Imagens Caídas - Pontes no espelho
Num deslize de raiva
Mergulho
No próprio mergulhar
E vou ao fundo
Bem profundo
De sentir outro mundo
Neste que temos para nos afogar
Com base nestas palavras um pouco idiotas, de quem tinha 20 anos lá por volta de um Outono de 1983, redescobertas num remexer de papéis ruídos pelo tempo, resolvi há mais de 1 ano criar um blogue, inicialmente nem era no Sol.
Assim, melodramático, existencialista, naif e se calhar até algo pretensioso, pretendia que esse fosse o meu cartão de visita e o mote das palavras que em breve iria lançar. Desabafar, gritar, os meus estados de alma perante este mundo, o meu mundo.
No entanto, aos escrever as primeiras palavras que iam caracterizar esta aventura, o carácter arrebatador e teatral encetou um desvanecer e começou a ter lugar uma ideia de imagens soltas através das palavras.
Timidamente comecei. Com uma âncora na palavra cinematográfica, foram desfilando imagens sem imagem. Sempre me situei numa escrita mais ou menos “séria”, com alguns laivos de ironia, mas, aos poucos, fui-me apercebendo que no meio das palavras soltas um imaginário humorístico começava a sair. Ter piada? Quem eu? Nunca imaginei que aquilo que escrevia poderia fazer sorrir alguém, quanto mais provocar largos risos. Eu, o eterno chato a escrever.

Da tragédia grega a palhaço foi um passo.
De repente vi-me a escrever textos burlescos sobre as tais imagens, a pintar através da palavra aquilo que normalmente só se faz com o traço gráfica, a caricatura. De um contador de estórias sisudo, que pensava que era, a um pintor de ideias cómicas. Mesmo com um estado de espírito completamente adverso, qual Chaplin do teclado, traçava o lado mais irónico das coisas. Será que surgiram os e- clowns?
Mas afinal onde está a verdade que se esconde por detrás destas letras? Nas palavras mais melodramáticas ou nas chalaças avulsas que espalhei por ai? Quem se esconde ou se mostra nestas imagens que caiaram em pequenos pedaços?
Por cada imagem que caiu em palavras soltas, foi uma outra imagem construída nos olhares de quem leu. Quem tem a visão mais real, eles ou eu? Nem eu sei.
Nós somos uma parte daquilo que queremos e podemos ser, mas também somos parte daquilo que os outros vão construindo sobre nós. Não nos apercebemos disso, mas aos poucos vamos crescendo com a imagem que os outros têm de nós. Apesar de por vezes não serem coincidentes, por vezes até contraditórios, os dois lados reflectidos não têm que ser mentira nem hipocrisia.
São apenas partes das verdades que somos, imagens que se cruzam.
Há uma parte
Que parte
E outra que quer chegar
No silêncio que se abre
Em cada espaço a encontrar
o
Parte-se a alma
Parte o pedaço
Que promete chegar
Em cada tempo
Renasce a voz ao calar
Os verbos em que penso
o
E já nem sei
Se o que partiu
Foi algo que quis chegar
Se foi um mero corte
Na imagem que queria alcançar
(12-05-1984)
Mais umas palavras idiotas, caídas de um tempo longínquo. Nunca mais escrevi poesia, e ainda bem. Não sei porque as fui buscar. Talvez para fazer a ponte com este novo tempo de escrita. Talvez para fechar um ciclo.
Até já.