SOL

Imagens caídas

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Porque não fazer o contrário? Com as palavras construir e falar de imagens.

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A Menina, a Luz e o Carnaval - Paisagens de um Circo Dolente

A menina, a luz e o Carnaval

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- Eu nem acredito! Que mal fiz eu a Deus?! – barafustava uma senhora perante a asa partida do anjinho, anjinho esse que chorava desalmadamente por estar assim vestido. – Agora vais assim mesmo. Isso é que era bom, não ires na procissão. Criança não tem vontade. E está-me calado que eu vou-me a ti que não sei o que te faço. Com as ganas com que estou até tenho medo de mim.

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 anjo

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 Sem esperar que a criança se calasse arrastou-a até ao local em frente à igreja, onde já se concentrava uma pequena multidão. O pobre anjinho arrastou também a sua asa quebrada pelo chão, perante o olhar surpreendido de todos.

- Vocês nem me digam nada, que eu hoje estou virada – continuou a senhora a reclamação quando se juntou ao grupo. – Está com uma birra que não se pode, cismou que não queria vir de anjinho. Queria vir de homem-aranha, imaginem!. Deve pensar que vem para um desfile de Carnaval. Tantos “estrafegões” deu que já partiu uma asa. Ai, até estou com falta de ar! E o padre já se resolveu?

Quase que num gesto combinado, todos abanaram a cabeça em sentido negativo.

- Eu digo-vos uma coisa, ele que não se ponha com mer’das. Ou ele me abre a igreja e deixa sair a santa na procissão ou salto-lhe para fuças. É hoje que eu vou às ventas ao padre.

Da mesma maneira que houve um sincronismo no gesto negativo, um tenha calma ouviu-se em coro. Mas Alzira já estava bastante exaltada e eufórica para baixar o seu protagonismo, situação que ainda reforçou mais quando viu chegar uma carrinha com um logótipo de uma estação de televisão. O espectáculo iria começar.

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Mesmo não percebendo nada de Internet os habitantes da pequena localidade de Vinhais Novos acompanhavam todo o desenvolvimento do caso do Mensageiro. Se numa primeira fase acharam que era mais uma daquelas coisas modernas lá da capital, depressa se converteram à palavra do denunciante cibernético. Afinal se ele afirmava que trazia a palavra de Deus e vinha repor a verdade, porque não o podia fazer através da Internet? Se Deus tudo criou porque não também os caminhos electrónicos?

Esta conversão veio ainda ser mais acelerada quando rompeu o caso da Carina. A menina, alegadamente doente, passava uns dias, lá na aldeia, em casa dos avós, quando disse que viu uma luz. De inicio não lhe deram muito crédito, mas mais tarde quando o Mensageiro fez a denúncia do médico que molestava crianças e Carina era uma delas, todos viram como uma mensagem divina de antecipação o encontro entre a criança e aquele, que em nome de Deus, põe justiça na Terra.  

        Da crença na tal luz à adoração do Mensageiro e à realização de uma procissão foi um instante. Quem não olhava com boa cara todo este frenesim era o padre da terra, um homem novo na paróquia local, que apesar de ponderado, começava a não achar graça a todo aquele fenómeno à volta da entidade do Mensageiro, e por isso, resolveu fechar a igreja, pois recusava-se a deixar sair a santa para participar naquele evento ecuménico não autorizado.

        - A santa não sai daqui – afirmou o Padre com determinação, encostado a um sacrário antigo na sacristia, aos jornalistas que o entrevistavam, enquanto uma velha senhora de braços cruzados anuía veemente com a cabeça. – Esta gente confunde fé com Carnaval. Aparece um maluco qualquer na Internet a falar em nome de Deus e vai tudo atrás. Está tudo doido. Haja decoro na casa de Deus.

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 mani

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No Rossio, sem guitarras à janela, um pequena multidão começava também a ganhar forma. Ostentavam cartazes com Quem tem Medo do Mensageiro?, Policia que procure os criminosos e não quem os denuncia, Liberdade de Expressão sempre ou Querem calar o Mensageiro. Aquilo que tinha sido o desafio de um programa radiofónico, que tinha apelado às pessoas para virem para a rua apoiar o Mensageiro, visto que ele estava a ser procurado pela polícia, começava a ganhar uma outra forma, pois era também uma oportunidade para muitos se manifestarem contra o poder, coisa que uma grande parte das pessoas aprecia, seja ele qual for.

 As televisões começavam a fazer as primeiras peças de reportagem, para passarem nos noticiários da noite. Não faltavam candidatos a pronunciar-se.

