A minha vida dava um telenovela... e das más (TIFAMI)
Folhetim, o passatempo nacional.
Isso é coisa de mulheres, dirão já alguns machos, enquanto ajeitam virilmente algumas partes mais íntimas e arrojam no ar algum som mais ecoante da via oral.
Não duvido muito disso. Até admito que a Soraya que vive com Adilson mas que ama Fábio, que por sua vez está perdido de amor por Cassandra, mas não é correspondido porque ela tem uma doença incurável e afinal era irmão da Adilson, possa interessar a algum núcleo mais feminino, mas sublinho, só algum.
No entanto, se olharmos para Licenciatura PM, Charrua, Pinto da Costa e Carolinas, Maddies e derivados, só para citar casos deste ano, vemos que afinal, homens e mulheres, saímos de um folhetim para entrar noutro. Não perdemos uma pitada do que vai acontecer, do que pode ter acontecido e do que me disseram que aconteceu.
Então se olharmos o panorama televisivo é caso para perguntar, há vida para além das telenovelas, quer sejam as verdadeiras, quer sejam as dos noticiários?
Num país de fracos argumentistas, construímos diariamente o episódio da vida do outros para dissipar, se calhar, o capítulo mais cinzento e trágico, o nosso.
Assim, num novo delírio de uma noite de verão outonal, construí mais um TIFAMI (Trailer Imaginário de Filme Ainda Mais Imaginário), desta vez uma homenagem ao folhetim, a essa forma de narrativa que tanto adeptos tem a nível nacional, quer seja a clássica de cordel, quer seja a dos cordelinhos da política e afins.
Mas, como sou mauzinho e as coisas nunca são o que parecem, não sei se isto de folhetim tem muito.
A ver vamos. Quem irá sobreviver? Não no enredo, mas leitura.
SINOPSE/Conto:
Maria do Rosário, trabalha num call center. Solteira, na casa dos 30, vive sozinha num apartamento nos subúrbios. Nunca conheceu o pai, não teve irmãos e a sua mãe morrera há pouco mais de um ano.
Preparava-se para entrar de férias, no entanto, Maria do Rosário sabia que as mesmas iam ser bem diferentes. Quando voltasse o seu contrato, à semelhança de tantos outros, não iria ser renovado. Teria que voltar novamente ao desespero de procurar um novo emprego.
Mas, como se de um golpe de mágica se tratasse, tudo irá mudar no primeiro dia de férias. Uma senhora muito elegante entra-lhe pela porta dentro e diz-lhe:
- Maria, eu sou a tua mãe.
De um momento para o outro, Maria do Rosário, vê-se filha de uma aristocrata, D. Antónia, a condessa de Pampilhosa da Serra, e herdeira de um vasto império financeiro, a Cordex SA, grande empresa do fabrico de cordas e cordéis.
Agora ela é simplesmente Maria, Rô ou Rosarinho, e vive um autêntico conto de fadas. Ela é capa de revista, ela é entrevistada na tv, ela assiste a reuniões empresariais de alto nível, ela é apresentada à sociedade em grandes festas.
O conto não estaria completo se não lhe aparecesse um lindo príncipe loiro. Cláudio Ramm é um monarca de um principado muito pequeno, mesmo mínimo, no meio do Mediterrâneo, que vive exilado em Portugal. Depois de lhe ser apresentado, depressa ficam noivos e com casamento marcado, não obstante os olhos de Maria fugirem sempre para o atlético jardineiro.
De uma família insignificante passa agora a um autêntico clã, pois desde 2 pais em disputa, uma prima cientista de física nuclear, um irmão morto que reaparece, uma tia louca, todo um conjunto de personagens são agora um rol de parentes que se aproximam.
Mas todo o conto de fadas tem um fim, e aquilo que são os lindos dias dourados de sonho da sua nova existência, depressa começam a transformar-se no seu grande pesadelo.
O Império começa a ruir, o seu irmão morto-vivo quer tirá-la do seu caminho, e até o seu tio, que afinal era um possível pai, acaba por morrer ao tentar revelar um grande segredo. Maria é a principal suspeita.
Como se não bastasse, Maria vê-se vítima de estranhos acidentes e perseguições, que culminam com o seu rapto. Disposta a querer ver-se livre de toda esta nova roupagem que lhe arranjaram, só pode contar com Marisa, uma amiga intima que sempre a acompanhou.
.
Será que consegue? O quê e quem está por detrás de todos os acontecimentos?
.
Não perca as cenas dos próximos capítulos.
Cena 1: Emprego. Interior. Dia.
Grande sala com várias secretárias divididas por separadores. Panorâmica da sala até Maria ficar no plano. Está com os auscultadores. Fala com alguém.
