A Menina, a Luz e o Carnaval - Paisagens de um Circo Dolente
A menina, a luz e o Carnaval
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- Eu nem acredito! Que mal fiz eu a Deus?! – barafustava uma senhora perante a asa partida do anjinho, anjinho esse que chorava desalmadamente por estar assim vestido. – Agora vais assim mesmo. Isso é que era bom, não ires na procissão. Criança não tem vontade. E está-me calado que eu vou-me a ti que não sei o que te faço. Com as ganas com que estou até tenho medo de mim.
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Sem esperar que a criança se calasse arrastou-a até ao local em frente à igreja, onde já se concentrava uma pequena multidão. O pobre anjinho arrastou também a sua asa quebrada pelo chão, perante o olhar surpreendido de todos.
- Vocês nem me digam nada, que eu hoje estou virada – continuou a senhora a reclamação quando se juntou ao grupo. – Está com uma birra que não se pode, cismou que não queria vir de anjinho. Queria vir de homem-aranha, imaginem!. Deve pensar que vem para um desfile de Carnaval. Tantos “estrafegões” deu que já partiu uma asa. Ai, até estou com falta de ar! E o padre já se resolveu?
Quase que num gesto combinado, todos abanaram a cabeça em sentido negativo.
- Eu digo-vos uma coisa, ele que não se ponha com mer’das. Ou ele me abre a igreja e deixa sair a santa na procissão ou salto-lhe para fuças. É hoje que eu vou às ventas ao padre.
Da mesma maneira que houve um sincronismo no gesto negativo, um tenha calma ouviu-se em coro. Mas Alzira já estava bastante exaltada e eufórica para baixar o seu protagonismo, situação que ainda reforçou mais quando viu chegar uma carrinha com um logótipo de uma estação de televisão. O espectáculo iria começar.
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Mesmo não percebendo nada de Internet os habitantes da pequena localidade de Vinhais Novos acompanhavam todo o desenvolvimento do caso do Mensageiro. Se numa primeira fase acharam que era mais uma daquelas coisas modernas lá da capital, depressa se converteram à palavra do denunciante cibernético. Afinal se ele afirmava que trazia a palavra de Deus e vinha repor a verdade, porque não o podia fazer através da Internet? Se Deus tudo criou porque não também os caminhos electrónicos?
Esta conversão veio ainda ser mais acelerada quando rompeu o caso da Carina. A menina, alegadamente doente, passava uns dias, lá na aldeia, em casa dos avós, quando disse que viu uma luz. De inicio não lhe deram muito crédito, mas mais tarde quando o Mensageiro fez a denúncia do médico que molestava crianças e Carina era uma delas, todos viram como uma mensagem divina de antecipação o encontro entre a criança e aquele, que em nome de Deus, põe justiça na Terra.
Da crença na tal luz à adoração do Mensageiro e à realização de uma procissão foi um instante. Quem não olhava com boa cara todo este frenesim era o padre da terra, um homem novo na paróquia local, que apesar de ponderado, começava a não achar graça a todo aquele fenómeno à volta da entidade do Mensageiro, e por isso, resolveu fechar a igreja, pois recusava-se a deixar sair a santa para participar naquele evento ecuménico não autorizado.
- A santa não sai daqui – afirmou o Padre com determinação, encostado a um sacrário antigo na sacristia, aos jornalistas que o entrevistavam, enquanto uma velha senhora de braços cruzados anuía veemente com a cabeça. – Esta gente confunde fé com Carnaval. Aparece um maluco qualquer na Internet a falar em nome de Deus e vai tudo atrás. Está tudo doido. Haja decoro na casa de Deus.
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No Rossio, sem guitarras à janela, um pequena multidão começava também a ganhar forma. Ostentavam cartazes com Quem tem Medo do Mensageiro?, Policia que procure os criminosos e não quem os denuncia, Liberdade de Expressão sempre ou Querem calar o Mensageiro. Aquilo que tinha sido o desafio de um programa radiofónico, que tinha apelado às pessoas para virem para a rua apoiar o Mensageiro, visto que ele estava a ser procurado pela polícia, começava a ganhar uma outra forma, pois era também uma oportunidade para muitos se manifestarem contra o poder, coisa que uma grande parte das pessoas aprecia, seja ele qual for.