- Isto é uma pouca-vergonha, é o que é. Estão todos com medo – referiu um dos presentes na manifestação. – Andava tudo caladinho a fazer das suas, apareceu este Mensageiro, ou lá o que é, e meteu a boca no trombone. Agora borraram-se todos com medo e puseram-se à caça do homem. Ele já fez mal alguém, já? Não, ele só disse as verdades.

- Querem-no calar mas ele não deixa. Não sei se é Divino ou não, mas uma coisa ele é de certeza, mais esperto do que todos, pois montou um esquema que não se deixa apanhar – disse outro manifestante, depois de roubar bruscamente o microfone para fazer passar a sua palavra e a sua imagem na televisão. – Vivemos num país livre mas querem calar a liberdade. A que horas é que isto passa logo?

Turistas, sempre à espera de algo inédito, tiravam fotos de toda aquela confusão. Portugal era mesmo um país inédito, até os blogues já faziam com que se protestasse na rua.

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 Disco

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O padre não cedia, a igreja permanecia fechada e a santa no seu lugar. Temendo um assalto ao culto, foi chamada a GNR para impor alguma ordem. A sua primeira grande medida foi afastar os jornalistas, nomeadamente as câmaras, porque já sabiam que uma objectiva virada para uma populaça era sempre um rastilho para os ânimos ainda se exaltarem mais.

Raul e Luis, cameraman e assistente, afastaram-se um pouco para longe. A colega jornalista, acabou por ficar junto ao grupo da procissão, na tentativa de ir ouvindo o que estavam a dizer, pois sempre poderia conseguir algo com algum interesse para a sua peça jornalística.

- A Gabi fica ali e ainda se arrisca a levar um murro nas trombas de algum popular mais exaltado – comentou Luis enquanto puxava por um cigarro.

- Não me parece, o povo gosta dos jornalistas à volta – disse Raul enquanto pousava a câmara no assento do carro e fazia alguma ginástica ao ombro. – Já vistes? Nem a 100 kilómetros estamos de Lisboa e é este atraso de vida. Onde é que já se viu fazer-se uma procissão por causa de um blogue maluco?!

- Já sabes que o povo quer é circo, seja ele uma procissão seja uma acção de protesto. Não viste? Em Lisboa também lá há uma cena qualquer.

- Pois é, mas eu preferia ter ficado lá. Tenho um encontro com uma gaja esta noite e se calhar vou ficar a arder.

- Ouve lá, meu, nem me fales! Estou aqui com uma moca dos diabos, ontem arranjei um petisco do caraças, estou aqui sem dormir.

- Passarinho novo?

- Nem me fales, nunca me tinha acontecido uma cena destas. A gaja atirou-se a mim altamente na discoteca, saímos…

- Mas não tinhas ido com a tua miúda?

- Tinha, mas foi uma cena que nem te conto. A gaja mesmo vendo-me acompanhado não tirava os olhos de mim. Sempre a dar em cima. Quando fui à casa de banho a tipo veio atrás de mim e no corredor apalpou-me o material. Ouve lá, nunca tinha visto uma coisa assim! Claro que eu fiquei a trepar paredes. Inventei logo uma cena urgente na televisão e bazei, a miúda ficou com uns amigos e tal.

- Que rasca que este gajo me saiu, deixar a miúda só para ir com uma gaja que nem conhecia.

- Porra, até parece que nem és homem. Depois de se ficar aceso uma pessoa fica cego, eu tinha mesmo que mocar a gaja.

- Espero, ao menos, que tenho valido a pena.

- Se valeu! Dei-lhe uma trancadela que a gaja gemia por todo o lado. Foi de trepar paredes. Acho que ela nunca tinha levado uma assim, quer dizer, uma, duas ou lá o que foi, que até eu perdi a noção. Uma coisa é certa a tipa levou no papo mais do que um orgasmo, ai levou, levou. Só visto, como eu a deixei.

- Está bem abelha! Cada um diz o que quer.

- Ó Raul, sabes que eu não de sou de tangas. Foi mesmo uma coisa de caixão á cova. O prédio até abanou. O pior foi depois. Aconteceu-me uma coisa, que ainda estou entalado. A gaja depois de servida levantou-se e bye bye. Nem o nome dela me disse.

- Tadinho! – riu-se Raul.

- Não me gozes, fiquei sentido, é que fiquei mesmo.

- Mas não é isso que todos os homens gostam, que no fim bazem sem grandes explicações?

- Uma coisa é ser eu a bazar, sem grandes tretas, mas agora ela, ainda por cima depois de tudo o que se passou entre nós naquela noite. Sair sem mais nem menos, foi demais. Sabes o que ela me disse? Está a amanhecer e os dias querem-se novos.

