontes peritas na análise da informação do Mensageiro também já comunicaram que parece ser genuíno este novo mail. Parece que estão desfeitas as dúvidas sobre a brincadeira do terramoto. Será que tudo vai voltar à normalidade?
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- Esqueci-me do molho barbecue para temperar os frangos – lamentou Emília quando abriu a tupperware com os ditos animais já desmanchados. Voltou a fechá-la e colocou-a junto ao grelhador portátil que tinham trazido. Olhou à volta para ver se avistava o seu neto. Tinha que o chamar rapidamente. – Ruben!
O neto devia estar perdido na pequena multidão que tinha invadido aquele velho descampado, onde os miúdos costumavam jogar futebol ao final da tarde, e que agora estava transformado numa espécie de arraial e acampamento improvisado. Mantas e sacos-camas espalhados indiciavam que tinham passado ali a noite. Agora, pela manhã, era o cheiro de café com leite, aquecido em pequenos fogões de campanha, que marcava o cenário. Rádios e televisões portáteis faziam-se ouvir. Mas a novidade eram os computadores portáteis que alguns tinham levado e com o qual mantinham o contacto com o mundo através da Internet. Quem assistia de fora quase que dizia que aquelas pessoas se tinham juntado para comemorar um santo padroeiro e não para se refugiarem de um terramoto anunciado, tal e qual como tinha sido sugerido pelo suposto Mensageiro. Tinham trazido extensões eléctricas das casas mais próximas para ligarem luzes durante a noite. Havia mesmo quem dissesse que afinal estavam a tirar directamente dum poste de electricidade que estava li perto. As luzes já se tinham apagado e agora, durante o dia, eram televisões e aparelhos de música que funcionavam.
- Ruben, faz um favor à avó, vai lá a casa e traz-me o molho para temperar os frangos que ficou em cima da mesa – pediu Emília quando o seu neto se aproximou.
- E se a casa me cai em cima? – argumentou o neto.
- Não cai nada, isto costuma dar sempre um sinal antes. Se a avó não fosse tão pesada ia lá eu, mas com esta idade já não posso, tu vais num pé e vens noutro, que eu sei.
Ruben foi e veio rapidíssimo, o medo do terramoto começar e ele não estar no campo fez com que batesse todo um record no trajecto que já houvera percorrido muitas vezes quando ia jogar à bola. Nunca tinha sido tão veloz, a sua própria avó comentou – Se fosses tão rápido assim como quando te chamo para vir jantar, o jantar nunca arrefecia.
O outro neto de Emília, o mais velho, não despegava do computador. Se soubesse não lho tinha comprado, não vê outra coisa, costumava dizer a avó.
- Sandro, desliga-me essa coisa que eu preciso da extensão para ligar o grelhador –pediu Emília. – Quero assar os frangos, que já são onze horas e daqui a pouco o teu avô começa a ficar com fome.
- Ó avó mesmo agora o liguei, tive este tempo todo com a bateria – respondeu-lhe Sandro, um rapaz adolescente, dos seus 15 anos. – Asse no fogareiro.
- Não asso nada que isso dá uma trabalheira enorme. Vou aproveitar o eléctrico.
- Só mais um bocado. Quero ver aqui mais umas coisas.
- Não me interessa, nem mais um minuto. Ainda vem para aí o terramoto e apanha-nos sem comer. Não há nada pior do que uma tragédia nos apanhar de barriga vazia. Depois são dois males.
Ouviram-se alguns gritos no acampamento que pareciam dizer qualquer coisa como falso.
- O que estão para ali a dizer? – perguntou Emília perante os gritos, virando-se depois para uma vizinha para ser esclarecida. – Ó Ester o que estão para aí a gritar? – mas esta apenas encolheu os ombros, pois também não tinha percebido o porquê da gritaria.
- É falso – esclareceu o neto, continuando a olhar para o computador. – Está aqui na net. Afinal a previsão do terramoto é falsa, não foi o verdadeiro Mensageiro que publicou aquilo. Ele próprio já fez um desmentido.
- Ai minha nossa senhora, ainda bem, que alivio!
- Avó podemos ir para casa? – perguntou o pequeno Ruben já cansado de tanta diversão, pois a noite para ele tinha sido longa, uma festa completa, com a dormida ao relento no meio de toda aquela gente, dormida essa que não tinha chegado a existir de tanta excitação.
-Não senhora. Vou assar os frangos e vamos comer. Não saio daqui sem despachar os frangos. Até porque mesmo a dizerem que é falso nunca se sabe, vamos dar umas horitas e ver se nada abana.