NBC - Os Novos Broncos Cultos ou as e-Cinderelas dos Novos Tempos
… Pegou no nome do artista e fez a célebre pesquisa no Google, que transforma qualquer analfabeto em determinado assunto, num autêntico professor Catedrático. Ana costumava dizer que nunca se viu tanto ignorante culto como agora com a Internet e em especial com o Google.
- Antigamente, com excepção dos ignorantes atrevidos, só falava de um assunto quem sabia, agora basta dar-lhes 10 minutos de avanço e já vêm a falar como autênticos conhecedores de Matisse, ainda que o máximo de pintura que viram foram os rabiscos dos seus filhos na escola – dizia ela, do alto da sua cultura, quando começava a ver meio mundo a falar do que não dominava só porque andou a pesquisar na Internet.
- In numa coisa que ainda não é coisa e que tenta contar as aventuras de um Mensageiro.
.
.
Realmente a personagem tem um pouco de razão, ou não fosse eu íntimo do seu autor, digamos que temos a mesma pele, já que a alma é coisa que as heteronomias ditam.
.
Mas a Internet, com os seus milagrosos motores de pesquisa, veio dar origem a uma nova raça de gente informada, os
.
N B C
.
Novos Broncos Cultos
.
Num país com um alto valor de iletracia, nunca se viu tanta gente informada, tanta gente a opinar sobre tudo. É certo que sempre fomos os melhores treinadores de bancada do mundo, basta entrar num táxi ou navegar por uma série de blogues, a versão mais electrónica desta particularidade bem portuguesa, mas se antigamente tudo não passava de palpites grosseiros, agora é vê-los a recitar, de galo, relatórios, indicadores, análises e por aí fora.
.
.

.
Nesse aspecto o governo pode orgulhar-se, o Plano Tecnológico já deu os seus primeiros frutos. Se antigamente, numa qualquer reunião de classe média, imaginem qual, só o Francês administrativo ou Inglês técnico de elevadores se atrevia a mandar uns bitates sobre Matisse ou Visconti, hoje qualquer portuga fala de Bergman, da arte impressionista ou até mesmo da arquitectura cinética de Calatrava (as últimas 4 palavras demoram-me 5 minutos a escrever pois fui fazer uma rapidinha ao Google), desde que a conversa não demore mais do que um quarto de hora.
.
- Engraçado, mas nunca se viu tanta gente bronca a falar de tudo. O mais grave é que falam com uma certeza como se fossem detentores reais do verdadeiro conhecimento – dizia no outro dia um senhor, ao meu lado, numa esplanada, de cachimbo na boca e com um velho livro na mão, enquanto ouvia uns jovens a falar de uns assuntos que pesquisaram na net.
.
A observação real, acima descrita, revela uma problema muito grave ainda latente na sociedade portuguesa. As elites e a sua má relação com as democratizações em massa, mesmo que de conhecimento se trate.
.
Vou contar uma estórinha, para ver se adormeço esta gente.
.

.
Há não muito tempo, havia uma casta diferente. Tinham começado com brasões, sempre muito assinalados, mas eram as suas propriedades, carros, festas, para não falar da educação e da posição social, enfim dos estilos de vida, que marcavam a dita discrepância. Eles chegavam e ofuscavam logo pela diferença. Ao longe, um povo cinzento, olhava-os, ora com inveja, por também desejar o mesmo varandim, ora com irritação, silenciosa, por achar que era injusta a desigualdade.
Eles, educadamente, acenavam. Um regime acenava também por eles.
.
Mas um Abril primaveril trouxe novos ventos. E vieram tribos ciganas, saltimbancos sem eira nem beira, que ao passar de noite a fronteira dos cifrões, conseguiram mais riqueza do que a elite e, assim, conquistar um novo estatuto. Primeiramente postos de lado, não era o dinheiro que lhes comprava o gosto, foram finalmente aceites, afinal tudo se aprende e até mesmo o New Money consegue entrar num salão sem tropeçar no tapete.
.
A casta estava agora mais diluída, mas mesmo assim ainda mantinham uma certa diferença, a elegância. Havia toda uma classe média, já que a Nova Alta era para esquecer, que por muito que pudessem frequentar os mesmos locais jamais poderiam ombrear no aspecto. Eles não iam lá fora comprar no Harrods, nem mesmo em saldo.
.

.
Não deve ter sido num Abril, mas sim em muitos, mas eis que os ventos da Europa sopraram neste rectângulo e com eles, mais uma vez a fronteira foi saltada, vieram nuestros hermanos, que com as suas lojas de roupa barata, digamos que uma espécie fast-wear, mas com bom corte e tecidos modernos, puseram toda a gente, ou pelo menos uma boa parte, vestidinhas como se tivessem a sair do Faubourg-Saint-Honoré em época de saldos.
E a elegância da elite passou agora a ser uma coisa mais difícil de detectar, dizem alguns especialistas, que só com análise laboratorial poderemos ver a diferença, tanto mais que a própria elite passou a frequentar essas catedrais FF, Fast Fashion. Sim, porque apesar de ainda haver uns Teixeiras e Tal, o money também se democratizou e está escasso, como em qualquer boa lei económica.
.
Não. Não pode ser! Gritavam desesperados por quase já não haver nada que os distinguisse, além de pequenos adornos, como cachimbos, laços, pérolas, etc.
Mas não, havia uma outra coisa que o distinguia, a cultura. Enraizados nas boas bibliotecas de família, nos bons colégios, nas exposições e nos museus que beberam por essas viagens fora, conseguiam, num qualquer evento, mostrar que ainda estavam os pontos acima.
.
. 
Mas eis que uma nova tempestade se aproxima, desta vez electrónica. A Internet.
Como autentico e-tsunami, nada ficou de fora. De um momento para o outro a informação chegou a toda a gente, pela distância de um simples click. Hoje tudo sabemos. Eis então a entrada triunfal dos
.
Novos Broncos Cultos
.
Qual colégio suíço, qual rato de biblioteca, qual intelectual comentador televisivo. Damos 10 minutos de avanço, e temos qualquer Bronco a falar durante um quarto de hora sobre qualquer assunto, como se toda a sua vida fosse respirada à volta de tão eruditas matérias.
Especialistas em rapidinhas culturais, aviam qualquer enciclopédia com visões ultra-sónicas, que muitas das vezes se traduzem apenas num copy paste apressado.
.

.
Mas atenção, não se esqueçam que só têm 15 minutos para mostrarem o que valem. Findo o prazo, qual gata-borralheira moderna, tudo volta ao normal, pelo que há que recolher à intimidade do seu lar cultural. Claro que, para os outros, foi feito um brilharete.
.
Mas não pensem que estou a falar do camarote, a agitar as jóias só para o povo ver. Afinal quem sou eu, se não também um NBC?
.
É certo, que não me dou muito bem com o copy e paste, com excepção das imagens, mas pronto, isso são manias minhas.
.
.
PP (Post Post):
VBC- Velho Bronco Culto, por contraponto aos NBC, eram aqueles antigos broncos que liam apenas um livro e falavam dele sempre até à exaustão, a propósito de tudo e de nada.