Raul riu-se ainda mais fortemente.

- Tu já viste a pu’ta? A dizer que eu já era carta velha fora do baralho.

- Estou a ver que a gaja mexeu contigo?

- Ok, confesso, mexeu mesmo. Foram poucas horas mas foi forte. Senti que havia ali qualquer coisa, uma química, sei lá.

- Ai Luís, Luís, tão vivido e tem uma tesão mais arrepiada e já está todo perdidinho. Não baralhes as coisas, divertiram-se os dois e ponto final.

- Se calhar tenho mesmo é que limpar a boca, que já comi, e preparar nova refeição – Luis pega no telemóvel. – Vou ligar mas é a minha chavalota, mandar-lhe uns beijinhos, dizer que estou com saudades e saber como passou a noite.

- Se calhar nos braços de um dos teus amigos.

- Engraçadinho! Julgas que ela é o quê?

- Não sei o que ela é, mas que tu merecias, merecias. Deixar a pobre coitada apeada só para ir saltar para cima duma mula que se lhe atravessou na frente não é de gajo que mereça ter uma tipa à espera dele.

- Olha-me este, armado em provedor das donzelas desamparadas. Raul, o dia que te acontecer algo semelhante, fala-me então. A partir de uma certa altura homem que é homem só pensa com uma cabeça, e não é a de cima.

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 Ela

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- Não achas que podemos ir já embora? – perguntou Clarisse, sentada no passeio com a câmara ao lado.

- Não, espera mais um pouco – pediu Marta, acompanhando-a no gesto de sentar no passeio. – Parece que a manifestação não foi autorizada e chamaram a policia. É capaz disto dar para o torto e recolhemos material mais interessante.

As duas jornalistas ficaram, assim, a contemplar a pequena manifestação de apoio ao Mensageiro. Alguns dos manifestantes já tinham dispersado mas ainda se mantinha um grupo com alguma dimensão, especialmente os curiosos, que entre comentários e palpites não arredavam pé. Clarisse colocava a cabeça entre as pernas, como que a tentar descansar.

- Isso está mau – comentou Marta, vendo a colega tão abatida.

- Dormi muito mal hoje, ou melhor, não dormi nada.

- Noite mal dormida e bem acordada ou mal dormida e mal acordada?

- Digamos que bem acordada. Olha nem sei, foi mais ou menos. Fui a uma discoteca e bebi algo que não me assentou muito bem.

- Por vezes acontece.

Voltaram ao silêncio, enquanto esperavam a carga policial que teimava em não aparecer.

  - Como se não bastasse a porcaria da bebida ainda tenho a consciência aos saltos.

- Fizeste alguma coisa que não devias?

- Fiz. Atirei-me a uma gajo na discoteca, que não conhecia de lado nenhum.

- Ai, que antiquada! Isso hoje é o pão-nosso de cada dia.

- Sim, mas eu não sou muito disso, gosto de conhecer melhor a fruta. Mas o pior nem foi isso, o fulano estava acompanhado com uma tipa e eu atravessei-me, consegui tirá-lo de lá.

- Isso já não muito decente.

- Pois é, mas não sei o que me deu, se foi a bebida, se foi o quê.

- Desculpas, menina, desculpas!

- Eu sei, mas o tipo era giro, cruzei o olhar com ele, comentei com as amigas com que estava, elas desafiaram-me a dizer que não conseguia. Sabes como são essas coisas, picam-nos, álcool faz de motor e a partir de uma certa altura perdemos o controlo.

- Espero que ao menos tenha tirado um bom proveito.

- Ah! Nem por isso. Deixa-me contar-te – dizendo isto Clarisse aproximou-se mais de Marta, como se fosse contar um segredo. - Sabes aqueles tipos que têm a mania que têm demonstrar que são muito bons, que parecem que te querem marcar como a queca da nossa vida?

- Sim, estou a ver o género.

- Pois, ele era assim. Todo ele se esforçava para me agradar, para fazer coisas originais, a concentração na perfomance era tanta que eu depois acabava por perder o embalo da coisa. Parecia alguém que tem que executar tudo, tintim por tintim, conforme está no manual de instruções. Deve ser algum livro secreto que há no clube dos gajos, como pôr uma gaja em órbita. Esquecem-se é de algumas partes do satélite.

Riem-se ambas.

- Ok, também não foi assim tão mau, digamos que deu para o gasto. Fazemos aquele numerozinho da fêmea delirante e até acaba por ser divertido. Agora digo-te uma coisa, no fim só me queria ver fora dali, que embalado como ele estava ainda me pedia em casamento.

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 Minist

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Jaime Morais desliga o televisor que tem no seu gabinete.