As televisões começavam a fazer as primeiras peças de reportagem, para passarem nos noticiários da noite. Não faltavam candidatos a pronunciar-se.
- Isto é uma pouca-vergonha, é o que é. Estão todos com medo – referiu um dos presentes na manifestação. – Andava tudo caladinho a fazer das suas, apareceu este Mensageiro, ou lá o que é, e meteu a boca no trombone. Agora borraram-se todos com medo e puseram-se à caça do homem. Ele já fez mal alguém, já? Não, ele só disse as verdades.
- Querem-no calar mas ele não deixa. Não sei se é Divino ou não, mas uma coisa ele é de certeza, mais esperto do que todos, pois montou um esquema que não se deixa apanhar – disse outro manifestante, depois de roubar bruscamente o microfone para fazer passar a sua palavra e a sua imagem na televisão. – Vivemos num país livre mas querem calar a liberdade. A que horas é que isto passa logo?
Turistas, sempre à espera de algo inédito, tiravam fotos de toda aquela confusão. Portugal era mesmo um país inédito, até os blogues já faziam com que se protestasse na rua.
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O padre não cedia, a igreja permanecia fechada e a santa no seu lugar. Temendo um assalto ao culto, foi chamada a GNR para impor alguma ordem. A sua primeira grande medida foi afastar os jornalistas, nomeadamente as câmaras, porque já sabiam que uma objectiva virada para uma populaça era sempre um rastilho para os ânimos ainda se exaltarem mais.
Raul e Luis, cameraman e assistente, afastaram-se um pouco para longe. A colega jornalista, acabou por ficar junto ao grupo da procissão, na tentativa de ir ouvindo o que estavam a dizer, pois sempre poderia conseguir algo com algum interesse para a sua peça jornalística.
- A Gabi fica ali e ainda se arrisca a levar um murro nas trombas de algum popular mais exaltado – comentou Luis enquanto puxava por um cigarro.
- Não me parece, o povo gosta dos jornalistas à volta – disse Raul enquanto pousava a câmara no assento do carro e fazia alguma ginástica ao ombro. – Já vistes? Nem a 100 kilómetros estamos de Lisboa e é este atraso de vida. Onde é que já se viu fazer-se uma procissão por causa de um blogue maluco?!
- Já sabes que o povo quer é circo, seja ele uma procissão seja uma acção de protesto. Não viste? Em Lisboa também lá há uma cena qualquer.
- Pois é, mas eu preferia ter ficado lá. Tenho um encontro com uma gaja esta noite e se calhar vou ficar a arder.
- Ouve lá, meu, nem me fales! Estou aqui com uma moca dos diabos, ontem arranjei um petisco do caraças, estou aqui sem dormir.
- Passarinho novo?
- Nem me fales, nunca me tinha acontecido uma cena destas. A gaja atirou-se a mim altamente na discoteca, saímos…
- Mas não tinhas ido com a tua miúda?
- Tinha, mas foi uma cena que nem te conto. A gaja mesmo vendo-me acompanhado não tirava os olhos de mim. Sempre a dar em cima. Quando fui à casa de banho a tipo veio atrás de mim e no corredor apalpou-me o material. Ouve lá, nunca tinha visto uma coisa assim! Claro que eu fiquei a trepar paredes. Inventei logo uma cena urgente na televisão e bazei, a miúda ficou com uns amigos e tal.
- Que rasca que este gajo me saiu, deixar a miúda só para ir com uma gaja que nem conhecia.
- Porra, até parece que nem és homem. Depois de se ficar aceso uma pessoa fica cego, eu tinha mesmo que mocar a gaja.
- Espero, ao menos, que tenho valido a pena.
- Se valeu! Dei-lhe uma trancadela que a gaja gemia por todo o lado. Foi de trepar paredes. Acho que ela nunca tinha levado uma assim, quer dizer, uma, duas ou lá o que foi, que até eu perdi a noção. Uma coisa é certa a tipa levou no papo mais do que um orgasmo, ai levou, levou. Só visto, como eu a deixei.
- Está bem abelha! Cada um diz o que quer.