Maria: Sim? Agora carrega na tecla cardinal duas vezes... As teclas são todas pretas? Não, minha senhora cardinal não é cor, é um símbolo. Normalmente está ao lado da tecla zero… Parece umas grades da prisão? Sim, essa mesma.
 |
Maria 29 anos, ainda Maria do Rosário. |
·
Maria coloca coisas numa caixa. Surge Marisa.
Marisa: Já vais, amiga? (Maria encolhe os ombros) Não fiques assim. Vais ver quando voltares tudo se resolve e eles renovam o contrato.
·
Maria e Marisa abraçam-se. Maria pega nas coisas.
Maria: Pessoal, portem-se bem. Até ao meu regresso. (Maria pega na caixa e dirige-se para a porta)
Colega 1: (não tirando os olhos do computador) Porta-te tu bem mal e diverte-te nas férias.
·
Maria sai. Colega 2 aproxima-se de Colega 1 com um copo de plástico na mão.
Colega 2: Vai divertir, vai! A olhar para a televisão o tempo inteiro e a dar uns passeios pelos hipermercados. É o que estas gajas solteironas fazem.
Colega 1: (continuando a olhar computador) Deixa lá a coitada. Quando voltar já nem secretária vai ter.
Colega 2: Pois é. Mesmo assim desengonçada ainda deve ser uma boa volta. Eu cá tratava dela.
Cena 2: Sala de casa de Maria. Interior. Dia.
Maria dá de comer ao seu cágado Salgueiro. Tocam à campainha. Maria abre.
D. Antónia: (abre os braços) Maria, abraça-me que eu sou a tua mãe.
Fade out (a imagem desaparece). Fade in (a imagem surge aos poucos). Maria e Antónia estão sentadas no sofá.
 |
D. Antónia Condessa da Pampilhosa da Serra. |
D. Antónia: (acaricia as mão de Maria) Maria, eu sei que tudo isto deve ser estranho, que te habituaste a ver como mãe uma outra mulher, mas eu naquela altura não podia assumir-te. Etelvina foi a minha salvação pois criou-te como uma filha. Esperei que ela morresse para te dizer toda a verdade, não a queria magoar. Maria tens toda uma nova vida à tua espera. Vem e torna-te a legitima herdeira da D. Antónia (bate com a mão no peito) Condessa da Pampilhosa da Serra.
Maria olha D. Antónia de boca aberta sem dizer nada. Grande plano do cágado Salgueiro, que com a cabeça de fora parece estupefacto a escutar a conversa.
Cena 3: Alameda. Exterior. Dia.
Uma grande limousine atravessa uma longa alameda de cedros. Maria e D. Antónia viajam na parte de trás do carro. Maria olha a paisagem, vê um grande palacete ao longe, que se vai aproximando. Salgueiro olha também através dos vidros.
 |
Salgueiro |
Cena 4: Salão de entrada do Palacete. Interior. Dia.
O mordomo abre a porta. Maria entra na casa timidamente, com D. Antónia, olha admirada para tudo. Um grupo de empregados, todos jovens, está alinhado à espera da nova inquilina. O mordomo apresenta os empregados e D. Antónia e Maria fazem uma espécie de revista às tropas. Maria fixa o olhar no jardineiro.
Cena 5: Quarto de Maria no Palacete. Interior. Dia.
Maria olha, com Salgueiro na mão, uma pintura de um jovem na parede que parece espiá-la. Salgueiro recolhe a cabeça.
D. Antónia: (aproxima-se de Maria) É Francisco Mello de Carvalhais. Teu irmão. Morreu num desastre de avião há 2 anos na Amazónia.
Maria está deitada na cama. Fala ao telefone com Marisa.
Maria: Tens que vir ver, nem parece possível. A casa é linda, as pessoas são lindas. Nem quero acreditar. Tira uns dias de férias e vem para cá, preciso de alguém que me ampare para eu não desmaiar. Ganhei uma família nova.
Cena 6: Montagem da apresentação da família
 |
Carina Cientista de física nuclear |
·
Carina: Eu sou Carina, tua prima. Espero que não te importes que eu esteja cá em casa. Sou cientista de física nuclear mas estou muito cansada e estou a viver por aqui uns tempos.
·
Violante: Eu sou Violante, sua tia (começa a arfar)… não sei se por muito tempo. (ri-se em gargalhadas altas) Tenha muito cuidado, mesmo muito cuidado.
·
Camilo: Eu sou Camilo Mello de Carvalhais, seu tio (olha para os lados)… Precisamos de falar. Tenha algo muito importante para lhe contar.
|
Cláudio Ramm Príncipe de Lytonos |
·
Cláudio: Eu sou Cláudio Ramm, ainda somos parentes afastados, encantado! (beija-lhe a mão)
Amilcar: Eu sou Amílcar, o tratador de cavalos. Sabe, menina nunca ninguém lhe disse mas eu sou seu pai.