- Isto está bonito, está. Numa aldeia temos uma procissão, aqui em Lisboa uma manifestação. Onde é que isto vai parar? Um país de pernas para o ar, ninguém fala de outra coisa, por causa de um blogue que resolveu armar-se em justiceiro.

Júlio Sarmento, seu assessor, levanta-se do sofá onde estava instalado, enche o peito de ar como se fosse iniciar discurso. - O mundo inteiro já fala de nós. Os noticiários estrangeiros já abrem com as denúncias do nosso Mensageiro.

- O mundo inteiro está-se é a rir-se de nós. Como pode uma personagem virtual ou um blogue criar toda esta paranóia nacional. Até já um pseudo terramoto tivemos.

- E o pior está para vir.

- Não sejas agoirento.

- Claro, ele vai chegar ao Governo. Qual o pratinho do meio dos blogues e do país? Dizer mal do Governo, seja ele qual for. Tudo isto que ele andou a tramar é para chegar aqui e ter um impacto estrondoso. Ele já anunciou que vai vir aí a grande bomba.

- Até me estar a dar suores frios. Não que eu tenha medo de alguma coisa, mas não queria nada ver-me metido no meio de uma polémica. Até perdi a vontade de ir à reunião.

Júlio encaminha-se para a porta do gabinete e abre-a.

- Vá lá, um Ministro tem que ter nervos de aço. Vamos indo que um atraso superior a 5 minutos já é má-educação, mesmo para um Ministro.

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 menina luz

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Os populares cercavam a igreja. O padre, trancado com a sua acólita de serviço, estava intransigente e não deixava sair a santa da igreja. A GNR tentava impor um pouco a ordem, coisa que não lhe era fácil, pois logo dois soldados tinham ali familiares no meio da concentração. O rol de jornalistas tinha aumentado, nomeadamente com a chegada de outras estações de televisão, o que fez aumentar ainda mais a confusão. Alzira, qual passionária, tomava o comando da revolta.

- A igreja é nossa, não é dos padres que vêm para aqui. A igreja é do povo e é o povo que decide. Vamos arrebentar com isto e tirar de lá a santa. A procissão não pode esperar. Até porque a Carina tem que ir para Lisboa ainda hoje, que amanhã já tem escola.

Tenha calma, que isto não se resolve assim, aconselhava o sargento da GNR, puxando delicadamente o braço da D. Alzira, por forma a que ela descesse a pequena escadaria da igreja.

- Largue-me o braço senhor guarda, que eu estou nos meus direitos. A igreja é do povo da aldeia e nós vamos entrar.

- Ó D. Alzira, mas se entrarmos ainda vamos ter que enfrentar o padre – contemporizou uma comadre mais preocupada com as consequências daquilo tudo.

- E que venha o padre. Está com medo dele? Não estando a dizer missa é um homem como os outros, se se armar em parvo leva pela medida grande, ele e a amiguinha beata que está lá dentro fechada com ele. O que eles não devem fazer lá dentro! Cala-te boca! Ainda depois vem dizer que é a casa de Deus, é mas é uma casa de pouca-vergonha.

        Claro que todo este discurso estava a ser filmado. Ia ser um prato cheio nos noticiários da noite.

- Vamos lá ver se a gente se entende – disse por fim o Sargento em voz alta e com determinação. – Dentro da igreja ninguém entra, ponto assente. O Sr. Padre não autoriza e ninguém pode ir contra a vontade dele. Se o fizerem sou obrigado a usar e força e a proceder a detenções. Estamos num meio pequeno, todos nos conhecemos e não vamos querer complicações, pois não?

Fez-se um silêncio. Alzira inspirou forte, como se recebesse uma inspiração divina.

- Prontos, não querem dar a santa, nós não precisamos da santa. Temos outra, e verdadeira. Ermelinda vai chamar a Carina para vir, vamos fazer a procissão à nossa maneira.

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Carina saiu de casa pela mão da sua avó, com os olhos baixos e um pouco envergonhada. Não percebia muito bem o que se estava a passar. Afinal a luz que tinha aparecido, já a tinha visto tantas vezes, quando tinha ataques, e nunca ninguém lhe tinha dado importância, a não ser os médicos, curiosos com aquela manifestação atípica de epilepsia. Quando chegou perto da igreja, os populares abriram um corredor para ela passar. No fim da ala, esperava-a Alzira com um manto de cetim azul, bordado a dourado, que estava destinado inicialmente a cobrir a santa original no desfile. Alzira colocou o manto na pequena miúda. Ela sentiu-se um pouco como nos desfiles que fazia no sua escola na altura do Carnaval, mas mais desconfortável, afinal o traje de fada ou princesa era bem mais leve que o manto da padroeira da terra.