- Ó Raul, sabes que eu não de sou de tangas. Foi mesmo uma coisa de caixão á cova. O prédio até abanou. O pior foi depois. Aconteceu-me uma coisa, que ainda estou entalado. A gaja depois de servida levantou-se e bye bye. Nem o nome dela me disse.
- Tadinho! – riu-se Raul.
- Não me gozes, fiquei sentido, é que fiquei mesmo.
- Mas não é isso que todos os homens gostam, que no fim bazem sem grandes explicações?
- Uma coisa é ser eu a bazar, sem grandes tretas, mas agora ela, ainda por cima depois de tudo o que se passou entre nós naquela noite. Sair sem mais nem menos, foi demais. Sabes o que ela me disse? Está a amanhecer e os dias querem-se novos.
Raul riu-se ainda mais fortemente.
- Tu já viste a pu’ta? A dizer que eu já era carta velha fora do baralho.
- Estou a ver que a gaja mexeu contigo?
- Ok, confesso, mexeu mesmo. Foram poucas horas mas foi forte. Senti que havia ali qualquer coisa, uma química, sei lá.
- Ai Luís, Luís, tão vivido e tem uma tesão mais arrepiada e já está todo perdidinho. Não baralhes as coisas, divertiram-se os dois e ponto final.
- Se calhar tenho mesmo é que limpar a boca, que já comi, e preparar nova refeição – Luis pega no telemóvel. – Vou ligar mas é a minha chavalota, mandar-lhe uns beijinhos, dizer que estou com saudades e saber como passou a noite.
- Se calhar nos braços de um dos teus amigos.
- Engraçadinho! Julgas que ela é o quê?
- Não sei o que ela é, mas que tu merecias, merecias. Deixar a pobre coitada apeada só para ir saltar para cima duma mula que se lhe atravessou na frente não é de gajo que mereça ter uma tipa à espera dele.
- Olha-me este, armado em provedor das donzelas desamparadas. Raul, o dia que te acontecer algo semelhante, fala-me então. A partir de uma certa altura homem que é homem só pensa com uma cabeça, e não é a de cima.
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- Não achas que podemos ir já embora? – perguntou Clarisse, sentada no passeio com a câmara ao lado.
- Não, espera mais um pouco – pediu Marta, acompanhando-a no gesto de sentar no passeio. – Parece que a manifestação não foi autorizada e chamaram a policia. É capaz disto dar para o torto e recolhemos material mais interessante.
As duas jornalistas ficaram, assim, a contemplar a pequena manifestação de apoio ao Mensageiro. Alguns dos manifestantes já tinham dispersado mas ainda se mantinha um grupo com alguma dimensão, especialmente os curiosos, que entre comentários e palpites não arredavam pé. Clarisse colocava a cabeça entre as pernas, como que a tentar descansar.
- Isso está mau – comentou Marta, vendo a colega tão abatida.
- Dormi muito mal hoje, ou melhor, não dormi nada.
- Noite mal dormida e bem acordada ou mal dormida e mal acordada?
- Digamos que bem acordada. Olha nem sei, foi mais ou menos. Fui a uma discoteca e bebi algo que não me assentou muito bem.
- Por vezes acontece.
Voltaram ao silêncio, enquanto esperavam a carga policial que teimava em não aparecer.
- Como se não bastasse a porcaria da bebida ainda tenho a consciência aos saltos.
- Fizeste alguma coisa que não devias?
- Fiz. Atirei-me a uma gajo na discoteca, que não conhecia de lado nenhum.
- Ai, que antiquada! Isso hoje é o pão-nosso de cada dia.
- Sim, mas eu não sou muito disso, gosto de conhecer melhor a fruta. Mas o pior nem foi isso, o fulano estava acompanhado com uma tipa e eu atravessei-me, consegui tirá-lo de lá.
- Isso já não muito decente.
- Pois é, mas não sei o que me deu, se foi a bebida, se foi o quê.
- Desculpas, menina, desculpas!
- Eu sei, mas o tipo era giro, cruzei o olhar com ele, comentei com as amigas com que estava, elas desafiaram-me a dizer que não conseguia. Sabes como são essas coisas, picam-nos, álcool faz de motor e a partir de uma certa altura perdemos o controlo.
