Talentos Anónimos Reunidos (TAR) ? Ou o dia em que The Blog Killed The Newspaper Star
“Tinha uma vida sexual ainda mais pobre do que o pessoal que anda a escrever nos blogues…”, mais palavra menos palavra li isto num semanário de referência, no último Verão. Aparentemente trata-se apenas de uma caricatura feita pelo jornalista, tão legítima como eu escrever uma coisa aqui do tipo “andava mais alcoólico do que um jornalista no Bairro Alto após o fecho da edição”. Enfim, baboseiras que se escrevem, enquanto se brincam com alguns estereótipos que se vão criando.

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Se numa primeira fase pensei, ok, bola fora, ou então, que o pobre do jornalista devia andar recalcado com algum bloguer seu vizinho que não o deixa dormir com os gemidos provenientes do seu andar, depois comecei a ver que a coisa era mais complexa. Porquê?
Estando de férias sou um leitor compulsivo de tudo o que é imprensa e, mesmo quando não consigo dar a vazão aos kilos de papel que adquiro, vou dando uma leitura em diagonal pelos diversos tipos de publicações, assim tipo analista importante. Nessa minha peregrinação pelos media comecei a reparar que havia alfinetadas sobre os blogues, quando não mesmo alguma desconsideração, a torto e a direito.
Mas que raio? Que têm os pobre homens e mulheres que escrevem nos jornais contra os pobres homens e mulheres que escrevem nos blogues?
“Os jornais, especialmente os diários, estão condenados. Uma das razões são os blogues…” – citando de memoria uma ideia que a Clara Ferreira Alves, em tempos, no programa Eixo do Mal da SIC Notícias, deixou passar.
Começou-se a fazer luz. Como podem os jornalistas dizer bem daqueles que vão vestir o capucho negro para abrir o cadafalso que os levará à extinção.
Eles que estudaram, se especializaram e que têm a sua vida profissional dependente da avaliação diária do seu trabalho, têm pela frente um conjunto de amadores que, sem formação directa e sem precisar disto para viver, emergem todos os dias criando informação que começa a ser consumida com maior fervor do que aquela que é originária dos ditos especialistas.

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Senhoras e Senhoras depois dos NBC, (Novos Broncos Cultos ) está aberta a guerra dos SCT (Senhores do Conhecimento Técnico) contra os TAR (Talentos Anónimos Reunidos). – Tragam já um aparelho de reanimação para o Pessoalíssimo!
Há muito, muito tempo, eram os talentos umas crianças, que brincavam escondidos num jardim, bem debaixo da terra do esquecimento. Queriam emergir, queriam ver a luz do dia do reconhecimento, os aplausos da primavera, só que a força das plantas do Senhores do Conhecimento Técnico já instaladas, não só o ignoravam como construíam uma autêntica fortaleza sombria que empurrava ainda mais a semente do Talento Anónimo Reunido lá para baixo.
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Um dia, uma luz electrónica veio instalar-se no jardim. E sem que as plantas do Conhecimento se apercebessem, as sementes começaram a romper e fazer as suas primeiras aparições no jardim. E tudo este vento luminoso levou!
Milhares e milhares de TAR germinaram e vieram transformar o jardim, outrora circunspecto e elitista, num festival de cores.
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Vieram poetas, jornalistas, escritores, gourmets, críticos, analistas, pintores, toda a trupe apareceu para colorir. Como que por geração espontânea, sem terem criado o mínimo de raízes, todos quiseram colorir o seu espaço no jardim. Não importava se a cor estava bem feita, se tinha sentido, era importante fazê-la e que fosse vista. Como era bom ser um TAR.
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Numa primeira fase os SCT acharam piada, debruçaram inclusive o seu douto conhecimento sobre os talentos espalhados agora no jardim. Muitos deles utilizaram a mesma forma de semente para também brilharem nestas novas cores
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Mas aos poucos os SCT começaram a ficar sem espaço e as suas raízes, apesar de verdadeiras e trabalhadas, acabaram por começar a desfazer-se. Antes que fosse tarde era necessário salvar o seu jardim. Para isso só havia uma solução, a guerra com o mesmo tipo de cores.
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Quem sairá vencedor?
Historinha à parte, o que é certo que é que os blogues vieram roubar um espaço que antes era de uma certa elite, elite essa que foi quem estudou e quem trabalhou para ter esse caminho.
Apesar de boa parte dos blogues se limitar a atirar para o ar pinceladas de um quase vazio, o seu espaço passou a ser uma referência e não deixa de se impor cada vez mais perante um universo ansioso por novas formas de comunicação.
Hoje qualquer, carpinteiro ou engenheiro agrónomo, senta-se ao computador e por um instantes pode ser uma verdadeira star num ramo artístico qualquer. Mais do que o acto de actuar, tem um palco para ser visto. Inclusive até os aplausos consegue ouvir, através dos comentários e do nº de visitas.
Mas começa-se a ir mais longe. O espaço para o debate começa a fugir dos meios tradicionais e a centrar-se no mundo da blogosfera.
Digamos que despertamos o professor Marcelo que há em cada um de nós.
A própria investigação começar a ter os blogues como pontos de partida. Aceitando a máxima de onde há fumo há fogo, alguns dos assuntos que marcaram a actualidade derivaram do muito que foi falado no espaço da blogoesfera.

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Se o jornais irão acabar dentro em breve, e eu penso que vão, não será por certo por culpa dos blogues, mas sim porque as novas formas de comunicação são mais rápidas do que a feitura de uma publicação tradicional. As notícias evoluem a uma rapidez alucinante para esperarem 24 horas para serem lidas.
É certo que o cinema não matou o teatro e que o vídeo não matou a rádio, mas também é certo que os colocaram num pedestal muito mais baixo do que aquele que tiveram em tempos.
Será que a Internet também o vai conseguir com os jornais? Especialistas dizem que sim. Eu apenas escrevo para ver.
Com este post trago aqui o capitulo 2 dos universos pessoais da internet, iniciado com os NBC. Falta-me agora a última parte, as máscaras.
Irei deixar cai alguma?
Para terminar, e em resposta ao senhor que escreveu a frase inicial deste post, deixo aqui uma homenagem à Revista portuguesa, dizendo, em tom jocoso, de calças à risca, mãos nos bolsos e barriga espetada:
- Ó meu, isso de ser bem pobre só se for lá na tua rua, que anda assim bem paradinha, pois na minha há mais movimento do que na 2ª circular em hora de ponta.
Claro que esta imagem nunca chegará aos calcanhares de uma versão feminina, de mão na anca e caravela na cabeça. Enfim, cenários que a Revista tece!