Em cortejo, e com Carina à cabeça, uma pequena multidão encetou o cortejo, num percurso bem curto, pela rua principal da aldeia e à volta da igreja, entre orações e os silêncios barulhentos das passadas. Esperavam que uma nova luz pudesse baixar ali, naquele momento.

A luz não baixou. Pelo contrário, as nuvens cobriram o céu e de um momento para o outro uma forte chuvada abateu-se no local. Depressa todo o cortejo se dispersou à procura de um abrigo. Por pouco a própria Carina ficava esquecida no meio da praça, tal foi a confusão que se arranjou. Valeu-lhe um guarda da GNR que a agarrou ao colo e a levou para local abrigado. No meio da correria ficou esquecido o manto no chão, todo molhado e pisado, a provar que ali, algo tinha acontecido.

Para o padre foi a providência divina furioso com a heresia que ali se estava a passar. Para o povo foi mais um sinal de Deus, ainda que sem luz, a comprovar a sua crença, pois a chuva é também uma forma de purificação. Para os jornalistas foi a cereja em cima do bolo, ainda que água em cima das máquinas não tivesse sido agradável e pudesse vir a dar chatices. No entanto, todos se esqueceram, que afinal a meteorologia já tinha anunciado fortes aguaceiros instantâneos para a região.

A paz tinha voltado. Os dois cafés da região estavam cheios, quer com os locais, quer com os guardas e jornalistas. Bebiam-se umas cervejas e petiscavam-se alguns acepipes da terra. As crianças já desfardadas das vestes da procissão voltaram às suas casa e aos seus jogos de playstation, enquanto a chuva continuava a cair.

Lá fora o manto jazia no meio da lama. Acompanhava-o uma pequena asa de uma veste de anjinho.

- Cristiano, mas o que é que tu fizeste? – gritou Alzira, olhando a vestimenta de anjinho agora só com uma asa. – Onde está a outra asa? Eu não acredito, eu não acredito! Cristiano, eu vou-me a ti nem sei o que te faço. Até tenho medo de mim, com as ganas com que estou.

Mas Cristiano nem ouviu a avó pois estava muito irritado. Tinha acabado de dar um sopapo num amigo seu, por este, além de ter perdido uma vida, não ter conseguido matar um polícia e roubado um carro no jogo que ambos disputavam na consola. Ainda não era desta que ele ficava com pontos suficientes para comprar uma arma automática de grande porte e passar ao nível seguinte.

Posted: quarta-feira, 24 de Outubro de 2007 19:40 por bp63

Comentários

Annnna said:

Bolas bolas Ultimate até fiquei sem folego!!!!! eheheheh

Voltarei para me sentar e ler com mais atenção.

Um beijo enorme

Annnna

# Outubro 24, 2007 20:51

bp63 said:

Annnnnnnnita

Enquanto tiver octanas isto até fumega.

Mas eu não quero a menina sem folego, pois assim perderá a luz que lhe é tão própria.

beijo

bp63

# Outubro 24, 2007 21:14

Mensageiro said:

As coisas que dizem de mim!!!

Mensageiro

# Outubro 24, 2007 21:17

Talina said:

OLÁ bp

Parabéns o texto está o máximo, gostei muito, agora estou com um pouco de pressa, depois venho ler com mais atenção e farei outro comentário.

Abraços de sincera amizade Talina

# Outubro 25, 2007 0:48

Nemesis said:

Está muito bom, como sempre, mas desta vou-me permitir uma sugestão musical para acompanhar:

[YouTube:OEqCSmXTX6o]

Beijo

nemesis

# Outubro 25, 2007 9:58

bp63 said:

Talina

Obrigado. Aguardo então o comentário com mais calma. Espero que a leitura não a desanime.

Abraço

Bp63

# Outubro 25, 2007 20:00

bp63 said:

Nemi

Mal vi as imagens, pensei, aí vem Kusturica. Afinal não me enganei muito pois era o seu alter-ego musical, Gorán Bregovic. Ou não era? Pareceu-me.

Mais de que um musico, acho-o um comediante da música. A sua fusão entre o tradicional, o pop e o burlesco é algo bastante interessante. Durante algum tempo o seu disco, Ederlezi, foi banda sonora de viagens.

Não sei se a minha romaria dolente, incluindo a urbana e a das relações humanas, é assim tão alegre.

Beijo

Bp63

# Outubro 25, 2007 20:11

portocego said:

Ó bp63!