- Espero que ao menos tenha tirado um bom proveito.
- Ah! Nem por isso. Deixa-me contar-te – dizendo isto Clarisse aproximou-se mais de Marta, como se fosse contar um segredo. - Sabes aqueles tipos que têm a mania que têm demonstrar que são muito bons, que parecem que te querem marcar como a queca da nossa vida?
- Sim, estou a ver o género.
- Pois, ele era assim. Todo ele se esforçava para me agradar, para fazer coisas originais, a concentração na perfomance era tanta que eu depois acabava por perder o embalo da coisa. Parecia alguém que tem que executar tudo, tintim por tintim, conforme está no manual de instruções. Deve ser algum livro secreto que há no clube dos gajos, como pôr uma gaja em órbita. Esquecem-se é de algumas partes do satélite.
Riem-se ambas.
- Ok, também não foi assim tão mau, digamos que deu para o gasto. Fazemos aquele numerozinho da fêmea delirante e até acaba por ser divertido. Agora digo-te uma coisa, no fim só me queria ver fora dali, que embalado como ele estava ainda me pedia em casamento.
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Jaime Morais desliga o televisor que tem no seu gabinete.
- Isto está bonito, está. Numa aldeia temos uma procissão, aqui em Lisboa uma manifestação. Onde é que isto vai parar? Um país de pernas para o ar, ninguém fala de outra coisa, por causa de um blogue que resolveu armar-se em justiceiro.
Júlio Sarmento, seu assessor, levanta-se do sofá onde estava instalado, enche o peito de ar como se fosse iniciar discurso. - O mundo inteiro já fala de nós. Os noticiários estrangeiros já abrem com as denúncias do nosso Mensageiro.
- O mundo inteiro está-se é a rir-se de nós. Como pode uma personagem virtual ou um blogue criar toda esta paranóia nacional. Até já um pseudo terramoto tivemos.
- E o pior está para vir.
- Não sejas agoirento.
- Claro, ele vai chegar ao Governo. Qual o pratinho do meio dos blogues e do país? Dizer mal do Governo, seja ele qual for. Tudo isto que ele andou a tramar é para chegar aqui e ter um impacto estrondoso. Ele já anunciou que vai vir aí a grande bomba.
- Até me estar a dar suores frios. Não que eu tenha medo de alguma coisa, mas não queria nada ver-me metido no meio de uma polémica. Até perdi a vontade de ir à reunião.
Júlio encaminha-se para a porta do gabinete e abre-a.
- Vá lá, um Ministro tem que ter nervos de aço. Vamos indo que um atraso superior a 5 minutos já é má-educação, mesmo para um Ministro.
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Os populares cercavam a igreja. O padre, trancado com a sua acólita de serviço, estava intransigente e não deixava sair a santa da igreja. A GNR tentava impor um pouco a ordem, coisa que não lhe era fácil, pois logo dois soldados tinham ali familiares no meio da concentração. O rol de jornalistas tinha aumentado, nomeadamente com a chegada de outras estações de televisão, o que fez aumentar ainda mais a confusão. Alzira, qual passionária, tomava o comando da revolta.
- A igreja é nossa, não é dos padres que vêm para aqui. A igreja é do povo e é o povo que decide. Vamos arrebentar com isto e tirar de lá a santa. A procissão não pode esperar. Até porque a Carina tem que ir para Lisboa ainda hoje, que amanhã já tem escola.
Tenha calma, que isto não se resolve assim, aconselhava o sargento da GNR, puxando delicadamente o braço da D. Alzira, por forma a que ela descesse a pequena escadaria da igreja.
- Largue-me o braço senhor guarda, que eu estou nos meus direitos. A igreja é do povo da aldeia e nós vamos entrar.
- Ó D. Alzira, mas se entrarmos ainda vamos ter que enfrentar o padre – contemporizou uma comadre mais preocupada com as consequências daquilo tudo.
- E que venha o padre. Está com medo dele? Não estando a dizer missa é um homem como os outros, se se armar em parvo leva pela medida grande, ele e a amiguinha beata que está lá dentro fechada com ele. O que eles não devem fazer lá dentro! Cala-te boca! Ainda depois vem dizer que é a casa de Deus, é mas é uma casa de pouca-vergonha.