·
Camilo: Rô, não posso calar mais isto. Eu sou teu pai.
Cena 7: Quarto de Maria no Palacete. Interior. Dia.
Maria está com Marisa no quarto. Entra D. Antónia
D. Antónia: Ainda está assim? Já está lá em baixo a televisão para a entrevistar. Por favor, arranje-se e desça, não há nada mais possidónio que fazer esperar as pessoas. (sai)
·
Maria: Não sei se vou aguentar. Detesto televisão e essas coisas. Lembras-me quando quase me obrigaste a participar num concurso?
 |
Marisa a amiga |
Marisa: Se lembro, deixaste-me lá especada e saíste porta fora ainda antes de entrares em estúdio. Que vergonha, a fugires pelos corredores com os rolos na cabeça. Mas agora a tua vida mudou, tens que te preparar para isso. Todos querem falar de ti, como a menina pobre que virou uma rica herdeira. Embora ainda não percebi como é que a fazer cordas esta gente ganhou tanto dinheiro. Se calhar foi a mexer os cordelinhos.
Cena 8: Salão do Palacete. Interior. Noite.
Festa. Os convidados estão espalhados pelo salão. Ouve-se uma voz.
Voz: (em off) Senhoras e Senhoras, Rosarinho Mello de Carvalhais.
Maria começa a descer as escadas lentamente. Todos a olham.
|
Maria agora Rosarinho |
o
Cláudio: (aproxima-se de Maria e pega-lhe na mão) Concede-me esta dança?
Maria e Cláudio dançam.
Camilo: (ao ver o par dançar) … Fazem um lindo par, não fazem?
o
D. Antónia: Claro, porque pensa que ele cá está? Vamos fazer casamento. A festa verdadeira vai agora começar… Ah e nas grandes famílias não se casa por amor, não se esqueça. (pousa o copo nas mãos de Camilo e afasta-se)
Cena 9: Montagem da capa de revistas
Imagem de várias capas de revista com Maria e grandes títulos:
- Maria, a Cinderela dos tempos modernos
- Rosarinho Mello Carvalhais a figura do ano
- Cordex tem novo presidente, Rosarinho Mello Carvalhais
- Príncipe Cláudio e Rosarinho casamento anunciado
Cena 10: : Sala da Administração. Interior. Noite.
Maria e Marisa entram numa grande sala, com uma mesa comprida, onde estão vários homens e mulheres. Anunciam-na. Eles põem-se de pé.
Administrador: Senhoras e Senhoras, Rosarinho Mello de Carvalhais, presidente do Conselho de Administração da Cordex SA.
Marisa: (susurrando a Maria) Vê lá se param de te anunciar em altos berros, parece sempre que estou entrar num palácio da Idade Média.
Maria senta-se na presidência. Marisa procura sentar-se mas não tem cadeira. Olham para ela.
Marisa: (olhando fixamente para o Administrador anunciador sorri) Eu sou a amiga da presidenta, assim a uma espécie da assessora presidenta amiga.
Cena 11: Jardim na piscina. Exterior . Dia.
Maria e Marisa estão sentadas à beira da piscina. Observam o jardineiro. A criada Letícia coloca na mesa 2 sumos de laranja. Retira-se.
Marisa: Ai filha, esta tua família parece que foi tirada de um casting de uma agência de modelos. A mãe é bonita, a prima é bonita, o príncipe é o máximo, até o jardineiro e a empregada são lindos de morrer.
Maria continua a olhar o jardineiro. Este olha também para ela.
 |
Fábio Jardineiro |
Marisa: Deixa-te dessas coisas. Tu ficas com o príncipe, que é loiro de olhos azuis e rico. Já sabes que rico tem que ficar com rico. Só nas novelas é que se fica com pobre.
Maria: Mas esta é a minha novela. De tanto as ver acabei por viver uma.
Marisa: Então se a novela é tua vai com o teu príncipe para as Bahamas, que já vais muito bem servida. Deixa-me ficar a mim com o jardineiro, que também sou filha de Deus. Ai que Deus ele é!
Cena 12: Jardim. Exterior . Dia.
Fábio, o jardineiro, segura Maria.
Fábio: Dona Rosarinho, não fuja de mim. Os nossos destinos estão traçados.
Maria e Fábio beijam-se.
Maria: Não, eu não posso. Sou uma mulher comprometida. Tenho um nome a defender.
Fábio: Mas os nossos corações já estão juntos.
Maria: Então há que fazer um transplante, que eu não vou perder tudo o que conquistei. Agora sou a única herdeira dos Mello de Carvalhais. Tenho o mundo à minha frente.
| Tudo era bom demais para ser verdade | . . . . . . . |
Cena 13: Salão do Palacete. Interior. Noite.
Ouve-se um grito. D. Antónia desmaia. Francisco está no meio da sala
Francisco: (abre os braços) Voltei. Estou vivo.