Como sempre escreve muito bem, o que nos ajuda a ler textos deste tamanho, sem fastio!Depois tem um poder de análise e crítica satírica do social de quem conhece bem os pontos fracos de uma certa camada, rural, e de uma outra, não sei se mais ridícula porque de intelectualóides convencidos, em florestas de enganos...

Parabéns!

# Outubro 25, 2007 21:50

Nemesis said:

Tão alegre não será (o que é duvidoso, há uma alegria secreta na forma como aquela mulher e muita gente com que privo diáriamente enche a boca de "ai que eu não me seguro, eu vou já à cara a este e àquele..."), mas partilha algo de muito peculiar com o imaginário cinematográfico do homem.

Underground e gato preto gato branco são ambientes mais que perfeitos para enquadrar algumas das  realidades rurais e pós-rurais dos nossos conterrâneos, onde não são as kalachnikovs mas os revolveres, as espingardas de canos serrados, as pontas em mola, as soqueiras, as esperinhas, as á sua cabra, sua p***, seu c*****, as coças, as tareias, enfim, porrada, porrada, porrada!!!

Raramente as pesssoas retratam essa nossa realidade de forma tão fiel como o fizeste, mas todos sabemos que ela é assim.

beijo

nemesis

# Outubro 25, 2007 22:02

bp63 said:

Portocego

Obrigado pela sua apreciação. Por vezes tenho medo de meter o Rossio na Betesga. Mas a ideia era isso mesmo fazer o retrato de uma certa sociedade rural ainda lantent3 por aí, adoradora de folclores, em contraponto a uma outra, mais urbana, mas também com os seus Carnavais.

Ainda bem que lê e não se chateia e perde nestes enormmmmmmmmes lençóis.

Abraço

Bp63

# Outubro 25, 2007 22:02

bp63 said:

Nemi

Claro que no meio deste povo cinzento há uma alegria festiva, não é em vão que eles acabam sempre a comer uns frangos e a beber umas cervejas lá nos cafés das suas vidas.

Se calhar ele só é dolente, no olhar de um palhaço triste urbano armado em pensador, como eu.

Kusturica, apesar de tudo, tem muito a ver connosco. Inclusive escrevi isso num post inicial, muito tímido, sobre a menina raptada e que depois foi descoberta e houve comemoração.

Uma pequena explicação.

O retrato era uma tentativa de fazer uma micro caricatura desse nosso circo e ao mesmo tempo escrever um capítulo que marcasse o início da etapa final da narrativa, onde se faz o sprint final e o esclarecimento de todo o mistério, fazendo assim também um certo resumo do que tinha ficado para trás. Retirei algumas personagens que seriam incompreendidas isoladamente neste pseudo conto.

Não sei se consegui.

Apesar das situações serem inventadas, muitas das frases que escrevi já as ouvi por aí em diferentes contextos (como tu bem referes), e não estou a falar só das Alziras arrombadoras de igrejas, falo também do urban night sex people.

O meu ego ficou mais embaladinho esta noite com os 2 comentários anteriores

(?Depois tem um poder de análise e crítica satírica do social? ?Raramente as pessoas retratam essa nossa realidade de forma tão fiel como o fizeste?),

a mimarem a minha escrita. É por isso que nunca hei-de ser um escritor, ao ser tão infantil.

Beijo

# Outubro 25, 2007 22:35

Talina said:

Oi caro amigo bp

È raro ver retractada a nossa sociedade seja ela intelectual ou (pseudo)Mesmo a popular espontânea e sem pruridos, num retracto tão fiel.

Parabéns

Abraços Talina

# Outubro 26, 2007 12:47

pessoalissimo said:

BP63

Nem queria acreditar quando aqui voltei a este blogue: dois novos posts e eu distraido (e cheio de trabalho) a deixar a "banda" passar. Inadmissível.

E ainda não será hoje que irei deixar aqui a minha opinação... A vida está a ficar dificil com tantos compromissos. E este eu não queria deixar, o de dar a devida atenção aos escritos dos meus bloguers favoritos.

Voltarei aqui amanhã ou domingo para pôr alguma ordem na minha desordem actual. Sorry!

Fernando

# Outubro 26, 2007 13:17

bp63 said:

Olá Talina.

Vejo que voltou. Ainda bem que não ficou decepcionada. Obrigado.

Os retratos são apenas pedaços de todos nós.

beijo

bp63

# Outubro 26, 2007 21:48

bp63 said:

Ó Fernando

Eu estou de ?bentas?.

Então eu fiz, no trabalho anterior, um post de 3 F?s para o Fernando, e nem lá apareceu.