Claro que todo este discurso estava a ser filmado. Ia ser um prato cheio nos noticiários da noite.
- Vamos lá ver se a gente se entende – disse por fim o Sargento em voz alta e com determinação. – Dentro da igreja ninguém entra, ponto assente. O Sr. Padre não autoriza e ninguém pode ir contra a vontade dele. Se o fizerem sou obrigado a usar e força e a proceder a detenções. Estamos num meio pequeno, todos nos conhecemos e não vamos querer complicações, pois não?
Fez-se um silêncio. Alzira inspirou forte, como se recebesse uma inspiração divina.
- Prontos, não querem dar a santa, nós não precisamos da santa. Temos outra, e verdadeira. Ermelinda vai chamar a Carina para vir, vamos fazer a procissão à nossa maneira.
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Carina saiu de casa pela mão da sua avó, com os olhos baixos e um pouco envergonhada. Não percebia muito bem o que se estava a passar. Afinal a luz que tinha aparecido, já a tinha visto tantas vezes, quando tinha ataques, e nunca ninguém lhe tinha dado importância, a não ser os médicos, curiosos com aquela manifestação atípica de epilepsia. Quando chegou perto da igreja, os populares abriram um corredor para ela passar. No fim da ala, esperava-a Alzira com um manto de cetim azul, bordado a dourado, que estava destinado inicialmente a cobrir a santa original no desfile. Alzira colocou o manto na pequena miúda. Ela sentiu-se um pouco como nos desfiles que fazia no sua escola na altura do Carnaval, mas mais desconfortável, afinal o traje de fada ou princesa era bem mais leve que o manto da padroeira da terra.
Em cortejo, e com Carina à cabeça, uma pequena multidão encetou o cortejo, num percurso bem curto, pela rua principal da aldeia e à volta da igreja, entre orações e os silêncios barulhentos das passadas. Esperavam que uma nova luz pudesse baixar ali, naquele momento.
A luz não baixou. Pelo contrário, as nuvens cobriram o céu e de um momento para o outro uma forte chuvada abateu-se no local. Depressa todo o cortejo se dispersou à procura de um abrigo. Por pouco a própria Carina ficava esquecida no meio da praça, tal foi a confusão que se arranjou. Valeu-lhe um guarda da GNR que a agarrou ao colo e a levou para local abrigado. No meio da correria ficou esquecido o manto no chão, todo molhado e pisado, a provar que ali, algo tinha acontecido.
Para o padre foi a providência divina furioso com a heresia que ali se estava a passar. Para o povo foi mais um sinal de Deus, ainda que sem luz, a comprovar a sua crença, pois a chuva é também uma forma de purificação. Para os jornalistas foi a cereja em cima do bolo, ainda que água em cima das máquinas não tivesse sido agradável e pudesse vir a dar chatices. No entanto, todos se esqueceram, que afinal a meteorologia já tinha anunciado fortes aguaceiros instantâneos para a região.
A paz tinha voltado. Os dois cafés da região estavam cheios, quer com os locais, quer com os guardas e jornalistas. Bebiam-se umas cervejas e petiscavam-se alguns acepipes da terra. As crianças já desfardadas das vestes da procissão voltaram às suas casa e aos seus jogos de playstation, enquanto a chuva continuava a cair.
Lá fora o manto jazia no meio da lama. Acompanhava-o uma pequena asa de uma veste de anjinho.
- Cristiano, mas o que é que tu fizeste? – gritou Alzira, olhando a vestimenta de anjinho agora só com uma asa. – Onde está a outra asa? Eu não acredito, eu não acredito! Cristiano, eu vou-me a ti nem sei o que te faço. Até tenho medo de mim, com as ganas com que estou.
Mas Cristiano nem ouviu a avó pois estava muito irritado. Tinha acabado de dar um sopapo num amigo seu, por este, além de ter perdido uma vida, não ter conseguido matar um polícia e roubado um carro no jogo que ambos disputavam na consola. Ainda não era desta que ele ficava com pontos suficientes para comprar uma arma automática de grande porte e passar ao nível seguinte.