|
Fransciso irmão de Rosarinho |
Francisco: (bebendo champagne) O avião caiu mas eu consegui sobreviver. Lutei desesperadamente durante 2 anos na selva, comi de tudo, lutei contra tribos inteiras, dormi ao lado de anacondas, mas voltei. Voltei para assumir aquilo que é meu.
Cena 14: Salão do Palacete. Interior. Noite.
Marisa espreita uma conversa numa outra sala, entre Francisco e Carina.
Francisco: (irado) Ela que não pense que isto vai ficar assim. De um momento para o outro chega e toma conta do que é meu. Fui eu que construiu isto tudo.
Carina: (abraça Francisco) Tem calma priminho. Tudo se vai compor, eu tenho um plano infalível. Afinal sou cientista de física nuclear.
Cena 15: Quarto de Marisa Palacete. Interior. Noite.
Marisa entra repentinamente
Marisa: (sufucadamente) Maria tens que sair daqui. Estás em perigo.
Cena 16: Piscina interior. Interior. Noite.
Maria sai da piscina e veste um roupão. Ouve um barulho
Maria: (olhando à volta) Está aí alguém?
Grande plano de um leão. Ruge. Ouve-se um grito. Fade out.
Cena 17: Salão do Palacete. Interior. Noite.
Há uma festa. Camilo manda parar a música. Os convidados olham para ele
Camilo: (olha para Francisco) Francisco, lamento ter que estragar a tua festa de boas vindas ao reino dos vivos, mas preciso revelar uma coisa. Um segredo que andou guardado muitos anos.
Apaga-se a luz. Ecrã negro. Ouve-se um tiro. Novamente a luz. Camilo está estendido no chão envolto em sangue.
Cena 18: Quarto de Marisa Palacete. Interior. Noite.
Maria sentada na cama fala para Marisa.
Maria: Eu que gostava tanto de me sentar em minha casa a ver as minhas telenovelas, começo a estar cansada de viver numa.
Marisa: Será que isto é como aquelas coisas que vemos nos filmes, em que de um momento para outro o espectador entra dentro da própria história do filme. Mas se isto é o teu filme, eu o que é que sou? Oh meu Deus, eu sou o idiota do filme. Todos os heróis têm um amigo idiota. Eu sou essa a idiota amiga da heroína, que fica sempre com um idiota secundário qualquer. (senta-se também na cama) Não posso crer!
Grande plano de Salgueiro numa almofada. Assiste com a cabeça de fora à conversa.
Cena 19: Quarto. Interior. Noite.
Maria está sentada numa cadeira num quarto com pouca luz. Está amarrada e amordaçada. Um vulto desliza à sua volta
Vulto: Pois é Maria, pensava que ia ser sempre um conto de fadas. O sucesso, o dinheiro, a vida fácil pagam-se caros. Muitas vezes o seu preço não está apenas numa simples moeda. Está em algo mais profundo… Não se lembra de nada Maria, de nada mesmo?
| Começa a ser mau demais para ser mentira | . . . . . . . |
Cena 20: Corredor do Palacete. Interior. Noite.
Maria corre como se estivesse a ser perseguida. Letícia, a criada, abre-lhe a porta.

Leticia, a criada
.
Letícia: Fuja por aqui. Lá fora está Fábio que a leva para bem longe.
Maria: Venha também, fuja connosco.
Letícia: Não posso menina. Estou a morrer, tenho uma doença grave, já não me adianta fugir.
Maria: Mas o bebé?
Letícia: Morrerá comigo. O príncipe Cláudio jamais o aceitaria. Vá, parta, eu detenho-os aqui.
Cena 21: Salão do Palacete. Interior. Noite.
Maria está no meio do salão, vestida de noiva, com uma arma na mão. Aponta para alguém.
Maria: (grita) Basta! Chegou a minha hora de me divertir um pouco, não?
Maria dispara. A imagem dissolve-se (Fade out).
| Um conto de fadas Que ninguém quer viver | . . . . . . . |
Cena 22: Bosque da propriedade. Exterior. Noite.
Ouve-se um tiro. Maria e Marisa correm pelo bosque.
Maria: (olha para trás) Meus Deus, acho que matei alguém!
Marisa: (puxa Maria) Deixa lá, se for o zombie do teu irmão ele já está habituado!
Grande plano do cágado Salgueiro que viaja no bolso de Maria, olhando toda a correria.
Meus caros e caros podem libertar os cintos de segurança. A viagem chegou ao fim. Agradecia que os sacos do enjoo não fossem atirados contra o ecrã.
.
Pensem que poderão ser a próxima vítima. Quem vos diz que amanhã ao sair de casa não vos acontece nada e que a vossa vida não vai ser um longo e delirante Folhetim?