1º F ? Fininho ? Post com poucas Palavras (só tem 1300, bem inferior às 2.000 que forma impostas, quase que com ameaças de morte bloguistica

2º F ? Figuraça Feminina Fixe ? pus lá umas imagens de uma menina toda catita, mesmo quando se arma em Rambo.

3º F - Forte ? Factos sociais relevantes como a violência no feminino, o medo, a justiça popular, etc

E nada, nem uma mísera palavrinha

Agora vinguei-me Devil

Aqui está um lençol imenso para aprender. Será preciso muita cafeína para não cair para o lado.

Grande abraço.

Bp63

# Outubro 26, 2007 21:59

pessoalissimo said:

Olá ?Mensageiro? BP63

Não sei porquê mas esta procissão e a luz da menina Carina, fez-me recordar a história de dos pastorinhos de Fátima, só que numa versão ?new age?. Até as reacções adversas da hierarquia religiosa, nos primeiros tempos, foi muito forte em Fátima. Mas depois de se perceber onde a ?coisa? podia chegar, os benefícios que a IC podia tirar, o ?milagre? aconteceu?

Deus manifesta-se de muitas formas, aquela que aqui relataste é só mais uma delas, aqui a Nemesis publicou recentemente um post com Sinais de Deus nos milheirais e searas de todo o mundo, sinais de um Deus-Arquitecto que gosta de círculos e de desenhos geométricos. E claro que o povo, à falta de melhor, adora estas inovações, estas manifestações inexplicáveis da Sua presença, afinal o povo continua à espera do Deus Redentor, tal qual como quase todas as religiões mandam dizer através dos seus profectas, sacerdotes e hierarcas.

Eu também estou à espera? com um gin tónico na mão. E uma garrafa de vodka ao lado, ouvi dizer que Ele gosta daquele néctar russo. Não vá o Diabo tecê-las?

Um abraço

Fernando

Ps ? não sei porquê mas este (e o outro, anterior a este) teu post podem ser premonitórios de um Mensageiro através dos blogues e da net, só estranho este ainda não ter aparecido. Se calhar ainda está a receber lições do Demo sobre como pôr vídeos aqui no Sol sobre a Vida Angelical que leva lá nos Céus.

# Outubro 27, 2007 19:18

bp63 said:

Os caminhos de Deus, ou o seu silêncio.

No meu caso é mais as figurinhas das suas criações, que teimam em fazer barulho por tudo e por nada.

Não quis ir tão longe, a Fátima, por achar ser um outro departamento, muito mais profundo.

Aqui pretendia-se ir apenas a esses pequenos locais, que apesar de estarem no Sec. XXI, vivem ainda imbuídos de um certo Carnaval medieval. Mas o pior, é que não são sós as Alziras que armam o circo. Mesmo as Clarisses e os Luíses acabem por montar uma tenda não muito diferente no realejo que lhe vai passando à frente.

Sobre o Mensageiro parece que há aí uma premunição. Oxalá. Se eu não for preguiçoso e os Deuses do Olimpo das editoras anuírem em meu favor, pode ser que ele vá mesmo saltar para fora de uma gaveta electrónica e ande por aí a fazer das suas, num ?escaparate perto de si?.

Mas tem piada, que alguém que leu apenas 2 capítulos isolados, e do final, quase que revele o trecho nº 1 da (mal) dita obra.

Ou será que o Fernando é o verdadeiro Mensageiro e sabe mais do que conta?

Abraço

# Outubro 27, 2007 20:07

pessoalissimo said:

Bp63

Cá ficamos à espera dos próximos capítulos em formato papel. Deus manifesta-se de muitas maneiras, andamos agora aqui uns tantos a falar Dele de várias formas, é o que dá termos uma imaginação tão fértil. Wink

Fernando

ps - Há conta dos blogues dos Sol, já "papei" dois magnificos livros de dois notáveis bloguers que por aqui cirandam na blogosfera. O próximo serás tu, amigo? :)

# Outubro 27, 2007 20:19

pessoalissimo said:

Só mais uma coisa ;)

Fui ontem ver o "Estranha em mim", que serviu de mote ao teu último post, um filme extraordinário, uma excelente história, bem desenvolvida e melhor terminada. Esta é a opinião de um mero leigo, de alguém que só aprecia as imagens (não caídas) e o trabalho do realizador e dos actores. GOSTEI!!!

Do que uma MULHER é capaz por alguém que lhe é querido! Seja um filho, o namorado, o marido ou simplesmente um amigo...

# Outubro 27, 2007 20:22

bp63 said:

Fernando

Serei eu a próxima vítima dos livros?

Não acredito. Tenho 2 características péssimas.

- Uma certa preguiça com as coisas minhas. Ponho sempre o trabalho dos outros à frente. A parte final de um livro é sempre muito trabalhosa e pouco bonita. A construção já está feita. Limar as palavras e as ideias é algo muito laborioso e ardiloso. Falta-me a paciência.

- Um certo desacreditar na parte final das minhas coisas. Um pessimismo que se instala e me leva a deixar para trás. Já ficou tanta coisa.

Além disso falta-me a cara de pau de andar a bater às portas. Sou como o cágado Salgueiro. Encolho-me e pronto.

Abraço

# Outubro 27, 2007 23:52

bp63 said:

Eu também gostei. Apesar de achar que tem um final perigoso. Em termos cinematográficos está 5 estrelas, mas em termos do que aponta acaba por ter uma moral não muita boa.

Não acho que ela tenha feito aquilo por ele. Ela fez aquilo por ela, por alguma coisa ter morrido dentro dela e precisar da própria morte para se alimentar. Uma espécie de vampira da violência urbana.

Quanto à forma como vês o cinema, é essa a forma como vemos todos, as imagens, os actores e a história que nos contaram. Não és leigo, ou então somos todos.

Porque o cinema é uma coisa simples. Há é alguns que fazem mais espalhafato ao falarem dele. Como eu.

Abraço

Bp63

# Outubro 28, 2007 0:01

desabafosdaminda said:

Bêpê

De todo este teu texto espantoso podia retirar tanta e tanta coisa para comentar: o peso dos preconceitos, as aversões às mudanças, as hipocrisias das sociedades, o empolamento mediático, a falta de lisura nas relações humanas, ? ufa, que já estou cansada?

Mas vou puxar a brasa a minha sardinha e vou pegar na tua frase: ? Criança não tem vontade?.? que puseste na boca da D. Alzira.

Este tipo de frases ainda se ouve muito hoje em dia. Contudo, há por aí, muita gente que não diz mas age como tal. Escondem-se detrás de hipocrisias, mas pensam da mesma maneira.

Senão diz-me o que se pode dizer de obrigar as crianças a andarem a passear em centros comerciais à noite, já chorosas e rabugentas? estas crianças têm vontader?

Que dizer daquelas crianças que são arrastadas para actividades a seguir a actividades, do ballet para a natação, da natação para o inglês, ficando sem qualquer nesga de tempo quer para o lazer quer para o merecido e necessário descanso. Estas crianças têm vontade?

Que dizer daquelas pobres crianças, meninas de um modo geral, a quem se vestem roupas que lhes roubam a infância e a possibilidade de mobilidade. Têm vontade estas?

E saltando para o outro lado da questão: têm vontade as crianças maltratadas, violentadas, que passam fome e frio? Têm vontade as crianças que vivem em permanente conflito dentro da própria casa?  Têm vontade as crianças que vivem em cenários de guerra?

Olha bêpêzinho, desculpa, roubei todo o humor do teu post?

Hoje estou cinzenta como o tempo.

Vês porque não gosto do Outono?

Beijinho

Minda

# Outubro 29, 2007 17:32

bp63 said:

Minda

Engraçado que no alto da solidão da minha piquena doença outonal (vês como eu detesto o Outono e não é pelo humor) ainda há pouco, naquela deambulação de escritas mentais que faço, vinha-me à cabeça esse cenário dos centros comercias, a populaça a passear com as criancinhas aos berros. Por vezes é algo dantesco.

Concordo ctg com essa violência camuflada de as obrigar a estar ali, quando elas estão sempre em convulsão com todas as oportunidades que julgam ter ali. E depois lá vai gelado, hambúrguer, batatas e por aí fora.

Tem piada porque falas depois de uma classe que é das super-crianças. Conheci uma que andava numa roda vida desde que saia da escola até às 8/9 horas com tanta ocupação, mais o sábado todo o dia. Eu achava que os pais não deviam gostar de estar com ela, pois caso contrário não arranjavam tanta ocupação. Moral da história, a miúda, quando mais crescida,  acabou por não gostar de nada e mal se livrou de tudo, estuda e vê televisão, nada mais.

Mas há depois o contraponto, os pais que só fazem a vontades das crianças. E vão crescendo mimados e autênticos ditadores (O pequeno ditador ? Javier Urra, já leste?).

Embora aqui eu tenha que estar muito calado porque também cedo facilmente. Não é que me peça muita coisa, mas tenho dificuldade em manter um não, mea culpa, mea culpa.

O texto não era só para ter humor. Ele pretendia também rasgar alguma coisa. Não sei se consegui, mas a Minda captou isso pois como poderias ter ficado cansada só dos pontos que retiraste.

Beijo

Bp63

# Outubro 29, 2007 18:02
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